2 de janeiro de 2017

21

Não me mexo.
— Vou soltá-la, combinado? Quero que pegue a minha mão.
Estendo a mão sem olhar para baixo e sinto nossas mãos com luvas se encaixarem. Kenji solta meu rosto.
— Você é tão idiota — ele me diz, mas ainda estou encarando Warner.
Warner agora está olhando ao redor como se tivesse acabado de ver um fantasma, piscando e esfregando os olhos como se estivesse confuso, olhando para o cachorro como se, talvez, o animal tivesse conseguido enfeitiçá-lo. Ele agarra firme seu cabelo loiro, desarranjando o estado perfeito dele e sai a passos largos tão rápidos que meus olhos não sabem como o seguir.
— Que diabos há de errado com você? — Kenji está me perguntando. — Está me ouvindo? Você é louca?
— O que você acabou de fazer? Por que ele... Ó, meu Deus — eu ofego, olhando para meu próprio corpo.
Estou completamente invisível.
— De nada — Kenji responde, bravo, arrastando-me para longe do aglomerado. — E baixe a voz. Estar invisível não significa que o mundo não pode ouvi-la.
— Você pode fazer isso?
Tento encontrar o rosto dele, mas poderia estar falando com o ar.
— É... Chama-se projeção, lembra? Castle ainda não explicou isso para você? — ele pergunta, ansioso para passar depressa pela explicação e poder voltar a gritar comigo. — Nem todo mundo consegue fazer... Nem todas as habilidades são iguais... Mas, talvez, se você parar de ser estúpida por tempo suficiente para não morrer, possa ensinar a você um dia.
— Você voltou por mim — digo a ele, esforçando-me para acompanhar seu passo ágil e nem um pouco ofendida com a raiva dele. — Por que voltou por mim?
— Porque você é estúpida — ele diz de novo.
— Eu sei. Desculpe. Não pude evitar.
— Bem, evite — ele diz, com a voz rude enquanto me puxa pelo braço. — Teremos de correr para recuperar todo o tempo que você acabou de desperdiçar.
— Por que você voltou, Kenji? — pergunto de novo, sem desistir. — Como sabia que eu ainda estava ali?
— Eu a estava observando — ele explica.
— O quê? O que você...
— Eu observo você — ele diz, as palavras cuspidas de novo, impacientes. — É parte do meu trabalho. É o que tenho feito desde o primeiro dia. Eu entrei no exército de Warner por sua causa, só sua. Foi por isso que Castle me mandou para lá. Você era a minha tarefa — a voz dele está fragmentada, rápida, sem sentimentos. — Eu já lhe disse isso.
— Espere. O que você quer dizer com “me observar”?
Eu hesito, puxando o braço invisível dele para diminuir um pouco sua velocidade.
— Você me segue por toda parte? Até mesmo agora? Até mesmo no Ponto Ômega?
Ele não responde logo em seguida. Quando responde, suas palavras são relutantes.
— Mais ou menos.
— Mas por quê? Estou aqui. Seu trabalho está feito, não está?
— Já tivemos essa conversa — ele diz. — Lembra? Castle queria que eu garantisse que você estava bem. Ele me disse para ficar de olho em você... Nada sério... Apenas, você sabe, garantir que você não está tendo surtos psicóticos e tal.
Eu o ouço suspirar.
— Você passou por muita coisa. Ele está um pouco preocupado com você. Principalmente agora... Depois do que acabou de acontecer. Você não parece bem. Você parece querer se jogar na frente de um tanque.
— Eu nunca faria algo assim — eu afirmo, e penso se estou dizendo a verdade.
— É — ele diz. — Tudo bem. Que seja. Estou apenas apontando o óbvio. Você só funciona em dois cenários: ou está de cara feia ou está se agarrando com o Adam... E, devo dizer, eu meio que prefiro a cara feia...
— Kenji!
Eu quase puxo a mão da mão dele. Ele aperta mais em volta dos meus dedos.
— Não largue de mim — ele briga comigo de novo. — Não pode largar ou a conexão será quebrada.
Kenji está me arrastando pelo meio de uma clareira. Estamos bastante longe dos aglomerados agora e não seremos ouvidos, mas ainda estamos muito longe do ponto de descarga para nos considerarmos a salvo já. Por sorte, a neve não está pegajosa o suficiente para deixarmos rastros.
— Não acredito que você nos espionou!
— Eu não os estava espionando, certo? Maldição. Acalme-se. Que inferno, vocês dois precisam se acalmar. Adam já estava me atormentando por causa disso...
— O quê?
Senti que as peças desse quebra-cabeça estavam enfim começando a se encaixar.
— Foi por isso que ele foi grosseiro com você no café da manhã na semana passada?
Kenji diminui um pouco o ritmo. Ele respira fundo e demoradamente.
— Ele pensou que eu estivesse, tipo, tirando vantagem da situação.
Ele diz vantagem como se fosse uma palavra estranha e suja.
— Ele acha que eu fico invisível apenas para vê-los nus ou algo assim. Olhe... Eu nem sei, certo? Ele foi um idiota com isso. Estou apenas fazendo meu trabalho.
— Mas... Você não estava fazendo isso, estava? Você não estava tentando me ver nua ou algo assim?
Kenji bufa, engole a risada.
— Olhe, Juliette — ele diz, com outra risada. — Eu não sou cego, ok? Em um nível puramente físico? Sim, você é bem sexy... E esse traje que tem de usar o tempo todo não é nada mau. Porém, mesmo se você não tivesse a história do “vou matá-lo se tocar em você”, você não é mesmo meu tipo. E, o que é mais importante, não sou um canalha pervertido — ele declara. — Levo meu trabalho a sério. Faço coisas de verdade neste mundo e gosto de pensar que as pessoas me respeitam por isso. Mas o seu garoto, Adam, está muito cego de desejo para pensar direito. Talvez você deva fazer algo a respeito.
Eu baixo os olhos. Não digo nada por um instante. Depois:
— Acho que você não terá mais de se preocupar com isso.
— Ah, merda — Kenji suspira, como se não pudesse acreditar que ficou preso ouvindo problemas sobre minha vida amorosa. — Caí direitinho nessa, né?
— Podemos ir, Kenji. Não precisamos falar sobre isso.
Uma respiração irritada.
— Não é que não me importe com o que você está vivendo — ele diz. — Não é que quisesse vê-la deprimida e tal. É apenas que esta vida já é bagunçada o bastante — ele continua, com a voz controlada, tensa. — Estou cansado de vê-la presa no seu próprio mundinho o tempo todo. Você age como se tudo isso, tudo o que fazemos, fosse uma piada. Você não leva nada a sério...
— O quê? — eu o interrompo. — Não é verdade... Eu levo a sério...
— Bobagem.
Ele solta uma risada curta, aguda e irritada.
— Tudo o que faz é ficar sentada e pensar em seus sentimentos. Você tem problemas. Ó, coitadinha — ele diz. — Seus pais a odeiam e é muito difícil, e você tem que usar luvas pelo restante da vida porque mata as pessoas ao tocá-las. Quem se importa?
Ele está respirando alto o suficiente para que eu escute.
— Até onde eu vejo, você tem comida no estômago e roupas no corpo e um lugar para fazer xixi em paz quando der vontade. Não são problemas. Isso é viver como um rei. E eu gostaria muito se você crescesse e parasse de andar por aí como se o mundo tivesse cagado no seu único rolo de papel higiênico. Porque é idiota — ele completa, mas controlando o humor. — É idiota e ingrato. Você não faz ideia do que todo o restante do mundo está vivendo agora. Você não faz ideia, Juliette. E não parece ligar nem um pouco também.
Eu engulo em seco, com força.
— Agora, estou tentando — ele continua — dar a você uma chance de consertar a situação. Estou sempre tentando lhe dar oportunidades de fazer tudo diferente. De ver além da garotinha triste, a garotinha triste à qual fica agarrada, e defender a si mesma. Pare de chorar. Pare de sentar no escuro contando todos os seus sentimentos e sobre sua tristeza e solidão. Acorde — ele fala. — Você não é a única pessoa do mundo que não quer sair da cama pela manhã. Não é a única com problemas com o papai e um DNA gravemente estragado. Você pode ser o que quiser. Não está mais com os cretinos dos seus pais. Não está mais naquela merda de manicômio e não está mais presa com Warner e sua merda de experimento. Assim, faça uma escolha — ele me aconselha. — Faça uma escolha e pare de desperdiçar o tempo de todo mundo. Pare de desperdiçar o seu tempo. Combinado?
A vergonha está se acumulando em cada centímetro do meu corpo. O calor subiu queimando pelo meu corpo até o centro do meu ser, chamuscando-me de dentro para fora. Estou tão horrorizada, tão apavorada por ouvir a verdade nas palavras dele.
— Vamos — ele me chama, mas sua voz está apenas um pouquinho mais gentil. — Temos de correr.
E eu concordo balançando a cabeça, embora ele não possa me ver.
Balanço e balanço e balanço e estou muito feliz por ninguém conseguir ver meu rosto neste momento.

17 comentários:

  1. E o Kenjin não pára...dá mais uma bofetada na cara dela kkkkkkkk

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  2. Como eu gosto do kenji sua sinceridade e pelos sacodes q ele da na julliete

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  3. Nossa amo o Kenji hahahahah

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  4. É isso ai Kenji!! Amigo de verdade da uma sacudida em você quando é preciso!

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  5. É desnecessário o Kenji com essas coisas
    é fácil alguém falar pra ela esquecer o que ela passou. Pois não foi ele que sofreu com a mãe queimando a sua mão.
    Ela estava fazendo tudo certo ela ficou apenas curiosa pra ver o Warner e foi bom ela ver esse lado dele.
    E espero que eles fiquem juntos

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  6. Meu amor por Kenji aumentou, parece q ele é o único q tem coragem d falar umas verdades pra ela, TOMA ESSA JUJU, PARE D SE LAMENTAR E VAI A LUTA POHA, VC Ñ É A UNICA COM PROBLEMAS, SE LIGA GAROTA. Mas gostei dela ter visto o mozão *-*

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  7. Kenji... Eu te amo! Tipo... Eu te amo muito. E essa é a parte que vc vai parar de se achar a titica da galinha Juliette?

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  8. Kenji, como você pode mudar de o cara idiota, burro, feio e safado, que pensei que você fosse no primeiro livro, para esse cara bonito dedicado e esperto?
    Se eu tivesse nesse livro com certeza investiria em você.

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  9. Yesubai, a filha do vilão11 de abril de 2017 23:20

    o Kenji é demais, só ele tem coragem de dizer essas coisas pra Jullie, coisas que ela precisa ouvir, ela precisa desses choques de realidade pra deixar o passado pra trás e recomeçar

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  10. Eu gosto dela mas também acho que já está na altura de ela parár de ter pena de si mesma e d lutar por um futuro melhor!

    -Lippa

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  11. Kenji sua sinceridade me comove kkkkkkkkkkkk e continua assim que ela precisa acordar tá

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Boa leitura :)