6 de janeiro de 2017

28

Estou parada no meio da sala, olhando para o nada.
De repente, estou congelando. Minhas mãos, penso, estão tremendo. Ou talvez sejam meus ossos.
Talvez meus ossos estejam tremendo. Eu me mexo mecanicamente, muito devagar, a mente ainda confusa. Estou vagamente ciente de que alguém pode estar me dizendo alguma coisa, mas estou muito concentrada em pegar meu casaco porque estou com muito frio. Está tão frio aqui. Preciso mesmo do meu casaco. E talvez das minhas luvas. Não consigo parar de tremer.
Eu visto o casaco. Enfio as mãos nos bolsos. Sinto que alguém pode estar falando comigo, mas não consigo ouvir nada em meio à estranha névoa que silencia meus sentidos. Cerro meus punhos e meus dedos e apalpo algo de plástico.
pager. Eu tinha quase me esquecido.
Eu o tiro do bolso. É uma coisinha pequena; um retângulo fino e preto com um botão não saliente que ocupa todo o seu comprimento. Eu o aperto sem pensar. Eu o aperto de novo e de novo e de novo, porque a ação me acalma. Conforta-me, de alguma forma. Clique clique. Gosto do movimento repetitivo. Clique. Clique clique. Não sei o que mais fazer.
Clique.
Mãos se apoiam em meus ombros.
Eu me viro. Castle está parado logo atrás de mim, os olhos pesados de preocupação.
— Você não vai embora — ele me diz. — Vamos resolver as coisas. Vai ficar tudo bem.
— Não.
Minha língua é pó. Meus dentes quebram-se em pedacinhos.
— Tenho de ir.
Não consigo parar de apertar o botão deste pager.
Clique.
Clique clique.
— Venha se sentar — Castle está falando para mim. — Adam está chateado, mas ele vai ficar bem. Tenho certeza de que ele não falou sério.
— Estou bem certo de que falou — Ian diz.
Castle lança um olhar cortante para ele.
— Você não pode ir embora — diz Winston. — Achei que fôssemos dar umas porradas juntos. Você prometeu.
— É — Lily entra na conversa, tentando soar animada.
Porém, seus olhos estão cuidadosos, apertados de temor ou preocupação e percebo que ela está morrendo de medo por mim.
Não de mim.
Por mim.
É a sensação mais estranha.
Clique clique clique.
Clique clique.
— Se você for embora — ela está dizendo, tentando sorrir —, teremos que viver assim para sempre. E eu não quero viver como um monte de meninos fedidos pelo resto da vida.
Clique.
Clique clique.
— Não vá embora — James pede.
Ele parece muito triste. Muito sério.
— Eu sinto muito pelo Adam ter sido mau com você. Mas não quero que você morra — ele declara. — E eu não queria que você estivesse morta. Juro que não.
James. Doce James. Seus olhos partem meu coração.
— Não posso ficar.
Minha voz soa estranha para mim. Quebrada.
— Ele falou sério...
— Vamos ser um grupo triste e patético se você for embora — Brendan me interrompe. — E tenho de concordar com a Lily. Não quero viver assim por muito mais tempo.
— Mas como...
A porta da frente é aberta com violência.
— JULIETTE... Juliette...
Eu me viro.
Warner está parado ali, o rosto corado, o peito subindo e descendo, encarando-me como se eu pudesse ser um fantasma. Ele atravessa a sala a passos largos antes de eu ter chance de dizer uma palavra e aninha meu rosto nas mãos, seus olhos me procurando.
— Você está bem? — ele está dizendo. — Meu Deus... Você está bem? O que aconteceu? Você está bem?
Ele está aqui.
Ele está aqui e tudo o que quero fazer é desmoronar, mas não o faço.
Não vou fazer.
— Obrigada — consigo dizer para ele. — Obrigada por ter vindo...
Ele me envolve em seus braços, sem se importar com os sete pares de olhos que nos observam. Ele apenas me abraça, um braço apertado em volta de minha cintura, o outro colocado atrás de minha cabeça. Meu rosto está enterrado em seu peito e o calor dele é muito familiar para mim agora.
Estranhamente reconfortante. Ele sobe e desce a mão pelas minhas costas, tomba sua cabeça na direção da minha.
— Qual é o problema, amor? — ele sussurra. — O que aconteceu? Conte para mim, por favor...
Eu pisco.
— Quer que eu a leve de volta?
Não respondo.
Não sei mais o que quero ou preciso fazer. Todos estão me dizendo para ficar, mas esta não é a casa deles. Esta é a casa de Adam e está bem claro que ele me odeia agora. No entanto, eu também não quero deixar meus amigos. Não quero deixar Kenji.
— Você quer que eu vá embora? — Warner pergunta.
— Não — digo rápido demais. — Não.
Warner inclina-se para trás, só um pouco.
— Diga o que você quer — ele pede com desespero. — Diga para mim o que fazer — ele fala — e eu farei.
— Isto é, de longe, a merda mais louca que já vi — Kenji declara. — Eu realmente nunca teria acreditado. Nem em um milhão de anos.
— É como uma novela.
Ian faz que sim com a cabeça.
— Mas com atores piores.
— Eu acho meio fofo — Winston diz.
Eu recuo depressa, meio girando. Todos estão olhando para nós. Winston é o único que está sorrindo.
— O que está acontecendo? — Warner pergunta para eles. — Por que ela parece prestes a chorar?
Ninguém responde.
— Cadê o Kent? — Warner pergunta, os olhos se apertando enquanto ele estuda os rostos dos outros. — O que ele fez com ela?
— Ele não está — Lily conta. — Saiu faz pouco tempo.
Os olhos de Warner se escurecem conforme ele processa a informação. Vira-se para mim.
— Por favor, diga que você não quer mais ficar aqui.
Eu baixo a cabeça para as minhas mãos.
— Todos querem ajudar... a lutar... exceto Adam. Mas eles não podem sair daqui. E eu não quero deixá-los para trás.
Warner suspira. Fecha os olhos.
— Então fique — ele diz, com gentileza. — Se é o que você quer. Fique aqui. Eu sempre posso vir encontrá-la.
— Não posso. Tenho de ir. Não tenho permissão para voltar para cá.
— O quê?
Raiva. Entra e sai dos olhos dele.
— O que quer dizer com não ter permissão?
— Adam não quer mais que eu fique aqui. Eu tenho que ir embora antes de ele voltar.
O queixo de Warner fica duro. Ele me encara pelo que parece durar um século. Eu quase posso vê-lo pensando — sua mente trabalhando em um nível impossível — para encontrar uma solução.
— Certo — ele diz enfim. — Certo.
Ele solta o ar.
— Kishimoto — diz rapidamente, sem quebrar o contato visual comigo.
— Presente, senhor.
Warner tenta não revirar os olhos quando se vira na direção de Kenji.
— Vou acomodar seu grupo no meu espaço de treinamento privativo na base. Precisarei de um dia para acertar os detalhes, mas vou garantir que vocês tenham acesso fácil e portas abertas para entrar no terreno ao chegar. Você vai tornar sua equipe e a si mesmo invisíveis e seguir minhas ordens. Fiquem à vontade para permanecer naquele espaço até estarmos prontos para dar prosseguimento à primeira etapa do nosso plano.
Uma pausa.
— Esse esquema vai funcionar para você?
Kenji realmente parece enojado.
— De jeito nenhum.
— Por que não?
— Você vai nos trancar no seu “espaço de treinamento privativo”? — Kenji indaga, fazendo aspas com os dedos. — Por que não diz simplesmente que vai nos colocar em uma gaiola e nos matar devagar? Acha que sou imbecil? Que motivo eu teria para acreditar nesse tipo de merda?
— Vou garantir que vocês sejam alimentados bem e com regularidade — Warner diz como resposta. — Suas acomodações serão simples, mas não serão mais simples do que isto — ele diz, fazendo um gesto para a sala. — O esquema vai nos dar diversas oportunidades de nos reunirmos e estruturarmos nossos próximos passos. Vocês devem saber que estão colocando todos em risco ao ficarem em área não regulamentada. Você e seus amigos estarão mais seguros comigo.
— Mas por que você faria isso? — Ian pergunta. — Por que iria querer nos ajudar e nos alimentar e nos manter vivos? Isso não faz nenhum sentido...
— Não precisa fazer nenhum sentido.
— É claro que precisa — Lily rebate.
Seus olhos estão duros, bravos.
— Não vamos entrar em uma base militar apenas para acabarmos mortos — ela dispara. — Isso pode ser um truque doentio.
— Tudo bem — Warner diz.
— Tudo bem o quê? — Lily pergunta.
— Não venham.
— Ah.
Lily pisca.
Warner vira-se para Kenji.
— Você está recusando minha oferta oficialmente, então?
— É, não, obrigado — Kenji diz.
Warner faz que sim com a cabeça. Olha para mim.
— Vamos indo?
— Mas... Não...
Estou em pânico agora, olhando de Warner para Kenji e de volta para Warner.
— Eu não posso simplesmente ir embora... Não posso simplesmente nunca mais vê-los...
Viro-me para Kenji.
— Você vai simplesmente ficar aqui? — pergunto. — E eu nunca mais vou vê-lo?
— Você pode ficar aqui com a gente — Kenji cruza os braços na frente do peito. — Não precisa ir embora.
— Você sabe que eu não posso ficar — digo a ele, brava e ferida. — Você sabe que Adam falou sério... Ele vai enlouquecer se voltar e eu ainda estiver aqui...
— Então você simplesmente vai embora? — Kenji pergunta, cortante. — Vai abandonar todos nós — ele faz um gesto para todos — só porque o Adam decidiu ser um babaca? Você está trocando todos nós pelo Warner?
— Kenji... Eu não estou... Eu não tenho nenhum outro lugar para morar! O que eu devo...
— Fique.
— Adam vai me expulsar...
— Não, não vai — Kenji diz. — Nós não vamos deixar.
— Eu não vou forçá-lo a me aceitar. Não vou implorar para ele. Deixe-me pelo menos ir embora com um fiapo de dignidade...
Kenji joga os braços para cima, frustrado.
— Isso é bobagem!
— Venha comigo — digo a ele. — Por favor... Eu quero que a gente fique junto...
— Não podemos — ele responde. — Não podemos arriscar isso, J. Não sei o que está acontecendo entre vocês dois — ele continua, fazendo um gesto entre Warner e mim. — Talvez ele seja mesmo diferente com você, não sei, tanto faz... Mas não posso colocar a vida de todos nós em risco com base em emoções e em uma suposição. Talvez ele se importe com você — Kenji diz — mas ele não dá a mínima para o resto de nós.
Ele olha para Warner.
— Não é?
— Não é o quê? — Warner pergunta.
— Você se importa com qualquer um de nós? Com a nossa sobrevivência... o nosso bem-estar?
— Não.
Kenji quase ri.
— Bem, pelo menos você é sincero.
— A minha oferta, entretanto, ainda está de pé. E você é um idiota de recusar — Warner afirma. — Vocês todos vão morrer aqui fora, e você sabe disso melhor do que eu.
— Vamos arriscar.
— Não — eu ofego. — Kenji...
— Vai ficar tudo bem — ele fala para mim.
Sua testa está franzida, os olhos, pesados.
— Tenho certeza de que vamos encontrar uma forma de nos vermos um dia. Faça o que você precisa fazer.
— Não — estou tentando dizer.
Estou tentando respirar. Meus pulmões estão inchando, meu coração está batendo tão depressa que posso ouvi-lo martelando em meu ouvido. Estou me sentindo quente e fria e muito quente, muito fria.
E tudo em que consigo pensar é não, não era para isto estar acontecendo desta forma, não era para tudo desmoronar, não de novo não de novo...
Warner agarra meu braço.
— Por favor — ele está dizendo, com voz de urgência, em pânico. — Por favor, não faça isso, amor. Eu preciso que você não faça isso...
— Maldição, Kenji! — eu explodo, libertando-me de Warner. — Por favor, pelo amor de Deus, não seja idiota. Você tem que vir comigo... Eu preciso de você...
— Eu preciso de algum tipo de garantia, J.
Kenji está andando de um lado para o outro, as mãos no cabelo.
— Não posso apenas confiar que tudo vai ficar bem...
Eu me viro para Warner, o peito arfando, os punhos cerrados.
— Dê a eles o que eles querem. Eu não me importo o que seja — digo para ele. — Por favor, você precisa negociar. Você precisa fazer isso dar certo. Eu preciso dele. Eu preciso dos meus amigos.
Warner olha para mim por um longo tempo.
— Por favor — eu sussurro.
Ele desvia o olhar. Olha de volta para mim.
Enfim, concentra-se nos olhos de Kenji. Suspira.
— O que você quer?
— Eu quero um banho quente — ouço Winston dizer.
E, depois, ele ri.
Ele chega mesmo a rir.
— Dois dos meus homens estão doentes e feridos — Kenji diz, imediatamente mudando de atitude. A voz dele está clara, cortante. Sem sentimento. — Eles precisam de remédios e de cuidados médicos. Nós não queremos ser monitorados, não quero um toque de recolher e queremos poder comer mais do que comida tirada de máquinas. Queremos proteína. Frutas. Legumes. Refeições de verdade. Queremos acesso regular a chuveiros. Vamos precisar de roupas novas. E queremos permanecer armados o tempo todo.
Warner está tão imóvel ao meu lado que eu mal consigo ouvi-lo respirar. Minha cabeça está latejando com muita força e meu coração ainda está acelerado em meu peito, mas me acalmei o suficiente para conseguir respirar com um pouco mais de facilidade.
Warner olha para baixo, para mim.
Ele sustenta meu olhar por apenas um momento antes de fechar os olhos. Exala uma respiração cortante. Olha para cima.
— Certo — ele fala.
Kenji o está encarando.
— Espere... O quê?
— Eu vou voltar amanhã às 14 horas para guiá-lo para seu novo alojamento.
— Puta que pariu.
Winston está pulando no sofá.
— Puta que pariu puta que pariu puta que pariu.
— Você está com as suas coisas? — Warner pergunta para mim.
Faço que sim com a cabeça.
— Bom — ele diz. — Vamos.

15 comentários:

  1. — Certo — ele fala.
    Kenji o está encarando.
    — Espere... O quê?
    — Eu vou voltar amanhã às 14 horas para guiá-lo para seu novo alojamento.
    — Puta que pariu.
    Winston está pulando no sofá.
    — Puta que pariu puta que pariu puta que pariu.
    KKKKKKKKKKKKKkkk morri

    ResponderExcluir
  2. Por mais "warners" nas nossas vidas por favor Brasil!!!!

    ResponderExcluir
  3. Por mais "warners" nas
    nossas vidas por favor
    Brasil!!!! #2
    MANO EU MURRI COM O FINAL DESSE CAPÍTULO KKKKK

    ResponderExcluir
  4. — Você se importa com qualquer um de nós? Com a nossa sobrevivência... o nosso bem-estar?
    — Não.
    Kenji quase ri.
    — Bem, pelo menos você é sincero.

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk rachei

    ResponderExcluir
  5. esse é simplesmente o cap , mais doce , engraçado de todos , eu amo demais kkkkk

    ResponderExcluir
  6. — Diga o que você quer — ele pede com desespero. — Diga para mim o que fazer — ele fala — e eu farei.
    — Isto é, de longe, a merda mais louca que já vi — Kenji declara. — Eu realmente nunca teria acreditado. Nem em um milhão de anos.
    — É como uma novela.
    Ian faz que sim com a cabeça.
    — Mas com atores piores.
    — Eu acho meio fofo — Winston diz.
    kkkkkkkkkk chorei de tanto rir

    ResponderExcluir
  7. Kkkkkk. Como um capitulo pode ser doce e divertido ao mesmo tempo? Ah Warner... Pq vc tem que ser tão maravilhoso?

    ResponderExcluir
  8. #MELHOR-CAPÍTULO-2°
    RACHEI E AMEI *U* <3
    ~POLLY~

    ResponderExcluir
  9. Agora eu amo ele
    Arrependida por antes, mas o Adam não era tão babaca.....

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu sempre preferi o Warner, mas gostava do Adam... Ele teve que ficar assim pra mostrar como o Warner é superior XD

      Excluir
  10. Mano se quiser a Juju tm q sustentar o bonde kkkk
    E tm q ser cumprir cm as exigências do bonde ainda. Qnto amor...

    ResponderExcluir
  11. Relendo isso...

    Eu acho que nunca li um capítulo de livro tão maravilhoso *-* Isso que é amor de verdade.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)