26 de janeiro de 2017

Capítulo 4

Gilan entrou em Redmond e seguiu diretamente para o escritório do Barão Arald em um dos pisos superiores. Ele estava subindo dois degraus de cada vez quando ouviu passos leves na escada adiante. Esperou para não correr na direção da pessoa que descia, dando um passo para o lado para abrir caminho. Pelo som leve das passadas imaginou que fosse uma mulher.
Ele estava certo e sua expressão se transformou num sorriso quando reconheceu Alyss, linda e graciosa como sempre em seu vestido branco de Mensageira. Ela sorriu em resposta assim que o viu, escondendo um momento de desapontamento. Por um momento de esperança, vendo a capa cinza e verde, pensou que Will pudesse ter retornado.
— Olá, estranho — ela cumprimentou. — Nós esperávamos você para a próxima semana. Will e Halt acabaram de sair.
Will e Halt formaram um grupo de trabalhos especiais para Crowley. Quando eles ficam longe de Redmont por um longo período, Gilan viajava do feudo vizinho para cuidar de suas tarefas.
— Eu sei. Na verdade, não era pra eu vir essa semana, mas eu recebi uma oferta irrecusável. — A oferta, é claro, era um convite da Jenny para o jantar. Seu olhar vagou pela escada pela escada acima. — Eu só vou me reportar ao Barão — ele adicionou.
Ela entendeu a dica. Eles poderiam conversar depois. Gilan ficaria aqui por alguns dias, ela sabia. Mas ela sorriu mais abertamente.
— E então você vai se reportar a jovem Jenny, eu imagino? — ela falou significativamente e ele sorriu.
— Bem, sim, de fato. Eu vou jantar com ela.
As sobrancelhas perfeitas de Alyss se ergueram e seus lábios ficaram em formato de um “O”.
— Parece romântico — comentou.
Mas Gilan ignorou o convite implícito de contar mais a ela e mudou o rumo da conversa.
— Falando nisso, como vão os preparos para o casamento real?
Horace e Evanlyn – ou, como ela é mais conhecida, Princesa Cassandra – vão se casar no final do ano. Alyss será a dama de honra da Princesa.
— Muito bem. Existe um rumor de que Shigeru talvez compareça.
Foi a vez de Gilan erguer as sobrancelhas.
— O próprio Imperador? — ele disse. — Impressionante.
— Ele ficou muito afeiçoado ao Horace enquanto estávamos em Nihon-Ja.
— Deve ter ficado mesmo — Gilan observou. Então ele se aprumou. — Eu tenho que ir. Nós podemos conversar depois.
Alyss se afastou para ele poder subir as escadas. Ele agradeceu com a cabeça e terminou de subir. Alyss o assistiu indo, sorrindo pra si mesma.
— Eles estão sempre com tanta pressa — ela refletiu.
No escritório, o Barão Arald não perdeu tempo para atualizar Gilan sobre os assuntos do feudo. Não tinha itens importantes para discutir. Halt e Will recentemente frustraram e prenderam uma gangue de assaltantes atacando viajantes pelas florestas. Desde então, o feudo esteve pacifico.
Ainda assim, Gilan pensou, nunca se sabe. Problemas podem surgir a qualquer momento em um território extenso como Redmont. Ele mal acabou o pensamento quando houve uma batida alta e longa na porta do escritório do Barão Arald.
— Entre — o Barão chamou, franzindo a testa.
A batida fora bem vigorosa. Gilan escondeu um sorriso e pensou que quem quer estivesse batendo, deveria ter um bom motivo para causar tanto tumulto.
A porta abriu-se imediatamente para revelar uma sentinela do vilarejo de Wensley – a meia dúzia de voluntários que servem como guardas em tempo integral para manter a paz no vilarejo. Gilan não reconheceu o homem de vista, mas reconheceu o uniforme de sentinela – um colete de couro cravejado de metal e um capacete de couro endurecido. Em adição, o homem tinha uma clava pesada e um grande punhal presos em seu cinto de armas. Atrás dele, o funcionário do Barão, escandalizado por essa rude interrupção da reunião do Barão, estava fazendo gestos urgentes e vibrantes sobre seu ombro.
— Perdoe-me, meu lorde! — ele exclamou. — Esse homem simplesmente invadiu antes que eu...
O barão acenou uma mão para ele.
— Não importa. Obviamente é uma emergência. Qual o problema, Richard?
Essa última parte foi endereçada à sentinela e Gilan sorriu mais uma vez, impressionado pelo fato de o barão usar o nome do homem. Muitos barões, ele sabia, não tinham ideia do nome dos guardas do vilarejo. Essa é uma das qualidades que fez de Arald um líder efetivo e popular.
— Perdoe-me, meu lorde — Richard respondeu. Ele respirava pesadamente e Gilan imaginou que ele correu todo o caminho desde a vila. — Houve um roubo.
Ele notou Gilan pela primeira vez na sala e acenou indiferente para ele. Gilan inclinou sua cabeça em resposta.
— Quem foi roubado? — o barão perguntou. — E por quem?
Algumas vezes, na excitação do momento, seu entender de gramática o abandonava.
— Foi Ambrose Shining, meu lorde — Richard respondeu e o barão sentou-se ereto em sua cadeira.
— O ourives? — Ele perguntou. — Isso parece como mais que um simples roubo. Quanto o ladrão levou?
— Ladrões, meu lorde. Havia três deles. E Ambrose disse que eles levaram varias centenas de reais em prata e pedras preciosas.
— Ele está bem? — Gilan interveio. — Eles não o machucaram?
Richard balançou a cabeça.
— Eles o deixaram amarrado e amordaçado. Ele levou meia hora para se soltar e soar o alarme.
— Então ele não viu a direção que eles tomaram quando se foram? — Gilan perguntou.
— Não senhor. Mas ele os ouviu conversarem. Eles planejavam ir para o Rio Stiller.
Gilan tocou seu queixo pensativo. Aquilo fazia sentido. Atrás do Rio Stiller existia um local selvagem, de árvores grossas e altas, penhascos irregulares e rios profundos. Tem sido um lugar propício para criminosos se esconderem. Anos atrás, quando era aprendiz de Halt aqui em Redmont, os dois limparam a área, capturando muitos dos fora-da-lei que se esconderam lá e dispersando o resto.
— E que ações o delegado tomou até agora? — Arald perguntou.
A sentinela voltou sua atenção de volta ao forte homem nobre.
— Ele enviou um guarda ao Rio Stiller para avisar o delegado de lá, meu lorde. E ele está sendo acompanhado por mais dez homens.
Arald relaxou um pouco e trocou um olhar com Gilan.
— Humm — ele refletiu. — Parece que o delegado já está com tudo na palma da mão. Esses homens vão ser pegos entre duas forças – e é de se presumir que eles não têm ideia de que o delegado sabe a direção que eles tomaram. Walter precisa de alguma coisa de mim? Uma dúzia de homens armados? Alguns cavaleiros? Nada assim?
Walter era o delegado do vilarejo e era um oficial capaz, mas Arald achou que devia fazer a oferta. Richard estava balançando sua cabeça.
— Ele só queria que eu viesse avisá-lo, meu lorde. Disse que teria esses três cercados ao amanhecer. Um dos guardas é um caça... — ele parou. Ele estava preste a dizer “caçador”, mas pensou que não seria uma coisa muito política a dizer na frente do Barão — em rastreador — ele alterou. — Ele conhece uma trilha pela floresta por onde eles podem chegar ao Rio Stiller antes do amanhecer. Eles devem chegar à frente dos ladrões.
De novo, Arald trocou um olhar com Gilan.
— Parece que não vamos precisar de suas habilidades nessa, Gilan — falou, confortando-o.
Gilan assentiu com a cabeça. Ele esteve olhando pela janela. Não podia ver o sol, mas o tamanho das sombras do lado de fora dizia que o astro devia estar próximo à linha do horizonte.
— É muito tarde para segui-los agora, de qualquer maneira. Estará escuro logo. E como já foi dito, o delegado parece ter tudo na palma da mão.
O assunto parecia resolvido, ele pensou. Se o delegado e seu pelotão falhassem em prender os ladrões no Rio Stiller, então Gilan talvez devesse entrar na perseguição. Mas isso parecia improvável.
Arald sorriu para a sentinela atenta em pé na frente de sua mesa.
— Obrigado, Richard. Eu imagino que você queira se juntar ao pelotão e procurar esses homens?
Richard se permitiu um fraco sorriso em retorno.
— Eu quero, meu lorde. Eu conheço o velho Ambrose por toda a minha vida. Mas eu não sei o caminho para a trilha que eles pegaram. Eu vou ficar para trás, caso precisem de mim no vilarejo.
Arald apertou seus lábios, pensando.
— Não é uma má ideia.
Com os outros membros da guarda ausentes e outros cinco moradores em boas condições físicas no pelotão, um oportunista talvez pudesse ter a chance de causar problemas no vilarejo.
— Muito bem, Richard. Nós não vamos ocupá-lo por mais tempo.
A sentinela deu um rápido inclinar de cabeça em agradecimento, se virou e deixou a sala, acompanhado ainda pelo funcionário irritado. Enquanto as portas eram fechadas atrás deles, Arald olhou mais uma vez para a pilha de notas na mesa a sua frente.
— Bem, eu acho que isso conclui nossos negócios, Gilan — falou o nobre. — Você vai se juntar a nós para o jantar? Minha mulher vai ficar encantada em ouvir as ultimas fofocas de Feudo de Whitby.
Gilan hesitou. Estritamente falando, ele deveria ter esperado jantar com o Barão em sua primeira noite em Redmont. Mas o convite de Jenny o fez esquecer qualquer protocolo de sua cabeça. Ele notou que o barão estava sorrindo para ele.
— Teve propostas melhores, talvez? — O barão perguntou maliciosamente.
Gilan se sentiu ruborizar.
— Hum... bem, senhor... de fato, a Jenny me convidou...
O barão levantou uma mão para silenciá-lo. Ele conhecia Jenny, é claro. Ela tinha sido uma protegida no seu castelo e foi aprendiz do Mestre Chubb, seu cheff. Era tão boa em seu oficio quanto Chubb. E, em adição, era loira, cheia de vida e bonita. Aos olhos barão, isso constituía uma oferta muito melhor que jantar com ele e sua esposa. Por um momento, ele se sentiu mais velho.
— Não diga mais nada — ele disse magnanimamente. — Nós teremos muitas oportunidades para jantar juntos enquanto você estiver aqui.
— Obrigado, meu senhor — o arqueiro respondeu. — Bem, definitivamente vamos fazer isso outra noite. De fato, eu poderia convidar você e Lady Sandra para serem meus convidados no restaurante da Jenny durante a semana?
Arald sorriu em prazer com o pensamento. Chubb era um cozinheiro mestre, sem dúvida, mas Jenny trouxe uma onda de novas ideias imaginativas e aventureiras para sua cozinha e a perspectiva de uma refeição cozinhada por ela era muito tentadora para recusar. Fora que Lady Sandra iria adorar sair do castelo num anoitecer. Gilan, por sua parte, sabia que convidados tão importantes no restaurante só faria bem aos negócios de Jenny.
— Durante a semana então — Arald disse. Então ele não pôde deixar de sorrir. — Aproveite sua noite.
— Obrigado, meu lorde — Gilan agradeceu, indo embora.
Quando ele se virou em direção a porta, Arald adicionou em um tom baixo:
— E tenha um bom jantar.

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)