2 de janeiro de 2017

32

— Esperem aqui.
Kenji nos diz para ficarmos quietos enquanto ele coloca a cabeça para fora da saída. Já desapareceu de vista, seu corpo misturando-se ao cenário. Ele vai nos avisar se é seguro sairmos para a superfície.
Adam e eu somos a personificação perfeita do silêncio enquanto esperamos.
Estou nervosa demais para falar.
Nervosa demais para pensar.
Eu consigo fazer isso, nós conseguimos fazer isso, não temos escolha a não ser fazer isso, é tudo que fico repetindo para mim mesma.
— Vamos — ouço a voz de Kenji acima de nossas cabeças.
Adam e eu o seguimos pelos últimos degraus da escada. Estamos usando uma das rotas de saída alternativas do Ponto Ômega — uma que apenas sete pessoas conhecem, de acordo com Castle. Estamos tomando todas as precauções necessárias.
Adam e eu conseguimos içar nossos corpos para a superfície e, no mesmo instante, sinto frio e a mão de Kenji deslizar ao redor da minha cintura. Frio, frio, frio. Ele corta pelo ar como mil facas pequenas, talhando nossa pele. Olho para meus pés e não vejo nada além de um brilho fraco e quase imperceptível onde minhas botas deviam estar. Sacudo os dedos em frente ao meu rosto.
Nada.
Olho ao redor.
Nem sinal do Adam e nem sinal do Kenji, exceto por sua mão invisível, agora descansando na parte inferior das minhas costas.
Funcionou. Adam conseguiu fazer funcionar. Estou tão aliviada que quero cantar.
— Vocês conseguem me ouvir? — eu sussurro, feliz por ninguém poder me ver sorrindo.
— Sim.
— Sim, estou bem aqui — Adam diz.
— Bom trabalho, Kent — Kenji diz a ele. — Sei que não deve ter sido fácil para você.
— Está tudo bem — Adam afirma. — Estou bem. Vamos.
— Vamos.
Somos como uma corrente humana.
Kenji está entre Adam e eu e estamos ligados, de mãos dadas conforme Kenji nos guia por esta área deserta. Não faço ideia de onde estamos e estou começando a perceber que raramente sei onde estou. Este mundo ainda é tão estranho para mim, ainda tão novo. Passar tanto tempo isolada enquanto o planeta caía aos pedaços não me ajudou.
Quanto mais avançamos, mais perto ficamos da estrada principal e mais perto ficamos dos aglomerados localizados a menos de dois quilômetros e meio daqui. Posso ver o formato de caixas de suas estruturas de aço de onde estamos.
Kenji para de repente.
Não diz nada.
— Por que não estamos andando? — pergunto.
Kenji faz um barulho para eu ficar quieta.
— Ouviu isso?
— O quê?
Adam puxa o ar.
— Merda. Tem alguém vindo.
— Um tanque — Kenji esclarece.
— Mais de um — Adam acrescenta.
— Então, por que ainda estamos parados aqui...
— Espere, Juliette, aguente um segundo...
E, então, eu vejo. Um desfile de tanques vindo pela estrada principal. Conto seis deles juntos.
Kenji solta uma série de exclamações com a voz baixa.
— O que é isso? — pergunto. — Qual é o problema?
— Havia apenas um motivo para Warner nos ordenar a sair com mais de dois tanques por vez, na mesma rota — Adam me diz.
— O quê...
— Estão se preparando para lutar.
Eu sufoco um grito.
— Ele sabe — Kenji afirma. — Maldição! É claro que sabe. Castle estava certo. Ele sabe que estamos trazendo reforços. Merda.
— Que horas são, Kenji?
— Temos cerca de 45 minutos.
— Então, vamos andar — digo a ele. — Não temos tempo para nos preocuparmos com o que vai acontecer depois. Castle está preparado... Ele está prevendo algo assim. Ficará bem. Mas, se não chegarmos àquela casa na hora certa, Winston, Brendan e todos os outros poderão morrer hoje.
— Nós podemos morrer hoje — ele observa.
— É — eu falo. — Isso também.
Estamos andando rápido pelas ruas agora. Velozes. Corremos pela clareira na direção de algo parecido com a civilização e é quando eu vejo: os restos de um universo dolorosamente familiar. Pequenas casas quadradas com pequenos quintais quadrados que, agora, não são nada além de ervas daninhas deteriorando-se ao vento. A grama morta faz barulho sob nossos pés, congelada e nada convidativa. Contamos as casas.
Sycamore, número 1.542.
Deve ser essa. É impossível não a ver.
É a única casa de toda a rua que parece habitável. A tinta é nova, limpa, um bonito tom de azul como um ovo de tordo americano. Uns poucos degraus levam à varanda da frente, onde vejo duas cadeiras de balanço brancas de vime e um vaso enorme com flores azuis bem vivas que nunca vi antes. Vejo um tapete de boas-vindas feito de borracha, um mensageiro dos ventos preso em uma viga de madeira, vasos de cerâmica e uma pequena pá guardada em um canto. É tudo, tudo, tudo que nunca mais poderemos ter.
Alguém mora aqui.
É impossível isso existir.
Estou puxando Kenji e Adam até a casa, tomada pela emoção, quase esquecendo que não podemos mais viver neste velho e lindo mundo.
Alguém está me puxando para trás.
— Não é aqui — Kenji me diz. — Esta é a rua errada. Merda. Esta é a rua errada. Tínhamos de estar duas ruas para baixo...
— Mas essa casa... é... Quero dizer, Kenji, alguém mora aí...
— Ninguém mora aí — ele diz. — Alguém provavelmente montou isso para nos despistar... Na verdade, aposto que estava rodeada de C4. Deve ser uma armadilha para pegar pessoas que ficam andando em campos não regulamentados. Agora, vamos lá...
Ele puxa minha mão de novo.
— Temos de nos apressar. Temos sete minutos!
E, embora estejamos correndo para frente, fico olhando para trás, esperando ver algum sinal de vida, esperando ver alguém sair para verificar a caixa de correio, esperando ver um pássaro passar, voando.
E talvez eu esteja imaginando.
Talvez eu seja louca.
Mas poderia jurar que acabei de ver uma cortina balançar na janela do andar de cima.

9 comentários:

  1. Tenso. Quem será que estava na casa? #Curiosa

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    1. Sera que os pais dela vao aparecer em algum livro???
      Ass•analu

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  2. A mãe do warner??? Será?

    Aline

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  3. Estou pirando com a curiosidade, preciso saber quem mora nessa casa e também estou achando q é a minha sogr...quero dizer a mãe do Warner heuheu

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  4. Pode ser qualquer pessoal mãe de Werner,os pais de Juliette,é o próprio Warner observando o que o pai dele vai fazer com Juliette.
    Estou tensa de mais quero saber quem é.

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  5. Huumm... Suspeito. Muito suspeito. Fico me perguntando se em algum momento conheceremos a mãe de Warner (E se pá do Adam tbm) Se os pais asquerosos da juju vão aparecer...

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  6. Gente, que suspense, to com mal pressentimento.
    Acho que muita gente será perdida no meio disso tudo.
    E por que a mãe do Warner viveria ali? sei lá é estranho.
    #TeamWarner #Curiosa

    ~polly~

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  7. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 00:54

    por alguns instantes eu pensei que poderia ser os pais da Jullie que morassem nessa casa. ou a mãe do Warner.

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  8. Preciso dormir, pq acordo cedo amanhã e a curiosidade não me permiti dormir... O que fazer? hahaha
    Capitulo tenso.

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Boa leitura :)