2 de janeiro de 2017

27

— Juliette? Juliette!
— Por favor, acorde...
Eu sufoco um grito e sento-me na cama, com o coração batendo forte, os olhos piscando rápido demais enquanto tentam encontrar foco. Eu pisco pisco pisco.
— O que foi? O que está acontecendo?
— Kenji está lá fora — Sonya diz.
— Ele disse que precisa de você — Sara acrescenta —, que aconteceu alguma coisa...
Estou tropeçando para fora da cama tão rápido que levo as cobertas comigo. Tateio no escuro, tentando encontrar meu traje — durmo com um pijama que Sara me emprestou — e esforçando-me para não entrar em pânico.
— Vocês sabem o que está acontecendo? — pergunto. — Vocês sabem... Ele contou alguma coisa...
Sonya está colocando meu traje pelos meus braços, dizendo:
— Não, ele só disse que era urgente, que algo aconteceu, que tínhamos de acordá-la imediatamente.
— Certo. Tenho certeza de que tudo ficará bem — falo para elas, embora não saiba o porquê, ou como eu poderia tranquilizá-las. Queria poder acender uma luz, mas todas as luzes daqui embaixo são controladas pelo mesmo interruptor.
É uma das maneiras como a energia é conservada — e uma das maneiras como conseguem manter aparência de dia e noite aqui embaixo —, usando-a apenas durante horas específicas.
Por fim, consigo vestir meu traje e estou fechando o zíper, indo para a porta quando ouço Sara chamar meu nome. Ela está segurando minhas botas.
— Obrigada... Vocês duas, obrigada — digo.
Elas balançam a cabeça para cima e para baixo várias vezes.
Estou colocando as botas e correndo porta afora.
Bato de cara com algo sólido.
Algo humano. Masculino.
Ouço sua inspiração nítida, sinto suas mãos firmes em meu corpo, sinto o sangue do meu corpo vazar por baixo de mim.
— Adam — eu ofego.
Ele não me soltou. Posso ouvir seu coração bater rápido e forte e alto no silêncio entre nós e ele parece tão imóvel, tão tenso, como se estivesse tentando manter algum tipo de controle sobre seu corpo.
— Oi — ele sussurra, mas parece que não consegue respirar direito.
Meu coração está desligando.
— Adam, eu...
— Não consigo soltar — ele diz, e sinto suas mãos tremerem, apenas um pouco, como se o esforço para mantê-las no lugar fosse demais para ele. — Não consigo soltá-la. Estou tentando, mas eu...
— Bem, ainda bem que estou aqui, não é?
Kenji me puxa para longe dos braços de Adam e respira profunda e desequilibradamente.
— Por Deus. Já acabaram? Temos de ir.
— O que... o que está acontecendo?
Eu gaguejo, tentando disfarçar meu constrangimento. Eu realmente queria que Kenji parasse de me pegar no meio de momentos tão vulneráveis. Queria que ele me visse sendo forte e confiante. E, depois, pergunto-me quando comecei a me importar com a opinião de Kenji a meu respeito.
— Está tudo bem?
— Não tenho ideia — Kenji responde enquanto caminha a passos largos pelos corredores escuros.
Ele deve ter memorizado estes túneis, eu penso, porque não consigo ver nada. Tenho praticamente que correr para acompanhá-lo.
— Porém — ele continua —, suponho que tenham jogado merda no ventilador oficialmente. Castle me mandou uma mensagem há cerca de 15 minutos... Dizia para que eu fosse ao escritório dele e levasse você e Kent o mais rápido possível. Assim — ele diz —, é isso que estou fazendo.
— Mas... agora? No meio da noite?
— A merda no ventilador não trabalha de acordo com a sua agenda, princesa.
Decido parar de falar.
Seguimos Kenji até uma porta solitária no final de um túnel estreito. Ele bate duas vezes. Para. Bate três vezes, para. Bate uma vez.
Pergunto-me se preciso decorar isso.
A porta faz um rangido, abre sozinha e Castle acena para que entremos.
— Fechem a porta, por favor — ele pede, de trás da sua escrivaninha.
Tenho de piscar várias vezes para acostumar-me à luz daqui. Há uma luminária de leitura tradicional na escrivaninha de Castle com uma voltagem suficiente para iluminar este pequeno espaço. Tiro um instante para olhar ao redor.
O escritório de Castle não é nada além de uma sala com algumas escrivaninhas e uma mesa simples que também serve como lugar para trabalhar. Tudo é feito de metal reciclado. A escrivaninha parece ter sido uma picape antes.
Há pilhas de livros e papéis por todo o chão; diagramas, maquinário e peças de computador enfiadas nas estantes, milhares de fios e unidades elétricas espreitando para fora de seus corpos metálicos; devem estar danificadas ou quebradas ou talvez façam parte de um projeto no qual Castle esteja trabalhando. Em outras palavras: o escritório dele é uma bagunça.
Não era o que eu esperava de alguém tão incrivelmente centrado.
— Sentem-se — ele nos diz.
Procuro cadeiras, mas encontro apenas duas latas de lixo de ponta-cabeça e um banco.
— Já falo com vocês. Esperem um momento.
Concordamos com um aceno de cabeça. Sentamos. Esperamos. Olhamos ao redor.
Apenas então entendo por que Castle não se importa com a natureza desorganizada do seu escritório.
Ele parece estar no meio de alguma coisa, mas não consigo ver o que é e não importa, na verdade. Estou muito concentrada observando-o trabalhar. Suas mãos vão para cima e para baixo, sacodem de um lado para o outro e tudo de que precisa ou que quer levita até ele. Um pedaço de papel em particular? Um bloco de anotações? O relógio enterrado sob a pilha de livros mais distante da escrivaninha? Ele procura um lápis e levanta a mão para pegá-lo. Está procurando suas notações e levanta os dedos para encontrá-las.
Ele não precisa ser organizado. Tem um sistema próprio.
Incrível.
Por fim, ele ergue o olhar. Larga o lápis. Balança a cabeça. Balança de novo.
— Bom. Bom; vocês estão todos aqui.
— Sim, senhor — Kenji diz. — Você disse que precisava falar conosco.
— Preciso mesmo.
Castle cruza as mãos sobre a mesa.
— Preciso mesmo.
Respira com cuidado.
— O comandante supremo — ele começa — chegou ao quartel-general do Setor 45.
Kenji solta um palavrão.
Adam está paralisado.
Estou confusa.
— Quem é o comandante supremo?
O olhar de Castle para sobre mim.
— O pai de Warner.
Seus olhos contraem-se, examinando-me.
— Você não sabia que o pai de Warner é o comandante supremo do Restabelecimento?
— Ah — eu ofego, incapaz de imaginar o monstro que o pai de Warner deve ser. — Eu... Sim... Eu sabia disso — afirmo. — Apenas não sabia qual era o título dele.
— Sim — Castle diz. — Há seis comandantes supremos pelo mundo, um para cada divisão: América do Norte, América do Sul, Europa, Ásia, África e Oceania. Cada seção é dividida em 555 setores, com um total de 3.330 pelo planeta. O pai de Warner não é apenas o encarregado por este continente, mas também é um dos fundadores do Restabelecimento e, atualmente, nossa maior ameaça.
— Mas pensei que existissem 3.333 setores — digo a Castle —, não 3.330. Minha memória está errada?
— Os outros três são Capitólios — Kenji explica. — Temos quase certeza de que um deles fica em algum lugar da América do Norte, mas ninguém sabe exatamente onde estão. Então, sim — ele acrescenta —, sua memória está boa. O Restabelecimento tem um fascínio louco por números exatos. Os 3.333 setores no total e 555 em cada divisão. Todos recebem a mesma coisa, independentemente do tamanho. Eles acham que isso mostra como estão dividindo tudo com igualdade, mas é apenas um monte de bobagem.
— Uau.
Todo santo dia fico admirada com o quanto ainda preciso aprender. Olho para Castle.
— Então, essa é a emergência? O pai de Warner estar aqui e não em um dos Capitólios?
Castle concorda balançando a cabeça.
— Sim, ele...
Ele hesita. Limpa a garganta.
— Bem. Deixe-me começar pelo começo. É imperativo que vocês conheçam todos os detalhes.
— Estamos ouvindo — Kenji diz, com as costas eretas, os olhos alertas, os músculos tensionados para agir. — Vá em frente.
— Parece que — Castle continua — ele está na cidade há algum tempo... Ele chegou sem chamar atenção, discreto, há algumas semanas. Parece que ele soube o que o filho tem feito ultimamente e não ficou animado. Ele...
Castle respira profunda e equilibradamente.
— Ele está... especialmente bravo com o que aconteceu a você, senhorita Ferrars.
— Eu?
Coração batendo rápido. Coração batendo rápido. Coração batendo rápido.
— Sim — Castle confirma. — Nossas fontes dizem que ele está bravo por Warner tê-la deixado escapar. E, é claro, por ter perdido dois soldados no processo.
Ele faz um aceno com a cabeça na direção de Adam e Kenji.
— Ainda pior, estão circulando rumores entre os cidadãos sobre a garota fugitiva e sua estranha habilidade, e as pessoas estão começando a juntar as peças; estão começando a perceber que há outro movimento, o nosso movimento, preparando-se para lutar. Isso está criando agitação e resistência entre os civis, que estão muito ansiosos para se envolverem. Assim — Castle continua e bate as mãos —, o pai de Warner, sem dúvida, chegou para liderar essa guerra e eliminar todas as dúvidas sobre o poder do Restabelecimento.
Ele para e olha cada um de nós.
— Em outras palavras, ele chegou para nos punir e punir o filho ao mesmo tempo.
— Mas isso não muda nossos planos, muda? — Kenji pergunta.
— Não exatamente. Eu sempre soube que uma luta seria inevitável, mas isso... muda tudo. Agora que o pai de Warner está na cidade, essa guerra vai acontecer bem mais cedo do que esperávamos — Castle explica. — E será muito maior do que prevíamos.
Ele lança um olhar para mim, parecendo sério.
— Senhorita Ferrars, temo que iremos precisar da sua ajuda.
Eu o estou encarando, perplexa.
— Eu?
— Sim.
— Você não está... Você não está mais bravo comigo?
— Você não é uma criança, senhorita Ferrars. Eu não a culparia por uma reação exagerada. Kenji diz acreditar que seu comportamento nos últimos tempos foi resultado de ignorância e não más intenções, e confio no julgamento dele. Confio na palavra dele. Porém, quero que entenda que somos uma equipe — ele diz — e precisamos da sua força. O que a senhorita consegue fazer... seu poder... não há nada igual. Principalmente agora que está trabalhando com Kenji e tem pelo menos algum conhecimento do que é capaz, vamos precisar da senhorita. Faremos o que pudermos para apoiá-la... Reforçaremos seu traje, daremos armas e armaduras. E Winston...
Ele faz uma pausa. Segura a respiração.
— Winston — ele retoma, com a voz mais baixa agora — acabou de terminar um novo par de luvas para a senhorita.
Ele olha para meu rosto.
— Queremos tê-la em nossa equipe — ele afirma. — E, se cooperar comigo, prometo que verá resultados.
— É claro — eu sussurro. Devolvo-lhe um olhar também firme e solene. — É claro que vou ajudar.
— Ótimo — Castle diz. — Isso é muito bom.
Ele parece distraído e inclina-se para trás, na cadeira, passando uma mão cansada pelo rosto.
— Obrigado.
— Senhor — Kenji diz —, detesto ser tão direto, mas poderia me dizer, por favor, que diabos está acontecendo?
Castle concorda, balançando a cabeça.
— Sim — ele responde. — Sim, sim, é claro. Eu... desculpe. Foi uma noite difícil.
A voz de Kenji está tensa.
— O que aconteceu?
— Ele... mandou um recado.
— O pai de Warner? — pergunto. — O pai de Warner mandou um recado? Para nós?
Olho para Adam e Kenji. Adam está piscando rapidamente, com os lábios um pouco separados, em choque. Kenji parece que vai ficar enjoado.
Estou começando a entrar em pânico.
— Sim — Castle diz para mim. — O pai de Warner. Ele quer se encontrar conosco. Ele quer... conversar.
Kenji pula da cadeira e fica em pé. Toda a cor do seu rosto sumiu.
— Não... senhor... é uma armadilha... Ele não quer conversar, o senhor deve saber que ele está mentindo...
— Ele fez quatro dos nossos homens reféns, Kenji. Temo que não tenha escolha.

8 comentários:

  1. AGORA SIM F0D€# VAI DÁ MERDA E AÇÃO VAI COMEÇAR *0*

    ResponderExcluir
  2. Até q fim o livro começou a fica enteresante.
    Já faz tempo q eu esperava a ação comesa.

    ResponderExcluir
  3. Finalmente! Que a guerra comece!
    Já estava ficando sem graça essa história, mas agora as coisas vão esquentar.

    ~polly~

    ResponderExcluir
  4. A Ju é muita lenta, esse tempo todo e descobriu coisas mínimas sobre seu poder... Ela devia se concentrar mais, demorou tempos pra associar o poder com sentimentos intensos

    ResponderExcluir
  5. Yesubai, a filha do vilão12 de abril de 2017 00:11

    AGORA A POHH@ FICOU SÉRIA

    ResponderExcluir
  6. VAI DAR MERDA VAI ... VAI DAR MERDA VAI DAR MERDA VAAAAAAAAAAAI...E FOD* TUDOOOOOOOOO

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)