2 de janeiro de 2017

29

A manhã é um borrão.
Há tanto a fazer, tanto para se preparar e há tantas pessoas se preparando. Porém, sei que, no final das contas, essa batalha é minha; tenho assuntos não resolvidos com os quais lidar. Sei que essa reunião não tem nada a ver com o comandante supremo. Ele não tem motivo para se preocupar tanto comigo. Nem o conheço; não devia ser nada além de descartável para ele.
É uma jogada do Warner.
Com certeza foi Warner que pediu por mim. Isso tem algo e tudo a ver com ele; é um sinal de fumaça dizendo-me que ele ainda me quer e ainda não desistiu. E tenho de enfrentá-lo.
Posso apenas imaginar como ele conseguiu fazer seu pai mexer esses pauzinhos por ele.
Acho que descobrirei logo.
Alguém está chamando meu nome.
Paro no lugar.
Viro-me.
James.
Ele corre até mim do lado de fora da sala de jantar. Seu cabelo, tão loiro; seus olhos, tão azuis, iguais aos do irmão mais velho. Mas senti saudades do rosto dele de uma maneira que não tem nada a ver com o quanto ele me lembra o Adam.
James é uma criança especial. Uma criança esperta. O tipo de garoto de dez anos que é sempre subestimado. E está me perguntando se podemos conversar.
Ele aponta para um dos muito corredores.
Eu concordo balançando a cabeça. Sigo-o por um túnel vazio.
Ele para de andar e vira-se para o outro lado por um instante. Fica ali, parecendo desconfortável. Estou admirada por ele querer falar comigo; não troquei uma única palavra com ele em três semanas. Ele começou a passar o tempo com as outras crianças do Ponto Ômega logo depois de chegarmos e, depois, as coisas de alguma forma ficaram esquisitas entre nós. Ele parou de sorrir quando me via, parou de acenar para me cumprimentar do outro lado da sala de jantar. Sempre imaginei que ele ouvira rumores a meu respeito com as outras crianças e decidira que era melhor manter distância. E, agora, depois de tudo o que aconteceu a Adam — depois do nosso show no túnel —, fico chocada por ele querer dizer qualquer coisa para mim.
A sua cabeça ainda está baixa quando ele sussurra:
— Eu estava muito, muito bravo com você.
E as costuras do meu coração começam a estourar. Uma por uma.
E ele levanta o olhar. Olha para mim como se tentasse avaliar se suas primeiras palavras me chatearam ou não, se vou gritar com ele ou não por ser sincero comigo. E não sei o que ele vê em meu rosto, mas parece desarmá-lo.
Ele enfia as mãos nos bolsos. Esfrega o tênis formando círculos no chão. Diz:
— Você não me disse que já matou alguém.
Eu respiro, trêmula, e me pergunto se, algum dia, haverá uma maneira adequada de reagir a uma afirmação como essa. Pergunto-me se alguém, além de James, um dia dirá algo assim para mim. Acho que não. Assim, apenas balanço a cabeça. E digo:
— Sinto muito. Eu devia ter contado a v...
— E por que não contou? — ele grita, deixando-me chocada. — Por que não me contou? Por que todo mundo sabia, menos eu?
Fico surpresa por um instante, surpresa com a dor na voz dele, a raiva em seus olhos. Eu nunca soube que ele me considerava uma amiga e percebo que devia ter imaginado. James não conheceu muitas pessoas na vida; Adam é o seu mundo. Kenji e eu éramos duas das únicas pessoas que ele conheceu antes de chegarmos ao Ponto Ômega. E, para uma criança órfã nestas circunstâncias, deve ter sido muito importante ter novos amigos. Porém, estive tão preocupada com os meus próprios problemas que nunca pensei que James se importaria tanto. Nunca percebi que minha ausência pareceria uma traição para ele. Que os rumores que ouviu de outras crianças devem tê-lo machucado tanto quanto me machucaram.
Assim, resolvo me sentar, bem ali no túnel. Deixo um espaço para ele se sentar ao meu lado. E lhe digo a verdade.
— Não queria que você me odiasse.
Ele olha para o chão. Diz:
— Eu não a odeio.
— Não?
Ele mexe nos cadarços do tênis. Suspira. Balança a cabeça.
— E não gostei do que estavam falando sobre você — ele conta, com a voz mais baixa agora. — As outras crianças. Elas diziam que você era má e cruel e eu falava que você não era. Eu dizia a elas que você era calma e gentil. E que você tem um cabelo bonito. E elas diziam que eu estava mentindo.
Eu engulo em seco, com dificuldade, atingida no coração.
— Você acha que tenho um cabelo bonito?
— Por que você o matou? — James pergunta, com os olhos muito abertos, muito preparados para entender. — Ele estava tentando machucá-la? Você estava assustada?
Eu respiro algumas vezes antes de responder.
— Você se lembra — digo a ele, sentindo-me nervosa agora — do que Adam lhe contou sobre mim? Sobre eu não poder tocar em nenhuma pessoa sem machucá-la?
James concorda, balançando a cabeça.
— Bem, foi isso que aconteceu — eu conto. — Toquei nele e ele morreu.
— Mas por quê? — ele questiona. — Por que você tocou nele? Queria que ele morresse?
Meu rosto parece porcelana quebrada.
— Não — digo a ele, balançando a cabeça. — Eu era nova... Apenas alguns anos mais velha que você, na verdade. Não sabia o que estava fazendo. Não sabia que podia matar as pessoas ao tocar nelas. Ele tinha caído na mercearia e eu estava apenas tentando ajudá-lo a se levantar.
Uma longa pausa.
— Foi um acidente.
James fica em silêncio por alguns instantes.
Ele reveza entre olhar para mim, olhar para os seus tênis, para os joelhos que encolheu até o peito. Ele está olhando para o chão quando, enfim, sussurra:
— Desculpe-me por ter ficado bravo com você.
— Desculpe-me por não ter contado a verdade — eu sussurro de volta.
Ele balança a cabeça para cima e para baixo. Coça um ponto no nariz. Olha para mim.
— Então podemos ser amigos de novo?
— Você quer ser meu amigo?
Pisco com força contra a ardência em meus olhos.
— Você não tem medo de mim?
— Você vai ser má comigo?
— Nunca.
— Então, por que teria medo de você?
E eu rio, principalmente porque não quero chorar. Balanço a cabeça muitas vezes.
— Sim — digo a ele. — Vamos ser amigos de novo.
— Ótimo — ele diz e fica em pé. — Porque não tomo mais o café da manhã com as outras crianças.
Eu fico em pé. Tiro a poeira da parte de trás do meu traje.
— Tome conosco — eu o convido. — Você sempre pode se sentar à nossa mesa.
— Certo.
Ele concorda, balançando a cabeça. Desvia o olhar de novo. Puxa um pouco a orelha.
— Você sabia que Adam fica muito triste o tempo todo?
Ele vira os olhos azuis para mim.
Não consigo falar. Não consigo falar nada.
— Adam disse que está triste por sua causa.
James me olha como se quisesse que eu negasse.
— Você o machucou por acidente também? Ele ficou na ala médica, você sabia? Estava doente.
E acho que vou desmoronar, bem aqui, mas, de alguma forma, isso não acontece. Não posso mentir para ele.
— Sim — eu confirmo. — Eu o machuquei por acidente, mas, agora... a-agora eu fico longe dele. Assim, não posso mais machucá-lo.
— E por que ele ainda está tão triste? Se você não o está mais machucando?
Estou balançando a cabeça, apertando os lábios porque não quero chorar e não sei o que dizer. E James parece entender.
Ele joga os braços em volta de mim.
Bem em volta da minha cintura. Abraça-me e me diz para não chorar porque ele acredita em mim. Acredita que só machuquei Adam por acidente. E o menininho também. E, depois, ele diz:
— Tenha cuidado hoje, certo? E dê uma porrada neles também.
Fico tão admirada que levo um instante para perceber que ele não apenas usou uma palavra feia, como acabou de tocar em mim pela primeira vez. Tento segurá-lo pelo máximo de tempo que posso sem deixar a situação estranha, mas acho que meu coração ainda está em uma poça no chão.
E é quando percebo: todo mundo sabe.
James e eu caminhamos para a sala de jantar juntos e posso dizer que os olhares são diferentes agora. Os rostos estão cheios de orgulho, força e reconhecimento quando me veem. Sem medo. Sem desconfiança. Oficialmente, tornei-me uma deles. Vou lutar com eles, por eles, contra o mesmo inimigo. Posso ver o que está nos olhos deles porque estou começando a me lembrar dessa sensação.
Esperança.
É como uma gota de mel, um campo de tulipas florescendo na primavera. É chuva fresca, uma promessa sussurrada, um céu sem nuvens, a pontuação perfeita no final de uma frase.
E é a única coisa no mundo que me mantém em pé.

17 comentários:

  1. Já tava con saudade do James <3

    Essa luta me da um friozinho na barriga, porque se for como sempre é alguém que eu gosto vai morrer x.x

    Carla

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  2. "Ele joga os braços em volta de mim.
    Bem em volta da minha cintura. Abraça-me e me diz para não chorar porque ele acredita em mim. Acredita que só machuquei Adam por acidente. E o menininho também." Ai o James é um fofo by Rô

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  3. Que lindo e fofo é o James S2 *-*

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  4. James seu fofo, também quero abraço *-* finalmente ela está sendo aceita, e principalmente ela está compreendendo d q existe coisas maiores pra se preocupar do q com os o próprios problemas, q existe algo maior pelo q lutar *-*

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  5. Esse capitulo foi... O amor é a única coisa pela qual vale pena lutar.

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  6. Lindo, lindo, lindo... Sabe quando um capitulo é tão apaixonante assim significa que os próximos serão osso duro de roer. E toda vez que eu vejo a palavra esperança eu me lembro de Trono de Vidro♥

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    1. Verdade, parece que algo difícil de aceitar está por vir. As vezes quando vejo a palavra esperança lembro de jogos vorazes '-'
      Enfim, que bom que James está do lado dela,e que os outros vão começar aceita-la, gente ele é uma graça!
      Espero ver o Warner
      #TeamWarner

      ~polly~

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    2. Eu também me lembrei de Jogos Vorazes.
      A ESPERANÇA É A ÚNICA COISA MAIS FORTE DO QUE O MEDO.
      Eu aplico essa frase à minha vida.

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  7. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 00:29

    — Tenha cuidado hoje, certo? E dê uma porrada neles também kkkkk o James é um amor <3 tlvz eu dê esse nome ao meu filho um dia

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    1. Acho lindo esse nome.Tomara que seu futuro filho seja tão fofo e esperto quanto o James.

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  8. James♥♥♥♥♥
    Awn♥♥♥
    Que fofo mds....ai me coriii

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  9. Queria sentir todas as emoções, mas eu confundi e acabei lendo fragmenta-me antes desse 🤦

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  10. Meus deuses do Olimpo, acho que me apaixonei pelo James. Não quero mais o Warner

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  11. James...Brendan...dois fofos rsrs pena que o Kenji disse ao Brendan que ele não tem chance com ela...

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    1. Eu teria pena do Brendan se ele continuasse a nutrir expectativas com a Juliette.No no lugar do Kenji,teria feito o mesmo.Amigos falam a verdade mesmo que doa.

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Boa leitura :)