2 de janeiro de 2017

20

Warner está a menos de seis metros de mim.
Seu terno foi feito especialmente para ele e ajusta-se bem ao seu corpo em um tom de preto tão forte que quase cega. Seus ombros estão envolvidos por um terno caban aberto, da cor de troncos com limo e florestas decíduas, cinco tons mais escuros do que seus olhos verdes, verdes; os botões dourados brilhantes são o complemento perfeito para seu cabelo dourado. Ele está usando uma gravata preta. Luvas de couro pretas. Botas pretas lustrosas.
Parece impecável.
Sem defeitos, em especial parado aqui em meio à sujeira e à destruição, cercado pelas cores mais tristes que esta paisagem tem a oferecer. Ele é uma visão de esmeralda e ônix e pinheiros pingando ouro, sua silhueta formada sob a luz do sol da maneira mais enganadora. Ele poderia estar brilhando. Aquela poderia ser uma auréola em volta da sua cabeça. Este poderia ser o jeito do mundo de dar um exemplo com base em ironia. Porque Warner é bonito de uma forma que nem mesmo Adam é.
Porque Warner não é humano.
Nada nele é normal.
Ele está olhando ao redor, com os olhos meio fechados contra a luz da manhã, e o vento abre seu longo casaco desabotoado para que eu tenha uma visão do seu braço sob ele. Enfaixado. Preso em uma tipoia.
Tão perto.
Eu estava tão perto.
Os soldados andando de lá para cá em volta dele estão esperando por ordens, esperando por alguma coisa, e não consigo desviar o olhar. Não consigo deixar de sentir uma agitação estranha por estar tão perto dele e, mesmo assim, tão distante. Parece quase uma vantagem: poder observá-lo sem ele saber.
Ele é um garoto estranho, estranho, perverso.
Não sei se posso esquecer o que ele fez comigo. O que ele me obrigou a fazer. Que eu cheguei tão perto de matar de novo. Vou odiá-lo para sempre por isso, mesmo tendo certeza de que terei de encará-lo de novo.
Um dia.
Nunca pensei que veria Warner nos aglomerados. Nem fazia ideia de que ele visitava os civis; embora, na verdade, nunca tenha sabido muito sobre como ele passava os dias a menos que os passasse comigo. Não faço ideia do que ele está fazendo aqui.
Ele, enfim, diz algo aos soldados e eles acenam com a cabeça, uma vez, rapidamente. Depois, desaparecem.
Eu finjo estar concentrada em algo bem à direita dele, tomando cuidado para manter a cabeça baixa e tombada um pouco para o lado, para que ele não consiga ver meu rosto mesmo se olhar na minha direção. Minha mão esquerda levanta-se para apertar meu chapéu por cima das minhas orelhas, e minha mão direita finge separar o lixo, finge pegar pedaços de sucata para serem recolhidos hoje.
É assim que algumas pessoas ganham seu sustento. Outra triste ocupação.
Warner passa a mão saudável pelo rosto, cobrindo os olhos por apenas um instante antes de parar sobre sua boca, apertando os lábios como se ele tivesse algo que não aguenta dizer.
Seus olhos parecem quase... preocupados. Embora tenha certeza de que apenas o estou analisando da maneira errada.
Eu o observo enquanto ele observa as pessoas ao seu redor. Presto atenção suficiente para conseguir perceber que seu olhar demora-se em crianças pequenas, na maneira como correm umas atrás das outras com um jeito inocente que diz que elas não têm ideia do tipo de mundo que perderam. Este lugar triste e escuro é tudo que já conheceram.
Tento ler a expressão de Warner enquanto as analisa, mas ele toma cuidado para se manter completamente neutro. Não demonstra nenhum traço de emoção.
Ele não faz nada além de piscar enquanto fica perfeitamente parado, uma estátua ao vento.
Um cachorro de rua está andando na direção dele.
De repente, fico petrificada. Fico preocupada com essa criatura esfarrapada, esse animal fraco e congelado que provavelmente está buscando pequenos pedaços de comida, algo que o salve de morrer de fome nas próximas horas.
Meu coração acelera no peito, o sangue pulsando muito rápido e muito forte e não sei por que sinto que algo terrível está prestes a acontecer.
O cão aproxima-se depressa bem da parte de trás das pernas de Warner, como se estivesse meio cego e não visse aonde vai. Está muito ofegante, a língua pendurada para o lado como se não soubesse como voltar para dentro.
Choraminga e gane um pouco, babando por toda parte sobre as calças muito finas de Warner e eu estou prendendo a respiração enquanto o menino de ouro se vira. Quase espero que ele pegue a arma e atire bem na cabeça do cachorro.
Já o vi fazer o mesmo com um ser humano.
Porém, o rosto de Warner abre-se ao ver o pequeno cão, rachaduras formando-se na perfeição dos seus traços, a surpresa erguendo suas sobrancelhas e arregalando os olhos por apenas um instante. Tempo suficiente para eu reparar.
Ele olha ao redor, os olhos atentos enquanto examina as redondezas antes de colocar o animal em seus braços e desaparecer depois de uma cerca baixa, uma das cercas baixas e compridas usadas para separar os quadrados de terra de cada aglomerado. De repente, fico desesperada para ver o que ele vai fazer e sinto-me ansiosa, muito ansiosa, ainda sem conseguir respirar.
Já vi o que Warner é capaz de fazer com uma pessoa. Já vi seu coração endurecido e seus olhos sem sentimentos e sua total indiferença, seu comportamento impassível e sereno, inalterado depois de matar um homem a sangue frio. Posso apenas imaginar o que ele planejou para um cão inocente.
Tenho de ver com meus próprios olhos.
Tenho de tirar o rosto dele da minha cabeça e esta situação é perfeita. É a prova de que ele é doente, perturbado, que ele está errado e sempre estará errado.
Eu queria poder levantar, poder vê-lo. Eu veria o que ele está fazendo com aquele pobre animal e, talvez, encontraria uma maneira de impedi-lo antes de ser tarde demais, mas ouço a voz de Castle, um sussurro alto chamando todos nós, dizendo que o caminho está livre para seguirmos em frente agora que Warner está fora de vista.
— Todos nós iremos. E iremos separados — ele diz. — Sigam o plano! Ninguém segue ninguém. Todos nós nos encontraremos no ponto de descarga. Se alguém não chegar, será deixado para trás. Vocês têm 30 minutos.
Kenji está puxando meu braço, dizendo-me para ficar em pé, concentrada, olhando na direção certa. Levanto o olhar tempo suficiente para ver que o restante do grupo já se dispersou; Kenji, no entanto, recusa-se a sair do lugar.
Ele fala um palavrão baixinho até eu finalmente ficar em pé. Digo a ele que entendo o plano e faço um gesto para que ele siga sem mim. Lembro-lhe de que não podemos ser vistos juntos. Não podemos andar em grupos ou duplas. Não podemos chamar a atenção.
Finalmente, finalmente, ele se vira para ir embora.
Vejo Kenji sair. Depois, dou alguns passos para frente, apenas para virar-me e correr de volta para o canto do aglomerado, deslizando minhas costas contra a parede, escondida.
Meus olhos examinam a área até que acho o lugar na cerca onde vi Warner pela última vez; fico nas pontas dos pés para espiar.
E tenho de cobrir a boca para conter um grito.
Warner está agachado no chão, dando comida ao cachorro com sua mão saudável. O corpo trêmulo e ossudo do animal está aconchegado dentro do casaco aberto de Warner, tremendo enquanto suas pernas eriçadas tentam encontrar calor depois de ficarem congeladas por tanto tempo. O cão balança o rabo com vigor, vai para trás para olhar nos olhos de Warner e, depois, mergulha no calor do casaco de novo. Ouço Warner rir.
Vejo-o sorrir.
É o tipo de sorriso que o transforma em uma pessoa completamente diferente, o tipo de sorriso que coloca estrelas em seus olhos e um brilho intenso em seus lábios, e percebo que nunca o vi assim antes. Nunca tinha visto seus dentes, tão retos, tão brancos, nada menos do que perfeitos. Um exterior perfeito, perfeito para um garoto com um coração preto, preto. É difícil acreditar que há sangue nas mãos da pessoa que estou observando. Ele parece suave e vulnerável... Tão humano. Os olhos estão meio fechados por causa do sorriso e as bochechas estão rosa com o frio.
Ele tem covinhas.
Ele é, sem dúvida, a coisa mais bonita que já vi.
E eu queria nunca tê-la visto.
Porque alguma coisa dentro do meu coração está se rasgando e parece medo, fere como o terror e tem gosto de pânico e ansiedade e eu não sei como entender a imagem à minha frente. Não quero ver Warner assim. Não quero pensar nele como nada além de um monstro.
Isso não está certo. Eu saio de lá muito rápido e para uma direção muito errada, de repente idiota demais para encontrar um apoio firme para os pés e odiando-me por gastar um tempo que eu poderia ter usado para escapar. Sei que Castle e Kenji estariam prontos para me matar por ter me arriscado tanto, mas eles não entendem o que passa pela minha cabeça agora, não entendem o que eu...
— Ei! — ele grita, bravo. — Você aí...
Levanto a cabeça sem querer, sem perceber que respondi à voz de Warner até já ser tarde demais. Ele está em pé, congelado no lugar, olhando diretamente para os meus olhos, com a mão saudável parada na metade de um movimento até que cai sem energia, seu queixo frouxo; pasmo, temporariamente entorpecido.
Vejo as palavras morrerem em sua garganta.
Estou paralisada, presa no olhar dele enquanto ele permanece ali, o peito arfando com força e os lábios prontos para formar as palavras que, com certeza, me sentenciarão à morte, tudo por causa da minha estúpida, idiota e sem noção...
— O que quer que você faça, não grite.
Alguém fecha a mão sobre minha boca.

17 comentários:

  1. Sera que eu sou a única louca, que quer q ela fique com Warner?!

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    1. Confesso que no começo eu tinha nojo de warner, mas agora estou apaixonada por ele kkkkkkkk

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    2. Estou dividida.....adoro os dois(Warner e Adam)

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  2. mas não é mesmo! kkk acho que o Kenji deixou ela invisível

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  3. Ja era hora ! Ta louco aguardei o livro todo por esse momento #TeamWarner

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  4. FINALMENTE O MOZÃO BROTOU, eu amo o Warner, Juju fica com ele poha ou então deixa q eu fico *0*
    #TeamJuliner

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  5. Amo demais o Warner, não consigo odiar ele e sim amar!! 😍😍

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  6. Warneeerrr♥♥♥ Finalmente... Aí... É muita emoção gnt!

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  7. Essa sena fica melhor do ponto de vista do Warner.
    Odeio quando o autor me faz apaixonar pelo vilão.

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  8. Que bom que ele não imaginou tê-la visto *-*

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  9. Yesubai, a filha do vilão11 de abril de 2017 23:14

    Ele tem covinhas.
    Ele é, sem dúvida, a coisa mais bonita que já vi.
    E eu queria nunca tê-la visto.



    Sorriso com covinha é covardia! não dá pra resistir a um sorriso lindo com covinhas eu te entendo Jullie

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  10. Ele tem covinhas.
    Ele é, sem dúvida, a coisa mais bonita que já vi.
    <3 <3 <3 <3

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Boa leitura :)