26 de janeiro de 2017

Capítulo 2

Will passou uma tarde de caça mal-sucedida.
Jenny tinha expressado a necessidade de ter veado fresco em seu restaurante e ele tinha ficado feliz em tentar conseguir um. Mas, como ele sabia, às vezes até mesmo o mais habilidoso dos caçadores pode voltar para casa de mãos vazias. De certa forma, isso era parte do fascínio da caça. O único veado que ele tinha visto nesta longa tarde tinha sido uma corça jovem e seu jovem filhote, obviamente, ainda dependente de sua mãe.
Ele sorriu para o par e os espantou de seu caminho, rindo baixinho quando eles saltaram para as árvores.
— Vão embora e cresçam um pouco — ele disse, acrescentando em uma reflexão tardia — os dois.
Como ele caçava para fornecer alimentos e não por qualquer sensação de prazer em matar, não ficou decepcionado com a sua falta de sucesso, mas aceitou-a filosoficamente. Jenny tinha outra carne que ela poderia oferecer em seu cardápio. Não era como se as pessoas fossem ficar com fome. Então, ele estava relativamente de bom humor quando andava de volta para Redmont.
Relativamente. Havia algo que ainda o chateava. Quanto mais pensava sobre isso na viagem de regresso, mais chateado ficava.
Quando estava retirando a sela de Puxão e tirando os arreios, o pequeno cavalo olhou com curiosidade para ele.
Por que essa cara triste?
Puxão trocou o peso das patas.
— É o discurso que eu farei no casamento — Will respondeu, esfregando o cavalo com pedaço de cobertor velho, procurando pelo esfregão para escová-lo – o cobertor de Puxão tinha adquirido um monte de rebarbas enquanto haviam avançado pelo mato em sua busca infrutífera pela caça. — Está me deixando preocupado.
É por isso que os cavalos não discursam.
— Os cavalos não têm casamentos também, até onde eu sei — Will disse a ele.
Verdade. Mas temos rédeas para nos controlar.
As orelhas de Puxão ergueram-se com apreciação de sua própria inteligência. Ele emitiu o equivalente a um risinho de cavalo.
Will suspirou.
— Você não tem nada melhor, não é? — disse, e passou a escova nele.
Puxão ficou parado por alguns minutos, apreciando o contato e a agradável sensação áspera das cerdas duras passando por seus pelos.
— Halt não ficou muito impressionado com ele — disse Will depois de alguns minutos de silêncio.
Halt raramente fica impressionado com qualquer coisa.
Halt e Puxão tinha um histórico de discordância, emanado das crenças de Halt sobre quantas maçãs eram boas para um cavalo.
— Isso é verdade. Mas eu perguntei a Pauline e mesmo que ela não tenha dito isso diretamente, acho que ela não gostou também.
Ele esperou, pausando entre as escovadas. Mas não houve resposta. Ele não tinha certeza se isso era uma coisa boa ou não. Talvez Puxão estivesse tentando encontrar uma maneira delicada de dizer que se Pauline não gostou, ele poderia ter um problema.
Então, quando ele pensava sobre isso, percebeu que Puxão raramente era discreto sobre qualquer coisa. Ele se inclinou para um lado para dar uma olhada no rosto do cavalo. Talvez ele tivesse dormido em pé. Cavalos podiam fazer isso, ele sabia. Mas os grandes olhos marrons piscaram e olharam para ele.
Uma ideia ocorreu a Will. Uma possível forma de resolver a questão em sua própria mente. Ele terminou a última de suas escovadas, recuando um passo para admirar quão limpo os pelos do cavalo ficaram, como normalmente parecia.
— Talvez eu pudesse ler um pouco dele para você — sugeriu.
Puxão mudou de uma pata para a outra novamente. Mas agora o movimento era mais cauteloso do que antes.
Eu lhe disse. Os cavalos não fazem discursos.
— Não. Mas você vai saber se tiver alguma coisa boa se ouvi-la — Will disse a ele.
Ele deixou a escova de lado e alcançou seu bolso interior. Puxão rolou um olho em dúvida.
E se não?
— E se você não souber se alguma coisa é boa? — Will perguntou.
Não. E se eu não ouvir algo bom?
Will foi pego de surpresa por esta falta de fé.
— Oh, você vai — disse ele rigidamente. — Apenas ouça.
Eu não ganhei minha maçã ainda.
— Você vai tê-la assim que ouvir meu discurso.
É um discurso longo?
— Tem várias páginas agora. Mas está tão bom, não vai parecer demorado. Você estará pedindo mais no final.
Ele olhou para o cavalo e ficou surpreso ao ver uma expressão cética em seu rosto. Will não tinha ideia de que os cavalos poderiam mostrar tanta emoção. Era inquietante. Ele desdobrou as folhas em que havia escrito o discurso, alisou-o e limpou a garganta.
Saúde.
— O quê?
Você espirrou.
— Eu não espirrei. Eu limpei minha garganta. Desse jeito.
Ele fez isso de novo. Puxão piscou várias vezes.
Soou como um espirro para mim. Poderia ser a peste.
— Não foi um espirro e não é a peste. Você vai ouvir este discurso, quer você goste ou não — disse com firmeza. Então, ele apressou-se a acrescentar — Embora eu tenha certeza de que você vai gostar. Está muito bom.
Puxão emitiu um estrondo profundo no abdômen. Will olhou de soslaio para ele. Isso soou como crítica, ele pensou. Então, ele percebeu que não poderia ter sido, já  não tinha começado o discurso ainda.
Ele alisou as páginas mais uma vez e começou a ler.
— ... Seria denodado da minha parte não reconhecer nesta conjectura de tempo para esta assembleia diversificada de pessoas, os quais assiduamente zelavam ás necessidades dos...
Will parou. Ele estava lendo por alguns minutos e Puxão não tinha mexido. Agora, ele não tinha certeza, mas pensou que Puxão tinha feito um barulho, um ruído profundo, como um zumbido.
— O que foi isso? — ele perguntou.
Mas não houve resposta imediata. Encolhendo os ombros, ele olhou de volta para a folha de papel na mão.
— Onde eu estava? Ah, sim... para esta assembleia diversificada...
O barulho veio de novo. Desta vez, ele tinha certeza de que vinha de Puxão. Parecia estar centrado em sua garganta e no peito. Em seguida, o corpo inteiro do cavalo estremeceu. Will olhou para ele com curiosidade. Talvez suas belas palavras tenham levado seu velho amigo às lágrimas, ele pensou. Ele deu a volta para encarar Puxão quando o ruído monótono foi feito mais uma vez. Os olhos do cavalo estavam bem fechados e os seus joelhos estavam travados. Ele estava dormindo. Will percebeu, quando o ruído veio novamente, que ele estava roncando.
— Seu miserável infiel.
Puxão roncou novamente.
Descontente, Will dobrou a folha de papel e o guardou novamente no bolso interno. Ele virou-se e saiu do estábulo. Quando chegou à porta, o som do zumbido irregular parou.
Ele olhou para trás até Puxão.
Onde está a minha maçã?
Ele olhou para o cavalo.
— Eu sinto muito. Não tenho uma. Talvez você pudesse sonhar com uma.
Ele saiu do estábulo com as costas rígidas, cada linha do seu corpo mostrando como ele estava afrontado pelo comportamento de seu cavalo. Ele chegou à frente da cabana, onde Ébano estava esparramada ao sol. Quando ele subiu os degraus para a cabana, um dos seus olhos abriu-se e sua pesada cauda bateu uma vez nas tábuas da varanda.
Ele a olhou por um momento. Os cães nunca julgavam, pensou ele. Um cão ficaria do seu lado, você estando certo ou errado. Aos olhos de um cão, você não poderia fazer nada errado. Um cão sempre daria uma opinião honesta.
— Boa menina, Eb — disse ele e sua cauda bateu novamente.
Ele sentou-se em um banquinho contra a parede da cabana. Ébano observou-o, esticando a cabeça para trás para vê-lo sem mover o corpo. Ele estalou os dedos para ela.
— Venha aqui, Ébano. Vem aqui, menina.
Com um gemido, ela virou de barriga, depois se levantou e sacudiu-se. Então, foi até ele, de cabeça baixa, o rabo abanando lentamente.
— Deita.
Ele gesticulou e ela baixou a barriga e os pés até o chão, com os olhos fixos nele. Ele pegou o papel do bolso mais uma vez e olhou para os seus grandes e bonitos olhos. Um marrom escuro, o outro um azul um pouco maníaco.
— Eu vou ler um discurso, Ébano — ele comunicou.
Seu rabo abanou uma vez.
— E eu quero a sua opinião honesta.
Os olhos dela nunca vacilaram. Ele desdobrou o papel e começou a ler. Depois de alguns parágrafos, Ébano suspirou e baixou o nariz até suas patas dianteiras estendidas, mas continuou a observá-lo, aparentemente sem pestanejar, enquanto lia as frases bonitas de seu discurso. Finalmente, chegou ao término, uma parte que estava particularmente orgulhoso. Ele leu-o, em seguida, leu novamente para dar ênfase.
— Bem — ele disse — o que você acha?
Os olhos continuaram a olhar para ele. O nariz ainda descansando nas patas dianteiras. Não houve nenhum movimento. Mas, pelo menos, ele pensou, ela estava acordada.
— Você gostou dele, Ébano? — ele perguntou e o rabo bateu uma vez no assoalho.
O arqueiro sorriu, estendeu a mão e afagou sua orelha. Um bom cão nunca o desapontaria.
— É muito bom, não é? — perguntou.
Não houve reação do cão.
— Está bom, Ébano?
A cauda bateu no assoalho novamente e ele foi assaltado por uma dúvida terrível. Ele olhou para o cão, seus olhares se encontraram.
— Está bom? — Repetiu ele.
Não houve reação.
— Está bom, Ébano?
Abano de rabo.
— É a maior carga de lixo que você já ouviu?
Nenhuma reação.
— É a maior carga de lixo que você já ouviu... Ébano?
Abano de rabo.
Ele olhou para ela.
— Você está apenas reagindo quando digo seu nome, não é?
Nenhuma reação.
— Você está apenas reagindo a seu nome, não é... Ébano?
Abano.
Will ficou de pé, sacudindo a cabeça em aborrecimento.
— Eu simplesmente não posso confiar em ninguém para me dar uma resposta honesta. Bem, não em Puxão. E você também, Ébano.
Abano de rabo.
Com grande indignação, Will entrou na cabana e fechou a porta firmemente atrás dele.
Na varanda, Ébano ficou olhando para a porta por alguns segundos. Em seguida, quando Will não saiu novamente, ela levantou-se, sacudiu-se e caminhou até uma mancha de sol quente no chão. Com um gemido de prazer, ela caiu para o lado, pernas estendidas, cabeça inclinada para trás e foi dormir.

5 comentários:

  1. Kkkkkkkkkkkk. Rindo até 2050, um capítulo só de diálogo animal. Se fizessem um filme, teriam que colocar as falas do Puxão, são épicas. Ele me lembra o Blakjack!! Droga...comparei os livros de novo.

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    Respostas
    1. kkkkkkkkkkkkkkkkkk Parece mesmo, Léria. Os cavalos são demais

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  2. Achei uma errinho aqui:
    "Quando estava retirando a sela de Puxão e tirando os arreios, o pequeno cavalo olhou com curioso para ele.''
    Não seria: olhou curioso ou olhou com curiosidade?

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  3. kkkkkkkkk, até os animais não gostaram do discurso! kkkkkk, esse capitulo foi d+!
    Ass:Bina.

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Boa leitura :)