26 de janeiro de 2017

Capítulo 3

Como você classificaria o estado de prontidão da Escola de Guerra?
Excelente. Bom. Mediano. Abaixo da média. Ruim.
Will deu de ombros e fez uma marca de seleção ao lado de Excelente.
Parte do trabalho de qualquer arqueiro era avaliar periodicamente a Escola de Guerra do feudo e relatar ao Castelo Araluen sobre a qualidade da formação, a proficiência dos membros de guerra e o estado geral de prontidão em caso de um ataque. A Escola de Guerra de Redmont era uma das melhores do país e as avaliações de Will eram quase sempre na faixa de Excelente. Ele às vezes se perguntava por que ele não poderia escrever apenas “ver última avaliação,” mas o mestre de guerra do Rei exigia respostas detalhadas todas as vezes. Ele suspirou quando viu a próxima pergunta.
Em que você baseia essa classificação?
Ele não podia responder a isso com uma simples marcação. Teria que escrever algo que justificasse a classificação. Tentou se lembrar da redação do seu relatório anterior. Enquanto ele fazia isso, a porta se abriu de repente e Halt entrou na cabana.
— Olá. Não o ouvi chegando — disse Will.
Halt lhe deu um aceno satisfeito.
— Ótimo. Uma vez ou outra eu tento não cometer erros por aí como um homem cego em uma loja de cerâmica. Estou surpreso por Puxão não ter me ouvido.
— Puxão está de mau humor. Eu não lhe dei uma maçã ontem.
Naturalmente, ambos sabiam que, se tivesse sido qualquer pessoa que não fosse Halt se aproximando, Puxão teria dado um sinal de alerta, de mau humor ou não.
— Ótimo. Ele come maçãs demais de qualquer maneira — Halt olhou para os papéis sobre a mesa diante de Will e uma expressão cautelosa surgiu em seu rosto. — Você não está trabalhando naquele discurso, não é?
Will suspirou.
— Não. Estou fazendo minha avaliação da Escola de Guerra para o mestre de guerra real. Eu não sei por que eu tenho que escrever tudo. Eles devem saber agora que não existem problemas na Escola de Guerra de Redmont.
Halt encolheu os ombros.
— Um exército é comandado pela papelada — disse ele. — De qualquer forma, você pode esquecer isso agora. Nós temos um trabalho.
Will se sentou para tomar conhecimento.
— Um trabalho? — repetiu. — Para onde vamos?
Havia um mapa em grande escala de Araluen na parede da cabana e Halt caminhou para ele, tocando o dedo indicador em um local na costa sudoeste, um pouco acima da fronteira com Céltica.
— Hambley — o arqueiro de barba grisalha respondeu. — Temos informação de que há moondarkers trabalhando sua maneira ao longo da costa. Hambley é seu próximo alvo lógico.
— Moondarkers? — Will não tinha ouvido o termo antes.
Halt não estava surpreso. Fazia muitos anos que os bandos organizados moondarkers não operavam em Araluen.
— Destruidores — explicou. — Sabotadores de navios. Eles operam na lua nova e utilizam faróis falsos de luz em trechos perigosos da costa. Navios que passam veem os faróis acessos e acham que eles chegaram ao porto. Então, navegam em sua direção, e antes de perceberem, estão nas rochas. O navio quebra-se e os moondarkers salvam a carga para eles.
— O que acontece com a tripulação? — Will perguntou.
— Se sobreviverem ao naufrágio, eles vão para terra. Normalmente, eles não sobrevivem a isso.
— Esses moondarkers parecem pessoas desagradáveis — comentou Will.
Halt assentiu.
— Exatamente. E eles são difíceis de rastrear porque os moradores geralmente tem medo deles — uma carranca atravessou seu rosto — ou, em alguns casos, estão em conluio com eles.
— Eles partilham os despojos.
— É isso mesmo. Há um monte de coisas que os sabotadores não querem – madeira e cordas, por exemplo. Barris de alimentos secos. Lona, acessórios de metal. Todos os tipos de coisas que um vilarejo pobre acharia inestimável. Agora vamos começar a nos mexer. A lua nova está a apenas uma semana de distância e é quando eles saem do esconderijo. Eu quero estar na estrada esta tarde. Mandei uma mensagem para Gilan e ele vai ficar de olho nas coisas aqui enquanto estamos longe.
— Eu vou pegar o meu equipamento de viagem — Will falou. Ele hesitou, olhando para o formulário de avaliação inacabado. — Acho que eu poderia terminar isso enquanto estamos na estrada.
Halt pegou o formulário e rasgou-o ao meio, antes que o choro de protesto de Will pudesse detê-lo.
— Tenho uma ideia melhor. Deixe a Gilan uma nota dizendo que a avaliação deve ser feita, mas você não teve tempo para isso ainda. Então, ele pode fazer sua própria avaliação e preencher o formulário para você.
Will hesitou, olhando para o pedaço de papel rasgado nas mãos de Halt.
— Isso não é um pouco sorrateiro?
Halt sorriu feliz.
— Certamente é. E não é que os arqueiros devem ser? — replicou.


Uma hora depois, eles estavam na estrada para o sudoeste. Ciente do rapto recente de Ébano por nômades, Will a tinha deixado no castelo, aos cuidados de Pauline.
Apesar de inteligente e leal como ela era, Ébano ainda era jovem e excitável. Ele não podia arriscar levá-la ao longo do que provavelmente seria uma missão perigosa. Pauline estava encantada em ter a cadela como companhia, e Ébano foi entregue a ela.
Enquanto cavalgavam, Will riu baixinho para si mesmo. Halt virou-se na sela para olhar para ele.
— Algo engraçado?
— Eu fico pensando sobre Gilan fazendo que o relatório de Guerra — disse Will. — Você está certo. É tão astuto.
Halt sorriu.
— É bem feito por todas as vezes que ele tentou me emboscar a caminho das reuniões — disse ele. — Às vezes antigos aprendizes perdem todo o seu respeito por seus antigos mestres.
Ele olhou significativamente para Will, que se apressou em responder.
— Eu não! Eu ainda tenho um enorme respeito por você, Halt!
Halt olhou penetrante para ele por vários momentos, então, aparentemente satisfeito, ele assentiu para si mesmo.
— Apenas mantenha isso em mente.
Eles continuaram sem falar por algumas centenas de metros, então Will quebrou o silêncio novamente.
— A coisa boa sobre isso é que eu posso trabalhar no meu discurso à noite — disse Will.
— Você trouxe ele com você? — Halt perguntou-lhe, um pouco apreensivo.
Will assentiu.
— Eu pensei que seria uma boa oportunidade de trabalhar sem distrações.
Houve um longo silêncio, em seguida, Halt falou:
— Eu certamente não irei interrompê-lo. Quer dizer, eu não gostaria de impedir o fluxo criativo ou qualquer coisa assim. De fato, você pode apenas considerar que não estou aqui se você quiser trabalhar com ele.
Ele se perguntou se Will iria detectar o sarcasmo por trás dessa afirmação, mas seu ex-aprendiz assentiu com gratidão.
— Obrigado, Halt. Eu aprecio isso. Agora, qual será nosso curso de ação?
Halt considerou por alguns momentos enquanto ordenava seus pensamentos.
— Como eu disse esta manhã, não se pode esperar qualquer ajuda dos moradores. Nós não podemos arriscar que eles nos traiam aos moondarkers.
— Os moondarkers não são moradores, então? — Will perguntou.
Halt balançou a cabeça.
— Não. Eles viajam para cima e para baixo da costa. Se eles trabalham em uma área por muito tempo, a notícia se espalha e pessoas como nós aparecem para detê-los. Além disso, os navios iriam aprender rapidamente a evitar essa parte da costa.
— Você disse que soube através de um informante. Podemos esperar qualquer ajuda dele? — Will perguntou.
Mas, novamente, a resposta foi negativa.
— Se ele for esperto, não vai querer se associar conosco. Afinal, ele tem que viver na área depois de termos partido.
— Isso faz sentido. Então, qual é o nosso plano?
— Nós vamos acampar e escutar por aí – esperançosamente sem sermos vistos. Normalmente, os moondarkers não ficam nas aldeias, então eles terão um acampamento em algum lugar da área também. É difícil de escondê-lo, porque deve haver de quinze a vinte deles. Assim, ficaremos atentos para isso – e procuraremos sinais de que eles estão se preparando.
— Como o quê?
— Como um farol sendo preparado no promontório errado. Eles vão ter que construir com um ou dois dias de antecedência. Além disso, vamos precisar vigiar o norte a procura de navios cruzando ao longo da costa. E precisamos manter um olho nas outras pessoas que estão procurando a mesma coisa.
— E se não virmos nenhuma dessas coisas acontecerem? — Will perguntou.
Halt sorriu para ele. O sorriso lembrou a Will um lobo mostrando seus dentes.
— Então eu vou pedir-lhes para parar. Eu posso ser bastante persuasivo quando entro no jogo.
— Eu já notei isso no passado — Will concordou.
Eles fizeram um bom tempo durante o resto do dia, estabelecendo aos cavalos o padrão de marcha forçada dos arqueiros, alternando entre trote e caminhada. Quando o crepúsculo aparecia, Halt indicou um local limpo sob um agrupamento de árvores.
— Aquela parece uma área de acampar decente. Podemos muito bem nos acomodar antes que esteja muito escuro.
— Você quer que eu cozinhe? — Will perguntou.
Ele sabia que Halt era capaz de fazê-lo. Mas a verdade era que Will gostava de preparar refeições e ele era um excelente cozinheiro de acampamento, sempre com um kit de viagem de especiarias e ingredientes para melhorar o sabor das refeições. Já que os arqueiros eram frequentemente forçados a subsistir com carne seca, frutas e pão amassado, ele sempre sentiu que deviam desfrutar de refeições boas quando tinham chance.
Halt concordava com ele sobre este assunto.
— Eu vou aguardar ansiosamente por isso. Uma vez que estivermos próximos de Hambley, vão ser campos frios e rações duras, por isso, podemos muito bem desfrutar de um pouco de comida quente e café enquanto podemos. Eu vou limpar tudo mais tarde.
Apesar de sua antiga relação mestre-aprendiz, hoje Halt considerava Will como igual e estava sempre disposto a compartilhar tarefas de acampamento com ele.
— Excelente — Will disse.
Como um monte de cozinheiros, ele gostava do processo de preparação, mas ficava menos entusiasmado com a limpeza que se seguia.
— Isso vai dar-me tempo para trabalhar no meu discurso.
— Eu vou aguardar ansiosamente por isso, também — Halt disse, sério.

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