2 de janeiro de 2017

41

A cabeça de Warner está no meu colo.
Seu rosto está suave e calmo e tranquilo de uma maneira que nunca o vi e quase estendo a mão para acariciar seu cabelo antes de me lembrar do quanto isto é, na verdade, estranho.
Assassino no meu colo
Assassino no meu colo
Assassino no meu colo
Olho para a direita.
As pernas de Warner estão apoiadas nos joelhos de Adam e ele parece tão desconfortável quanto eu.
— Aguentem firme, colegas — Kenji diz, ainda dirigindo o tanque para o Ponto Ômega. — Sei que isto é estranho de um milhão de maneiras diferentes, mas não tive exatamente muito tempo para pensar em um plano melhor.
Ele olha para nós três, mas ninguém diz uma palavra até:
— Estou tão feliz por vocês estarem bem — digo isso como se essas 12 sílabas estivessem dentro de mim há tempo demais, como se tivessem sido expulsas, despejadas da minha boca, e é apenas então que percebo o quanto eu estava preocupada, achando que nós três não voltaríamos com vida. — Estou muito, muito feliz por vocês estarem bem.
Respirações profundas, solenes, regulares por toda a parte.
— Como você está se sentindo? — Adam pergunta para mim. — Seu braço... Você está bem?
— Sim.
Eu flexiono meu pulso e tento não fazer careta.
— Talvez tenha de amarrá-lo em alguma coisa, só por um tempo, mas, sim, estou bem. Estas luvas e esta coisa de metal ajudaram de verdade, eu acho.
Eu sacudo os dedos. Examino as luvas.
— Nada está quebrado.
— Aquilo foi ultrafantástico — Kenji diz para mim. — Você nos salvou mesmo lá.
Eu balanço a cabeça.
— Kenji... Sobre o que aconteceu... Na casa... Eu sinto muito, eu...
— Ei, que tal não falarmos sobre isso agora, hein?
— O que está acontecendo? — Adam pergunta, alerta. — O que houve?
— Nada — Kenji responde logo.
Adam ignora-o. Olha para mim.
— O que aconteceu? Você está bem?
— Eu apenas... Eu a-apenas... — eu me esforço para falar. — O que aconteceu... com o pai de Warn...
Kenji fala um palavrão bem alto.
Minha boca congela no meio do movimento.
Meu rosto queima e eu percebo o que disse. Conforme lembro o que Adam revelou logo antes de sairmos correndo daquela casa. De repente, ele está pálido, comprimindo um lábio contra o outro e desviando o olhar para fora da pequenina janela deste tanque.
— Ouça... — Kenji limpa a garganta. — Não precisamos falar sobre isso agora, certo? Na verdade, acho até que prefiro não falar sobre isso. Porque essa merda é estranha demais para que eu...
— Não sei nem como é possível — Adam sussurra.
Ele está piscando, olhando bem para frente agora, piscando e piscando e piscando e...
— Continuo achando que devo estar sonhando — ele diz —, que estou apenas tendo uma alucinação com tudo isto. Mas, então...
Ele apoia a cabeça nas mãos, solta uma risada rouca.
— Aquele é um rosto que nunca esquecerei.
— Você... Você não conhecia o comandante supremo? — ouso perguntar. — Nem tinha visto uma foto dele...? Não é algo que você veria no exército?
Adam balança a cabeça.
Kenji explica:
— O negócio dele sempre foi ser, tipo, invisível. Ele tem uma paixão louca por ser o poder não visto.
— Medo do desconhecido?
— Algo assim. Ouvi dizer que ele não queria sua foto em lugar nenhum... Não fazia discursos públicos também... Porque pensava que, se as pessoas conhecessem seu rosto, ficaria vulnerável. Humano. E ele sempre teve paixão por meter medo em todo mundo. Ser o poder máximo. A ameaça máxima. Tipo... Como você pode enfrentar algo se não pode nem o ver? Se não pode nem o achar?
— Por isso era tão importante o fato de ele estar aqui — eu entendo, em voz alta. — Mas você achava que seu pai estava morto — digo para Adam. — Pensei que você tivesse dito que ele estava morto.
— Apenas para que vocês saibam — Kenji interrompe —, ainda estou votando pela opção não vamos falar sobre isso. Vocês sabem. Apenas para vocês saberem. Apenas deixando claro.
— Eu pensei que estivesse — Adam conta, ainda sem olhar para mim. — Foi o que me disseram.
— Quem disse? — Kenji questiona.
Ele percebe seu erro. Estremece.
— Merda. Certo. Tudo bem. Tudo bem. Estou curioso.
Adam encolhe os ombros.
— Está tudo começando a fazer sentido agora. Tudo que eu não entendia. O quão bagunçada era minha vida com James. Depois de minha mãe morrer, meu pai nunca estava por perto a menos que quisesse ficar bêbado e bater em alguém até cansar. Acho que ele estava vivendo uma vida totalmente diferente. Por isso costumava nos deixar sozinhos, James e eu.
— Mas isso não faz sentido — Kenji comenta. — Quero dizer, não a parte de o seu pai ser um babaca, mas apenas, tipo, a história inteira. Porque, se você e Warner são irmãos, e você tem 18 anos e Warner tem 19 e Anderson sempre foi casado com a mãe de Warner...
— Meus pais nunca se casaram — Adam explica, com os olhos ficando arregalados conforme diz a última palavra, como se todas as peças que faltam estivessem encaixando-se no lugar certo.
— Você nasceu de um caso de amantes? — Kenji diz, enojado. — Quero dizer... Sabe, sem ofendê-lo... É apenas que eu não quero pensar em Anderson tendo algum tipo de caso de amor. É doentio.
Adam parece ter congelado.
— Mas que merda — ele sussurra.
— Mas, quero dizer, por que ter um caso? — Kenji pergunta. — Nunca entendi esse tipo de besteira. Se você não estiver feliz, vá embora. Não traia. Estou certo?
Uma risadinha.
— É claro que estou certo. Não é preciso ser um gênio para entender essa merda. Quero dizer... — ele hesita — Estou supondo que tenha sido um caso de amantes — Kenji completa, ainda dirigindo e olhando pelo para-brisa, incapaz de ver a expressão de Adam. — Talvez não fosse um caso de amor. Talvez fosse apenas mais um caso do cara sendo um cretin...
Ele pensa no que disse, encolhe-se.
— Merda. Viram? Por isso eu não converso com as pessoas sobre seus problemas pessoais...
— Foi — Adam diz, mal respirando agora. — Não faço ideia de por que ele nunca casou com ela, mas sei que ele amava minha mãe. Nunca ligou a mínima para o restante de nós — continua. — Apenas ela. Sempre foi ela. Tudo era por ela. As poucas vezes por mês em que ele estava em casa, eu sempre devia ficar no meu quarto. Eu tinha de ficar muito quieto. Eu tinha de bater na minha própria porta e receber permissão antes de poder sair, mesmo apenas para usar o banheiro. E ele costumava ficar furioso sempre que minha mãe me deixava sair. Ele não queria me ver a menos que precisasse. Minha mãe tinha de levar meu jantar escondida só para ele não ficar bravo porque ela estava me dando muita comida e não guardava nada para si mesma — ele conta.
Balança a cabeça.
— E ele ficou ainda pior quando James nasceu.
Adam pisca como se estivesse ficando cego.
— E, então, quando ela morreu — fala, respirando fundo —, quando ela morreu, tudo o que ele fazia era me culpar pela morte dela. Sempre dizia que era culpa minha ela ter ficado doente, que era culpa minha ela ter morrido. Que eu precisava de muita coisa, que ela não comia o bastante, que ela ficou fraca porque estava muito ocupada cuidando de nós, dando-nos comida, dando-nos... tudo. Para mim e para James.
Suas sobrancelhas estão unidas.
— E eu acreditei nele por muito tempo. Eu achava que esse era o motivo de ele ficar distante o tempo todo. Pensava que fosse um tipo de punição. Pensava que eu merecia isso.
Estou horrorizada demais para falar.
— E, depois, ele apenas... Quero dizer, ele não estava por perto enquanto eu crescia — Adam diz — e ele era sempre um imbecil. Porém, depois de ela morrer, ele simplesmente... perdeu a cabeça. Costumava vir apenas para ficar bêbado feito um gambá. Costumava me forçar a ficar em pé em frente a ele para ele poder jogar as garrafas vazias em mim. E, se eu me encolhesse... Se eu me encolhesse...
Ele engole em seco, com dificuldade.
— Isso era tudo o que ele fazia — Adam fala, com a voz mais baixa agora. — Vinha. Ficava bêbado. Batia em mim até cansar. Eu tinha 14 anos quando ele parou de vir.
Adam olha para as mãos, com as palmas para cima.
— Ele mandava um pouco de dinheiro todo mês para nós sobrevivermos e depois...
Uma pausa.
— Dois anos depois, eu recebi uma carta do nosso novo governo dizendo-me que meu pai estava morto. Imaginei que ele tivesse ficado bêbado de novo e feito alguma coisa idiota. Tivesse sido atropelado por um carro. Tivesse caído no mar. Qualquer coisa. Não importava. Eu estava feliz por ele ter morrido, mas tive que sair da escola. Alistei-me no exército porque o dinheiro tinha acabado e eu tinha de cuidar de James. Sabia que não encontraria outro emprego.
Adam balança a cabeça.
— Ele não nos deixou nada, nem um centavo, nem um pedaço de carne para vivermos e, agora, estou sentado aqui, neste tanque, fugindo de uma guerra global que meu próprio pai ajudou a orquestrar.
Ele solta uma risada dura e fingida.
— E a outra pessoa imprestável deste planeta está deitada e inconsciente no meu colo.
Adam está rindo de verdade agora, rindo muito, sem acreditar, com a mão presa ao cabelo, puxando as raízes, agarrando a cabeça.
— E ele é meu irmão. Sangue do meu sangue. Meu pai tinha uma vida totalmente à parte que eu não conhecia e, em vez de estar morto como devia, ele me deu um irmão que quase me torturou até a morte em um matadouro...
Ele passa a mão trêmula pelo rosto, de repente enlouquecendo, de repente escorregando, de repente perdendo controle, e suas mãos estão tremendo e ele tem de fechar os dedos e aperta-os contra a testa e diz:
— Ele tem de morrer.
E eu não estou respirando, nem um pouquinho, nada, quando ele fala:
— Meu pai — diz —, tenho de matá-lo.

10 comentários:

  1. Isso é tão Jace-Valentim-Sebastian hehe <3

    Tipo ainda não consegui shippar e Ju com outro senão o Adam... E agora a coisa ficou mais estranha ainda o.o

    Carla

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    1. EXATAMENTE! E do mesmo jeito que amo o Warner, amo o Sebastian. Eles foram apenas consequências da má criação dos pais </3

      ~Giulliana~

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  2. Ainda estou chocada, mano o Adam sofreu muito tadinho, Warner tem dois irmãos mais novos *0* mas ainda shippo loucamente a Juju com o Warner U.u
    #TeamJuliner

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  3. Tipo Adam tenhe q entra pra fila pois já tenhe muita jente querendo marta o pai dele .

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  4. Ah... Tadinho do Adam! Aí gnt que dó. De certa forma minha teoria das duas familias estava certa

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  5. Nossa, ai está outra pessoa que sofreu muito durante a vida.
    Você não está sozinha Juju. Não sei quem shippar: Warner, que só foi criado de maneira errada e meio que entende a Juliette, ou o Adam que também sofreu a vida inteira.
    #FICACOMosDOIS ;D

    ~Polly~

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  6. Pq simplesmente não mataram o Anderson? Foi por causa dos reféns?

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  7. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 01:51

    — Apenas para que vocês saibam — Kenji interrompe —, ainda estou votando pela opção não vamos falar sobre isso. Vocês sabem. Apenas para vocês saberem. Apenas deixando claro.

    — Quem disse? — Kenji questiona.
    Ele percebe seu erro. Estremece.
    — Merda. Certo. Tudo bem. Tudo bem. Estou curioso
    kenji kkkkkk

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  8. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 01:54

    "Estou horrorizada demais para falar." faço minhas as suas palavras
    de certo modo.cada um a sua maneira, Adam e Aaron tbm sofreram muito por causa desse pai.

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  9. O que eu acho engraçado é que vcs defensoras do warner fica falando que ele é mau e agiu mau por causa da criação mais aí eu lhes pergunto o adam tb foi criado pelo mesmo monstro sofreu pra criar o irmão sozinho e mesmo assim ele só tem bondade no coração gente amo o Adam de mais meu chip é #julliadam

    Warner sebastian e marven farinha do mesmo saco e não existem Desculpas pro ser humano optar pela maldade😠😨...

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Boa leitura :)