2 de janeiro de 2017

4

Os sonhos voltaram.
Eles me deixaram por um tempo, logo depois de eu ter sido recém-aprisionada na base com Warner. Eu pensei ter perdido o pássaro, o pássaro branco com listras de ouro iguais a uma coroa sobre sua cabeça. Ele costumava me encontrar em meus sonhos, voando com força e suavidade, navegando sobre o mundo como se soubesse mais que os outros, como se tivesse segredos de que nunca suspeitaríamos, como se estivesse me guiando para um lugar seguro.
Era meu único pedaço de esperança na escuridão amarga do manicômio, até eu encontrar seu irmão gêmeo tatuado no peito de Adam.
Era como se ele tivesse voado para fora dos meus sonhos apenas para repousar sobre o coração de Adam. Achei que fosse um sinal, uma mensagem me dizendo que eu estava, enfim, a salvo. Que eu havia saído voando e, finalmente, encontrado paz, um santuário.
Eu não esperava ver o pássaro de novo.
Porém, agora ele voltou e está igualzinho. É o mesmo pássaro branco no mesmo céu azul com a mesma coroa amarela. Mas, desta vez, está congelado.
Batendo as asas no lugar como se tivesse sido preso em uma gaiola invisível, como se estivesse destinado a repetir o movimento para sempre. O pássaro parece estar voando: está no ar; suas asas funcionam. Parece que está livre para subir pelos céus. Mas está preso.
Incapaz de voar para cima.
Incapaz de cair.
Tive o mesmo sonho em todas as noites da última semana e, em todas as sete manhãs, acordei estremecendo, tremendo no ar terroso e gelado, lutando para normalizar as lamúrias em meu peito.
Lutando para entender o que isso significa.
Eu me arrasto para fora da cama e visto o mesmo traje que uso todos os dias; a única roupa que tenho agora. É do tom mais forte de roxo, tão roxo que é quase preto. Tem um leve brilho, um pouco de reflexo na luz. É uma peça só, do pescoço aos pulsos e aos tornozelos, e é justa no corpo sem ser nem um pouco apertada.
Eu me mexo como uma ginasta usando esse traje.
Tenho botas de couro de cano curto flexíveis que se moldam ao formato de meu pé e me permitem não fazer barulho enquanto caminho pelo chão. Tenho luvas de couro pretas que chegam aos cotovelos e evitam que eu toque em algo em que não deva tocar. Sonya e Sara me emprestaram um de seus elásticos de cabelo e, pela primeira vez em anos, posso tirar o cabelo do rosto. Uso um rabo de cavalo alto e aprendi a fechar meu zíper sem a ajuda de ninguém. Esse traje faz com que eu me sinta extraordinária. Faz com que eu me sinta invencível.
Foi um presente de Castle.
Ele mandou ser feito para mim antes de eu chegar ao Ponto Ômega. Ele achou que eu poderia gostar de ter uma roupa que me protegesse de mim e dos outros enquanto, ao mesmo tempo, me desse a opção de machucar outras pessoas. Se eu quisesse. Ou precisasse. O traje é feito de um material especial que deve me manter fresca no calor e aquecida no frio. Até agora, tem sido perfeito.
Até agora até agora até agora
Vou para o café da manhã sozinha.
Sonya e Sara sempre saem antes de eu acordar. O trabalho delas na ala médica nunca acaba... Não apenas elas são capazes de curar os feridos, mas também passam os dias tentando criar antídotos e unguentos. Na única vez em que conversamos, Sonya explicou-me como algumas Energias podem ser esgotadas se nos esforçarmos demais, como podemos exaurir nosso corpo o suficiente para que ele simplesmente desmorone. As garotas dizem que querem poder criar remédios para usar em casos de muitos ferimentos que elas não possam curar de uma só vez. Afinal, elas são apenas duas. E a guerra parece iminente.
As cabeças ainda se viram em minha direção quando entro na sala de jantar.
Sou um espetáculo, uma anomalia mesmo entre as anomalias. Eu devia estar acostumada a isso agora, depois de todos esses anos. Eu devia ser mais durona, mais desinteressada, mais indiferente à opinião dos outros.
Eu devia ser muitas coisas.
Eu limpo os olhos e mantenho as mãos ao lado do corpo e finjo que sou incapaz de fazer contato visual com qualquer coisa além daquele ponto, aquela pequena marca na parede a 15 metros de onde estou.
Finjo que sou apenas um número.
Não há emoções em meu rosto. Lábios perfeitamente imóveis. Costas retas, mãos abertas. Sou um robô, um fantasma deslizando em meio às multidões.
Seis passos para frente. Quinze mesas pelas quais passar. 42 43 44 segundos e a contagem continua.
Estou com medo
Estou com medo
Estou com medo
Sou forte.
A comida é servida somente três vezes por dia: café da manhã das 7h às 8h, almoço das 12h às 13h e jantar das 17h às 19h. O jantar dura uma hora a mais porque é no final do dia; é como a nossa recompensa por trabalhar duro. No entanto, as refeições não são eventos chiques e luxuosos; a experiência é muito diferente de jantar com Warner. Aqui, apenas ficamos em uma longa fila, pegamos as tigelas já cheias e vamos para a área das mesas, com nada além de uma série de mesas retangulares arrumadas em linhas paralelas pelo salão. Nada é supérfluo e, assim, nada é desperdiçado.
Vejo Adam na fila e caminho na sua direção.
68 69 70 segundos e a contagem continua.
— Ei, gata.
Algo como um caroço me acerta nas costas. Cai no chão. Eu me viro, meu rosto flexiona os 43 músculos necessários para franzir antes de eu vê-lo.
Kenji.
O sorriso grande e fácil. Olhos da cor de ônix. Cabelo ainda mais escuro, acentuado, superliso e caindo nos olhos. Sua mandíbula está se contraindo e seus lábios estão se contraindo e as impressionantes linhas de suas maçãs do rosto estão arqueadas em um sorriso que luta para continuar reprimido. Ele está me olhando como se eu estivesse andando por aí com papel higiênico no cabelo e não posso deixar de me perguntar por que não passei um tempo com ele desde que chegamos aqui. Em um nível puramente técnico, ele salvou minha vida. E a vida de Adam. E a de James também.
Kenji inclina-se para pegar o que parece uma bola compacta de meias. Ele a pesa na mão como se estivesse pensando em jogá-la de novo.
— Aonde está indo? — ele pergunta. — Pensei que devêssemos nos encontrar aqui. Castle disse...
— Por que trouxe um par de meias para cá? — eu o interrompo. — As pessoas estão tentando comer.
Ele congela por um milésimo de segundo antes de revirar os olhos. Fica atrás de mim. Puxa meu rabo de cavalo.
— Eu estava atrasado para me encontrar com você, alteza. Não tive tempo de pôr as meias.
Ele faz um gesto para as meias em suas mãos e as botas nos pés.
— Isso é muito nojento.
— Sabe, você tem um jeito muito estranho de dizer que se sente atraída por mim.
Eu balanço a cabeça, tento esconder minha diversão. Kenji é um paradoxo ambulante de Pessoa Inabalavelmente Séria e Garoto de 12 Anos Passando pela Puberdade em um só corpo. Mas eu tinha esquecido o quão mais fácil é respirar perto dele; parece natural rir quando ele está próximo. Assim, continuo andando e tomo cuidado para não dizer nada, mas um sorriso ainda está puxando meus lábios quando pego uma bandeja e sigo para o centro da cozinha.
Kenji está meio passo atrás de mim.
— Então, vamos trabalhar juntos hoje.
— Ahã.
— E então... Você simplesmente passa por mim. Nem diz “oi”?
Ele aperta as meias contra o peito.
— Estou arrasado. Guardei uma mesa para nós e tudo mais.
Olho para ele. Continuo andando.
Ele me alcança.
— É sério. Sabe o quão constrangedor é acenar para alguém e a pessoa o ignorar? E aí você fica olhando em volta feito um babaca, tentando dizer “não, é sério, eu juro, eu conheço aquela garota” e ninguém acredita em v...
— Você está brincando?
Eu paro no meio da cozinha. Viro-me. Meu rosto está fazendo uma careta.
— Você falou comigo talvez uma vez nas duas semanas em que estamos aqui. Quase nem presto mais atenção em você.
— Certo, espere — ele diz, virando-se para bloquear meu caminho. — Nós dois sabemos que não tem como você não ter prestado atenção em tudo isto.
Ele faz um gesto para si mesmo.
— Por isso, se estiver tentando fazer joguinhos comigo, devo avisá-la logo que não vai funcionar.
— O quê?
Eu franzo as sobrancelhas.
— Do que está faland...
— Não pode se fazer de difícil, garota.
Ele ergue uma sobrancelha.
— Não posso nem tocar em você. Você leva o “difícil” a um novo patamar, se é que me entende.
— Ai, meu Deus — eu mexo os lábios sem soltar som, balançando a cabeça. — Você é louco.
Ele cai de joelhos.
— Louco pelo seu doce, doce amor!
— Kenji!
Não posso levantar os olhos porque estou com medo de olhar ao redor, mas estou desesperada para ele parar de falar. Para ficar a um salão de distância dele o tempo todo. Sei que ele está brincando, porém posso ser a única.
— O quê? — ele pergunta, a voz ressoando pelo salão. — Meu amor a envergonha?
— Por favor... Por favor, levante... e baixe a voz...
— De jeito nenhum.
— Por que não? — estou implorando agora.
— Porque, se eu baixar a voz, não conseguirei me ouvir falar. E essa — ele diz — é a minha parte favorita.
Não consigo nem olhar para ele.
— Não me rejeite, Juliette. Sou um homem solitário.
— O que há de errado com você?
— Você está partindo meu coração.
A voz dele está até mais alta, seus braços balançando em gestos tristes que quase me atingem conforme dou passos para trás, em pânico. Porém, nesse momento, percebo que todas as pessoas o estão observando.
Entretidas.
Consigo abrir um sorriso constrangido quando olho para o salão e fico surpresa ao perceber que ninguém está olhando para mim agora. Os homens estão sorrindo, claramente acostumados com as palhaçadas de Kenji, e as mulheres estão encarando-o com uma mistura de adoração e mais alguma coisa.
Adam está olhando também. Ele está em pé com a bandeja nas mãos, a cabeça erguida e os olhos confusos. Ele sorri um sorriso meio incerto quando nossos olhares se cruzam.
Eu caminho na direção dele.
— Ei, espere, garota.
Kenji pula para ficar de pé e segurar meus braços enquanto me afasto.
— Você sabe que eu só estava brincando com...
Os olhos dele seguem meu olhar até onde Adam está. Ele bate a palma na testa.
— É claro! Como pude esquecer? Você está apaixonada pelo meu colega de quarto.
Eu me viro para olhá-lo.
— Olhe, estou grata por você me ajudar a treinar. De verdade, estou. Obrigada por isso. Mas você não pode sair proclamando seu falso amor por mim... Principalmente na frente do Adam... E você tem de me deixar atravessar este salão antes que o café da manhã acabe, certo? Eu quase nunca consigo vê-lo.
Kenji concorda balançando a cabeça bem devagar, com um ar um pouco solene.
— Você está certa. Desculpe. Eu entendi.
— Obrigada.
— O Adam tem ciúmes do nosso amor.
— Vai pegar sua comida!
Eu o empurro, com força, segurando uma risada aborrecida.
Kenji é uma das poucas pessoas daqui — exceto Adam, é claro — que não tem medo de tocar em mim. Na verdade, ninguém tem nada a temer quando estou usando este traje, mas, geralmente, tiro as luvas enquanto como, e minha reputação sempre chega antes de mim. As pessoas mantêm distância. E, embora eu tenha atacado Kenji por acidente certa vez, ele não tem medo. Acho que seria necessária uma quantidade astronômica de coisas ruins para abatê-lo.
Eu o admiro por isso.
Adam não diz muito quando nos encontramos. Ele não precisa dizer nada além de “Ei”, porque seus lábios entortam para cima de um lado e já posso vê-lo ficando um pouco mais alto, um pouco mais contraído, um pouco mais tenso. E eu não sei muito sobre nada deste mundo, mas sei como ler o livro escrito nos olhos dele.
A maneira como ele olha para mim.
Os olhos dele estão pesados agora, de uma forma que me preocupa, mas seu olhar ainda é tão carinhoso, tão focado e cheio de sentimento que eu mal posso me segurar e ficar longe dos braços dele quando estamos próximos. Eu me pego observando-o fazer as coisas mais simples — trocar o apoio de seu peso, pegar uma bandeja, acenar com a cabeça para cumprimentar alguém — apenas para acompanhar o movimento de seu corpo conforme se desloca pelo ar ao nosso redor. Meus momentos com ele são tão poucos que meu peito está sempre muito apertado; meu coração, muito convulsionado. Ele me faz querer ser irracional o tempo todo.
Ele nunca solta minha mão.
Eu nunca quero desviar o olhar.
— Você está bem? — pergunto, ainda me sentindo um pouco apreensiva por causa da noite anterior.
Ele faz que sim com a cabeça. Tenta sorrir, mas o sorriso parece doer.
— Sim. Eu, ahn...
Ele limpa a garganta. Respira fundo. Desvia o olhar.
— Sim, desculpe-me por ontem à noite. Eu meio que... Eu me desesperei um pouco.
— Mas com o quê?
Ele estava olhando por cima do meu ombro. Franzindo as sobrancelhas.
— Adam...?
— Sim?
— Por que você se desesperou?
Os olhos dele se encontram com os meus de novo. Arregalados. Arredondados.
— O quê? Nada.
— Eu não enten...
— Por que vocês estão demorando tanto?
Eu me viro. Kenji está logo atrás de mim, com tanta comida empilhada em sua bandeja que eu me surpreendo por ninguém ter dito nada. Ele deve ter convencido os cozinheiros a lhe darem mais.
— E então?
Kenji está nos encarando, sem piscar, esperando uma resposta. Por fim, ele tomba a cabeça para trás, em um movimento que diz sigam-me, antes de sair andando.
Adam solta a respiração em um sopro e parece tão distraído que eu resolvo parar de falar sobre a noite anterior. Logo mais. Conversaremos logo mais.
Tenho certeza de que não é nada. Tenho certeza de que não é nada mesmo.
Conversaremos logo mais e tudo ficará bem.

13 comentários:

  1. Kenji é o melhor. Amo esse garoto.

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  2. " Tenho certeza de que não é nada. Tenho certeza de que não é nada mesmo. Conversaremos logo mais e tudo ficará bem."
    Traduza Isso Tudo Ao Contrário...
    É Sempre Assim,Tudo O Que Os Personagens Supõem Com Tanta Certeza Sempre Acontece O Contrário...

    (•_•)

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  3. Adam está sendo um idiota, ele deveria confiar e contar tudo a Juliette, eles quase morreram juntos. O menino que não está machucando ela é Kenji, eu nunca pensei que ia dizer isso, mas investiria nele nesse momento!!!

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  4. Mano esses sonhos dela são estranhos. O Kenji é demais, além d lindo, ele é super divertido, mano se eu não shippasse loucamente a Juju com o Warner, iria investir no Kenji, Adam ta sendo um idiota por esconder coisas da Juju.
    KENJI VEM SER O PAI DOS MEUS FILHOS -qqqq kkkkk

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  5. A falta de esclarecimentos está me matando...

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  6. KkkkKKKKkKk... Kenji♥
    E eu tenho certeza Juju que o Adam está escondendo um caroço nesse angu. Um caroço bem indigesto

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  7. Yesubai, a filha do vilão11 de abril de 2017 21:19

    estou com saudades do James <3

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  8. Kenji é muito divertido kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk estou amando ele, e estou com saudade do Warner, e quero que Adam vá se ferrar por guardar esse segredo ou sei lá o que de Juju...

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  9. Kenji ❤❤❤❤
    Eu shippo KENI.
    KENJI e DANI
    Kkkkkkkkkkkkk

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  10. Eu balanço a cabeça, tento esconder minha diversão. Kenji é um paradoxo ambulante de Pessoa Inabalavelmente Séria e Garoto de 12 Anos Passando pela Puberdade em um só corpo 😂😂😁 n sei por q mas acho q o problema do Adam é com o James

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  11. Kenji 😍💃👏

    -Lippa

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Boa leitura :)