26 de janeiro de 2017

Capítulo 1

Will empurrou o prato vazio para longe e recostou-se na cadeira, sentindo aquela sensação deliciosa de desconforto que acontece quando você come um pouco mais de algo realmente delicioso.
Lady Pauline sorriu com carinho para o jovem.
— Gostaria de mais, Will? Sobrou muito.
Ele bateu no estômago, surpreso ao descobrir que ele parecia realmente sentir mais apertado do que o normal, como se estivesse forçando suas roupas de baixo.
— Não, obrigado, Pauline — ele respondeu. — Eu já fiz uma segunda refeição.
— Você já fez quatro — Halt comentou.
Will que franziu a testa para ele, então se virou para Pauline, sorrindo para ela. Pelo menos ela não fazia comentários depreciativos como seu marido.
— Essa realmente foi uma deliciosa refeição — disse ele. — A carne estava tão suave e diferente. E as batatas! Ora, eles eram uma sinfonia de sabor, de fato!
— Engraçado — Halt comentou em um tom baixo. — Eu não ouvi nenhum trompete ou flautas.
— É muito gentil de sua parte dizer isso, Will — Pauline respondeu. — Mas eu sou uma mulher prática e realmente não cozinho. As refeições aqui são fornecidas pela cozinha do castelo. Se você quiser elogiar alguém, deve ser a Mestre Chubb.
— Ah... é claro — Will falou, sentindo-se tolo.
Halt e Pauline o tinham convidado para jantar no confortável apartamento fornecido a eles pelo Barão Arald. Como dois dos principais e mais valorizados assessores de Arald, eles tinham direito a uma suíte e ao uso de todos os serviços do castelo. Agora que Will pensava sobre isso, ele não poderia imaginar a diplomata, alta e elegante, trabalhando em um forno quente, com um avental protegendo seu vestido branco.
— Resolveu usar linguagem poética, cheia de floreios, não é? — Halt disse. —
Uma sinfonia de sabor, de fato!
Will encolheu os ombros timidamente.
— Eu estou tentando deixar a minha linguagem mais poética — ele admitiu.
Halt franziu a testa, mas Pauline permitiu-se um pequeno vestígio de um sorriso. Às vezes os jovens podem ser tão sérios sobre as coisas mais estranhas, pensou.
— Há alguma razão para este súbito interesse em coisas poéticas, Will? — Ela perguntou.
— Bem, é por causa do meu discurso para o casamento.
— O casamente de Horace e Evanlyn, você quer dizer? — Halt indagou.
Will assentiu.
— Como padrinho, eu tenho que fazer um brinde para a noiva e noivo.
— Como você fez no nosso casamento — Pauline lembrou, sorrindo com a memória.
— Exatamente. E eu quero que seja especial. Porque ambos são bons amigos meus.
— O discurso que você fez no nosso casamento foi definitivamente especial — Halt disse.
Ele também recordava do evento claramente. Ele ficou impressionado e tocado pela simples afirmação de Will de amor e carinho para com os dois. O fato de ele ter mencionado era uma prova clara disso. Halt tinha passado a vida escondendo seus sentimentos do mundo em geral. Ele raramente permitia que seu lado emocional – que ele chamava de lado piegas – se mostrasse.
— Eu tenho trabalhado no discurso — Will falou. Sua mão foi inconscientemente em direção a um bolso interno de seu casaco. — Eu me pergunto se vocês se importariam em ouvir o que eu preparei até agora... ?
Ele deixou a pergunta no ar, olhando de Pauline para Halt e depois de volta novamente.
— Como poderíamos recusar? — Pauline perguntou.
Tão jovem e tão sério, ela pensou consigo mesma.
Halt olhou rapidamente para ela. Tarde demais, ele tentou sinalizar a ela para encontrar uma maneira graciosa de se recusar a ouvir o discurso. Ela é uma diplomata, ele pensou. Recusas graciosas era sua especialidade no trabalho.
Ele suspirou baixinho. Will já estava alisando várias folhas de papel de seu bolso. Ele olhou para eles para ver se estavam prontos. Pauline se inclinou para frente em sua cadeira e acenou de forma encorajadora. Halt levantou os olhos para o teto.
Will tomou isso como um sinal para prosseguir. Ele limpou sua garganta várias vezes, alisou o papel mais um pouco e franziu a testa ao olhar para frente, falando as primeiras linhas de memória.
— Vocês devem entender — disse ele — que este é apenas um primeiro esboço. De nenhuma forma são as palavras finais que usarei no dia. Eu provavelmente vou reler isso e mudar aqui e ali. Quer dizer, eu definitivamente revisarei isso e quando eu o fizer, eu provavelmente vou mudá-lo aqui e ali...
— É claro — Pauline concordou e fez um gesto para que ele prosseguisse.
Ele limpou a garganta novamente.
— Pegou um resfriado? — Halt perguntou inocentemente, em seguida, fez uma careta quando Pauline o chutou debaixo da mesa. Mesmo com chinelos de descanso, ela deu um belo chute, pensou ele, inclinando-se para esfregar o músculo da panturrilha.
Will olhou por cima do discurso, suas bochechas corando.
— Não. Por que você pergunta?
— Ignore-o, Will, querido — disse Pauline.
Havia uma nota de aço em sua voz que Will não percebeu. Halt percebeu, no entanto. Ele conhecia essa mulher há muitos anos e decidiu que o silêncio seria sua melhor opção pelos próximos minutos.
— Muito bem... — Will começou.
Ele limpou a garganta novamente. Finalmente, ele começou.
— É com o coração sobejando...
— Uau! Uau! Traga o navio de volta para a praia lá! É com o coração sobejoquê?? — Halt interrompeu incrédulo, seu plano de permanecer em silêncio de repente esquecido.
Will olhou para ele, confuso.
— Coração sobejando — repetiu ele. Em seguida, ele verificou o texto a sua frente mais uma vez. — Sim. Isso mesmo. Coração sobejando.
— E o que diabos significa “coração sobejando”? — Halt perguntou.
Ele olhou para sua esposa e percebeu que ela estava escondendo um sorriso.
Will fez um gesto incerto com a mão direita.
— Bem, significa... você sabe... muito... hum... coração... sobejando.
Halt continuou a olhar para ele sem entender. Ele balançou a cabeça, então Will tentou novamente. Agora, ele estava mais que corado, Pauline notou. Suas bochechas estavam em chamas.
— Isso significa que eu estou feliz. Muito feliz — Will falou finalmente.
— Então por que você não diz “Eu estou feliz, muito feliz”? — Halt perguntou.
Will se mexeu desconfortavelmente na cadeira.
— Bem, isso seria um pouco — ele procurou por uma palavra, em seguida, encontrou-a — prosaico, não seria?
As sobrancelhas de Halt se ergueram.
— Prosaico? Primeiro, é sobojando...
— Sobejando — Will corrigiu, com os dentes ligeiramente cerrados.
Halt o ignorou.
— Agora é prosaico. Eu serei acertado no traseiro por um bode se eu sei o que isso significa!
— Não seja injurioso, querido — disse Pauline. — Isso significa “comum”.
— Ah, então eu sou comum, não é? — ele desafiou Will. — E quando é que se tornou um crime usar palavras que as pessoas possam entender?
— Eu disse antes, estou tentando fazer um discurso memorável — Will lembrou.
Halt recostou-se em sua cadeira.
— Vai ser memorável, tudo bem — ele murmurou. — Durante anos, as pessoas vão dizer: Lembra-se do discurso que Will deu e que ninguém podia entender? — Então ele fez um gesto para Will para continuar. — Vamos ouvir mais um pouco.
Will arrastou os folhas de papel e começou de novo.
— É com o coração sobejando...
— Já ouvi essa parte.
— Halt... — Pauline disse em advertência.
— Que eu fico em suas presenças ilustres na mais auspiciosa das ocasiões aprazíveis para prestar louvor e adulação a dois dos mais reverenciados e queridos companheiros de meus anos de juventude.
— Deus do céu — Halt murmurou, ganhando outro chute forte na panturrilha.
— Seria denodado da minha parte não reconhecer o...
— Não! Não! Não! — Halt disse, agitando os braços em frente de seu corpo. — Isso é o bastante! Não!
— Há um problema? — Will perguntou com altivez.
Halt revirou os olhos.
— Sim, há um problema! Você fala como se tivesse engolido um dicionário e, em seguida, o vomitasse!
— Não seja grosseiro, Halt — Pauline respondeu, e o arqueiro de barba grisalha abrandou, murmurando para si mesmo.
Will apelou para Pauline.
— O que você acha do discurso, Pauline? Você é boa com as palavras.
Pauline hesitou. Ela amava este jovem como se fosse seu próprio filho e nunca estaria disposta a ferir seus sentimentos. Mas ela não podia deixá-lo continuar com este absurdo exagerado.
— Você não acha que a linguagem está um pouco... rebuscada? — ela perguntou timidamente.
Halt bufou, olhando para longe, para a paisagem na janela.
— Rebuscada? Está mais para linguagem poética floreada e exagerada. Parece algo que o Barão Arald diria!
Will olhou para ele, uma expressão aflita no rosto.
— Oh, certamente não é tão ruim assim — ele falou.
Halt simplesmente virou-se para ele, levantou uma sobrancelha, em seguida, desviou o olhar.
— Will, você falou tão bem no nosso casamento. Apenas faça o mesmo de novo. — Pauline disse a ele.
Mas ele sacudiu a cabeça.
— Todo mundo diz isso. Mas a coisa é que ninguém estava esperando muito de mim naquela época. Todo mundo vai esperar muito mais desta vez. Além disso, este é um casamento real, de modo que o discurso será gravado nos anais. Tem que ser especial.
— Gorlog nos salve! — Halt exclamou.
Pauline se virou para ele com curiosidade.
— Quem exatamente é Gorlog, querido?
— É um deus do norte. Eu peguei emprestado dos escandinavos. Ele é muito útil se você quiser blasfemar sem ofender as pessoas.
— Além dos escandinavos? — Ela sugeriu, mas ele balançou a cabeça, sorrindo.
— Não. Eles não se importam. Eles não gostam muito dele.
Pauline assentiu, arquivando esse pedaço de informação para mais tarde, em seguida, virou-se para Will.
— Eu tenho uma suspeita de que você pode estar tentando demais, Will — ela disse. Ela apontou para as folhas de papel sobre a mesa diante dele. — Por que você não dá outra olhada nisso e simplifica um pouco?
Will franziu os lábios em dúvida. Ele podia ignorar a crítica de Halt, pensou. Halt não tinha senso de poesia nele. Mas Pauline era uma questão diferente. Ainda assim, ele tinha passado horas e horas de trabalho duro para conceber essas palavras e estava relutante em abandoná-las.
— Eu vou pensar sobre isso — disse ele finalmente.
Halt bufou mais uma vez. Ele parecia estar fazendo isso um monte de vezes esta noite.
— Apenas ignore-o — Pauline falou para Will. — Você sabe como ele é.
— Sim — Halt concordou. — Me desculpe, eu tenho sido tão prosaico.
— Isso é injurioso — Will disse a ele.
Halt deu um sorriso de lobo.
— Sim. Isso também.
Pauline acariciou a mão de Will delicadamente.
— Como eu disse, simplesmente ignore-o. Eu vou falar com ele mais tarde — acrescentou ameaçadoramente.
Will olhou na direção de seu antigo mentor e viu algo que o surpreendeu. Algo que ele nunca tinha visto antes.
O sorriso se foi. Halt estava com medo.

9 comentários:

  1. Um dia o Halt aprende. Kkk. Queria ver a Alyss agindo assim com o Will.

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  2. kkkkkkkkkk Rindo até 2050 com esse capitulo kkkkkkkkkk Halt arrasando como sempre!!!!

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  3. Oi Karina quando vc vai postar o 13 livro?

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    1. Só depois que ele for traduzido e lançado no Brasil, Brenda...

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  4. kkkkkkkkkkk, Halt com medo?! kkkkkkkkkk Essa e de matar!
    Ass:Bina.

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    1. essa é pra rir por muito tempo kkkkkkkkkkkkkkkk

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  5. esse capítulo foi o melhor.....kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk e kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk e kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk...

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Boa leitura :)