2 de janeiro de 2017

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Uma batida rápida e a porta é aberta de repente.
— Ah, senhorita Ferrars. Não sei o que espera conseguir sentada no canto.
O sorriso fácil de Castle entra dançando na sala antes dele.
Eu tomo um pequeno fôlego e tento olhar para Castle, mas não consigo. Em vez disso, sussurro uma desculpa e ouço o tom arrependido que minhas palavras ganham nessa grande sala. Sinto meus dedos trêmulos apertarem-se contra as esteiras espessas e acolchoadas espalhadas pelo chão e penso que não conquistei nada desde que cheguei aqui. É humilhante, muito humilhante decepcionar uma das únicas pessoas que já foi gentil comigo.
Castle fica parado bem em frente a mim, espera até eu finalmente levantar o olhar.
— Não precisa se desculpar — ele diz.
Seus olhos penetrantes e castanho-claros e seu sorriso amigável fazem com que seja fácil esquecer que ele é o líder do Ponto Ômega. O líder de todo esse movimento clandestino dedicado a lutar contra o Restabelecimento. A voz dele é muito suave, muito gentil e isso é quase pior. Às vezes, queria que ele simplesmente gritasse comigo.
— Porém — ele continua —, precisa aprender a controlar sua energia, senhorita Ferrars.
Uma pausa.
Um passo.
As mãos dele repousam sobre a pilha de tijolos que eu devia ter destruído. Ele finge não reparar nos contornos vermelhos ao redor dos meus olhos nem nos canos de metal que atirei pela sala. O olhar dele evita com cuidado as manchas de sangue nas tábuas de madeira colocadas de lado; seus questionamentos não me perguntam por que meus punhos estão cerrados e nem se eu me machuquei de novo. Ele levanta a cabeça na minha direção, mas está olhando para um ponto logo atrás de mim, e sua voz é delicada quando fala.
— Sei que é difícil para você — ele afirma. — Mas a senhorita tem que aprender. Precisa aprender. Sua vida depende disso.
Engulo em seco com tanta força que ouço o eco do gole no abismo entre nós dois. Faço que sim com a cabeça, encosto-me na parede, dou boas-vindas ao frio e à dor do tijolo enterrado em minha espinha. Puxo os joelhos para perto de meu peito e sinto os pés pressionados contra as esteiras protetoras que cobrem o chão. Estou tão perto de chorar que tenho medo de acabar gritando.
— Eu apenas não sei — digo, por fim. — Não sei nada disso. Não sei nem mesmo o que eu deveria estar fazendo.
Olho para o teto e pisco pisco pisco. Meus olhos parecem brilhantes, úmidos.
— Não sei como fazer as coisas acontecerem.
— Então, precisa pensar — Castle diz, sem se deixar deter.
Ele pega um cano de metal descartado. Pesa-o nas mãos.
— A senhorita precisa achar ligações entre os eventos que aconteceram. Quando quebrou o concreto na câmara de tortura de Warner... Quando seu soco atravessou a porta de aço para salvar o senhor Kent... O que aconteceu? Por que, nessas duas vezes, a senhorita conseguiu reagir de forma tão extraordinária?
Ele se senta a alguma distância de mim. Empurra o cano na minha direção.
— Preciso que você analise suas habilidades, senhorita Ferrars. Você deve ter concentração.
Concentração.
É uma palavra, mas é suficiente, é o que basta para eu me sentir mal. Parece que todo mundo precisa que eu tenha concentração. Primeiro, Warner precisava que eu me concentrasse e, agora, Castle precisa que eu me concentre.
Nunca consegui fazer isso.
O suspiro profundo e triste de Castle me traz de volta ao presente. Ele fica em pé. Alisa o único paletó azul-escuro que parece ter e vejo rapidamente o símbolo prateado do Ômega bordado nas costas. Uma mão despreocupada toca a ponta de seu rabo de cavalo; ele sempre prende os dreads em um nó perfeito na base do pescoço.
— A senhorita está resistindo a si mesma — ele afirma, embora use um tom suave. — Talvez devesse trabalhar com outra pessoa para variar. Talvez um parceiro a ajude a desvendar tudo... a descobrir a ligação entre esses dois eventos.
Meus ombros travam, surpresos.
— Pensei que tivesse dito que eu tinha de trabalhar sozinha.
Ele passa por mim, olhando-me de soslaio. Coça um ponto abaixo da orelha, coloca a outra mão em um bolso.
— Eu não queria que a senhorita trabalhasse sozinha de verdade — ele conta. — Mas ninguém se ofereceu para a tarefa.
Uma depois duas depois 15 pedras caem na boca do meu estômago. Várias ficam presas na traqueia. Não sei por que engulo a respiração, por que estou tão surpresa. Eu não devia ficar surpresa. Nem todo mundo é o Adam.
Nem todo mundo está protegido contra mim da maneira como ele está. Ninguém além de Adam já me tocou e gostou. Ninguém, exceto Warner. No entanto, apesar das boas intenções de Adam, ele não pode treinar comigo. Está ocupado com outras coisas.
Coisas que ninguém quer me contar.
Porém, Castle está me encarando com um olhar esperançoso, um olhar generoso, um olhar que não faz ideia de que essas novas palavras que ele ofereceu para mim são tão ruins. Ruins porque, por mais que eu saiba a verdade, ainda dói ouvir. Dói lembrar que, embora eu viva em uma redoma com Adam, o restante do mundo ainda me vê como uma ameaça. Um monstro. Uma aberração.
Warner estava certo. Não importa aonde eu vá, parece que não consigo fugir disso.
— O que mudou? — pergunto a ele. — Quem está disposto a me treinar agora?
Faço uma pausa.
— Você?
Castle sorri.
É o tipo de sorriso que dispara uma onda de calor e humilhação pelo meu pescoço acima e atravessa uma lança bem na vértebra de meu orgulho. Tenho de resistir ao impulso de fugir porta afora.
Por favor por favor por favor não tenha dó de mim, é o que quero dizer.
— Quem me dera ter tempo — Castle me diz. — Mas Kenji está finalmente livre... Conseguimos reorganizar a programação dele... E ele disse que ficaria feliz em trabalhar com a senhorita.
Um momento de hesitação.
— Quero dizer, se a senhorita concordar.
Kenji.
Quero gargalhar alto. Kenji seria o único disposto a se arriscar a trabalhar comigo. Eu o machuquei certa vez. Por acidente. Mas ele e eu não passamos muito tempo juntos desde que ele liderou, pela primeira vez, nossa expedição para o Ponto Ômega. Era como se ele estivesse apenas cumprindo uma tarefa, realizando uma missão; depois de concluída, voltou para sua própria vida.
Aparentemente, Kenji é importante por aqui. Ele tem um milhão de coisas a fazer. Coisas a regularizar. As pessoas parecem gostar dele, até respeitá-lo. Fico imaginando se já o viram como o Kenji odioso e boca-suja que eu conheci.
— É claro — eu respondo a Castle, tentando fazer uma expressão agradável pela primeira vez desde a chegada dele. — Parece ótimo.
Castle levanta-se. Seus olhos são brilhantes, ansiosos, fáceis de agradar.
— Perfeito. Pedirei que ele a encontre no café da manhã de amanhã. Vocês podem comer juntos e começar dali.
— Ah, mas eu geralmente...
— Eu sei — Castle me interrompe.
O sorriso dele está apertado em uma linha fina agora, com a testa enrugada de preocupação.
— A senhorita gosta de fazer as refeições com o senhor Kent. Sei disso. Mas a senhorita quase não passou nenhum tempo com os outros, senhorita Ferrars, e, se vai ficar aqui, tem de começar a confiar em nós. As pessoas do Ponto Ômega sentem-se próximas de Kenji. Ele pode contribuir para a sua imagem. Se todos os virem passando um tempo juntos, ficarão menos intimidados com sua presença. Vai ajudá-la a se adaptar.
Um calor como óleo quente salpica meu rosto; eu recuo, sinto meus dedos se torcerem, tento encontrar um lugar para onde olhar, tento fingir que não sinto a dor presa em meu peito. Tenho de engolir três vezes antes de poder responder.
— Eles... eles têm medo de mim — digo, eu sussurro, eu deixo minha voz morrer. — Não quero... Não queria incomodar ninguém. Não queria ficar no caminho...
Castle solta um suspiro, longo e alto. Ele olha para cima e para baixo, coça o ponto macio sob seu queixo.
— Eles só têm medo — ele começa, por fim — porque não a conhecem. Se a senhorita se esforçasse um pouquinho mais... Se fizesse até mesmo o menor esforço para conhecer alguém...
Ele para. Franze as sobrancelhas.
— Senhorita Ferrars, a senhorita está aqui há duas semanas e quase não falou com suas colegas de quarto.
— Mas isso não é... Eu acho que elas são ótimas...
— E, ainda assim, as ignora? Não passa um tempo com elas? Por quê?
Porque nunca tive amigas mulheres antes. Porque tenho medo de fazer algo errado, dizer algo errado e elas acabarem me odiando como todas as outras garotas que já conheci. E eu gosto muito delas, o que fará com que sua inevitável rejeição seja muito mais difícil de suportar.
Não digo nada.
Castle balança a cabeça.
— A senhorita agiu tão bem no dia em que chegou. Parecia quase amigável com Brendan. Não sei o que aconteceu — Castle continua. — Pensei que fosse se sair bem aqui.
Brendan. O menino magro com cabelo loiro-platinado e correntes elétricas correndo pelas veias. Eu me lembro dele. Ele foi gentil comigo.
— Eu gosto do Brendan — digo a Castle, desnorteada. — Ele está chateado comigo?
— Chateado?
Castle balança a cabeça, dá uma grande gargalhada. Ele não responde a minha pergunta.
— Não entendo, senhorita Ferrars. Tentei ser paciente com você, tentei lhe dar tempo, mas confesso que estou bastante perplexo. A senhorita era tão diferente quando chegou... Estava animada por estar aqui! Porém, bastou menos de uma semana para se afastar por completo. Nem olha para as outras pessoas quando anda pelos corredores. O que aconteceu com a conversa? Com a amizade?
Sim.
Levei um dia para me acomodar. Um dia para olhar o local. Um dia para ficar animada com uma vida diferente e um dia para todo mundo descobrir quem eu era e o que tinha feito.
Castle não diz nada sobre as mães que me veem andando pelo corredor e puxam seus filhos para fora de meu caminho. Ele não menciona os olhares hostis e as palavras hostis que suportei desde minha chegada. Ele não fala nada sobre as crianças que foram aconselhadas a ficarem bem, bem longe, e os vários idosos que me observam com tanta atenção. Posso apenas imaginar o que eles ficaram sabendo, de onde tiraram as histórias.
Juliette.
Uma garota com um toque letal que suga a força e a energia de seres humanos de sangue quente até eles virarem carcaças flácidas e paralisadas, ofegando no chão. Uma garota que passou a maior parte da vida em hospitais e centros de detenção juvenis, uma garota rejeitada pelos próprios pais, rotulada de louca certificada e condenada ao isolamento em um hospício onde até os ratos tinham medo de morar.
Uma garota.
Com tanta fome de poder que matou uma criancinha. Torturou um bebê. Fez um homem adulto cair de joelhos lutando por ar. Ela não tem nem a decência de se matar.
Nada disso é mentira.
Assim, olho para Castle com manchas coloridas no rosto e letras não ditas nos lábios e olhos que se recusam a revelar seus segredos.
Ele suspira.
Ele quase diz alguma coisa. Tenta falar, mas seus olhos investigam meu rosto e ele muda de ideia. Apenas me oferece um rápido aceno de cabeça, respira fundo, bate no relógio, diz “Três horas até as luzes serem desligadas” e vira-se para sair.
Para na porta.
— Senhorita Ferrars — ele diz, de repente, com delicadeza, sem se virar — você escolheu ficar conosco, lutar conosco, ser membro do Ponto Ômega.
Uma pausa.
— Vamos precisar de sua ajuda. E temo que estamos ficando sem tempo.
Eu o observo sair.
Ouço seus passos se afastarem conforme eles ecoam ao lado de suas últimas palavras e encosto a cabeça na parede. Fecho o olhos, que olhavam o teto. Ouço a voz dele, solene e firme, ressoar nos meus ouvidos.
Estamos ficando sem tempo, ele disse.
Como se tempo fosse o tipo de coisa que pudesse acabar, como se fosse medido em tigelas que nos são entregues ao nascermos e, se comêssemos muito ou com muita rapidez ou logo antes de pular na água, nosso tempo seria perdido, desperdiçado, devorado, já gasto.
Porém, o tempo está além de nossa compreensão finita. É interminável, existe fora de nós; não podemos ficar sem ele nem o perder de vista nem achar uma forma de segurá-lo. O tempo continua mesmo quando não continuamos.
Temos bastante tempo, é o que Castle devia ter dito. Temos todo o tempo do mundo, é o que devia ter falado para mim. No entanto, ele não o fez porque o que quis dizer tic tac é que nosso tempo tic tac está mudando. Está se lançando para frente em uma direção completamente nova, batendo de cara com outra coisa e
tic
tic
tic
tic
tic
está quase
na hora da guerra.

19 comentários:

  1. Pode até não ser louca, mas ela devaneia demais

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  2. Sério. Sei que deve ser difícil... mas essa garota tem de ficar a vida toda sentindo pena de si mesma? Já tá enchendo.

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    1. Coitada
      todos até mesmo os que tem outros
      Poderes a julgam
      pare de ler então

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    2. DEVE SER DIFICIL NÃO TER CONTROLE, SER ANALIZADA, JULGADA E EXCLUIDA POR SEUS PODERES. PARTE O CORAÇÃO, A DEIXA DEPRIMIDA E SE SENTE UM MONSTRO SEM NEM AUMENOS SER.

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    3. POR ISSO AMO O WANER,ELE A COMPRIENDE MUITO MAIS QUE O ADAM. sÃO DUAS METADES DE UMA MOEDA.

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  3. Tic.. tic... tic kkkk ela tem que descobrir logo o
    poder que ela tem

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  4. Eu estava gostando mais dela no final do primeiro livro espero que ela melhore ela está muito chata

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  5. Essa garota pode até não ser louca, mas ela viaja demais. Kenji *-* <3 calma Juju, para d viajar e se concentra, vc vai conseguir U.u

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  6. " Está se lançando para frente em uma direção completamente nova, batendo de cara com outra coisa e
    tic
    tic
    tic
    tic
    tic
    está quase
    na hora da guerra."

    Amei!!

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  7. Tava acostumada com o Warner no destrua-me kkkkkkk a Ju é muito chata

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  8. No final do primeiro livro gostei da mudança, mas agora neste começo ela está fraca novamente, gosto da sensibilidade e amabilidade, mas gostaria dela também em contato com seu lado Sensual e guerreira.

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  9. Sabe Juju vou te apresentar uma amiga minha o nome dela é Katniss Everdeen, além de te ajudar a ter um pouco mais de confiança ela vai te contar umas coisinhas sobre esses grupos cheios de gente "confiavel" que só querem te "ajudar" e se escondem no subsolo. Talvez sejam até vizinhos

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  10. Ela estava animada no final do primeiro livro porque tinha esperança de finalmente ser aceita por outras pessoas. Mas no segundo livro ela pirou de novo porque percebeu que isso não foi possível nem com pessoas com poderes.
    Triste

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  11. Ela ta assim pq quer,o que custa tentar conversar com as pessoas? nada,credo

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  12. Apesar de tudo, não gosto de como o Castle fala com a Juliette u.u

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  13. Eu acho que ela tinha que falar um pouco desses pensamentos riscados que ela tem com alguém.
    E Apesar de tudo que ela passou ela tem que dar uma de trator e passar por cima dessas dificulades,ficar mais forte e tals.
    Para isso que existe os amigos.
    Ju minha filha tente ser um pouquinho sociável pfv.

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  14. Acho que a questão não é pq Adam e Warner podem tocá-la, mas sim que ela pode tocá-los porque existe uma maneira de controlar seu poder. Se ela se sentisse confortável e a vontade com as outras pessoas provavelmente conseguiria tocá-las também. Da mesma forma a força, ela só tem em alguns momentos, quando a situação exige. O toque mortal deve estar ativado o tempo inteiro, enquanto o da força não está, é só ela aprender a usar.

    j.

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Boa leitura :)