26 de janeiro de 2017

Capítulo 2

Os três homens ficaram olhando o vilarejo, particularmente a oficina e a casa do aurives, desde a última semana. Agora, Tomas decidiu que era hora de agir. Ele apontou o polegar em direção à oficina, que tinha a porta da frente feita de ferro reforçado e falou com o canto da boca para Nuttal.
— Certo, vamos indo.
Nuttal era o menor dos três, um homem magro, cujas feições lembravam um furão e tinha tendência para fazer movimentos nervosos repentinos. Foi a sua pequena estatura que o fez ser escolhido por Tomas para a tarefa. Dos três, ele era o menos ameaçador.
Nuttal caminhou pela grande rua até a casa de Ambrose, olhando nervoso para os lados. Tomas o deixou chegar na metade do caminho, então cutucou Mound nas costelas.
— Certo, vamos!
Eles caminharam apressadamente através da rua, virando em direção ao lado da casa. Eles viram Nuttal chegar à porta da frente e pegar de dentro de sua jaqueta uma pequena bolsa de couro. Então eles correram pelo caminho estreito até a pequena janela que tinham notado alguns dias antes.


Ambrose, o ourives e joalheiro do vilarejo Wensley, estava preparando seu trabalho da tarde. Ele era uma pessoa que tinha hábitos e certas rotinas que seguia todos os dias.
De manhã, ele trabalhava em sua mesa, checando notas de fornecedores e contas para clientes. Então ia trabalhar em projetos para suas joias, anotando novas ideias em um fino papel com um grafite afiado.
Ao meio-dia, ele deixava a papelada em ordem sobre a cheia mesa de trabalho que servia como escrivaninha. Ele levantava, saía de casa – calmamente, tendo a certeza de que tanto a frente quanto os fundos da casa estavam trancados e seguros – e caminhava até a taverna do vilarejo. Lá ele almoçava.
Assim como tudo, esta era uma questão de hábito. Picles, queijo saboroso e pão fresco, acompanhados de meia caneca de cerveja. Em seguida, depois de uma breve conversa com qualquer outro cliente que estivesse na taberna, ele retornava para casa, pronto para começar seu real trabalho – a criação e reparo das joias de prata.
Hoje, como fazia todos os dias, ele teve o cuidado de trancar a porta da frente e seguiu para a cozinha, onde se ajoelhou na frente da lareira e escolheu uma pedra em particular.
Ela era marcada aparentemente por dois arranhões aleatórios – muitas pedras tinham cortes, porém os dessa pedra em particular não teriam significado para ninguém. Mas quando Ambrose colocava sua faca cega na abertura entre a pedra e o espaço ao seu lado, ele era capaz de levantá-la facilmente de sua posição, revelando uma pequena abertura. Ele retirou uma grande chave de ferro, se levantou e foi para seu escritório. Devolveu a pedra quando retirou a chave em seu esconderijo.
Ao lado da mesa de trabalho estava um grande e formidável cofre. Tinha um metro e meio de altura por um metro de largura. Dentro dele, Ambrose pegou seu suprimento de matéria-prima – barras de prata e pedras preciosas. Alguns dias, quando ele estava muito ocupado com o acúmulo de peças para fazer, ele poderia ficar com uma pequena fortuna de prata e joias guardada nesse cofre. Hoje não era um desses dias, mas ele tinha uma quantidade considerável de material precioso no cofre.
O joalheiro estava trancando o cofre quando ouviu alguém batendo na porta da frente.
Ele tirou a chave e hesitou por um segundo ou dois, perguntando se devia guardá-la em seu esconderijo. Bateram novamente e ele tomou uma decisão.
Levantando de perto do cofre, guardou a chave no bolso lateral da longa roupa de trabalho de couro que usava e fez seu caminho pela casa até a porta.
Quem estava lá começou a bater novamente – mais forte e mais alto dessa vez.
— Está bem! Estou indo! Estou indo!
Ele chegou à porta, mas ao invés de simplesmente abri-la, tirou a proteção do pequeno olho mágico no topo da porta, articulado por dentro, permitindo que ele olhasse através de uma abertura retangular, que era limitada por duas barras de ferro na madeira.
Havia um pequeno homem de aparência um tanto suja em pé do lado de fora da porta, mudando nervosamente o peso de um pé para o outro. Ele segurava um pequeno saco de couro nas mãos.
— O que você quer? — perguntou Ambrose de mau humor.
Charme e gentileza não eram suas virtudes. O pequeno homem olhou para cima e viu Ambrose encarando-o, seus olhos enquadrados na pequena abertura. Ele levantou o saco de couro até a abertura.
— É o colar de minha mãe, está vendo?
Ambrose franziu a testa.
— Não estou vendo nada que se pareça com um colar.
— Ah, sim.
O homem rapidamente desamarrou o cadarço do saco, derrubando seu conteúdo na palma da mão esquerda, então levantou até o olho mágico para Ambrose poder inspecionar.
— Viu? O fecho e um dos elos estão quebrados. Eu tenho que consertá-lo.
Ambrose olhou atentamente para a peça.
— Traga-o mais perto — ele mandou e Nuttal obedeceu.
Era uma bela peça, Ambrose reparou. Uma excelente peça, na verdade. Era feita de elos fortes de prata, com um pingente contendo uma filigrana. Ele podia ver onde o elo e o fecho estavam quebrados. Não tinha ideia que o colar fora quebrado quando Tomas o arrancou do pescoço de uma nobre senhora no sul do feudo, na semana anterior.
O fato foi que aquela cara peça o fez abaixar um pouco a guarda. Ele era normalmente um homem cauteloso. O que era de se esperar, considerando seu trabalho. Ladrões não tinham o hábito de trazer joias caras até ele. Mas ainda assim, o homem na porta era um estranho.
— Quem é você? Não o conheço — Ambrose perguntou.
O pequeno homem deu de ombros, desculpando-se, como se isso fosse alguma forma de desculpa.
— Trabalho no castelo — ele disse. — No depósito de armas. Senhor Gilbert me disse para trazer o colar para você. Disse que você poderia consertá-lo.
Fazia sentido.
Havia mais de cem pessoas trabalhando no castelo e Ambrose certamente não conhecia todas. Entretanto, ele conhecia o Senhor Gilbert. Eles trabalharam juntos em diversas ocasiões quando Ambrose fazia decorações de prata em partes de armaduras e punho de espadas. Ele tirou a barra de ferro que trancava a porta por dentro.
— É melhor você entrar. Eu irei dar uma olhada...
Ele virou-se quando ouviu um barulho de madeira quebrando no interior da casa.
Enquanto fazia isso, Nuttal colocou o ombro sobre porta, destrancando-a e se jogando para dentro, mandando o ourives de cabelo grisalho para o chão. Nuttal o seguiu rapidamente, fechando a porta atrás de si.
Ambrose conseguiu ficar de pé, com os olhos fixados no pesado taco de madeira em cima da prateleira do lado de dentro da porta. Nuttal o empurrou para trás novamente, distanciando-o da arma e mandando-o para os braços de Mound, que acabara de entrar pela porta dos fundos junto com Tomas.
Mound era um homem grande e musculoso, e agarrou o ourives em um abraço de urso, prendendo seus braços. Ambrose abriu a boca para pedir ajuda
— Socorro! — Ele gritou. — Estou sendo...
Ele não tinha mais chances. Tomas deu um passo para frente e enfiou uma bola de pano amassado na boca do artesão, impedindo qualquer grito e reduzindo sua voz a um sussurro quase inaudível.
— Cale a boca! — Tomas ordenou, embora a isso não fosse necessário.
Ele colocou a mão sobre o pano na boca de Ambrose para ter certeza de que ele não podia cuspi-lo. Os olhos de Ambrose subiram da mão de Tomas para olhar para ele, arregalados de medo.
— Mantenha-o nesse lugar — Tomas ordenou a Mound, e o grande homem rapidamente mudou o jeito de prender Ambrose, segurando-o agora com o braço esquerdo ao redor do pescoço, enquanto o braço direito segurava a mordaça no lugar.
Tomas deu um passo para trás, estava ofegante pela tensão do momento. Ele olhou rapidamente para Nuttal. Os olhos do pequeno homem estavam arregalados demais, como se fosse ele que estivesse prestes a ser assaltado. Ele estava mais para um rato nervoso do que um homem, Tomas pensou. Ainda assim, foi o jeito de não deixar que seu plano fracassasse.
— Bom trabalho Nuttal.
Nuttal balançou a cabeça várias vezes.
— Ele se apaixonou por isso — disse prazerosamente. — Perdeu por causa dessa beleza. — Ele levou a corrente até Ambrose, segurando em sua cara, os olhos irritados — conserte meu colar, por favor? Minha mãe vai ficar tão feliz! — Nuttal debochou, depois caiu na gargalhada.
— Tira isso dai — Tomas disse furioso. Então olhou para Ambrose. — Certo, você, nós vamos dar uma olhada no seu cofre.
Ele viu um brilho de desespero nos olhos do joalheiro, rapidamente mascarado. Gesticulou para Mound e eles arrastaram o ourives até seu escritório. Eles pararam quando viram que a porta do cofre estava fechada.
— Explodam isso — Tomas ordenou — Você bateu rápido demais! Deveria ter esperado ele abri-lo — ele resmungou para Nuttal, mas o pequeno homem deu de ombros.
— Como eu poderia saber? Eu não podia vê-lo! Eu não sabia, eu te falei...
— Cale a boca! — Mound disse-lhe. Então ele virou para Tomas — É provável que ele tenha trancado o cofre antes de sair para atender a porta.
Tomas parou, então balançou a cabeça, relutante, concordando que o que seu parceiro tinha dito fazia sentido.
— Então ele deve estar com a chave. Onde ela está?
A pergunta foi destinada a Ambrose, apesar de ele não poder responder por causa da bola que continuava na sua boca, porém mais uma vez, Tomas viu um brilho de desespero nos olhos do joalheiro. Havia uma chave, ele percebeu. E ela deveria estar em algum lugar por ali. Ele procurou pelo escritório, então caminhou para a mesa, jogando as pilhas de papel para fora da mesa.
Tomas olhou para Nuttal.
— Cheque a cozinha. Veja se acha outras chaves.
O pequeno homem foi para a cozinha, procurando por chaves penduradas em todo lugar. Normalmente as pessoas penduravam as chaves ao lado da lareira e do fogão, mas não tinha nenhuma nesses lugares. Então ele viu a pedra deslocada no chão e uma pequena entrada preta atrás dela.
— Aqui! — ele chamou. — Aqui é onde ele esconde a chave!
Ele se ajoelhou enquanto os outros entravam, arrastando um Ambrose relutante com eles. Nuttal vasculhou ao redor do buraco no chão, mas levantou os olhos frustrados, só achou espaço vazio.
— Não tem nada aqui. Está vazio.
Tomas agarrou a roupa de couro de Ambrose e o puxou até que seus rostos ficassem a apenas alguns centímetros de distancia.
— Onde ela está? — ele perguntou, sacudindo o joalheiro, sua cabeça indo para trás e para frente. — Onde você escondeu?
Mound tirou a mordaça da boca de Ambrose. O joalheiro respirou fundo e tentou pedir ajuda
— Socorro! — Ele começou. — Estou sendo...
O punho de Tomas acertou seu estômago, transformando sua respiração em suspiro. O ourives dobrou pra frente, ofegante, gemendo de dor.
— Pare com essa choradeira! — ele ordenou grosseiramente — ou eu irei cortar sua língua fora. Agora, onde está a chave?
Mas Ambrose fechou a boca e balançou a cabeça repetidamente. Tomas deu tapas nele várias vezes, fazendo sua cabeça ir de um lado para o outro. Mas Ambrose continuava em silêncio absoluto.
— Talvez ele esteja com ela — Mound sugeriu.
Ele sentia que Tomas estava quase perdendo o controle. Sua raiva muitas vezes o fazia perder completamente a razão.
Tomas olhou pra ele, considerando a declaração brevemente. Ele empurrou o joalheiro para Mound, agarrando seu colete.
— Procure nele — Tomas ordenou calmamente.
Enquanto ele dizia as palavras, Ambrose ficou momentaneamente inseguro, tentando ir para a forja. Mound segurou seu braço e o puxou para trás. A tentativa de fuga só serviu para convencê-lo de que estava certo. A chave estava com Ambrose.
Ele a achou quase imediatamente. O bolso lateral de couro era um dos dois lugares óbvios para procurar a chave grande e pesada. Tomas a tirou do bolso e a levantou triunfante.
— Bem, o que você acha que é isso? — Ele perguntou, sorrindo.
As tentativas frenéticas de Ambrose para se libertar só serviram para confirmar o que ele suspeitava.
Essa era a chave.
Tomas inseriu a chave na fechadura do cofre. Segundos depois, a pesada porta abriu em dobradiças bem lubrificadas. Dentro, barras de prata e pedras preciosas brilhavam e davam as boas-vindas. Os três ladrões suspiraram de satisfação. O cofre não estava cheio como deveria estar – Ambrose tinha fabricado e vendido muitas joias nos últimos dias – mas ali ainda tinha fortuna suficiente pra eles viverem confortáveis durante alguns meses.
Ambrose gemeu. Silenciosamente, ele se amaldiçoou por ter sido tão estúpido e descuidado. Ele deveria ter retornado a chave para seu esconderijo embaixo da pedra.
Agora ele iria perder centenas, se não milhares de reais em prata e pedras preciosas. E ele não parava de se culpar.
Nuttal chegou a frente com um grande saco de lona e os bandidos começaram a tirar a prata e as joias do cofre e colocá-las dentro do saco. Mound hesitou quando pegou uma bandeja de madeira com peças acabadas – colares, anéis e broches que Ambrose tinha feito.
— E o que fazemos com isso? — ele perguntou.
Mas Tomas balançou sua cabeça.
— Muito reconhecível. Deve ter marcas dele em algum lugar por aqui. Se nós formos pegos com um desses, veremos o interior da cadeia do Castelo Redmont antes que possamos piscar. Pegue apenas as barras e as pedras soltas. Elas não podem ser reconhecidas.
A atenção deles foi afastada pelo tesouro dentro do cofre – tesouro que estava sendo rapidamente transferido para dentro do saco. Ambrose deu um passo furtivo para a porta de entrada. Nenhum dos três notou. Ele deu outro passo e nessa hora a cabeça de Tomas virou para o lado.
— Segurem ele! — o líder mandou com raiva.
Mound foi em direção ao joalheiro e segurou seu braço
— Amarre-o — Tomas ordenou.
Nuttal rapidamente obedeceu, pegando um pedaço de corda abaixo de seu colete. Ambrose, com os braços presos atrás, foi sendo empurrado para uma viga de madeira.
— Não sei por que não batemos na cabeça dele e acabamos logo com isso — Mound resmungou baixinho, então retornou ao cofre.
Tomas se inclinou para ele e falou baixinho, num tom inaudível para o ourives:
— Nós precisamos dele para mandar o pelotão de soldados para a direção errada, lembra?
Ele viu uma expressão de compreensão na face de Mound enquanto ele se lembrava desse detalhe do plano, e eles notaram a importância de cada ordem. Então Tomas levantou de sua posição, ajoelhado em frente ao cofre e continuou em voz alta:
— Muito bem! Nós terminamos aqui, rapazes. Vamos pegar a estrada para o Rio Stiller! Com sorte nós deveremos chegar lá antes do anoitecer.
Eles pararam para trocar a mordaça da boca de Ambrose e amarrar seus tornozelos juntos também. Sob a tensão do momento, o joalheiro não percebeu que seus tornozelos foram amarrados apenas levemente – muito mais frouxos que seus braços.
Rindo, o trio saiu pela porta na direção da forja, então viraram para o caminho lateral para a estrada.
Eles pararam, checando para que ninguém das redondezas tivesse notado-os saindo do beco e indo para a estrada alta. Eles atravessaram para o outro lado e rapidamente para o sul, passando através da periferia do vilarejo. No caminho, encontraram muitos aldeões, que olharam para eles com certa curiosidade. Eles eram estranhos, mas isso não era incomum em Wensley. O vilarejo estava situado perto do Castelo Redmont e, como resultado, visitantes com frequência iam e vinham.
Eles deixaram os limites do vilarejo e seguiram a estrada certa em direção aos bosques. Mas uma vez fora de vista, se moveram rapidamente para o meio das árvores, então deram meia volta num largo semicírculo, voltando para o extremo norte da aldeia.
— Você tem certeza que a casa estará vazia? — Nuttal ofegou enquanto eles atravessavam as árvores.
Tomas lançou um olhar fulminante. Nuttal era um incurável pessimista. Sempre pensando o pior, ele pensou.
— Esteve assim todos os dias da semana passada. Por que deveria ser diferente hoje? — ele perguntou.

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