2 de janeiro de 2017

34

— É uma boa surpresa — ele me diz. — Ver que os jovens ainda valorizam coisas como a pontualidade. É sempre tão frustrante quando as pessoas desperdiçam meu tempo.
Minha cabeça está cheia de botões faltando e cacos de vidro e pontas de lápis quebradas. Estou balançando a cabeça muito devagar, piscando como uma idiota, incapaz de achar palavras na minha boca, ou porque elas estão perdidas ou porque elas nunca existiram ou porque não faço ideia do que dizer.
Não sei o que estava esperando.
Talvez eu tenha pensado que ele seria velho e corcunda e um pouco cego.
Talvez usasse um tampão em um olho e tivesse de andar com uma bengala.
Talvez ele tivesse dentes podres e pele macilenta e cabelo desajeitado e com falhas e, talvez, ele fosse um centauro, um unicórnio, uma bruxa velha com chapéu pontudo, qualquer coisa, qualquer coisa, qualquer coisa menos isto.
Porque isto não é possível. Não é natural. É tão difícil, para mim, entender e o que quer que eu estivesse esperando estava tão total, incrível, horrivelmente errado.
Estou olhando para um homem que é completa, impressionantemente lindo.
E ele é um homem.
Ele deve ter, pelo menos, 45 anos, alto e forte e envolto por um terno que o veste com tanta perfeição que é quase injusto. Seu cabelo é grosso e macio como creme de avelã; sua linha do queixo é bem definida, as linhas do seu rosto têm simetria perfeita, suas maçãs do rosto foram endurecidas pela vida e a idade.
Porém, são seus olhos que fazem toda a diferença. Seus olhos são a coisa mais espetacular que já vi.
São quase como água-marinha.
— Por favor — ele diz, abrindo o sorriso mais incrível. — Entre.
E, então, eu entendo, bem naquele instante; porque tudo faz sentido de repente. Sua aparência; sua estatura; seu comportamento gentil e elegante; a facilidade com que quase esqueci que ele é um vilão... Este homemEste é o pai de Warner.
Entro no que parece ser uma pequena sala de estar. Há sofás velhos e cheio de caroços arrumados ao redor de uma pequenina mesa de centro. O papel de parede está amarelado e descascando por causa do passar do tempo. A casa está pesada com um cheiro estranho de mofo que indica que as janelas de vidro rachado não são abertas há anos, e o carpete tem cor verde-floresta sob meus pés, as paredes enfeitadas com painéis de madeira falsos que não fazem nenhum sentido para mim. Esta casa é, em uma única palavra, feia. Parece ridículo que um homem tão estonteante encontre-se dentro de uma casa tão horrivelmente inferior.
— Ó, espere — ele diz —, só uma coisinha.
— O qu...
Ele me prendeu contra a parede pelo pescoço, as mãos protegidas com cuidado por um par de luvas de couro, já preparadas para tocar minha pele e cortar minha respiração, fazer-me sufocar até a morte e eu tenho total certeza de que estou morrendo, estou certa de que esta é a sensação de morrer, estar completamente imobilizada, mole do pescoço para baixo. Tento arranhá-lo, batendo em seu corpo com o restante da minha energia até desistir, rendendo-me à minha própria estupidez, meus últimos pensamentos condenando-me por ser tão idiota, por pensar que poderia mesmo vir até aqui e conseguir alguma coisa, até perceber que ele abre meus coldres, rouba minhas armas e as coloca nos seus bolsos.
Ele me solta.
Eu caio no chão.
Ele diz para eu me sentar.
Eu sacudo a cabeça, tossindo para enfrentar a tortura em meus pulmões, ofegando no ar sujo e mofado, arfando em arquejos horríveis e estranhos, todo o meu corpo sofrendo espasmos com a dor. Estou aqui dentro há menos de dois minutos e ele já me dominou. Tenho de descobrir como fazer algo, como passar por isso e sobreviver. Agora não é o momento de me conter.
Fecho e contraio os olhos por um instante. Tento limpar minhas vias aéreas, tento encontrar meus pensamentos. Quando, por fim, levanto o olhar, vejo que ele já se sentou em uma das cadeiras, olhando para mim como se estivesse muito entretido.
Mal consigo falar.
— Onde estão os reféns?
— Eles estão bem.
Este homem, cujo nome eu não sei, balança uma mão indiferente no ar.
— Eles ficarão bem. Tem certeza de que não quer se sentar?
— O quê...
Tento limpar a garganta e arrependo-me na mesma hora, forçando-me a piscar para conter as lágrimas traidoras que queimam meus olhos.
— O que você quer de mim?
Ele inclina-se para frente na cadeira. Junta as mãos.
— Sabe, já não tenho muita certeza.
— O quê?
— Bem, você com certeza já entendeu que tudo isto — ele faz um aceno de cabeça para mim, para a sala — é apenas uma distração, certo?
Ele sorri o mesmo sorriso incrível.
— Com certeza já percebeu que meu objetivo final era atrair seu pessoal para o meu território? Meus homens estão esperando apenas uma palavra. Uma palavra minha e vão procurar e destruir todos os seus amiguinhos que esperam pacientemente no raio de um quilômetro.
O terror vem me cumprimentar.
Ele ri um pouco.
— Se acha que não sei exatamente o que está acontecendo nas minhas próprias terras, mocinha, está muito enganada.
Ele balança a cabeça.
— Deixei essas aberrações viverem com muita liberdade entre nós, foi um erro meu. Estão causando muitos problemas e, agora, é a hora de expulsá-las.
— Eu sou uma dessas aberrações — digo a ele, tentando controlar o tremor na minha voz. — Por que me trouxe aqui se tudo o que quer é acabar com a vida de todos nós? Por que eu? Você não precisava me escolher.
— Você está certa.
Ele balança a cabeça para cima e para baixo. Fica em pé. Enfia as mãos nos bolsos.
— Vim até aqui com uma meta: arrumar a bagunça feita pelo meu filho e, enfim, colocar um fim nos esforços inocentes de um grupo de aberrações estúpidas. Para apagá-las deste mundo triste. Mas, então — ele diz, rindo um pouco —, assim que comecei a traçar meus planos, meu filho veio até mim e implorou-me para não a matar. Apenas você.
Ele para. Olha para cima.
— Ele chegou a implorar para eu não a matar.
Ri de novo.
— Foi tão patético quanto surpreendente. É claro que, nesse momento, soube que precisava conhecê-la — ele afirma, sorrindo, olhando para mim como se pudesse estar encantado. — “Tenho de conhecer a garota que conseguiu enfeitiçar meu garoto!”, eu disse para mim mesmo. Essa garota que conseguiu fazê-lo se esquecer de seu orgulho... sua dignidade... tempo o bastante para me implorar um favor.
Uma pausa.
— Você sabe — ele pergunta para mim — quando meu filho já me pediu um favor?
Ele levanta a cabeça. Espera a minha resposta.
Eu balanço a cabeça.
— Nunca.
Ele para e respira.
— Nunca, nem uma vez em 19 anos ele me pediu alguma coisa. Difícil de acreditar, não é?
Seu sorriso é grande, brilhante.
— Eu tenho todo o crédito por isso, é claro. Eu o criei bem. Ensinei-o a ser totalmente independente, centrado, livre das necessidades e dos desejos que destroem a maioria dos outros homens. Assim, ouvir essas palavras vergonhosas de súplica saírem da boca dele?
Ele balança a cabeça.
— Bem, naturalmente, fiquei intrigado. Tinha de ver por mim mesmo. Precisava entender o que ele tinha visto, o que havia de tão especial em você que pudesse causar um lapso tão colossal no bom senso dele. Embora, para ser bem sincero — ele continua —, eu não achasse que você fosse aparecer.
Ele tira uma das mãos do bolso, gesticula com ela enquanto fala.
— Quero dizer, eu com certeza esperava que você viesse, mas pensei que, se aparecesse, pelo menos viria com apoio... Algum tipo de reforço. Mas aqui está você, usando essa monstruosidade de elastano — ele ri alto — e está sozinha.
Ele me analisa.
— Muito idiota — diz. — Mas corajosa. Gosto disso. Sei admirar a coragem. De qualquer forma, eu a trouxe aqui para ensinar uma lição ao meu filho. Eu tinha a intenção de matá-la — ele acrescenta, começando a andar devagar e com regularidade pela sala. — E eu preferia fazê-lo onde ele pudesse, com certeza, ver. A guerra é uma bagunça — diz, balançando a mão. — É fácil perder a noção de quem está morrendo e como morreu e quem matou quem etc., etc. Eu queria que essa morte em especial fosse tão limpa e simples quanto a mensagem que ela poderia levar. Não é bom, para ele, criar esse tipo de apego no final das contas. É meu dever como pai colocar um ponto final nesse tipo de besteira.
Há uma pedra do tamanho do meu punho alojada sob minha língua e não consigo cuspi-la. Sinto-me enjoada, tão enjoada, tão tremendamente enjoada. Este homem é muito, muito pior do que eu poderia ter imaginado.
Minha voz é uma respiração pesada, um sussurro alto quando eu falo:
— Então, por que não me mata simplesmente?
Ele hesita. Diz:
— Não sei. Eu não fazia ideia de que você era tão adorável. Temo que meu filho nunca tenha mencionado o quanto você é bonita. E é sempre muito difícil matar uma coisa bela.
Ele suspira.
— Além disso. Você me surpreendeu. Chegou na hora certa. Sozinha. Estava mesmo disposta a se sacrificar para salvar criaturas idiotas o bastante para serem capturadas.
Toma um fôlego cortante.
— Talvez possamos ficar com você. Se você não provar ser útil, pode provar ser um entretenimento no mínimo.
Tomba a cabeça, pensativo.
— Porém, se ficarmos com você, suponho que terá de voltar ao Capitólio comigo, pois não posso mais confiar em meu filho para fazer nada certo. Já lhe dei chances demais.
— Obrigada pela oferta — eu respondo, lutando para ignorar as cobras que nadam pelo meu sangue, o xarope de cereja que pinga pelo meu pescoço. — Mas eu preferiria até pular de um penhasco.
A risada dele é como uma centena de pequenos sinos, feliz e saudável e contagiante.
— Ó, minha nossa.
Ele sorri, um sorriso vivo e carinhoso e devastadoramente sincero. Balança a cabeça. Grita, por cima do ombro, para o que parece ser outro aposento — talvez a cozinha, não tenho certeza — e diz:
— Filho, pode vir até aqui, por favor?
Tudo o que consigo pensar é que, às vezes, você morre; às vezes, está prestes a explodir; às vezes, está dois metros abaixo do solo, procurando por uma janela, quando alguém despeja fluido de isqueiro no seu cabelo e acende um fósforo no seu rosto.
Sinto meus ossos se incendiarem.
Warner está aqui.

14 comentários:

  1. Não aguentei ficar só nas reações. O que está acontecendo? OMG OMG OMG OMG OMG

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  2. exatamente OMG OMG OMG MULHER mata logo o pai dele e agarra esse bofeee <3 by Rô

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  3. OMG OMG OMG O MOZÃO TA AQUI, GENTE GOSTEI DO SOGRÃO, RI DEMAIS COM O PENSAMENTO DELE D QUERER CONHECER A GAROTA Q ENFEITIÇOU O FILHO DELE, MAS MORRA LOGO DESGRAÇADO, MATA O SOGRÃO JUJU E AGARRA O BOY OMG OMG OMG WARNER SEU LINDO *-*

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  4. OMG OMG OMG!!! Warneeeerrrr... Finalmente! É muita emoção gnt.

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  5. OMG!!!!!!!!!!!!!!!!
    WARNER MATA LOGO SEU PAI E SALVA JUJU!!!!

    ~POLLY~

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  6. AAAAAEEEEEE FINALMENTE WARNER ♡♡♡ Tava com saudade já 😍 Prefiro a narração dele e.e

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  7. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 01:07

    Esse homem é um monstro desalmado, Warner comparado a ele é um bb inofensivo, tão bonito e tão perverso! esse Comandante é horrivel. Vai mesmo deixar ele matar sua Juliette Warner?

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  8. Só posso dizer OMG

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  9. Como diz o Kenji.
    Bosta no ventilador
    Alguem jogou bosta no ventilador.
    Tomara que essa bosta caia toda em cima do pai do Warner.
    To-di-nha.
    Fdp.
    Warner seu lindo mete soco no teu pai!!

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  10. Warner ta lá crlllllllll não aguento a ansiedade as vezes te amo as vezes não ta tudo tão slá

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  11. O MOZAOOOO CHEGOUUUUUUUUUUU CARAIII

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  12. Tudo o que consigo pensar é que, às vezes, você morre; às vezes, está prestes a explodir; às vezes, está dois metros abaixo do solo, procurando por uma janela, quando alguém despeja fluido de isqueiro no seu cabelo e acende um fósforo no seu rosto.

    Senti o mesmo agora.

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  13. Mal conheço esse Comandante Supremo e o pouco que descubro sobre ele me enoja.É repulsivo um pai cogitar a ideia de transformar a garota que seu filho ama em 'entreterimento'.

    Warner não permita isso!

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Boa leitura :)