2 de janeiro de 2017

23

Às vezes, fico pensando na cola.
Ninguém nunca para e pergunta à cola como ela está aguentando. Se está cansada de manter as coisas juntas ou com medo de ficar aos pedaços ou como vai pagar as contas do próximo mês.
Kenji é meio assim.
Ele é como a cola. Ele trabalha nos bastidores para manter tudo junto e nunca parei para pensar qual deve ser sua história. Por que ele se esconde atrás das piadas e do cinismo e dos comentários sarcásticos.
Porém, ele estava certo. Tudo o que disse para mim estava certo.
O dia de ontem foi uma boa ideia. Eu precisava me afastar, sair, ser produtiva. E, agora, preciso seguir o conselho de Kenji e parar de pensar em mim mesma. Preciso organizar meus pensamentos. Preciso focar minhas prioridades. Preciso descobrir o que estou fazendo aqui e como posso ajudar. E, se eu me importo de verdade com Adam, tentarei ficar fora da vida dele.
Parte de mim deseja poder vê-lo; quero me certificar de que ele vai mesmo ficar bem, de que está se recuperando bem e comendo o suficiente e conseguindo dormir à noite. Porém, outra parte de mim tem medo de vê-lo agora. Porque ver Adam significa dizer adeus. Significa reconhecer de verdade que não posso mais ficar com ele e saber que preciso encontrar uma nova vida para mim. Sozinha.
No entanto, pelo menos no Ponto Ômega terei opções. E, talvez, se eu encontrar uma maneira de deixar de ter medo, possa descobrir como fazer amigos. Como ser forte. Como parar de ficar me afundando nos meus problemas.
Tudo tem de ser diferente agora.
Pego minha comida e consigo erguer a cabeça; faço um aceno para os rostos que reconheço de ontem. Nem todo mundo sabe que eu participei da saída — os convites para missões fora do Ponto Ômega são exclusivos —, mas as pessoas, em geral, parecem estar um pouco menos tensas perto de mim. Eu acho.
Posso estar imaginando.
Tento encontrar um lugar para me sentar, mas vejo Kenji acenando para mim. Brendan, Winston e Emory e estão sentados à mesa dele. Sinto um sorriso puxar meus lábios conforme me aproximo deles.
Brendan desliza no banco para abrir espaço para mim. Winston e Emory acenam com a cabeça enquanto jogam comida na boca. Kenji me lança um meio sorriso, os olhos rindo da minha surpresa por ser bem-vinda nesta mesa.
Estou me sentindo bem. Como se, talvez, tudo fosse ficar bem.
— Juliette?
E, de repente, vou tombar.
Viro-me bem, bem devagar, meio convencida de que a voz que estou ouvindo pertence a um fantasma, porque não há chance de Adam ter sido liberado da ala médica tão cedo. Eu não estava esperando ter de vê-lo tão cedo.
Não pensei que teríamos de ter esta conversa tão cedo. Não aqui. Não no meio da sala de jantar.
Não estou preparada. Não estou preparada.
A aparência de Adam está terrível. Ele está pálido. Sem equilíbrio. As mãos estão enfiadas nos bolsos e os lábios estão contraídos e os olhos estão cansados, torturados, poços profundos e sem-fim. O cabelo está bagunçado. A camiseta está esticada pelo peito, seus antebraços estão tatuados mais destacados do que nunca.
Não quero nada mais do que mergulhar em seus braços.
Em vez disso, estou sentada aqui, lembrando a mim mesma de respirar.
— Posso conversar com você? — ele pergunta, parecendo estar com um pouco de medo de ouvir minha resposta. — A sós?
Faço que sim com a cabeça, ainda incapaz de falar. Abandono minha comida sem olhar para Kenji ou Winston ou Brendan ou Emory e, assim, não faço ideia do que devem estar pensando agora. Nem me importa.
Adam.
Adam está aqui e está na minha frente e quer falar comigo e tenho de lhe dizer coisas que, com certeza, serão a minha morte.
Porém, eu o sigo porta afora de qualquer maneira. Para o hall. Descendo um corredor escuro.
Por fim, paramos.
Adam olha para mim como se soubesse o que vou dizer e, assim, nem me preocupo em falar. Não quero dizer nada a menos que seja totalmente necessário.
Prefiro ficar parada aqui apenas e olhá-lo, beber sem vergonha a visão dele uma última vez sem ter de dizer uma palavra. Sem ter de dizer nada.
Ele engole em seco, com dificuldade. Olha para cima. Desvia o olhar. Sopra o ar e esfrega a nuca, une as mãos atrás da cabeça e vira para o outro lado, e eu não consigo ver seu rosto. Mas o esforço faz a camiseta dele subir pelo seu torso e eu tenho mesmo de fechar os dedos para não tocar o pedacinho de pele exposta na parte baixa do seu abdômen, na parte baixa das costas.
Ele ainda está olhando para o outro lado quando diz:
— Eu preciso muito, muito que você diga alguma coisa.
E o som da sua voz — tão infeliz, tão agonizante — faz com que eu queira cair de joelhos.
Ainda assim, eu não falo.
E ele se vira.
Olha para mim.
— Tem de haver alguma coisa — ele diz, com as mãos no cabelo agora, agarrando a cabeça. — Algum tipo de meio-termo... Algo que eu possa dizer para convencê-la a fazer isto dar certo. Diga-me que há alguma coisa.
E eu estou muito assustada. Tão assustada que vou começar a soluçar na frente dele.
— Por favor — ele pede e parece pronto a desmontar, como se estivesse acabado, como se estivesse prestes a cair aos pedaços e diz: — Diga alguma coisa, eu imploro...
Eu mordo meu lábio trêmulo.
Ele congela no lugar, observando-me, esperando.
— Adam.
Eu respiro, tentando manter a voz estável.
— Eu sempre, s-sempre vou amá-lo...
— Não — ele diz —, não, não diga isso... Não diga isso.
E estou balançando a cabeça, balançando rápido e com força, tanta força que estou ficando tonta, mas não consigo parar. Não consigo dizer outra palavra a menos que queira começar a gritar e não consigo olhar para o rosto dele, não aguento ver o que estou fazendo com ele.
— Não, Juliette... Juliette...
Estou andando para trás, cambaleando, tropeçando em meus próprios pés conforme estendo a mão procurando cegamente pela parede quando sinto os braços dele em volta de mim. Tento me afastar, mas ele é muito forte, está me segurando muito perto de si e sua voz está engasgada quando diz:
— Foi culpa minha... Isto é culpa minha... Eu não devia tê-la beijado... Você tentou me dizer, mas eu não ouvi e eu sinto... Eu sinto muito — ele diz, ofegando com as palavras. — Eu devia tê-la escutado. Eu não estava forte o suficiente. Mas será diferente desta vez, eu juro — ele garante, enterrando o rosto no meu ombro. — Nunca me perdoarei por isso. Você estava disposta a tentar e eu estraguei tudo e sinto muito, sinto muito mesmo...
Desmoronei por dentro, total e oficialmente.
Eu me odeio pelo que aconteceu, eu me odeio pelo que tenho de fazer, odeio não poder eliminar esta dor, não poder dizer a ele que podemos tentar, que será difícil, mas daremos um jeito mesmo assim. Porque não é um relacionamento normal. Porque nossos problemas não podem ser solucionados.
Porque minha pele nunca mudará.
Todo o treinamento do mundo não removerá a possibilidade muito real de que eu poderia machucá-lo. Matá-lo, se nos empolgássemos. Eu sempre serei uma ameaça para ele. Em especial durante os momentos mais ternos, os momentos mais importantes e vulneráveis. Os momentos que mais quero. São essas coisas que nunca poderei ter com ele, e ele merece muito mais do que eu, do que esta pessoa torturada com tão pouco a oferecer.
No entanto, prefiro ficar aqui e sentir seus braços em volta do meu corpo a dizer uma única frase. Porque sou fraca, sou muito fraca e o desejo tanto que isso está me matando. Não consigo parar de tremer, não consigo enxergar com clareza, não consigo enxergar através da cortina de lágrimas que obscurecem minha visão.
E ele não vai me soltar.
Fica sussurrando “por favor” e eu quero morrer.
Porém, acho que, se eu ficar aqui mais um pouco, vou mesmo ficar louca.
Assim, levanto uma mão trêmula até o peito dele e sinto-o ficar duro, afastar-se, e não ouso olhar em seus olhos, não aguento ver sua expressão esperançosa, mesmo que apenas por um segundo.
Tiro vantagem de sua surpresa momentânea e braços relaxados para escapar, sair do abrigo do calor dele, para longe dos batimentos do seu coração. E ergo a mão para impedi-lo de me pegar de novo.
— Adam — eu sussurro. — Por favor, não. Não posso... Não p-posso...
— Nunca houve outra pessoa — ele diz, sem se preocupar mais em manter a voz baixa, sem se importar se suas palavras ecoam por estes túneis. Sua mão está tremendo quando ele cobre a boca, quando a arrasta pelo rosto e pelo cabelo. — Nunca haverá outra pessoa... Nunca vou querer outra pessoa...
— Pare... Você precisa parar...
Não consigo respirar não consigo respirar não consigo respirar.
— Você não quer isto... Você não quer ficar com alguém como eu... Alguém que vai apenas acabar por machucá-lo...
Maldição, Juliette.
E ele se vira para bater a palma da mão contra a parede, o peito arfando, a cabeça baixa, a voz falha, aparecendo sílaba sim, sílaba não.
— Você está me machucando agora — ele diz. — Está me matando...
— Adam...
— Não fuja — ele pede, com a voz tensa, os olhos fechados e contraídos como se já soubesse que vou fugir; como se não aguentasse ver isso acontecer. — Por favor — ele sussurra, atormentado. — Não fuja disto.
— E-eu queria — eu falo, tremendo com violência agora —, eu queria não precisar fugir. Eu queria conseguir amá-lo menos.
E eu o ouço me chamar conforme eu corro pelo corredor. Ouço-o gritar meu nome, mas estou correndo, fugindo, passando pela multidão reunida do lado de fora da sala de jantar, observando, ouvindo tudo. Estou correndo para me esconder, mesmo sabendo que será impossível.
Terei de vê-lo todo santo dia.
Querendo-o a milhões de quilômetros de distância.
E lembro-me das palavras de Kenji, sua exigência de que eu acordasse e parasse de chorar e mudasse, e percebo que cumprir minhas novas promessas pode demorar um pouco mais do que eu esperava.
Porque não consigo pensar em nada que eu prefira fazer agora do que encontrar um canto escuro e chorar.

7 comentários:

  1. Ain da logo pra ele ! Afff que demora

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  2. kkkkkkkkkkkkkkk também concordo Aline. estão enrolando demais!!!
    eu torço muito para que a juliette fique com o warner
    eu sempre tenho uma queda do tamando da torre stark por vilõess

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  3. Aceita logo cara, já era Adam, para d drama e se conforma e VC VAI CONSEGUIR JUJU, SEI QUE CONSEGUE
    #TeamJuliner

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  4. Fica triste não Juju o Aaron te espera

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  5. Esse livro já ta ficando tedioso, ta faltando o warner aparecer!!!!!

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  6. Aeron amor da minha vida apareça!! Te love.

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Boa leitura :)