26 de janeiro de 2017

Capítulo 3

O aroma de torta assada encheu a casa. Jenny inclinou-se para a porta do forno, destrancando e abrindo-a, permitindo que o cheiro se espalhasse mais ainda pelo local. Protegendo suas mãos do calor com uma luva de pano, ela retirou a torta de ameixa de dentro do forno.
O recheio de ameixa brilhava tentadoramente e as tiras de cima eram perfeitamente douradas. Ela colocou a torta quente na janela para esfriar. Torta de ameixa era uma das comidas favoritas de Gilan, ela sabia. Devia ser servida fria, com creme por cima. Ela ficou com água na boca só de pensar.
Jenny era cozinheira, mas ao contrário de alguns colegas de profissão, ela também apreciava as comidas que criava.
Satisfeita que a sobremesa estivesse pronta, ela virou sua atenção para a perna de cordeiro. Tinha pré-preparado o pernil, banhando-a com óleo e suco de limão. Então, fez trinta ou quarenta pequenos cortes na carne. Neles, colocou pequenos ramos de alecrim e dentes de alho um pouco amassados.
O truque com a comida, ela pensou, não era usar muitas ervas, especiarias ou sabores. Escolher os produtos mais adequados para o prato que se está preparando e usar um pouco de criatividade ajudavam muito.
Ela sorriu para a carne, fechou um pouco o abafador no forno para diminuir o calor, então deslizou o cordeiro no fogo em uma assadeira. Depois, ela adicionaria batatas picadas, abóbora e vegetais preparados, em instantes completando a simples, mas deliciosa refeição.
Sorrindo para si mesma, ela notou um bilhete na cômoda da cozinha onde Gilan havia feito uma anotação e a pegou para ler mais uma vez. Tinha a marca oficial dos arqueiros no papel, uma folha de carvalho. Mas o conteúdo não era nada oficial.
Querida Jenny, ela leu, eu ficaria encantado em jantar com você nesta quinta-feira. Irei à sua casa lá pras seis da tarde. Já estou ansioso.
Com amor, Gilan.
Seu sorriso aumentava enquanto ela lia no começo “Querida Jenny“ e no final “Com amor, Gilan.”
Ela suspirou baixinho.
Um calafrio percorreu seu corpo com o pensamento de não ver Gilan apenas em uma simples visita, mas sim passar horas agradáveis em sua companhia – um perfeito jantar a dois.
Jenny colocou a folha de papel na cômoda da cozinha, em um lugar que era bem visível e deu mais uma olhada naquela direção antes de voltar para as suas tarefas.
Ela começou a preparar batatas – descascando-as e cortando-as em cubinhos Colocou os vegetais descascados e cortados numa bacia de água para não apodrecerem no ar. Depois, tirou a água e esfregou as batatas com óleo temperado para garantir um perfeito acabamento quando fossem assadas.
Ela estava colocando a tigela em uma prateleira mais baixa, fora da luz do sol, quando escutou sua porta dos fundos abrir e fechar e passos na sala de estar. A casa de Jenny, ao contrário da maioria na aldeia, tinha a cozinha na parte da frente, virada para a rua da aldeia. Ela gastava a maior parte do tempo na cozinha e gostava de ver as idas e vindas das pessoas enquanto cozinhava. A janela era grande e possibilitava uma extensa visão da ponte sobre o Tarbus e até o castelo sobre uma colina acima da vila.
Curiosa por causa do som, ela secou as mãos molhadas na toalha da cozinha e correu para a sala de estar. Talvez tivesse sido o vento que abriu a porta destrancada e a bateu, ela pensou. Mas queria ter certeza. Ela abriu a porta para a sala de estar.
Três homens, mal vestidos e estranhos para ela, ficaram paralisados alguns segundos pela sua aparição repentina.
— O que diabos você está fazendo aqui? — o homem do meio finalmente perguntou.
Ele estava cercado por outros dois, um menor e outro maior que ele. Seu rosto tinha a barba por fazer, com cabelos longos e despenteados. Seus olhos pesados, debaixo de sobrancelhas escuras, aparentavam estar com raiva.
— Sou eu quem deve fazer essa pergunta! — Jenny respondeu com um tom considerável.
Sua reação imediata foi de indignação. Como esse homem de aparência rude se atreve em entrar em sua casa e ter a arrogância de perguntar o que ela estava fazendo ali? Ela se virou para a porta. Tinha esperança de algum membro do vilarejo estar patrulhando a rua. Em todo caso, poderia chamar alguém lá. Seu vizinho era um lenhador, alto e forte. Ele iria colocar esses três pra correr em um instante. Mas ela se moveu tarde demais.
— Pegue-a! — Tomas ordenou e Mound pulou para frente, pegando-a pelo braço e a puxando de volta para a sala.
Em seguida ele a apertou e a girou para o outro lado da sala. Ela ficou sem equilíbrio e caiu sem jeito atrás dele. Jenny ficou furiosa.
— Como você se atreve! — gritou recuperando o equilíbrio.
Mas o homem barbudo foi rápido para encará-la e empurrá-la mais para dentro do salão. Jenny tropeçou em seus pés e caiu novamente, sentando pesadamente no banco.
— Cale-se! — O homem rosnou para ela.
Sacou uma adaga da bainha na cintura e os olhos da garota estreitaram quando ela viu o movimento do homem. Essa não era a hora para argumentar, ela percebeu. Estava em grave perigo ali. Ela parou com os gritos de protesto que estavam na ponta da língua e olhou calmamente para o homem, vendo seus movimentos.
Ele está confuso, percebeu. Confuso e nervoso, e aquilo poderia ser uma combinação perigosa para ela. Ela levantou a mão em sinal de rendição e sentou-se para conversarem, não fazendo nenhum movimento para ficar de pé.
— Tudo bem — a cozinheira disse, abaixando sua voz. — Vamos ficar calmos, tá legal?
— Você disse que ela não estaria aqui! — O menor dos três homens disse para o
barbudo – obviamente o líder, Jenny pensou.
O líder, satisfeito por ela não tentar fugir ou gritar por ajuda, transferiu sua raiva para seu companheiro.
— Como eu iria saber? Nós estávamos observando o lugar por cinco dias e todo dia ela gastava todo o seu tempo no restaurante!
Interessante, Jenny pensou, sua mente corria. Eles estavam me observando. Por quê? O que eu tenho que eles querem?
O homem barbudo olhou de volta para ela.
— Por que você está aqui hoje? — ele perguntou furioso — Justo hoje, de todos os dias?
Ela sentiu que era melhor não responder. O homem barbudo deixou escapar uma série de maldições. O maior dos três parou em sua frente e colocou a mão em seu ombro para acalmá-lo.
— Nós não podemos fazer nada sobre isso. Ela está aqui e nós só temos que fazer nosso trabalho.
— Eu acho que devemos sair daqui! — O menor homem sugeriu.
Ele estava olhando para os lados nervosamente, como se esperasse que mais aldeões aparecessem na sala a qualquer momento.
— Não seja estúpido — o grandão falou — se tentarmos sair agora, seremos vistos e possivelmente estarão na nossa cola em alguns minutos. Aquele joalheiro deve ter se libertado e dado o alarme. O plano original de Tomas ainda é bom. O joalheiro pensa que nós estamos indo para o Rio Stiller. Nós ficamos aqui até a noite, então cavalgamos para o norte enquanto estão procurando por nós no sul.
— Mound está certo — o homem barbudo disse. Ele parecia ter voltado a tomar controle de si mesmo, Jenny notou. — Continuaremos com o plano original. Nós iremos esperar aqui até que esteja escuro, então vamos embora como planejamos. Nada mudou, na verdade.
A cabeça de Jenny estava confusa e ela franziu a testa enquanto tentava reunir os eventos até antes de esses estranhos aparecerem em sua casa. Eles tinham roubado Ambrose, o ourives da aldeia. Isso podia explicar o saco que ela tinha acabado de notar no chão da sala, ao lado da porta de entrada. Eles deixaram Ambrose preso de um jeito que ele poderia se libertar após algum tempo e deixaram a impressão de que estariam cavalgando para o sul. Entretanto, eles ficariam em sua casa, supondo que estaria vazia até o restaurante fechar à noite, e tentariam se esconder ali até a escuridão ocultar seus movimentos. Então iriam escapar pela direção oposta de onde estariam sendo procurados.
Do lado de fora na rua, eles podiam ouvir gritos e o som de pessoas correndo.
Obviamente, o alarme tinha tocado e os soldados estavam convocando a aldeia para organizar um pelotão.
Ela percebeu que os três ladrões estavam estudando-a de perto e ela tentou uma expressão inocente e distraída.
— E quanto a ela? — o menor homem perguntou, apontando em sua direção.
— Bem — Tomas disse, com um sorriso desagradável — pelo menos ela pode assegurar que nós tenhamos uma boa refeição enquanto estamos esperando.
Ele cheirou o ar, percebendo pela primeira vez o aroma do cordeiro assado que estava vindo da cozinha. Mas o homem menor sacudiu a cabeça com raiva para a resposta do outro, Mound, e retomou a questão com calma, pensando com lógica.
— E quando nós sairmos? O que acontece com ela?
— Vamos amordaçá-la e amarrá-la ou nós a levamos conosco — Tomas respondeu.
Mas ele fez uma longa pausa antes de dar a resposta. Instintivamente, Jenny soube que eles não iriam fazer nenhuma dessas coisas. Depois de tanta dificuldade para plantar uma pista falsa, eles não podiam se dar ao luxo de deixá-la sair ilesa. E ela tinha certeza de que eles não iriam levá-la com eles.
Eles precisavam silenciá-la e só tinha uma maneira de eles fazerem isso definitivamente.

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Boa leitura :)