5 de janeiro de 2017

1

— Addie? Addie, acorde. Addie…
Eu me viro com um resmungo e me espreguiço, esfregando os dois olhos com a base da mão. Está muito cedo para essa merda.
— Addie…
Ainda meio dormindo, eu agarro James pela gola e puxo-o para baixo, enfiando a cabeça dele debaixo do cobertor. Ele grita e eu rio, enrolando-o nos lençóis até ele não conseguir sair.
— Paaaaare com iiiiiiisso — ele reclama, pequenos punhos batendo contra os lençóis. — Addie, me deixe sair...
— Ei… Quantas vezes eu já disse para você não me chamar assim?
James tenta me dar um soco através da coberta. Eu o pego e o viro em meus braços, e ele grita, suas pernas chutando loucamente.
— Você é mau — ele berra, remexendo-se enquanto eu o seguro. — Se o Kenji estivesse aqui, ele nunca deixaria que v...
Com isso, eu congelo, e James consegue sentir. Ele fica quieto nos meus braços e eu o solto.
Ele se liberta dos meus cobertores e nós encaramos um ao outro.
James pisca. Seu lábio inferior treme e ele o morde.
— Você sabe se ele está bem?
Eu faço que não com a cabeça.
Kenji ainda está na ala médica. Ninguém tem certeza do que aconteceu ainda, mas as pessoas têm conversado. Sussurrado.
Eu olho na direção da parede. James ainda está falando, mas estou muito distraído para prestar atenção.
Para mim, é difícil acreditar que Juliette poderia machucar alguém assim.
— Todo mundo diz que ele foi embora — James está falando agora.
Isso eu ouço.
— O quê?
Eu me viro, alarmado.
— Como?
James encolhe os ombros.
— Não sei. Disseram que ele escapou do quarto dele.
— Do que você está falando? Como ele poderia escapar do quarto…?
James encolhe os ombros de novo.
— Eu acho que ele não queria mais ficar aqui.
— Mas… o quê?
Eu faço uma careta, confuso.
— Isso significa que ele está se sentindo melhor? Alguém disse para você que ele estava se sentindo melhor?
James franze as sobrancelhas.
— Você queria que ele se sentisse melhor? Pensei que você não gostasse dele.
Eu suspiro. Passo uma mão pelo cabelo, na parte de trás da cabeça.
— É claro que eu gosto dele. Nós nem sempre nos damos bem, mas é muito apertado aqui e ele sempre tem tantas opiniões, maldição...
James me lança um olhar estranho.
— Então… Você não quer matá-lo? Você sempre diz que quer matá-lo.
— Eu não falo sério quando digo coisas assim.
Tento não revirar os olhos.
— Ele e eu somos amigos há muito tempo. Na verdade, estou preocupado com ele.
— Certo — James diz com cautela. — Você é estranho, Addie.
Não consigo deixar de rir um pouco.
— Por que eu sou estranho? E, atenção, pare de me chamar de Addie… Você sabe o quanto eu odeio isso…
— É, e eu ainda não sei por quê — ele me interrompe. — A mamãe sempre costumava chamá-lo de Addie…
— Bem, a mamãe está morta, não está?
Minha voz ficou dura. Minhas mãos estão fechadas em punhos. E, quando eu vejo a expressão de James, arrependo-me na mesma hora por ter sido tão ríspido. Solto as mãos. Respiro fundo.
James engole a seco.
— Desculpe — diz, em voz baixa.
Eu faço que sim com a cabeça, desvio o olhar.
— É. Desculpe também.
Eu puxo uma blusa por cima da cabeça.
— Então o Kenji foi embora, hein? Não acredito que ele simplesmente foi embora assim.
— Por que o Kenji iria embora? — James pergunta. — Pensei que você tivesse dito que nem sabia se ele i...
— Mas pensei que você tivesse dito...
Nós paramos. Encaramos um ao outro.
James é o primeiro a falar.
— Eu disse que o Warner foi embora. Todo mundo está falando que ele escapou na noite passada.
O simples som do nome dele e eu já estou furioso.
— Fique aqui — digo, apontando para James e agarrando minhas botas.
— Mas...
— Não se mexa até eu voltar! — grito antes de sair correndo pela porta.
Aquele cretino. Não acredito.
Estou martelando na porta de Castle quando Ian me vê ao descer pelo corredor.
— Ele não está aí — Ian diz, ainda andando.
Eu pego o braço dele.
— É verdade? O Warner escapou mesmo?
Ian suspira. Enfia as mãos nos bolsos. Finalmente, faz que sim com a cabeça.
Eu quero atravessar a parede com um soco.
— Tenho que ir vestir meu traje — Ian fala, libertando-se. — E você deveria fazer o mesmo. Vamos sair depois do café da manhã.
— Você está falando sério? — questiono. — Ainda vamos sair para lutar... Mesmo com todas essas merdas acontecendo?
— É claro que vamos — Ian responde com aspereza. — Você sabe que não podemos esperar mais. O supremo não vai reprogramar seus planos de lançar um ataque contra os civis. É tarde demais para recuar agora.
— E quanto ao Warner? — pergunto. — Não vamos tentar encontrá-lo?
— Talvez.
Ian encolhe os ombros.
— Veja se consegue encontrá-lo no campo de batalha.
— Jesus.
Estou tão cheio de raiva que mal consigo enxergar direito.
— Eu poderia matar o Castle por deixar isso acontecer... Por ter sido tão mole com ele, droga...
— Controle isso, cara — Ian me interrompe. — Temos outros problemas. E, ouça — ele agarra meu ombro, olha nos meus olhos —, você não é o único que está furioso com o Castle. Mas agora não é o momento.
Eu me chacoalho para me soltar dele e volto correndo pelo corredor.

James tem todo tipo de perguntas quando eu volto, mas ainda estou tão bravo que não estou pronto para lidar com ele. Não parece importar; James é teimoso como o diabo. Estou amarrando coldres e colocando minhas armas presas no lugar e ele não recua.
— Mas, então, o que ele disse? — James está perguntando. — Depois de você dizer que a gente deve procurar o Warner?
Eu arrumo a calça, aperto os cadarços das botas.
James bate no meu braço.
— Adam.
Ele bate no meu braço de novo.
— Ele falou a que horas vocês têm que sair hoje?
Mais batidas.
— Adam, quando v...
Eu o pego no colo e o levanto, e ele solta um guincho; coloco-o em um canto distante do quarto.
Addie…
Jogo um cobertor em cima da cabeça dele.
James grita e briga com o cobertor até conseguir tirá-lo e jogá-lo no chão. Seu rosto está vermelho e os punhos estão apertados, e ele finalmente está bravo.
Eu começo a rir. Não consigo evitar.
James está tão frustrado que tem de cuspir as palavras quando fala:
— O Kenji disse que eu tenho tanto direito de saber o que está acontecendo aqui quanto todo mundo. O Kenji nunca fica bravo quando eu faço perguntas. Ele nunca me ignora. Ele nunca é cruel comigo e você está sendo c-cruel comigo, e eu não gosto de quando você r-ri de mim...
A voz de James falha, e é apenas então que eu levanto o olhar. Reparo nas lágrimas riscadas nas suas bochechas.
— Ei — digo, encontrando com ele do outro lado do quarto. — Ei, ei.
Agarro os ombros dele, abaixo-me apoiado em um dos joelhos.
— O que está acontecendo? Por que as lágrimas? O que aconteceu?
— Você vai embora.
James soluça.
— Ora, vamos.
Eu suspiro.
— Você sabia que eu iria sair, lembra? Lembra-se de quando conversamos sobre isto?
— Você vai morrer.
Outro soluço.
Levanto uma sobrancelha olhando para ele,
— Eu não sabia que você conseguia prever o futuro.
— Addie…
Ei
— Eu não o chamo de Addie na frente de outras pessoas! — James diz, protestando antes de eu ter uma chance de fazê-lo. — Não sei por que isso o deixa tão bravo. Você disse que adorava quando a mamãe o chamava de Addie. Por que eu não posso?
Eu suspiro de novo enquanto me levanto, bagunçando o cabelo dele no caminho. James solta um som engasgado e se afasta depressa.
— Qual é o problema? — pergunto.
Levanto a perna da calça para prender uma pistola semiautomática ao coldre embaixo dela.
— Eu sou soldado há muito tempo. Você sempre soube dos riscos. O que mudou de repente?
James fica em silêncio por tempo suficiente para eu reparar. Levanto o olhar.
— Quero ir com você — ele diz, limpando o nariz com uma mão trêmula. — Quero lutar também.
Meu corpo fica rígido.
— Não vamos ter essa conversa de novo.
— Mas o Kenji disse…
— Eu não dou a mínima para o que o Kenji disse! Você é uma criança de dez anos — digo. — Você não vai lutar em guerra nenhum. Não vai entrar em nenhum campo de batalha. Você me entendeu?
James me encara.
— Eu perguntei se você me entendeu.
Eu ando direto até ele, agarro seu braço.
James se encolhe um pouco.
— Sim — ele sussurra.
— Sim o quê?
— Sim, senhor — ele fala, olhando para o chão agora.
Estou com a respiração tão pesada que meu peito está arfando.
— Nunca mais — digo, em voz baixa. — Nós nunca mais vamos ter essa conversa. Nunca mais.
— Certo, Addie.
Eu engulo a seco.
— Desculpe, Addie.
— Coloque os sapatos.
Eu encaro a parede.
— É hora do café da manhã.

3 comentários:

  1. Addie mau, Addie muito, muito mau! Tadinho do James...

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  2. Adam está sendo tão duro com o irmão...

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  3. O que será que James vai pensar se descobrir que é irmão de Warner?

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Boa leitura :)