6 de janeiro de 2017

2

Meu corpo trava.
Meus ossos, meu sangue, meu cérebro congelam no lugar, prendendo-se em algum tipo de paralisia repentina, incontrolável, que se espalha por mim tão depressa que parece que não consigo respirar.
Estou engolindo fôlegos chiados, profundos e tensos, e as paredes não param de balançar em frente a mim.
Warner puxa-me para seus braços.
— Solte-me — eu grito, mas, ah, apenas na minha imaginação, porque meus lábios pararam de trabalhar e meu coração acabou de deixar de funcionar e minha mente foi para o inferno pelo restante do dia e meus olhos meus olhos acho que estão sangrando. Warner está sussurrando palavras de consolo que não consigo escutar e seus braços estão enrolados inteiramente ao redor de mim, tentando me manter inteira por meio de pura força física mas não adianta.
Não sinto nada.
Warner está fazendo “shh”, balançando-me para a frente e para trás e é apenas neste momento que percebo que estou fazendo o som mais lancinante e de romper os tímpanos, a agonia me rasgando.
Quero falar, protestar, acusar Warner, culpá-lo, chamá-lo de mentiroso, mas não consigo dizer nada, não consigo formar nada além de sons tão dignos de pena que quase tenho vergonha de mim. Liberto-me dos braços dele, ofegando e dobrando o corpo, apertando a barriga.
— Adam. — Engasgo com o nome dele.
— Juliette, por favor...
— Kenji.
Estou hiperventilando contra o tapete agora.
— Por favor, amor, deixe que eu ajude...
— E James? — eu me ouço dizer. — Ele foi deixado no Ponto Ômega... Não deixaram que ele viesse...
— Tudo foi destruído — Warner diz devagar, em voz baixa. — Tudo. Eles torturaram alguns de seus membros para dizerem a localização exata do Ponto Ômega. Depois, bombardearam a coisa toda.
— Ah, meu Deus.
Eu cubro a boca com uma das mãos e encaro, sem piscar, o teto.
— Sinto muito — ele diz. — Você não faz ideia do quanto eu sinto.
— Mentiroso — eu sussurro, veneno na minha voz.
Estou brava e cruel e não me dou ao trabalho de me importar.
— Você não sente nem um pouco.
Dou uma olhada para Warner apenas tempo o bastante para ver a mágoa aparecer e sumir de seus olhos. Ele limpa a garganta.
— Sinto muito — ele repete, em voz baixa, mas firme.
Ele pega o casaco de onde estava pendurado em um cabideiro próximo; veste-o balançando os ombros sem uma palavra.
— Aonde você vai? — pergunto, culpada no mesmo instante.
— Você precisa de tempo para processar isso e claramente minha companhia não é útil. Vou cuidar de algumas tarefas até você estar pronta para conversar.
— Por favor, diga que você está errado.
Minha voz falha. Minha respiração para.
— Diga que existe uma chance de você estar errado...
Warner me encara pelo que parece um longo tempo.
— Se existisse pelo menos a menor chance de eu poder poupá-la dessa dor — ele diz, enfim — eu teria aproveitado. Você precisa saber que eu não teria dito isso se não fosse absolutamente verdade.
E é isso — a sinceridade dele — que por fim me parte ao meio.
Porque a verdade é tão insuportável que eu queria que ele me entregasse uma mentira.

Não lembro quando Warner saiu.
Não lembro como ele saiu ou o que disse. Tudo o que sei é que estou deitada aqui enrolada no chão há muito tempo. Tempo bastante para as lágrimas virarem sal, tempo bastante para minha garganta secar e meus lábios racharem e minha cabeça latejar tão forte quanto meu coração.
Sento-me devagar, sinto meu cérebro se torcer em algum lugar do meu crânio. Consigo subir na cama e sento-me ali, ainda entorpecida, porém menos, e puxo os joelhos para o peito.
A vida sem Adam.
A vida sem Kenji, sem James e Castle e Sonya e Sara e Brendan e Winston e todos do Ponto Ômega. Meus amigos, todos destruídos em um piscar de olhos.
A vida sem Adam.
Eu me aperto bastante, rezo para que a dor passe.
Não passa.
Adam se foi.
Meu primeiro amor. Meu primeiro amigo. Meu único amigo quando eu não tinha nenhum e agora ele se foi e não sei como eu me sinto. Estranha, na maior parte. Delirante também. Sinto-me vazia e quebrada e traída e culpada e brava e desesperadamente, desesperadamente triste.
Nós estávamos nos distanciando desde que escapamos para o Ponto Ômega, mas foi culpa minha.
Ele queria mais de mim, e eu queria que ele tivesse uma vida longa. Eu queria protegê-lo da dor que eu lhe causaria. Tentei esquecê-lo, seguir em frente sem ele, preparar-me para um futuro separado e à parte dele.
Pensei que ficar longe o manteria vivo.
Menina estúpida.
As lágrimas são novas e caem depressa, viajando em silêncio pelo meu rosto e entrando em minha boca aberta e ofegante. Meus ombros não param de sacudir e meus punhos continuam se fechando e meu corpo está paralisado e meus joelhos estão se batendo e antigos hábitos estão rastejando para fora de minha pele e estou contando rachaduras e cores e sons e tremores e balançando para a frente e para trás e para a frente e para trás e para a frente e para trás e preciso deixá-lo partir preciso deixá-lo partir preciso preciso
Eu fecho os olhos
respiro.
Respirações ásperas, difíceis, arranhadas.
Para dentro.
Para fora.
Conte-as.
Já estive aqui antes, digo a mim mesma. Já fui mais solitária do que isso, com menos esperança do que isso, mais desesperada do que isso. Já estive aqui antes e sobrevivi. Posso passar por isso.
Mas eu nunca havia sido tão completamente roubada. Amor e possibilidade, amizades e futuros: foram-se. Preciso começar do zero agora; enfrentar o mundo sozinha de novo. Tenho de fazer uma última escolha: desistir ou ir em frente.
Assim, fico de pé.
Minha cabeça está girando, os pensamentos trombando uns nos outros, mas engulo as lágrimas.
Aperto os punhos e tento não gritar e guardo meus amigos no coração e
a vingança
eu penso
nunca pareceu tão doce.

14 comentários:

  1. Omg, não acredito que todos morreram :(

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  2. Você não leu o livro anterior?

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  3. Chorei demais com esse capítulo, mano eles não podem está mortos, isso não é verdade...Juju seja forte E É VINGANÇA POHA, MATA O SOGRÃO, DESGRAÇADO Ò.Ó

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  4. Esse povo pula fragmenta-me, e fica sofrendo aí! Hahaha. ..
    Bianca

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  5. Gnt leiam o livro anterior Fragmenta-me vcs vão saber direitinho o que tá rolando

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  6. Não estraguem a surpresa... KKK mentira.
    MAS MESMO ASSIM, CONSEGUI FICAR TRISTISSIMA COM A MORTE DE TODOS. CARA, IMAGINA O QUE É PERDER A ÚNICA PESSOA QUE SE IMPORTOU COM VOCÊ? TIPO O ADAM, OU ENTÃO UM AMIGO ESPECIAL, TIPO O KENJI E O LINDO DO JAMES??? NÃO DÁ...
    PRA QUEM LEU O FRAGMENTA-ME, TO SURPRESA COMIGO MESMA...
    #TeamWarner

    ~POLLY~

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  7. Não da nem pra fazer comentários agora kkk
    Parece que tem um monte de gente aqui que não leu Fragmebta-me.
    Se eu começar a comentar vou acabar dando spoiler pra quem nao leu o livro anterior o 2.5

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  8. pqp n aguento essa escrita..torturante demais

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  9. Pois é... A Karina coloca em ordem os livros e o povo pula pq acha que vai ter spoiler 😂😂😂 Gente, os livros estavam na ordem certinha :3

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  10. "A vida sem Adam.
    Eu me aperto bastante, rezo para que a dor passe.
    Não passa.
    Adam se foi."

    E teve alguém que ousou dizer que a Juliette terminou com ele e era justificativa pro Adam fazer o que fez dps de ter feito o certo. A primeira pessoa que ela pensou foi nele >_> Dps no fofo do Kenji e no James. Não posso falar mais pq vai que tenha mais gente que tenha pulado "Fragmenta-me" de novo -.-

    Mas sim, o primeiro pensamento do Adam foi certo. Só que dps, ele não pensar em salvar a Juju foi péssimo 😥 Só pra mostrar quem é o verdadeiro mozão 💙

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  11. vai lá Juju e acaba com a raça deles

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  12. Adam, Kenji, James e os outros que foram para a casa de Adam Sobreviveram. Só que não tem com Warner saber disso, ou seja pensa que todos morreram. Mas como Juliette acredita que todos morreram agora que vingança.Vá em frente,garota.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!