2 de janeiro de 2017

30

— Não era assim que eu queria que as coisas acontecessem — Castle diz para mim —, mas esse tipo de coisa nunca sai de acordo com o plano.
Adam, Kenji e eu estamos sendo preparados para a batalha. Estamos acampados em uma das maiores salas de treinamento com mais cinco pessoas que nunca vi antes. Elas cuidam das armas e armaduras. É incrível como cada pessoa do Ponto Ômega tem um trabalho. Todos contribuem. Todos têm uma tarefa.
Todos trabalham juntos.
— Agora, ainda não sabemos exatamente por que ou como você pode fazer o que faz, senhorita Ferrars, mas espero que, quando chegar a hora, sua Energia apareça. Esse tipo de situações com muito estresse é perfeito para provocar suas habilidades... Na verdade, 78% dos membros do Ponto Ômega dizem que a descoberta inicial de suas habilidades se deu em circunstâncias críticas, de alto risco.
Sim, eu não digo a ele. Parece ser assim mesmo.
Castle pega algo com uma das mulheres na sala; acho que seu nome é Alia.
— A senhorita não deve se preocupar com nada — ele garante. — Estaremos lá caso algo aconteça.
Eu não observo que nunca disse que estava preocupada. Não em voz alta, de qualquer maneira.
— Estas são suas novas luvas — Castle diz, entregando-as para mim. — Experimente-as.
Estas luvas novas são menores, mais macias: param bem no meu pulso e são fechadas com um botão de pressão. Parecem mais grossas, um pouco mais pesadas, mas cabem em meus dedos com perfeição. Fecho minha mão em um punho. Sorrio um pouco.
— São incríveis — digo a ele. — Você não disse que Winston as criou?
A expressão de Castle se fecha.
— Sim — ele confirma, em voz baixa. — Ele as terminou ontem.
Winston.
Ele foi o primeiro rosto que vi quando acordei no Ponto Ômega. Seu nariz de gancho, seus óculos de plástico, seu cabelo loiro cor de areia e seu conhecimento de psicologia. Sua necessidade de café nojento.
Lembro-me dos óculos quebrados que encontrei na mochila.
Não faço ideia do que aconteceu a ele.
Alia volta com uma geringonça de couro nas mãos. Parece uma armadura. Ela me pede para levantar os braços e me ajuda a vestir a peça, e reconheço que é um coldre. Há grossas alças de couro nos ombros que se juntam no centro das minhas costas e 50 faixas diferentes de um couro preto muito fino umas em cima das outras em torno da parte mais alta da minha cintura — logo abaixo do meu peito —, como um tipo de bustiê incompleto. É como um sutiã sem bojo. Alia teve de afivelar tudo para mim e ainda não entendo bem o que estou usando.
Estou esperando algum tipo de explicação.
E, então, vejo as armas.
— Não há nada no bilhete sobre não levar armas — Castle diz enquanto Alia entrega a ele duas pistolas automáticas com um formato e um tamanho que passei a reconhecer. Pratiquei tiros com elas ontem mesmo.
E me saí muito mal.
— E não vejo motivo para você não levar uma arma — Castle diz.
Ele me mostra onde estão os coldres de cada lado das minhas costelas.
Ensina-me a encaixar as pistolas, como colocar os cabos presos no lugar, aonde vão os cartuchos extras.
Nem me importo em mencionar que não faço ideia de como recarregar uma arma. Kenji e eu nunca chegamos a essa parte das lições. Ele estava muito preocupado tentando me lembrar de não usar a arma para gesticular enquanto faço perguntas.
— Espero que armas de fogo sejam o último recurso — Castle me diz. — A senhorita tem armas suficientes no seu arsenal pessoal... Não deve precisar atirar em ninguém. E, no caso de a senhorita se ver usando seu dom para destruir alguma coisa, sugiro que use isto.
Ele segura o que parece um conjunto de elaboradas variações de socos ingleses.
— Alia criou-os para você.
Olho dela para Castle e para os estranhos objetos em sua mão. Ele está sorrindo. Agradeço a Alia ter dedicado seu tempo para criar algo para mim e ela balbucia uma resposta incoerente, corando como se não acreditasse que estou falando com ela.
Estou perplexa.
Pego os objetos de Castle e os examino. A parte de baixo é feita com quatro círculos concêntricos fundidos juntos, grandes o suficiente no diâmetro para caberem como um conjunto de anéis, bem encaixados sobre minhas luvas.
Deslizo os dedos pelos buracos e viro a mão para examinar a parte de cima. É como um miniescudo, um milhão de peças de bronze de canhão que cobrem os nós dos meus dedos, os dedos e toda a parte de cima da minha mão. Posso fechar o punho e o metal move-se com o movimento das minhas articulações.
Não tem nem um pouco do peso que parece ter.
Coloco o outro também. Dobro os dedos. Finjo pegar as armas agora presas ao meu corpo.
Fácil.
Posso fazer isso.
— Gostou? — Castle pergunta.
Nunca o vi com um sorriso tão grande.
— Adorei — eu respondo. — Tudo está perfeito. Obrigada.
— Ótimo. Fico muito feliz. Agora — ele continua —, se me der licença, preciso cuidar de mais alguns detalhes antes de sairmos. Voltarei logo.
Ele me dirige um breve aceno com a cabeça antes de sair pela porta. Todos, exceto Kenji, Adam e eu, saem da sala.
Viro-me para ver como os meninos estão e um milhão de palavras não ditas caem da minha boca escancarada.
Kenji está usando um traje.
Um tipo de macacão justo que não se parece em nada com o meu. Ele é preto da cabeça aos pés. Os cabelos e olhos muito pretos de Kenji combinam perfeitamente com a roupa moldada a cada contorno do seu corpo. O traje parece ter um toque sintético, quase como plástico; ele brilha à luz fluorescente da sala e parece muito duro para permitir movimentos. Porém, eu o vejo alongar os braços e subir e descer nas pontas dos pés, e o traje parece, de repente, fluido, como se ele se movimentasse com Kenji. Ele está usando botas, mas nenhuma luva, e um arnês, como eu. Mas o dele é diferente: tem coldres simples que passam por cima dos seus braços como as alças de uma mochila.
E Adam.
Adam está lindo usando uma camiseta de manga comprida, azul-escura e perigosamente justa em seu peito. Não posso deixar de me demorar sobre os detalhes da roupa dele, não posso deixar de lembrar como era ser abraçada por ele, em seus braços. Ele está parado bem em frente a mim e sinto sua falta como se não o visse há anos. Suas calças cargo pretas estão enfiadas no mesmo par de botas pretas que ele usava quando nos conhecemos no manicômio, na altura da canela e lustrosas, feita com couro macio tão perfeito para seus pés que é uma surpresa elas não terem sido feitas para o seu corpo. Porém, ele não tem nenhuma arma.
E fico curiosa o bastante para perguntar.
— Adam?
Ele levanta a cabeça para olhar e congela. Pisca, com as sobrancelhas erguidas, os lábios separados. Seus olhos percorrem cada centímetro do meu corpo a baixo, parando para examinar o arnês que envolve meu peito, as armas presas perto da minha cintura.
Ele não diz nada. Apenas me encara até, enfim, desviar o olhar, parecendo que não consegue respirar, como se tivesse levado um soco no estômago. Ele passa a mão pelo cabelo, pressiona a parte baixa da palma da mão contra a testa e diz alguma coisa sobre voltar logo. Sai da sala.
Sinto-me enjoada.
Kenji limpa a garganta, fazendo barulho. Balança a cabeça. Diz:
— Uau. Quero dizer, você está tentando matar o cara?
— O quê?
Kenji está me olhando como se eu fosse uma idiota.
— Você não pode simplesmente sair por aí tipo “ó, Adam, olhe para mim, olhe como fico sexy com minha roupa nova” e piscar os olhinhos...
— Piscar os olhinhos? — pergunto, sendo grosseira com ele. — Do que está falando? Não estou piscando os olhinhos para ele! E esta é a mesma roupa que tenho usado todo dia...
Kenji resmunga. Encolhe os ombros e diz:
— É, bem, parece diferente.
— Você está louco.
— Estou apenas dizendo — ele acrescenta, erguendo as mãos em deboche para fingir que se rende — que, se eu fosse ele? E você fosse a minha garota? E andasse por aí assim, e eu não pudesse tocá-la?
Ele desvia o olhar. Encolhe os ombros de novo.
— Estou apenas dizendo que não tenho inveja do pobre coitado.
— Eu não sei o que fazer — eu sussurro. — Não estou tentando machucá-lo...
— Ah, infernos. Esqueça que eu disse algo — ele fala, balançando as mãos. — De verdade. Isso não é nem um pouco problema meu.
Ele me lança um olhar.
— E não considere isso um convite para você começar a me contar todos os seus sentimentos secretos agora.
Eu contraio os olhos na direção dele.
— Não vou lhe contar nada sobre meus sentimentos.
— Ótimo. Porque não quero saber.
— Você já teve namorada, Kenji?
— O quê?
Ele parece mortalmente ofendido.
— Eu pareço o tipo de cara que nunca teve namorada? Você me conhece?
Eu reviro os olhos.
— Esqueça que perguntei.
— Não posso acreditar que você acabou de dizer isso.
— É você que sempre sai por aí dizendo que não quer falar sobre seus sentimentos — eu retruco, ríspida.
— Não — ele diz. — Eu disse que não quero falar sobre os seus sentimentos.
Aponta para mim.
— Não tenho problema nenhum em falar sobre os meus.
— Então você quer falar sobre os seus sentimentos?
— De jeito nenhum.
— Ma...
— Não.
— Tudo bem.
Eu desvio o olhar. Mexo nas alças que estão me puxando nas costas.
— Então, qual é a do seu traje? — pergunto a ele.
— O que você quer dizer com qual é a dele?
Ele franze as sobrancelhas. Passa a mão pelo traje abaixo.
— Este traje é durão.
Eu seguro um sorriso.
— Só quis dizer, por que você está usando um traje assim? Por que você ganhou um e o Adam não?
Ele encolhe os ombros.
— O Adam não precisa de um. Poucas pessoas precisam... Tudo depende do tipo de dom que temos. Para mim, este traje deixa a vida um tanto mais fácil. Não uso sempre, mas, quando preciso levar uma missão a sério, ele ajuda bastante. Por exemplo, quando preciso me misturar ao cenário — ele explica — é menos complicado se preciso mudar uma cor sólida, no caso, o preto, e, se eu tiver muitas camadas a mais e muitas peças a mais flutuando em volta do meu corpo, tenho de me concentrar muito mais para camuflar todos os detalhes. Se tenho só uma peça e só uma cor, viro um camaleão muito melhor. Além disso — acrescenta, alongando os músculos dos braços —, fico sexy pra burro neste traje.
Preciso de todo o meu autocontrole para não explodir em risadas.
— Mas e o Adam? — eu questiono. — Adam não precisa de um traje nem de armas? Não parece certo.
— Eu tenho armas — Adam diz ao voltar à sala.
Seus olhos estão focados nos punhos que está apertando e abrindo em frente do corpo.
— Você apenas não consegue vê-las.
Não consigo parar de olhar para ele, não consigo parar de encarar.
— Armas invisíveis, hein?
Kenji sorri maliciosamente.
— Que fofo. Acho que nunca passei por essa fase.
Adam olha com raiva para Kenji.
— Tenho nove armas diferentes escondidas no meu corpo neste instante. Quer escolher a que vou usar para atirar na sua cara? Ou eu escolho?
— Foi uma brincadeira, Kent. Que diabos. Eu estava brincando...
— Certo, pessoal.
Viramo-nos ao som da voz de Castle.
Ele nos analisa.
— Estão prontos?
Eu digo:
— Sim.
Adam confirma, balançando a cabeça.
Kenji diz:
— Vamos fazer essa merda.
Castle diz:
— Sigam-me.

10 comentários:

  1. Ah, Adam <3

    E o Warner que tá tão esquecido hein ?

    Carla

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  2. Algo me diz que ele logo vai aparecer e arrastando tudo junto com ele. Ele tem esse dom de provocar o caos na vida dela.

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  3. Mano como me dá raiva a forma grosseira com q o Adam trata o Kenji, cara relaxa, a vida é muito curta pra vc perder tempo sendo um idiota -_- e vc Kenji, vem cá seu lindo, deixa eu ver se vc ta sexy mesmo kkkkk e Warner brota logo meu mozão *-*

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  4. Por que diabos o Adam tem que ser tão grosseiro com o Kenji?

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  5. Kkkkk... Kenji melhor pessoa. Fim! Adam meu filho vamos ser + gentil c/o amiguinho, vamos?

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  6. "— Não há nada no bilhete sobre não levar armas — Castle diz enquanto Alia entrega a ele duas pistolas automáticas com um formato e um tamanho que passei a reconhecer. Pratiquei tiros com elas ontem mesmo.
    E me saí muito mal."
    Só eu ri com essa frase? E esse Kenji é incrível kkkk
    "Além disso — acrescenta, alongando os músculos dos braços —, fico sexy pra burro neste traje."
    Com certeza você fica <3

    ~polly~

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  7. Essa é a melhor parte
    — Você não pode simplesmente sair por aí tipo “ó, Adam, olhe para mim, olhe como fico sexy com minha roupa nova” e piscar os olhinhos...😂😂😂

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  8. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 00:42

    "Além disso — acrescenta, alongando os músculos dos braços —,fico sexy pra burro neste traje.
    Preciso de todo o meu autocontrole para não explodir em risadas"
    eu tb precisei me segurar pra não rir e acordar geral aqui de casa kkkkkkkkkkkk o Adam é muito agressivo com o Kenji que horror

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  9. Acho engraçado o Kenji não querer falar dos sentimentos de Já kkkkkkkkk será se ele já teve uma namorada mesmo? kkkkkkkk

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  10. aiiiiiiiiii tomare que o mozao esteja la

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Boa leitura :)