2 de janeiro de 2017

22

— Pare de jogar caixas em mim, seu babaca. Esse é o meu trabalho.
Winston ri e agarra um pacote bem embrulhado em celofane apenas para atirá-lo na cabeça de outro rapaz. O rapaz está bem perto de mim.
Eu me abaixo.
O outro rapaz resmunga ao pegar o pacote e, depois, ri ao oferecer a Winston uma excelente vista do seu dedo médio.
— Mantenha a classe, Sanchez — Winston diz ao jogar outro pacote para ele.
Sanchez. Seu nome é Ian Sanchez. Fiquei sabendo disso há alguns minutos, quando ele e eu e mais alguns fomos agrupados para formar uma linha de montagem.
Estamos agora em um dos aglomerados de armazenamento oficiais do Restabelecimento.
Kenji e eu conseguimos alcançar os outros bem a tempo. Todos nos reunimos no ponto de descarga (que acabou se revelando pouco mais do que uma vala) e, depois, Kenji me lançou um olhar penetrante, apontou para mim, sorriu e deixou-me com o restante do grupo enquanto ele e Castle conversavam sobre a próxima parte da nossa missão.
Que era entrar no aglomerado de armazenamento.
A ironia, no entanto, é que viajamos pela superfície à busca de suprimentos apenas para termos de voltar ao subsolo para pegá-los. Os aglomerados de armazenamento são, para todos os fins, invisíveis.
São celeiros subterrâneos cheios de todas as coisas imagináveis: alimentos, remédios, armas. Todas as coisas necessárias para sobreviver. Castle explicou tudo na nossa manhã de orientação. Ele disse que, embora manter suprimentos no subsolo seja um método inteligente de escondê-los de civis, isso, na verdade, funcionou a nosso favor. Castle disse que ele pode sentir — e movimentar — objetos a uma grande distância, mesmo se essa distância for de sete metros abaixo da terra. Ele disse que, quando se aproxima de um dos armazéns, pode sentir a diferença imediatamente, porque pode reconhecer a energia de cada objeto. Isso, ele explicou, é o que permite que ele mova as coisas com a mente: ele é capaz de tocar na energia inerente a tudo. Castle e Kenji conseguiram rastrear cinco aglomerados a 32 quilômetros do Ponto Ômega apenas andando pela área; Castle sentindo, Kenji projetando para deixa-los invisíveis. Localizaram mais cinco a 80 quilômetros.
Os aglomerados de armazenamento que acessam estão em uma rotação. Nunca pegam as mesmas coisas e nunca na mesma quantidade, e pegam do maior número possível de lugares diferentes. Quanto mais longe o aglomerado, mais complicada a missão. Este aglomerado em especial é o mais próximo e, assim, a missão é, relativamente, a mais fácil. Isso explica por que permitiram que eu viesse.
Todo o trabalho chato já tinha sido feito.
Brendan já sabe como confundir o sistema elétrico para desativar todos os sensores e as câmeras de segurança; Kenji consegue a senha de entrada simplesmente seguindo um soldado que apertou os números certos. Tudo isso nos dá uma janela de 30 minutos para trabalhar o mais rápido possível e levar tudo de que precisamos para o ponto de descarga, onde passaremos a maior parte do dia esperando para colocar os suprimentos roubados em veículos que os carregarão para longe.
O sistema que eles usam é fascinante.
Há seis vans no total, cada uma um pouquinho diferente das outras, e todas programadas para chegar em momentos diferentes. Dessa maneira, há menos chances de todas serem pegas e há uma possibilidade maior de que pelo menos uma das vans volte ao Ponto Ômega sem problemas. Castle traçou, ao que parece, cem planos de segurança em caso de perigo.
Sou a única aqui, no entanto, que parece ao menos um pouco nervosa com o que estamos fazendo. Na verdade, com exceção de mim e mais três pessoas, todos já visitaram este aglomerado em especial várias vezes e, assim, estão andando por aqui como em um território familiar. Todos são cuidadosos e eficientes, mas sentem-se confortáveis o bastante para rir e brincar também. Sabem exatamente o que estão fazendo. Quando entramos, eles se dividiram em dois grupos: uma equipe formou a linha de montagem e a outra recolheu os itens de que precisávamos.
Outras pessoas têm tarefas mais importantes.
Lily tem uma memória fotográfica que deixa as fotografias no chinelo. Ela entrou antes de nós e imediatamente escaneou o local, reunindo e catalogando cada detalhe. Ela vai garantir que não deixemos nada para trás ao sairmos e que, além das coisas que pegamos, nada fique faltando ou esteja fora do lugar.
Brendan é o nosso gerador de backup. Ele conseguiu desligar a energia do sistema de segurança e ainda iluminar as dimensões escuras deste local.
Winston está supervisionando os dois grupos, agindo como mediador entre os entregadores e os receptores, garantindo que estamos pegando os itens certos e nas quantidades certas. Suas pernas e seus braços têm a habilidade de se esticarem como ele quiser, o que lhe permite alcançar os dois lados do salão com rapidez e facilidade.
Castle é quem leva nossos suprimentos para fora. Ele fica no final da linha de montagem, em constante contato com Kenji por um rádio. Desde que a área esteja segura, Castle precisa apenas usar uma mão para direcionar as centenas de quilos de suprimentos que juntamos até o ponto de descarga.
Kenji, é claro, está de guarda.
Se não fosse por Kenji, o restante da missão não seria nem possível. Ele é nossos olhos e ouvidos invisíveis. Sem ele, não teríamos como ficar tão seguros, tão certos de que estamos a salvo em uma missão tão perigosa.
Não pela primeira vez hoje, começo a perceber por que ele é tão importante.
— Ei, Winston, pode pedir para alguém ver se tem chocolate aqui? — Emory, outro rapaz da minha linha de montagem, está sorrindo para Winston como se esperasse boas notícias.
Mas Emory está sempre sorrindo. Só o conheço há algumas horas, mas ele está sorrindo desde as seis da manhã, quando todos nós nos encontramos na sala de orientação. Ele é superalto, super-robusto e tem um penteado afro supergigante que, de alguma maneira, consegue cair nos olhos dele muitas vezes. Ele está levando caixas pela linha de montagem como se estivessem cheias de algodão.
Winston está balançando a cabeça, tentando não rir enquanto passa o pedido adiante.
— Sério?
Ele lança um olhar para Emory, ao mesmo tempo que empurra os óculos de plástico para cima no nariz.
— De todas as coisas que temos aqui, você quer chocolate?
O sorriso de Emory desaparece.
— Cala a boca, cara, você sabe que minha mãe ama essa coisa.
— Você diz isso toda vez.
— Porque é verdade toda vez.
Winston diz alguma coisa a alguém sobre pegar mais uma caixa de sabonete antes de se virar de novo para Emory.
— Não sei, mas acho que nunca vi sua mãe comer um pedaço de chocolate antes.
Emory diz a Winston para fazer algo muito inadequado com seus braços e pernas de flexibilidade sobrenatural, e eu olho para baixo, para uma caixa que Ian acabou de me passar, parando e examinando o pacote com atenção antes de passá-lo adiante.
— Ei, você sabe por que todos estes estão carimbados com as letras N R M?
Ian se vira. Pasmo. Olha para mim como se eu tivesse acabado de pedir a ele que tirasse as roupas.
— Ora, que surpresa — ele diz. — Ela fala.
— É claro que eu falo — respondo, sem interesse em dizer mais nada.
Ian passa outra caixa para mim. Encolhe os ombros.
— Bem, agora eu sei.
— Agora você sabe.
— O mistério foi resolvido.
— Você achava mesmo que eu não falava? — pergunto, depois de um instante. — Tipo, você achou que eu fosse muda?
Pergunto-me que outras coisas estão falando de mim por aqui.
Ian olha para mim por cima do ombro, sorri como se tentasse não rir.
Balança a cabeça e não responde.
— O carimbo — ele diz — é apenas controle. Eles carimbam tudo para poderem rastrear. Não é nada de importante.
— Mas o que significa NRM? Quem está carimbando?
— NRM — ele diz, repetindo as três letras como se eu tivesse de reconhecê-las. — Nações Restabelecidas do Mundo. Tudo é global agora, você sabe. Todos comercializam mercadorias. E isso — ele continua — é algo que ninguém sabe de verdade. É outro motivo pelo qual O Restabelecimento todo é uma montanha de merda. Ele monopolizou os recursos do planeta todo e está pegando tudo para si.
Lembro-me de algo assim. Lembro-me de falar com Adam sobre isso quando ele e eu estávamos presos no manicômio. Na época em que eu sabia como era tocá-lo. Estar com ele. Machucá-lo. O Restabelecimento sempre foi um movimento global. Eu apenas não percebi que tinha um nome.
— Certo — digo a Ian, de repente distraída com todos os pensamentos na minha cabeça nos quais não quero pensar. — É claro.
Ian para ao me passar outro pacote.
— Então, é verdade? — ele pergunta, examinando meu rosto. — Que você realmente não faz ideia do que aconteceu com o mundo?
— Sei algumas coisas — eu respondo, ofendida. — Só não sei os detalhes.
— Bem — Ian começa —, se ainda se lembrar de como se fala quando voltarmos ao Ponto Ômega, talvez possa almoçar conosco um dia. Podemos contar tudo.
— Mesmo?
Eu me viro para olhá-lo.
— É, menina.
Ele ri e joga outra caixa para mim.
— É sério. Nós não mordemos.

5 comentários:

  1. Eu imaginei esse garoto Emory mostrando os dentes o dia todo, acho q ele.poderia fazer propaganda da Colgate heuheu finalmente a Juju vai começar a se enturmar, se misturar com o povão *-*

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  2. Isso miga. Vamô se enturmar fazer umas amizades

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  3. Yesubai, a filha do vilão11 de abril de 2017 23:31

    isso garota quanto mais você fizer amizades, mais pessoas aparecerão para nós, assim nós descobriremos mais crushs rsrsrsrsr esse Ian tb parece legal

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Boa leitura :)