5 de janeiro de 2017

2

— Oi.
Juliette está parada perto da minha mesa, encarando-me como se talvez estivesse nervosa. Como se nunca tivéssemos feito isto antes.
— Ei — digo.
O simples fato de ver o rosto dela ainda faz meu peito doer, mas a verdade é que eu não tenho mais ideia do que está acontecendo entre nós. Prometi a ela que encontraria uma maneira de passarmos por isto — e tenho treinado como um condenado, como sempre fiz —, mas, depois da noite passada, não vou mentir: estou um pouco apavorado. Tocar nela é mais sério do que eu já pensei.
Ela poderia ter matado Kenji. Ainda não tenho certeza se não matou.
Porém, mesmo depois de tudo isso, ainda quero um futuro com ela. Quero saber que, um dia, poderemos nos acomodar em algum lugar seguro e ficar juntos em paz. Eu não estou pronto para desistir desse sonho ainda. Não estou pronto para desistir de nós.
Faço um aceno da cabeça para um lugar vazio.
— Quer se sentar?
Ela se senta.
Ficamos em silêncio por um tempo, ela cutucando sua comida, eu, a minha. Costumamos comer a mesma coisa todas as manhãs: uma colher cheia de arroz, uma tigela de caldo de legumes, um pedaço de pão duro como pedra e, em dias bons, uma pequena caneca de pudim.
Não é incrível, mas dá conta do serviço, e geralmente ficamos gratos pela comida. No entanto, hoje, nenhum de nós parece estar com apetite.
Ou com voz.
Eu suspiro e desvio o olhar. Não sei por que é tão difícil conversar com ela nesta manhã — talvez seja a ausência de Kenji —, mas as coisas parecem diferentes entre nós ultimamente.
Quero tanto estar com ela, mas estar com ela nunca pareceu mais perigoso do que parece agora. A cada dia, nós nos sentimos mais distantes. E, às vezes, eu penso que, quanto mais tento segurá-la, mas ela tenta se libertar.
Eu queria que James se apressasse e pegasse seu café da manhã. Tê-lo aqui poderia deixar essa situação mais fácil. Eu me endireito no assento e olho ao redor pelo salão, mas o vejo conversando com um grupo de amigos. Tento acenar para chamá-lo, mas ele está rindo de alguma coisa e nem repara em mim. Esse menino é meio incrível. Ele é um cara tão sociável — e tão popular por aqui — que eu me pergunto de quem puxou isso. De muitas formas, ele é meu exato oposto. Ele gosta de dar abertura para muitas pessoas; eu gosto de manter a maioria das pessoas longe.
Juliette é a única verdadeira exceção a essa regra.
Olho de volta para ela e percebo os círculos vermelhos em volta dos seus olhos, a maneira como eles se mexem depressa observando o salão. Ela parece tanto bem acordada quanto loucamente exausta e aparentemente não consegue ficar sentada quieta; seu pé está batendo depressa no chão debaixo da mesa e suas mãos estão tremendo um pouco.
— Ei, você está bem?— pergunto.
— Sim, com certeza — ela fala, rápido demais.
Mas está fazendo que não com a cabeça.
— Você, hum, dormiu o suficiente a noite passada?
— Sim — ela diz, repetindo as palavras algumas vezes.
Ela faz isso de vez em quando, fala a mesma palavra de novo e de novo. Nem tenho certeza se ela percebe.
— Você dormiu bem? — ela pergunta.
Seus dedos ficam tamborilando contra a mesa e, depois, contra seus braços. Ela continua olhando ao redor pelo salão. Nem espera que eu responda antes de dizer:
— Já soube de alguma coisa sobre o Kenji?
É quando eu entendo.
É claro que ela não está bem. É claro que ela não dormiu nada na noite anterior. Na noite anterior ela quase matou um dos seus amigos mais próximos. Ela havia acabado de começar a confiar e a não ter medo de si mesma; agora, está de volta ao começo. Merda. Já me arrependo de ter tocado no assunto.
— Não, ainda não.
Eu me encolho.
— Mas — digo, esperando mudar de assunto — ouvi dizer que o pessoal está furioso com o Castle por causa do que aconteceu com o Warner.
Eu limpo a garganta.
— Ficou sabendo que ele fugiu daqui?
Juliette deixa sua colher cair.
Ela faz barulho no chão, mas Juliette não parece notar.
— Sim — ela diz em voz baixa.
Está piscando os dois olhos em direção à sua xícara d’água, segurando o guardanapo, dobrando-o e desdobrando-o.
— As pessoas estavam falando sobre isso nos corredores. Sabem como ele escapou?
— Acho que não.
Eu franzo as sobrancelhas olhando na direção dela.
— Ah.
Ela fica repetindo isso também.
Sua voz está estranha. Até assustada; Juliette sempre foi um pouco diferente de todas as outras pessoas — ela parecia uma gatinha enlouquecida e assustada quando a vi pela primeira vez naquela cela —, mas vinha melhorando bastante nos últimos meses. Assim que ela finalmente começou a confiar em mim, a situação mudou. Ela se desenvolveu. Começou a conversar (e a comer) mais e até ficou um pouco arrogante. Eu adorei vê-la voltar à vida. Eu adorei estar com ela, observando-a se encontrar.
Acho que essa experiência com Kenji a fez recuar muito.
Posso notar que só metade dela está aqui, porque seus olhos estão sem foco e suas mãos estão se mexendo de forma mecânica. Ela faz muito isso. É como se, às vezes, simplesmente desaparecesse, recuasse para um canto do seu cérebro e ficasse lá por um tempo, pensando em alguma coisa sobre a qual ela nunca falaria. Agora, está agindo de uma forma bastante parecida com a maneira como agia antigamente, agora ela está comendo o arroz frio do prato um grão por vez, contando cada mordida em voz baixa.
Estou prestes a tentar falar com ela de novo quando James enfim volta para a mesa. Eu me levanto na mesma hora, grato pela oportunidade de acabar com o constrangimento.
— Ei, amigão… Por que não nos despedimos do jeito certo?
— Ah — James diz, deslizando sua bandeja para a mesa. — Certo, é claro.
Ele dá uma olhada para mim antes de olhar para Juliette, que agora está mastigando um grão de arroz com muito cuidado.
— Oi — ele diz para ela.
Juliette pisca algumas vezes, seu rosto se abrindo em um grande sorriso no instante em que ela repara nele. Eles a transformam, esses sorrisos. E são esses momentos que me matam um pouco.
— Oi — ela fala, tão feliz tão de repente que seria de imaginar que James é a pessoa mais incrível do mundo para ela. — Como você está? Dormiu bem? Quer se sentar? Eu só estava comendo um pouco de arroz; você quer arroz?
James já está corando. Ele provavelmente comeria seu próprio cabelo se ela pedisse. Eu reviro os olhos e o arrasto para longe, dizendo a Juliette que voltaremos logo.
Ela faz que sim com a cabeça. Eu olho por cima do ombro e conforme nos afastamos percebo que ela não parece se importar de ficar sozinha por um tempo. Ela enfia o talher em alguma coisa em seu prato e erra, e é a última coisa que a vejo fazer antes de contornarmos o canto da parede.

2 comentários:

  1. Acho que ele ficaria com muita raiva se descobrisse o motivo de ela estar tão desnorteada.

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