2 de janeiro de 2017

35

Ele aparece na porta diretamente oposta ao lugar onde estou agora e está bem como eu me lembro dele. O cabelo dourado e a pele perfeita e os olhos brilhantes demais para seu tom desbotado de esmeralda. O rosto dele é primorosamente belo, herdado, agora percebi, do pai. É o tipo de rosto em que ninguém mais acredita; linhas e ângulos e simetria fácil que são quase ofensivos em sua perfeição. Ninguém devia querer um rosto como esse. É um rosto destinado a problemas, a perigos, a uma válvula de escape para compensar, e muito, pelo excesso que roubou de um inocente desavisado.
É exagerado.
É demais.
Fico com medo.
Preto e verde e dourado parecem ser as cores dele. Seu terno muito preto foi feito sob medida para o seu corpo, magro, mas musculoso, contrabalanceado pelo branco vivo da camisa por baixo e adornado pela gravata preta e simples amarrada no pescoço. Ele está ereto, alto, impassível. Para qualquer outra pessoa, ele pareceria impressionante, mesmo com o braço direito ainda em uma tipoia. Ele é o tipo de garoto que só foi ensinado a ser um homem, que foi orientado a apagar o conceito de infância das suas expectativas de vida. Seus lábios não ousam sorrir, sua testa não se franze com preocupações. Ele foi ensinado a esconder as emoções, esconder os pensamentos do mundo e não confiar em nada nem ninguém. A pegar o que quiser independentemente dos meios necessários. Posso ver tudo isso com clareza.
Porém, ele parece diferente para mim.
Está olhando para mim e isso me desarma; é alarmante. Seu olhar é muito pesado e seus olhos, muito profundos. Sua expressão está muito cheia de algo que não reconheço. Ele está me olhando como se eu tivesse conseguido, como se eu tivesse atirado no coração dele e estilhaçado-o, como se eu o tivesse abandonado para morrer depois de ele ter dito que me amava, e eu me recusava a pensar que isso sequer fosse possível. A pausa, pausa, pausa na minha respiração enquanto eu absorvo a expressão de agonia dele não é algo não é nada não é o que eu estava esperando.
E eu vejo a diferença nele agora. Vejo o que mudou.
Ele não está se esforçando para esconder suas emoções de mim.
Meus pulmões são mentirosos, fingindo que não conseguem se expandir só para poderem rir de mim, e meus dedos estão flutuando, lutando para escapar da prisão de meus ossos como se tivessem esperado 17 anos para fugirem.
Fuja, é o que meus dedos me dizem.
Respire, é o que fico dizendo a mim mesma.
Warner é uma criança. Warner é um filho. Warner é um garoto que tem apenas um entendimento limitado sobre a própria vida. Warner com um pai que lhe ensinaria uma lição matando a única coisa pela qual ele já se dispôs a implorar. Warner como um ser humano me apavora mais do que qualquer coisa.
O comandante supremo está impaciente agora.
— Sente-se — diz para o filho, fazendo um gesto para o sofá onde ele estava sentado.
Warner não diz uma palavra para mim.
Seus olhos estão colados ao meu rosto, meu corpo, ao arnês amarrado em meu peito; seu olhar demora-se em meu pescoço, nas marcas que seu pai provavelmente deixou e eu vejo o movimento na sua garganta, vejo a dificuldade que ele tem para engolir a visão à sua frente antes de, enfim, desgarrar-se e entrar na sala de estar. Ele é muito parecido com o pai, estou começando a perceber. A maneira como anda, sua aparência ao usar um terno, a forma como é meticuloso com sua higiene. E, ainda assim, não tenho dúvida de que ele detesta o homem que ele tenta, desastrosamente sem sucesso, não imitar.
— Eu gostaria de saber — o supremo diz — como, exatamente, você conseguiu escapar.
Ele olha para mim.
— De repente, fiquei curioso, e foi muito difícil tirar detalhes do meu filho.
Eu pisco, olhando para ele.
— Diga-me — ele pede —, como você escapou?
Fico confusa.
— Da primeira ou da segunda vez?
— Duas vezes! Você conseguiu escapar duas vezes!
Ele está rindo com gosto agora; bate no joelho.
— Incrível! Duas vezes, então. Como conseguiu fugir duas vezes?
Pergunto-me por que ele está enrolando para ganhar tempo. Não entendo por que ele quer conversar quando tantas pessoas estão esperando por uma guerra e não posso deixar de esperar que Adam, Kenji, Castle e todos os outros não tenham congelado até a morte do lado de fora. E, embora não tenha um plano, tenho um palpite. Sinto que nossos reféns podem estar escondidos na cozinha.
Assim, decido divertir o comandante por um tempo.
Conto a ele que pulei da janela na primeira vez. Atirei em Warner na segunda.
O supremo não está mais sorrindo.
— Você atirou nele?
Dou uma olhada em Warner e vejo que seus olhos ainda estão fixos no meu rosto, sua boca ainda não corre o risco de se mexer. Não faço ideia do que ele está pensando e, de repente, estou tão curiosa que quero provocá-lo.
— Sim — eu respondo, encontrando o olhar de Warner. — Eu atirei nele. Com sua própria arma.
E a repentina tensão no seu maxilar, os olhos que baixaram para as mãos que ele apertava com força sobre o colo... Parece que ele arrancou a bala do corpo com os cinco dedos.
O supremo passa a mão pelo cabelo, coça o queixo. Percebo que ele parece perturbado pela primeira vez desde a minha chegada e pergunto-me se é possível que ele não tivesse nenhuma ideia de como escapei.
Imagino o que Warner deve ter dito sobre o ferimento à bala em seu braço.
— Qual é o seu nome? — pergunto antes de conseguir me conter, percebendo as palavras um instante tarde demais.
Eu não devia fazer perguntas idiotas, mas detesto ficar me referindo a ele como “o supremo”, como se fosse uma entidade intocável.
O pai de Warner olha para mim, com as sobrancelhas posicionadas dois centímetros acima do normal no seu rosto.
— Meu nome?
Eu confirmo, balançando a cabeça.
— Pode me chamar de Comandante Supremo Anderson — ele informa, ainda confuso. — Qual é a importância disso?
— Anderson? Mas pensei que seu sobrenome fosse Warner.
Pensei que ele tivesse um primeiro nome que eu pudesse usar para distingui-lo do Warner que passei a conhecer muito bem.
Anderson respira com dificuldade, lança um olhar desgostoso para o filho.
— Definitivamente não — ele me diz. — Meu filho achou que seria uma boa ideia usar o sobrenome da mãe, porque é o tipo exato de atitude estúpida que ele tem. O erro — ele continua, quase anunciando a informação agora — que ele sempre comete, vez após outra... Permitir que suas emoções fiquem no caminho do seu dever... É patético — conclui, cuspindo na direção de Warner. — E é por isso que, por mais que eu queria deixá-la viver, minha querida, temo que seja uma distração grande demais na vida dele. Não posso permitir que ele proteja uma pessoa que tentou matá-lo.
Ele balança a cabeça.
— Nem acredito que tive essa conversa. Ela provou ser um grande constrangimento.
Anderson coloca a mão no bolso, tira uma arma, mira na minha testa.
Muda de ideia.
— Estou cansado de sempre arrumar a sua bagunça — ele briga com Warner, segurando o braço dele, puxando-o do sofá.
Ele empurra o filho bem para a minha frente, aperta a arma na mão saudável dele.
— Atire nela — diz. — Atire nela agora.

8 comentários:

  1. ai meu Deus ai meu Deus ai meu Deus!!!!!! Atira no seu pai kkkkk

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  2. Eita poha, Warner meu mozão atire no seu papai querido e agarra a gata heuheu ou me agarra homem >.>

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  3. MATE ESSE MONSTRO!!! SINTA O PRÓPRIO VENENO, ANDERSON!

    #TeamWarner

    ~polly~

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  4. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 01:15

    "Ele empurra o filho bem para a minha frente, aperta a arma na mão saudável dele.
    — Atire nela — diz. — Atire nela agora."


    fedeu! e aí Warner, seu orgulho ou seu amor?seu pai ou a Juliette?

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  5. vc ainda pergunta, é claro q ele n vai atirar na juju

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  6. Ah, eu não queria estar na pele do Warner. Queria estar na da Juliette e matar logo esse vagaranharo descarado.
    Destruir o resto do mundo? Tudo bem. Matar inocentes? Beleza.
    Cruel e sádico? Historia alguma presta sem um vilão de verdade
    Arrogante e ganancioso? Ok
    Agora humilhar o Warner e dizer que sente vergolha e precisa ensinar seu filho a agir corretamente é inaceitavel. Inadmissível. Passivel de punição
    Morte a Anderson, alias que nome lixo, este péssimo pai. Aposto que nem tem uma caneca de melhor pai do mundo...

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Boa leitura :)