6 de janeiro de 2017

1

Sou uma ampulheta.
Meus 17 anos desmoronaram e me enterraram de dentro para fora. Minhas pernas parecem cheias de areia e grampeadas uma na outra, minha mente transborda de grãos de indecisão, escolhas não feitas e a impaciência conforme o tempo escoa de meu corpo. O ponteiro pequeno de um relógio bate em mim à uma e às duas, três e quarto, sussurrando olá, acorde, levantar, é hora de
acordar
acordar
— Acorde — ele sussurra.
Uma ingestão cortante de ar e estou acordada, mas não me levanto; surpresa, mas não com medo; de alguma forma encarando os olhos muito desesperadamente verdes que parecem saber demais, bem demais. Aaron Warner Anderson está curvado sobre mim, seus olhos preocupados me inspecionando, sua mão parada no ar como se pudesse ter estado prestes a me tocar.
Ele se afasta de repente.
Fica me olhando, sem piscar, o peito subindo e descendo.
— Bom dia — suponho.
Não tenho certeza da minha voz, da hora e do dia, destas palavras saindo dos meus lábios e deste corpo que me contém.
Percebo que ele está usando uma camisa branca social, meio enfiada em sua calça social preta curiosamente sem nenhum amassado. Suas mangas estão dobradas, puxadas para trás dos cotovelos.
Seu sorriso parece doer.
Ergo-me para me sentar e Warner muda de lugar para me acomodar. Tenho de fechar os olhos para aplacar a tontura repentina, mas me forço a permanecer parada até a sensação passar.
Estou cansada e fraca pela fome, mas, exceto por algumas dores gerais, pareço estar bem. Estou viva. Estou respirando e piscando e sentindo-me humana e sei exatamente o porquê.
Cruzo meu olhar com o dele.
— Você salvou minha vida.
Eu levei um tiro no peito.
O pai de Warner colocou uma bala em meu corpo e eu ainda consigo sentir seus ecos. Se me concentrar, posso reviver o momento exato em que aconteceu; a dor; tão intensa, tão lancinante; nunca poderei esquecê-la.
Puxo uma respiração assustada.
Enfim estou ciente da estranheza familiar daquele quarto e logo sou tomada por um pânico que grita que eu não acordei onde adormeci. Meu coração está acelerado e estou me afastando dele devagar, batendo as costas contra a cabeceira, agarrando estes lençóis, tentando não olhar o lustre de que me lembro muito bem...
— Tudo bem — Warner está dizendo. — Está tudo bem...
— O que estou fazendo aqui?
Pânico, pânico; o terror nubla minha consciência.
— Por que você me trouxe para cá de novo...?
— Juliette, por favor, não vou machucá-la...
— Então por que você me trouxe para cá?
Minha voz está começando a falhar e eu estou me esforçando para mantê-la estável.
— Por que me trazer de volta para este inferno...
— Eu precisava escondê-la.
Ele solta o ar, olha para cima pela parede.
— O quê? Por quê?
— Ninguém sabe que você está viva.
Ele se vira para me olhar.
— Tive que voltar para a base. Eu precisava fingir que tudo tinha voltado ao normal e estava ficando sem tempo.
Esforço-me para afastar o medo.
Estudo o rosto dele e analiso seu tom paciente e sincero. Lembro-me dele na noite anterior — deve ter sido a noite anterior —, lembro-me de seu rosto, lembro-me dele deitado a meu lado no escuro. Ele foi carinhoso e gentil e me salvou, salvou minha vida. Provavelmente me carregou até a cama. Acomodou-me a seu lado. Deve ter sido ele.
Porém, quando olho para baixo pelo meu corpo, percebo que estou usando roupas limpas, sem sangue nem buracos nem nada em nenhum lugar e pergunto-me quem me lavou, pergunto-me quem me trocou e fico preocupada que tenha sido Warner também.
— Você...
Eu hesito, tocando a bainha da blusa que estou usando.
— Foi... Digo... Minhas roupas...
Ele sorri. Fica me olhando até eu corar e decido que eu o odeio um pouco e, depois, ele faz que não com a cabeça. Olha para a palma de suas mãos.
— Não — ele diz. — As garotas cuidaram disso. Eu apenas a carreguei para a cama.
— As garotas — sussurro, pasma.
As garotas.
Sonya e Sara. Elas estão ali também, as gêmeas curandeiras, elas ajudaram Warner. Elas o ajudaram a me salvar porque ele é o único que pode me tocar agora, a única pessoa no mundo que foi capaz de transferir o poder curativo delas com segurança para meu corpo.
Minha cabeça está pegando fogo.
Onde estão as garotas o que aconteceu com as garotas e onde está Anderson e a Guerra e ah meu Deus o que aconteceu com Adam e Kenji e Castle e eu preciso me levantar eu preciso me levantar e eu preciso me levantar e sair da cama e ir em frente
mas
Tento me mexer e Warner me segura. Estou sem equilíbrio, instável; ainda sinto como se minhas pernas estivessem ancoradas naquela cama e, de repente, não consigo respirar, vejo manchas e sinto que vou desmaiar. Preciso levantar. Preciso sair.
Não consigo.
— Warner.
Meus olhos encaram frenéticos o rosto dele.
— O que aconteceu? O que está acontecendo na batalha...?
— Por favor — ele diz, segurando meus ombros. — Você precisa começar devagar; devia comer alguma coisa...
— Me diga...
— Você não quer comer antes? Ou tomar um banho?
— Não — me ouço dizer. — Eu preciso saber agora.
Um instante. Dois e três.
Warner respira fundo. Mais um milhão de vezes. Mão direita sobre a esquerda, girando o anel de jade no seu dedo mínimo de novo e de novo e de novo
— Acabou — ele diz.
— O quê?
Digo as palavras, mas meus lábios não fazem som. Estou entorpecida, de alguma forma. Piscando e não vendo nada.
— Acabou — ele fala de novo.
— Não.
Eu exalo a palavra, exalo a impossibilidade.
Ele faz que sim com a cabeça. Está discordando de mim.
— Não.
— Juliette.
— Não — eu falo. — Não. Não. Não seja bobo — digo para ele. — Não seja ridículo — digo para ele. — Não minta para mim, seu maldito. — Agora, minha voz está alta e falha e trêmula e — Não — eu ofego —, não, não, não...
Eu chego a me levantar desta vez. Meus olhos estão se enchendo depressa com lágrimas e eu pisco e pisco, mas o mundo está uma bagunça e eu quero rir porque tudo em que consigo pensar é em como é horrível e lindo, que nossos olhos embaçam a verdade quando não aguentamos ver.
O chão é duro.
Sei que isso é um fato comprovado porque ele de repente está pressionado contra meu rosto e Warner está tentando me tocar mas acho que eu grito e bato na mão dele para afastá-la porque já sei a resposta. Eu devo já saber a resposta porque sinto a revolta borbulhar e desarranjar minhas entranhas, mas pergunto de qualquer forma. Estou na horizontal e, de alguma maneira, ainda tombando, e os buracos na minha cabeça estão se rasgando e abrindo e estou encarando um ponto no tapete a menos de 3 metros de distância e não tenho certeza nem se estou viva mas preciso ouvi-lo dizer.
— Por quê? — pergunto.
Apenas duas palavras, idiotas e simples.
— Por que a batalha acabou? — questiono.
Não estou respirando mais, nem falando nada; apenas expelindo letras pelos meus lábios.
Warner não está olhando para mim.
Ele está olhando para a parede e para o chão e para os lençóis e para a maneira como os nós de seus dedos ficam quando ele aperta as mãos em punhos mas não, não para mim ele não olha para mim e suas palavras seguintes são muito, muito suaves.
— Porque eles estão todos mortos, amor. Eles estão todos mortos.

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