2 de janeiro de 2017

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Sou uma ladra.
Roubei este caderno e esta caneta de um dos médicos, de um de seus jalecos de laboratório quando ele não estava olhando e enfiei os dois nas minhas calças. Isso foi logo antes de ele ordenar que aqueles homens viessem me pegar. Aqueles em trajes estranhos com luvas grossas e máscaras contra gás com janelas de plástico embaçadas escondendo seus olhos. Eles eram alienígenas, lembro-me de ter pensado. Lembro-me de ter pensado que deviam ser alienígenas porque não podiam ser humanos, eles que prenderam as minhas mãos com algemas atrás das minhas costas, eles que me amarraram à cadeira. Eles enfiaram armas de eletrochoque em minha pele várias vezes sem nenhum motivo além de me ouvir gritar, mas eu não gritava. Choraminguei, mas nunca disse uma palavra. Senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto, mas eu não estava chorando.
Acho que isso os deixou bravos.
Eles me estapearam para me acordar embora meus olhos estivessem abertos quando cheguei. Alguém me desamarrou sem tirar as algemas e chutou meus dois joelhos antes de me mandar ficar em pé. E eu tentei. Eu tentei, mas não consegui e, por fim, seis mãos empurraram-me porta afora e meu rosto ficou sangrando no concreto por um tempo. Não consigo me lembrar da parte em que me arrastaram para dentro.
Sinto frio o tempo todo.
Sinto-me vazia, como se não houvesse nada dentro de mim além deste coração partido, o único órgão que resta nesta concha. Sinto as lamúrias ecoarem dentro de mim, sinto as pancadas reverberarem pelo meu esqueleto.
Tenho um coração, diz a ciência, mas sou um monstro, diz a sociedade. E eu sei, é claro sei. Eu sei o que fiz. Não estou pedindo compaixão.
Porém, às vezes, eu penso — às vezes, eu me pergunto — se eu fosse um monstro... Com certeza eu ainda sentiria isso a esta altura?
Eu me sentiria brava e cruel e vingativa. Eu conheceria raiva cega e sede de sangue e uma necessidade de me vingar.
Em vez disso, sinto um abismo em mim que é tão profundo, tão escuro que não consigo enxergar lá dentro; não consigo ver o que há nele. Não sei o que eu sou ou o que pode acontecer comigo.
Não sei o que posso fazer de novo.

Um comentário:

  1. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 01:25

    WOUU JULIETTE E SUAS RECORDAÇÕES SINISTRAS

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Boa leitura :)