2 de janeiro de 2017

24

Kenji me encontra primeiro.
Ele está parado no meio da sala de treinamento. Olhando ao redor como se nunca tivesse visto este lugar antes, embora eu tenha certeza de que não possa ser. Ainda não sei exatamente o que ele faz, mas pelo menos ficou claro para mim que Kenji é uma das pessoas mais importantes do Ponto Ômega. Ele está sempre fazendo coisas. Sempre ocupado. Ninguém — exceto eu, e apenas recentemente — o vê mais de alguns instantes por vez.
É quase como se ele passasse a maioria dos dias... invisível.
— Então — ele diz, balançando a cabeça lentamente para cima e para baixo, demorando-se para andar pela sala com as mãos unidas atrás das costas. — Aquele foi um baita de um show. É o tipo de entretenimento que nunca temos no subsolo.
Mortificação.
Estou enrolada nela. Pintada nela. Enterrada nela.
— Quero dizer, tenho de comentar... a última frase? “Eu queria conseguir amá-lo menos”? Foi genial. Muito, muito bom. Acho que Winston chegou a derramar uma lágrima...
— CALE A BOCA, KENJI.
— Falo sério! — ele me diz, ofendido. — Aquilo foi, não sei. Foi meio bonito. Eu não fazia ideia de que o relacionamento de vocês era tão intenso.
Eu puxo os joelhos até o peito, entoco-me ainda mais no canto da sala, enterro o rosto nos braços.
— Sem querer ofender, mas realmente não quero c-conversar com você agora, tudo bem?
— Não. Não está tudo bem — ele responde. — Você e eu, nós temos trabalho a fazer.
— Não.
— Ora, vamos — ele diz. — Fique. Em. .
Ele agarra meu cotovelo, fazendo-me levantar enquanto tento bater nele. Limpo nervosa minhas bochechas, esfrego as manchas que minhas lágrimas vão deixando.
— Não estou com humor para as suas piadas, Kenji. Por favor, apenas vá embora. Deixe-me em paz.
— Ninguém — ele diz — está brincando.
Kenji pega um dos tijolos empilhados contra a parede.
— E o mundo não vai parar de travar uma guerra contra si mesmo só porque você terminou o namoro.
Eu o encaro, com os punhos tremendo, querendo gritar.
Ele não parece preocupado.
— Então, o que você faz aqui? — ele pergunta. — Fica sentada tentando... o quê?
Ele pesa o tijolo na mão.
— Quebrar estas coisas?
Eu desisto, derrotada. Dobro-me sobre o chão.
— Não sei — eu respondo.
Com uma fungada, engulo as últimas lágrimas. Tento limpar o nariz.
— Castle fica dizendo para eu me “concentrar” e “controlar minha Energia”.
Eu uso “aspas flutuantes” para ilustrar o que digo.
— Mas tudo o que sei sobre mim mesma é que consigo quebrar coisas... Não sei por que isso acontece. Por isso, não sei como ele espera que eu repita o que já fiz. Eu não tinha noção do que estava fazendo naquele momento e não sei o que estou fazendo agora também. Nada mudou.
— Espere — Kenji diz, devolvendo o tijolo à pilha antes de cair sobre as esteiras à minha frente.
Ele se esparrama no chão, com o corpo esticado, os braços dobrados atrás da cabeça enquanto encara o teto.
— Do que estamos falando mesmo? Que eventos você deveria repetir?
Eu deito nas esteiras também; imito a posição de Kenji. Nossas cabeças estão apenas a alguns centímetros de distância.
— Lembra? O concreto que quebrei na sala psicótica de Warner. A porta de metal que ataquei quando estava procurando por A-Adam — minha voz falha e tenho de fechar os olhos, contraídos, para acalmar a dor.
Não consigo nem dizer o nome dele agora.
Kenji resmunga. Sinto que ele está concordando e balançando a cabeça sobre as esteiras.
— Certo. Bem, o que Castle me disse é que ele acha que você tem mais habilidades além do toque. Que, talvez, você também tenha uma estranha força sobre-humana ou algo assim.
Uma pausa.
— Parece possível para você?
— Acho que sim.
— E o que aconteceu? — ele pergunta, tombando a cabeça para trás, para me olhar bem. — Quando você virou o monstro psicopata? Lembra-se do que disparou sua reação?
Eu balanço a cabeça.
— Não sei bem. Quando acontece, é como se... É como se eu estivesse completamente fora de mim — eu conto a ele. — Algo muda na minha cabeça e me deixa... E me deixa louca, tipo, louca de verdade.
Dou uma olhada para ele, mas seu rosto não mostra nenhuma emoção. Ele apenas pisca, esperando que eu termine. Assim, respiro fundo e continuo.
— É como se eu não conseguisse pensar direito. Fico tão paralisada pela adrenalina que não consigo conter, não consigo controlar. Depois que o sentimento louco assume o controle, ele precisa de um escape. Tenho de tocar em alguma coisa. Tenho de liberar o sentimento.
Kenji apoia-se em um cotovelo. Olha para mim.
— Mas o que a deixa tão louca? — ele quer saber. — O que você estava sentindo? Acontece apenas quando você está muito brava?
Levo um segundo para pensar antes de dizer:
— Não. Nem sempre.
Eu hesito.
— Na primeira vez — conto, minha voz um pouco trêmula —, quis matar Warner pelo que ele me obrigou a fazer com aquela criancinha. Fiquei muito devastada. Eu estava brava... Estava muito brava... Mas eu também estava... muito triste.
Minha voz vai sumindo.
— E, depois, quando eu estava procurando Adam?
Respiro fundo.
— Eu estava desesperada. Bastante desesperada. Tinha de salvá-lo.
— E quando você deu uma de Super-Homem comigo, jogando-me contra a parede daquele jeito?
— Eu estava assustada.
— E depois? Nos laboratórios de pesquisa?
— Brava — eu sussurro, com os olhos desfocados enquanto encaro o teto, lembrando-me da raiva fervilhante daquele dia. — Fiquei mais brava do que já fiquei a vida toda. Nem sabia que podia me sentir assim. Ficar tão furiosa. E senti-me culpada — acrescentei, em voz baixa. — Culpada por ser o motivo de Adam estar ali para início de conversa.
Kenji respira fundo e demoradamente. Levanta o corpo para sentar e encosta na parede. Não diz nada.
— No que está pensando...? — pergunto, mexendo-me para me sentar como ele.
— Não sei — Kenji responde, enfim. — Mas é bastante óbvio que todos esses incidentes foram resultado de emoções muito intensas. Faz-me pensar que o sistema todo deve ser bem direto.
— O que quer dizer?
— Como se tivesse de ter algum gatilho envolvido — ele diz. — Como se, quando você perde o controle, seu corpo entrasse em um modo de autoproteção automático, sabe?
— Não?
Kenji se vira para me olhar. Cruza as pernas sob o corpo. Apoia-se nas mãos.
— É como... Ouça. Sabe quando descobri que conseguia ficar invisível? Quero dizer, foi um acidente. Eu tinha nove anos. Estava apavorado. Deixando de lado os detalhes entediantes, o que quero dizer é isto: eu precisava de um lugar para me esconder e não achava. Mas estava tão fora de mim que meu corpo, tipo, fez isso por mim automaticamente. Apenas desapareci na parede. Misturei-me a ela ou sei lá.
Ele ri.
— Fiquei doido, porque não percebi o que tinha acontecido por uns bons dez minutos. E, depois, não sabia como voltar ao normal. Foi uma loucura. Cheguei a pensar que estava morto por alguns dias.
— Não brinca — eu ofego.
— É.
— Isso é loucura.
— Foi o que eu disse.
— Então... Então, o que acha? Acha que meu corpo entra no modo de defesa quando me desespero?
— Basicamente.
— Certo.
Eu penso.
— Bem, como devo voltar ao meu modo normal? Como descobriu o seu?
Ele encolhe os ombros.
— Quando percebi que não era um tipo de fantasma nem estava alucinando, foi meio divertido, na verdade. Eu era criança, sabe? Fiquei animado, como se pudesse vestir uma capa e matar bandidos e tal. Eu gostei. E tornou-se parte de mim, podia ativar quando quisesse. Mas — ele acrescenta —, foi apenas quando comecei a treinar mesmo que aprendi a controlar e manter a invisibilidade por longos períodos. Deu muito trabalho. Precisei de muita concentração.
— Muito trabalho.
— É... Quero dizer, aprender tudo isso dá muito trabalho. Porém, como aceitei a habilidade como parte de mim, ficou mais fácil controlá-la.
— Bem — digo, inclinando-me para trás de novo, bufando nervosa —, já aceitei. Mas isso definitivamente não deixou as coisas mais fáceis.
Kenji ri alto.
— Mentira que você aceitou. Você não aceitou nada.
— Fui assim a vida inteira, Kenji... Tenho certeza de que já aceitei...
— Não — ele me interrompe. — Sem chance. Você odeia ser quem é. Não suporta. Isso não é aceitação. Isso é... Sei lá... O oposto de aceitação. Você — ele diz, apontando um dedo para mim —, você é o oposto da aceitação.
— O que está tentando dizer? — eu devolvo. — Que devo gostar de ser assim?
Não lhe dou uma chance de responder antes de dizer:
— Você não faz ideia do que é estar presa em mim mesma... Estar presa no meu corpo, com medo de respirar muito perto de qualquer coisa com um coração. Se soubesse, nunca pediria que eu ficasse feliz de viver assim.
— Ora, vamos, Juliette... Estou apenas dizendo...
— Não. Deixe-me esclarecer a situação para você, Kenji. Eu mato pessoas. Eu as mato. Esse é o meu “poder” especial. Não me misturo com o cenário nem mexo objetos com a mente nem tenho braços que se alongam. Toque em mim por muito tempo e você morre. Tente viver assim por 17 anos e, depois, diga-me o quão fácil é me aceitar.
Sinto o gosto de muita amargura em minha língua.
É novo para mim.
— Olhe — ele começa, com a voz perceptivelmente mais suave —, não estou tentando te julgar, certo? Estou apenas tentando mostrar que, porque você não quer esse poder, pode, inconscientemente, estar sabotando seus esforços para entendê-lo.
Ele ergue as mãos, rendendo-se, debochado.
— É só a minha opinião. Quero dizer, você tem mesmo poderes malucos. Toca nas pessoas e, bam, acabou. Mas você pode quebrar paredes e outras coisas também. Quero dizer, por Deus, queria aprender como fazer isso. Está brincando? Seria demais.
— É — digo, encostada na parede. — Acho que essa parte não seria tão ruim.
— Certo?
Kenji endireita-se.
— Seria incrível. E... Sabe, se você usar as luvas... pode triturar coisas aleatórias sem matar ninguém. E, então, não se sentiria tão mal, não é?
— Acho que não.
— Então, ótimo. Você precisa apenas relaxar.
Ele fica em pé. Pega o tijolo com o qual estava brincando antes.
— Venha — ele diz. — Fique de pé. Venha até aqui.
Eu caminho até o lado dele da sala e olho o tijolo que está segurando. Ele me entrega o objeto como se estivesse mexendo em uma herança de família.
— Agora — ele diz. — Tem de se deixar ficar confortável, combinado? Permita que seu corpo converse com o seu interior. Pare de bloquear sua própria Energia. Você provavelmente tem um milhão de bloqueios mentais na cabeça. Não pode mais se segurar.
— Não tenho bloqueios mentais...
— Tem sim.
Ele bufa.
— Definitivamente, tem. Você tem uma grave prisão de ventre mental.
— O que mental...?
— Direcione sua raiva para o tijolo. Para o tijolo — ele me diz. — Lembre-se. Mente aberta. Você quer esmagar o tijolo. Lembre a si mesma que é isso que você quer. A escolha é sua. Você não está fazendo isso para o Castle, não está fazendo isso para mim, não está fazendo isso para lutar contra ninguém. É apenas algo que você está com vontade de fazer. Por diversão. Porque deu vontade. Deixe sua mente e seu corpo assumirem. Certo?
Respiro fundo. Balanço a cabeça para cima e para baixo algumas vezes.
— Certo. Acho que eu...
— Ca-ram-ba.
Ele assobia baixinho.
— O quê?
Eu me viro.
— O que aconteceu...
— Como assim você não sentiu isso?
— Senti o quê...?
— Olhe para a sua mão!
Eu sufoco um grito. Cambaleio para trás. Minha mão está cheia do que parece ser areia vermelha e argila marrom pulverizadas em partículas minúsculas. Os pedaços maiores de tijolo caem no chão e eu deixo os restos escorrerem pelos vãos entre meus dedos apenas para levantar a mão culpada até meu rosto.
Olho para cima.
Kenji está tremendo a cabeça, tremendo de rir.
— Estou com muita inveja agora, você não faz ideia.
— Ah, meu Deus.
— Eu sei. EU SEI. Muito durona. Agora, pense só: se você pode fazer isso com um tijolo, imagine o que poderia fazer com um corpo humano...
Não era a coisa certa a dizer.
Não agora. Não depois de Adam. Não depois de eu tentar recolher os pedaços das minhas esperanças e dos meus sonhos e, desajeitadamente, colá-los de novo.
Porque não resta nada. Porque agora percebo que, em algum lugar, bem no fundo, eu estava cultivando uma pequena esperança de que Adam e eu encontraríamos uma maneira de resolver a situação.
Em algum lugar, bem no fundo, ainda estava me agarrando à possibilidade.
E, agora, isso acabou.
Porque agora não é apenas da minha pele que Adam deve ter medo. Não é apenas meu toque, mas meu aperto, meus abraços, minhas mãos, um beijo...
Tudo que faço poderia machucá-lo. Eu teria de ter cuidado ao simplesmente segurar a mão dele. E esse novo entendimento, essa nova informação sobre o quão mortal eu sou exatamente...
Não me deixa alternativa.
Ficarei sozinha para todo o sempre porque ninguém está seguro comigo.
Eu caio no chão, minha cabeça zumbindo, meu próprio cérebro já não é mais um lugar seguro para habitar porque não consigo parar de pensar, não consigo parar de imaginar, não consigo parar nada e é como se fosse pega no que poderia ser uma colisão de frente e não sou uma espectadora inocente.
Sou o trem.
Sou eu que estou perdendo o controle.
Porque, às vezes, você se vê... você se vê do jeito que poderia ser... do jeito que poderia ser se a situação fosse diferente. E, se prestar bastante atenção, o que verá vai assustá-lo, vai fazê-lo se perguntar o que faria se tivesse oportunidade.
Você sabe que há um lado diferente de você mesmo que não quer reconhecer, um lado que você não quer ver à luz do dia. Você passa a vida toda fazendo tudo para contê-lo e afastá-lo, o que os olhos não veem o coração não sente. Você finge que esse pedaço seu não existe.
Você vive assim por muito tempo.
Por muito tempo, você está seguro.
E, então, não está mais.

17 comentários:

  1. C.A.R.A.M.B.A

    ELA TEM QUE DRAMATIZAR TUUUDO !!!!!!

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    1. QUANTA INDIFERENÇA À DOR ALHEIA.Sei que se referem à uma personagem,mas e as Juliettes da vida real?Recebem esse mesmo tramento?

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  2. Que povo chatooooo
    ela sempre foi assim

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  3. Deu uma peninha, mas ela tem parar d choramingar pq chorar não muda nada, vc consegue Juju

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  4. Mas esse Kenji também. ... tava motivando ela e de repente, fala o que não deveria dizer!
    Bianca

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  5. Por Deus, Juliette, deixa os dramas para as novelas mexicanas!!

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  6. ah se fosse eu com esse poder ... ia botar abaixo aquele senado la em brasilia ... mu ha !

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  7. Ai juju tá ficando muito difícil te defender... O Warner já pode aparecer de novo? Sim pode!

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    1. Ó Warner cadê você
      Eu estou lendo só pra te ver🎵

      Acabei de eleger o Warner como meu personagem favorito do livro.

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  8. tava indo táo bem... POXA!!! o povo me acha dramatica prq não conhece Juliette

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  9. Meu para. Ok? Voces falam que a Ju faz drama, vivam a vida dela, passem pelo que ela sofreu, sobreviva por dezessete anos sem poder tocar alguem, e caso toque possa matar a pessoa. Depois de passar a vida sozinhos e desprezado, venham falar que e drama dela, feito?

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  10. — Quero dizer, tenho de comentar... a última frase? “Eu queria conseguir amá-lo menos”? Foi genial. Muito, muito bom. Acho que Winston chegou a derramar uma lágrima...

    RINDO ATÉ SEMANA QUE VEM KKKKKK

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  11. não gosta do drama é só parar de ler ...

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  12. affy que dramatica mano.

    kenji melhor pessoa quee amo

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  13. Não entendo essas reclamações do drama ela sempre foi assim e mais se não gostam parem de ler porque sinceramente isso é chato.Ela teve uma vida horrível ela criou esperanças mas acabou as "destruindo" se vocês pararem para pensar esse "drama" como dizem tem muito sentido.*-*

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  14. Por favor pessoal,não reduzam o sofrimento da Juliette em drama.Vocês acompanharam a história de vida dela,conhecem os motivos que a tornaram assim.Ela tem muitas barreiras à superar,e isso será conquistado à longo prazo.Todos queremos ação,mas aguardemos com paciência.

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  15. Pelo amor que bipolar ela ficou do nada. Tipo "Uhuu eum posso fazer isso. Kenji vc está me ajudando" daí do nada por causa de uma mísera palavra "não posso isso, não posso aquilo"
    Não estou julgando ela, é isso que faz o livro ficar melhor ainda.

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Boa leitura :)