6 de janeiro de 2017

32

Meus olhos se abrem de repente.
Está escuro como breu. Silencioso. Eu me levanto rápido demais.
Devo ter pegado no sono. Não faço ideia de que horas são, mas uma olhada rápida pelo quarto me diz que Warner não está aqui.
Deslizo para fora da cama. Ainda estou usando meias e, de repente, estou grata; tenho de enrolar os braços em volta do corpo, tremendo conforme o ar frio do inverno penetra pelo tecido fino da minha camiseta. Meu cabelo ainda está um pouco úmido do banho.
A porta do escritório de Warner está com uma fresta aberta.
Há uma faixa de luz espiando pela abertura e isso me fazer pensar se ele realmente se esqueceu de fechar ou se, talvez, acabou de entrar. Talvez ele nem esteja lá. Mas minha curiosidade ganha de minha consciência desta vez.
Eu quero saber onde ele trabalha e como é a escrivaninha dele; quero saber se ele é bagunceiro ou organizado ou se deixa seus itens pessoais por perto. Pergunto-me se ele tem alguma foto de si mesmo quando criança.
Ou da mãe.
Eu avanço nas pontas dos pés, borboletas sendo acordadas no meu estômago. Eu não devia estar nervosa, digo a mim mesma. Não estou fazendo nada ilegal. Só vou ver se ele está lá e, se não estiver, vou embora. Só vou entrar por um segundo. Não vou mexer em nenhuma das coisas dele.
Não vou.
Eu hesito do lado de fora da porta. Está tão silencioso que tenho quase certeza de que meu coração está batendo alto e forte o bastante para ele ouvir. Não sei por que estou com tanto medo.
Bato duas vezes na porta conforme a empurro.
— Aaron, você está...
Algo se quebra no chão.
Eu empurro a porta e corro para dentro, parando de repente assim que cruzo a soleira. Pasma.
O escritório dele é enorme.
É do tamanho do quarto todo dele e do closet combinados. Maior. Há tanto espaço aqui... Espaço suficiente para abrigar uma enorme mesa de reunião e seis cadeiras localizadas de cada lado dela.
Há um sofá e algumas mesinhas colocadas no canto, e uma das paredes é feita apenas de estantes de livros. Lotada de livros. Explodindo de livros. Livros antigos e livros novos e livros com as lombadas caindo.
Tudo aqui é feito de madeira escura.
Madeira tão marrom que parece preta. Linhas limpas e retas, cortes simples. Nada é ornamentado ou volumoso. Nada de couro. Nada de cadeiras de encosto alto e madeira com entalhes superdetalhados. Minimalista.
A mesa de reuniões está cheia de pilhas de pastas de arquivos e papéis e fichários e cadernos. O chão está coberto por um tapete oriental espesso e macio, parecido com o do quarto. E, no canto mais distante do escritório, está a mesa dele.
Warner está me encarando em choque.
Não está usando nada além de sua calça e um par de meias, a camisa e o cinto descartados. Está em pé em frente à sua mesa, agarrando algo... Algo que não posso ver bem.
— O que você está fazendo aqui?
A porta estava aberta.
Que resposta idiota.
Ele olha para mim.
— Que horas são? — pergunto.
— Uma e meia da manhã — ele fala automaticamente.
— Ah.
— Você deveria voltar para a cama.
Não sei por que ele parece tão nervoso. Por que seus olhos ficam pulando de mim para a porta.
— Não estou mais cansada.
— Ah.
Ele fica mexendo no que agora percebo que é um pequeno pote em suas mãos. Apoia-o na mesa atrás de si sem se virar.
Ele esteve tão estranho hoje, penso. Tão diferente. Ele costuma ser composto, muito seguro de si.
Mas, recentemente, tem estado tão inquieto perto de mim. A inconsistência é enervante.
— O que você está fazendo? — pergunto.
Há cerca de 3 metros entre nós, e nenhum dos dois está fazendo qualquer esforço para reduzir o espaço. Estamos conversando como se não nos conhecêssemos, como se fôssemos estranhos que acabaram de se encontrar em uma situação constrangedora. O que é ridículo.
Eu começo a cruzar o escritório, a caminhar até ele.
Ele congela.
Eu paro.
— Está tudo bem?
— Sim — ele diz, rápido demais.
— O que é isso? — pergunto, apontando para o pequeno pote de plástico.
— Você devia voltar a dormir, amor. Você provavelmente está mais cansada do que pensa...
Eu ando diretamente até ele, estendo a mão e agarro o pote antes de ele poder fazer algo para me impedir.
— Isso é uma violação de privacidade — diz, cortante, parecendo mais com ele mesmo. — Dê isso de volta para mim...
— Remédio? — pergunto, surpresa.
Eu viro o pequeno pote nas minhas mãos, lendo o rótulo. Levanto o olhar para ele. Enfim entendendo.
— Isso é para cicatrizes.
Ele passa uma mão pelo cabelo. Olha na direção da parede.
— Sim — ele diz. — Agora, por favor, devolva para mim.
— Você precisa de ajuda? — pergunto.
Ele fica imóvel.
— O quê?
— Isto é para as suas costas, não é?
Ele passa uma mão pela boca, descendo pelo queixo.
— Você não vai me permitir sair desta nem com um grama de respeito por mim mesmo, vai?
— Eu não sabia que você se importava com as suas cicatrizes — falo para ele.
Dou um passo para a frente.
Ele dá um passo para trás.
— Não me importo.
— Então, por que isto?
Eu levanto o pote.
— Onde você conseguiu, para início de conversa?
— Não é nada... É só...
Ele faz que não com a cabeça.
— Delalieu encontrou para mim. É ridículo — ele diz. — Eu me sinto ridículo.
— Porque você não consegue alcançar suas próprias costas?
Ele então me encara. Suspira.
— Vire-se — digo a ele.
— Não.
— Você está agindo de modo estranho sem motivo. Eu já vi suas cicatrizes.
— Não significa que você precisa vê-las de novo.
Não consigo deixar de sorrir um pouco.
— O que foi? — ele pergunta. — O que é tão engraçado?
— É só que você não parece o tipo de pessoa que teria vergonha de algo assim.
— Não tenho.
— Obviamente.
— Por favor — ele diz —, volte para a cama.
— Estou superacordada.
— Isso não é problema meu.
— Vire-se — eu falo de novo para ele.
Ele aperta os olhos para mim.
— Por que você está usando esta coisa? — pergunto a ele pela segunda vez. — Você não precisa disso. Não use se o faz se sentir desconfortável.
Ele fica quieto por um momento.
— Você não acha que eu preciso?
— É claro que não. Por quê...? Você sente dor? As cicatrizes doem?
— Às vezes — ele responde em voz baixa. — Não tanto quanto costumavam doer. Na verdade, eu não tenho mais muita sensibilidade nas costas.
Algo frio e afiado me atinge na barriga.
— É mesmo?
Ele faz que sim com a cabeça.
— Você vai me contar de onde elas vieram? — sussurro, sem conseguir olhar nos olhos dele.
Ele fica em silêncio por tanto tempo que, enfim, sou forçada a levantar o olhar.
Os olhos dele estão sem emoção, o rosto está muito neutro. Ele limpa a garganta.
— Elas foram meus presentes de aniversário — ele conta. — Todos os anos desde que eu tinha cinco anos. Até eu completar dezoito — diz. — Ele não voltou para o meu aniversário de dezenove.
Estou congelada de horror.
— Certo.
Warner olha para suas mãos.
— Então...
— Ele o cortou? — Minha voz está muito rouca.
— Chicote.
— Ah, meu Deus — eu ofego, cobrindo a boca.
Tenho de olhar na direção da parede para me recompor. Pisco várias vezes, esforço-me para engolir a dor e a raiva que crescem dentro de mim.
— Sinto muito — eu solto. — Aaron. Eu sinto muito.
— Não quero que você sinta repulsa por mim — ele diz em voz baixa.
Eu me viro, pasma. Levemente horrorizada.
— Você não está falando sério.
Seus olhos dizem que ele está falando sério.
— Você nunca se olhou no espelho? — pergunto, brava agora.
— Desculpe?
— Você é perfeito — falo para ele, tão tomada pela emoção que não me controlo. — Você todo. Todo o seu corpo. Proporcionalmente. Simetricamente. Você é absurda e matematicamente perfeito. Nem faz sentido uma pessoa poder ter a sua aparência — digo, fazendo que não com a cabeça. — Não acredito que você possa dizer uma coisa dessas...
— Juliette, por favor. Não fale comigo assim.
— O quê? Por quê?
— Porque é cruel — ele diz, perdendo a compostura. — É cruel e maldoso e você nem percebe...
— Aaron...
— Eu retiro o que eu disse — ele fala. — Eu não quero mais que você me chame de Aaron...
— Aaron — eu repito, com mais firmeza desta vez. — Por favor... você não pode pensar de verdade que vou sentir repulsa por você. Você não pode pensar de verdade que eu me importaria... Que eu seria afetada pelas suas cicatrizes...
— Não sei — ele diz.
Ele está andando de um lado para o outro em frente à sua mesa, os olhos fixos no chão.
— Pensei que você pudesse captar sentimentos — falo para ele. — Pensei que os meus seriam muito óbvios para você.
— Nem sempre eu consigo pensar com clareza — ele fala, frustrado, esfregando o rosto, a testa. — Em especial quando minhas emoções estão envolvidas. Nem sempre eu consigo ser objetivo... E, às vezes, eu faço suposições — ele conta — que não são verdade... E eu não... E apenas não confio mais no meu próprio julgamento. Porque eu já fiz isso — ele afirma — e o tiro saiu pela culatra. De forma terrível.
Ele levanta o olhar, enfim. Olha nos meus olhos.
— Você está certo — murmuro.
Ele desvia o olhar.
— Você cometeu muitos erros — digo a ele. — Você fez tudo errado.
Ele desce uma mão pelo comprimento do rosto.
— Mas não é tarde para consertar as coisas... Você pode corrigir...
— Por favor...
— Não é tarde demais...
— Pare de me dizer isso! — ele explode. — Você não me conhece... Você não sabe o que eu já fiz ou o que eu precisaria fazer para consertar as coisas...
— Você não entende? Não importa... você pode escolher ser diferente agora...
— Pensei que você não iria tentar me mudar!
— Não estou tentando mudá-lo — digo, baixando a voz. — Só estou tentando fazê-lo entender que sua vida não acabou. Você não precisa ser quem você tem sido. Você pode fazer escolhas diferentes agora. Você pode ser feliz...
— Juliette.
Uma palavra cortante. Seus olhos verdes muito intensos.
Eu paro.
Olho para suas mãos trêmulas; ele as aperta em punhos.
— Vá — ele fala com a voz baixa. — Não quero que você fique aqui agora.
— Então, por que me trouxe de volta com você? — pergunto, brava. — Se você nem quer me ver...
— Por que você não entende?
Ele olha para cima e seus olhos estão tão cheios de dor e devastação que chegam mesmo a tirar meu fôlego.
Minhas mãos estão tremendo.
— Entender o quê...?
— Eu te amo.
Ele desmonta.
Sua voz. Suas costas. Seus joelhos. Seu rosto.
Ele desmonta.
Tem de segurar na lateral de sua mesa. Não consegue olhar nos meus olhos.
— Eu te amo — ele diz, suas palavras duras e suaves ao mesmo tempo. — Eu te amo e isso não é suficiente. Pensei que seria suficiente e estava errado. Pensei que eu poderia lutar por você e estava errado. Porque não posso. Não posso mais nem olhar para você...
— Aaron...
— Diga que não é verdade — ele fala. — Diga que estou errado. Diga que eu estou cego. Diga que você me ama.
Meu coração não para de gritar enquanto é partido ao meio.
Não posso mentir para ele.
— Eu não... Eu não sei como entender o que sinto — tento explicar.
— Por favor — ele sussurra. — Por favor, vá embora...
— Aaron, por favor, entenda... Eu pensei que soubesse o que era amor antes e estava errada... Não quero cometer esse erro de novo...
— Por favor — ele está implorando agora —, pelo amor de Deus, Juliette, eu perdi a minha dignidade...
— Certo.
Eu faço que sim com a cabeça.
— Certo. Desculpe. Certo.
Eu recuo.
Eu me viro.
E não olho para trás.

12 comentários:

  1. Juliette acaba msm cm warner! Sem dó

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  2. Meu Deus, será que ela não tem pena do Warner?

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  3. Krl Juliette, vc gosta d ver o mozão sofrendo, affs vc não tem pena do Warner não? Diz logo q ama ele poha, para de mimimi -_-'

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  4. Caramba Julliette! Assim não dá fia, assim não dá.
    PS1: Sabe Aaron vou te apresentar uns amigos meus eles se chamam Celaena, Maxon e Kaden eu acho que vcs tem muito o que conversar.
    PS2: Se bobear Celaena pega os 3... Kkkkkk

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  5. Não acredito nisso. Puta q pariu eles dois podiam ter ficado juntos.

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  6. As cicatrizes me lembraram de Maxon <3

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  7. Nossa ele TÁ sofrendo muito.
    Poxa Ju para de ser ruim😢

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  8. Droga Juliette, coitado do Aaron e você fica aí, fazendo ele sofrer ainda mais...

    #relendo pela centésima vez*

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  9. MEU DEUS NÃO FAZ ISSO COM MEU MOZÃO QUE EU ME DESMORONO COM ELE

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  10. Porra
    Quem mais sofre nessa bagaça é o Warner e ele continua ajudando a Juliette de todas as formas possiveis e impossiveis.
    O amor realmente deixa as pessoas bem trouxas, né
    Juliette podia dar uma acalmada tb, tem que quabrar mais um pouco dos cacos do coraçao dele? é tipo, habito sadico

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  11. Queridaaaa, vamo colaborar com o mozão que tu ta acabando com ele

    Tá né que deve ser maravilhoso um homão desses te dizendo que te ama, mas nessas condições tu acaba com o coitado... SE DECLARA LOGO JULIETTE

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Boa leitura :)