6 de janeiro de 2017

19

Todos estão me olhando, abismados.
Kenji acabou de lhes dar cada detalhe que eu compartilhara com ele, tomando cuidado para deixar de fora as partes sobre Warner dizendo que me ama, e eu estou secretamente grata. Embora eu tenha dito a Adam que ele e eu não deveríamos mais ficar juntos, tudo entre nós ainda está muito recente e sem ser resolvido. Eu tentei seguir em frente, distanciar-me dele porque queria protegê-lo; e eu tive que ficar de luto pela perda de Adam de tantas formas diferentes até agora que nem tenho certeza se ainda sei como me sinto.
E não tenho ideia do que ele pensa de mim.
Há tantas coisas sobre as quais Adam e eu precisamos conversar; só não quero que Warner seja uma delas. Warner sempre foi um assunto tenso entre nós — em especial agora que Adam sabe que eles são irmãos — e eu não estou com vontade de discutir, principalmente no meu primeiro dia de volta.
No entanto, parece que não vou conseguir escapar tão fácil assim.
— Warner salvou a sua vida? — Lily pergunta, sem se preocupar em esconder seu choque ou sua repulsa.
Até Alia está sentada ereta e prestando atenção agora, seus olhos colados em meu rosto.
— Por que ele faria isso?
— Cara, esquece isso — Ian interrompe. — O que vamos fazer com essa merda de que Warner pode simplesmente roubar nossos poderes e tal?
— Você não tem poderes — Winston responde para ele. — Então não tem nada com que se preocupar.
— Você sabe o que eu quero dizer — Ian dispara, um toque de cor subindo por seu pescoço. — Não é seguro um psicopata como ele ter esse tipo de habilidade. Isso me assusta demais.
— Ele não é um psico... — tento dizer, mas a sala explode em uma cacofonia de vozes, todas competindo por uma chance de serem ouvidas.
— O que isso significa afinal...
— ... perigoso?
— Então Sonya e Sara ainda estão vivas...
— ... você viu mesmo o Anderson? Como ele era?
— Mas por que ele iria...
— ... certo, mas isso não...
— ESPEREM — Adam interrompe todo mundo. — Onde ele está agora?
Ele se vira para me olhar nos olhos.
— Você disse que o Warner a trouxe aqui para mostrar o que aconteceu com o Ponto Ômega, mas, então, no instante em que o Kenji aparece, ele simplesmente some.
Uma pausa.
— Certo?
Faço que sim com a cabeça.
— Então... o quê? — ele diz. — Ele acabou? Simplesmente vai embora?
Adam se vira, olha para todos.
— Pessoal, ele sabe que pelo menos um de nós ainda está vivo! Provavelmente ele foi buscar reforços, para encontrar um jeito de pegar o resto de nós...
Ele para, faz que não com a cabeça.
— Merda — fala em voz baixa. — MERDA.
Todos congelam ao mesmo tempo. Horrorizados.
— Não — digo depressa, levantando as duas mãos. — Não... Ele não vai fazer isso...
Oito pares de olhos se viram para mim.
— Ele não se preocupa em matar vocês. Ele nem gosta d’O Restabelecimento. E ele odeia o pai...
— Do que você está falando? — Adam me interrompe, assustado. — Warner é um animal...
E eu respiro, equilibrada. Preciso me lembrar do quão pouco eles sabem sobre Warner, quão pouco ouviram de seu ponto de vista; preciso me lembrar do que eu costumava pensar dele há apenas alguns dias.
As revelações de Warner ainda são muito recentes. Não sei como defendê-lo adequadamente ou como reconciliar essas impressões polarizadas dele e, por um momento, fico furiosa com ele e seus fingimentos idiotas, por ter um dia me colocado nesta situação. Se ao menos ele não parecesse um psicopata doente e louco, eu não teria de defendê-lo agora.
— Ele quer derrubar O Restabelecimento — tento explicar. — E quer matar Anderson também...
A sala explode em mais discussões. Gritos e insultos que se resumem a ninguém acreditar em mim, todos pensarem que sou louca e que Warner fez uma lavagem no meu cérebro; que eles acham que Warner é um assassino comprovado que me prendeu e tentou me usar para torturar pessoas.
E não estão errados. Mas estão.
Quero tão desesperadamente dizer a eles que eles não entendem.
Nenhum deles sabe a verdade e não me dão uma chance de explicar. Porém, quando que estou prestes a dizer mais alguma coisa em minha própria defesa, tenho um vislumbre de Ian pelo canto do olho.
Ele está rindo de mim.
Alto, batendo no joelho, a cabeça jogada para trás, uivando de alegria com o que ele acha que é minha estupidez e, por um momento, eu começo seriamente a duvidar de mim mesma e de tudo que Warner me disse.
Eu fecho os olhos, apertados.
Como um dia vou saber de verdade se posso confiar nele? Como sei que ele não estava mentindo para mim como sempre fez, como ele alega que tem feito desde o começo?
Estou tão cansada dessa incerteza. Muito exausta com ela.
Porém, eu pisco e sou puxada para longe do grupo, puxada na direção da porta do quarto de James; ao armário da despensa que costumava ser seu quarto. Adam me puxa para dentro e fecha a porta para a insanidade atrás de nós. Ele está segurando meus braços, olhando em meus olhos com uma intensidade estranha e dolorida que me assusta.
Não tenho saída.
— O que está acontecendo? — ele pergunta. — Por que você está defendendo o Warner? Depois de tudo que ele fez com você, você devia odiá-lo... Devia estar furiosa...
— Não posso Adam, eu...
— O que quer dizer com não pode?
— Eu só... Não é mais tão fácil.
Faço que não com a cabeça, tento explicar o inexplicável.
— Não sei o que pensar dele agora. Há muitas coisas que eu entendi errado. Coisas que eu não conseguia compreender.
Baixo os olhos.
— Ele é muito...
Eu hesito, em conflito.
Não sei como dizer a verdade sem parecer uma mentirosa.
— Não sei — digo enfim, olhando minhas mãos. — Não sei. Ele apenas... Ele apenas não é tão ruim quanto eu pensava.
— Uau.
Adam suspira, chocado.
— Ele não é tão ruim quanto você pensava. Ele não é tão ruim quanto você pensava? Como é possível ele poder ser melhor do que você pensava...?
— Adam...
— Que você está pensando, Juliette?
Eu levanto o olhar. Ele não consegue esconder o nojo em seus olhos.
Eu entro em pânico.
Eu preciso encontrar uma forma de explicar, de apresentar um exemplo irrefutável — prova de que Warner não é quem eu pensava que ele fosse —, mas já posso dizer que Adam perdeu a confiança em mim, que ele não confia nem acredita mais em mim, e fico confusa.
Ele abre a boca para falar.
Falo antes dele.
— Você se lembra daquele dia em que me encontrou chorando no chuveiro? Depois de Warner me forçar a torturar aquela criancinha?
Adam hesita antes de anuir lentamente, relutante.
— Esse é um dos motivos por eu odiá-lo tanto. Achei que ele tinha mesmo colocado uma criança naquela sala... Que ele tinha roubado o filho de alguém e queria me ver torturá-lo. Era simplesmente tão desprezível — digo. — Tão nojento, tão horripilante. Eu pensei que ele não fosse humano. Completamente mau. Mas... não foi real — sussurro.
Adam parece confuso.
— Era apenas uma simulação — eu tento explicar. — Warner me disse que era uma câmara de simulação, não uma sala de tortura. Ele disse que tudo aconteceu na minha imaginação.
— Juliette — Adam diz.
Suspira.
Ele desvia o olhar, olha de volta para mim.
— Do que você está falando? É claro que foi uma simulação.
— O quê?
Adam dá uma risadinha, uma risada confusa.
— Você sabia que não era real...? — pergunto.
Ele me encara.
— Mas, quando você me encontrou... você disse que não foi minha culpa... você me disse que tinha ouvido falar do que aconteceu e que não era minha culpa...
Adam passa uma mão pela nuca.
— Pensei que você estivesse chateada por ter quebrado a parede — ele diz. — Digo, eu sabia que a simulação provavelmente seria assustadora feito o diabo, mas pensei que Warner tivesse dito para você o que era antes. Eu não fazia ideia de que você tinha ido para algo assim achando que seria real.
Ele fecha e aperta os olhos por um segundo.
— Pensei que você estivesse chateada por saber que tinha essa habilidade nova e maluca. E por causa dos soldados que você tinha machucado depois.
Estou piscando para ele, abismada.
Durante todo esse tempo, uma pequena parte de mim ainda estava se segurando à dúvida; acreditando que, talvez, a câmara de tortura fosse real e que Warner estava apenas mentindo para mim. De novo.
E, agora, ter a confirmação do próprio Adam.
Fui derrubada.
Adam está fazendo que não com a cabeça.
— Aquele cretino — ele está dizendo. — Não acredito que ele fez isso com você.
Eu baixo os olhos.
— Warner fez muitas coisas malucas — digo —, e ele realmente achou que estava me ajudando.
— Mas ele não estava ajudando — Adam fala, bravo de novo. — Ele a estava torturando...
— Não. Isso não é verdade.
Eu foco os olhos em uma rachadura na parede.
— De alguma maneira estranha... Ele me ajudou mesmo.
Hesito antes de olhar nos olhos de Adam.
— Aquele momento na câmara de simulação foi a primeira vez em que eu me permiti ficar brava. Eu nunca soube quanto mais eu podia fazer... Que eu podia ser tão forte fisicamente... Até aquele momento.
Desvio o olhar.
Junto e separo as mãos.
— Warner cria uma fachada — estou dizendo. — Ele age como se fosse um monstro doente e sem coração, mas ele é... Não sei...
Minha voz some, meus olhos mirando algo que não consigo ver bem. Uma lembrança, talvez. De Warner sorrindo. Suas mãos gentis limpando minhas lágrimas. Está tudo bem, você está bem, ele disse para mim.
— Ele é realmente...
— Eu não, hum...
Adam se afasta, solta um fôlego estranho e trêmulo.
— Não sei como eu devo entender isso — ele fala, parecendo desequilibrado. — Você... O quê? Você gosta dele agora? Você é amiga dele? O mesmo cara que tentou me matar?
Ele mal consegue esconder a dor na sua voz.
— Ele me fez ser pendurado em uma esteira em um matadouro, Juliette. Ou você já se esqueceu disso?
Eu me retraio. Baixo a cabeça envergonhada.
Eu tinha me esquecido disso.
Eu tinha me esquecido de que Warner quase matara Adam, que ele atirara em Adam bem na minha frente. Ele via Adam como um traidor, um soldado que segurou uma arma atrás da cabeça dele; desafiou-o e me roubou.
Fico enjoada.
— Eu só... Estou tão confusa — enfim consigo dizer. — Quero odiá-lo, só não sei mais como...
Adam está me encarando como se não fizesse ideia de quem sou.
Preciso falar sobre outro assunto.
— O que está acontecendo com o Castle? — pergunto. — Ele está doente?
Adam hesita antes de responder, percebendo que estou tentando mudar de assunto. Por fim, ele cede. Suspira,
— É ruim — ele fala. — Ele foi atingido com mais força que o resto de nós. E Castle sofrendo tanto realmente afetou o Kenji.
Estudo o rosto de Adam enquanto ele fala, incapaz de não procurar similaridades com Anderson e Warner.
— Ele não sai daquela cadeira — Adam está dizendo. — Fica sentado ali o dia todo até que desaba de exaustão e, mesmo nessa hora, simplesmente pega no sono sentado no mesmo lugar. Depois, acorda na manhã seguinte e faz a mesma coisa, o dia todo. Ele só come quando o forçamos e só se mexe para ir ao banheiro.
Adam faz que não com a cabeça.
— Estamos todos esperando que ele saia dessa logo, mas tem sido muito estranho perder um líder assim. Castle estava no comando de tudo. E, agora, ele não parece se importar com nada.
— Ele provavelmente ainda está em choque — digo, lembrando-me de que faz apenas três dias desde a batalha. — Com sorte, depois de um tempo — falo para ele —, ele ficará bem.
— É — Adam diz.
Faz que sim com a cabeça. Estuda suas mãos.
— Precisamos mesmo pensar no que vamos fazer. Não sei por mais quanto tempo podemos viver assim. Vamos ficar sem comida em algumas semanas no máximo — conta. — Temos quase dez pessoas para alimentar agora. Além disso, Brendan e Winston ainda estão machucados; fiz o que pude por eles usando o estoque limitado que tenho aqui, mas eles precisam de cuidados médicos de verdade e remédios contra a dor, se conseguirmos.
Uma pausa.
— Não sei o que o Kenji contou, mas eles estavam em uma condição séria quando os trouxemos para cá. O inchaço do Winston só diminuiu agora. Não podemos mesmo ficar aqui por muito mais tempo. Precisamos de um plano.
— Sim.
Estou muito aliviada por ouvir que ele está pronto para ser proativo.
— Sim. Sim. Precisamos de um plano. No que você está pensando? Já tem algo em mente?
Adam nega com a cabeça.
— Não sei — admite. — Talvez possamos continuar invadindo unidades de armazenamento como fazíamos... Roubar suprimentos de vez em quando... E ficar quietos em um espaço maior na área sem regulamentação. Mas nunca conseguiremos colocar os pés nos aglomerados — diz. — Tem muito risco. Eles vão atirar na hora para nos matar se formos pegos. Então... Não sei.
Ele parece envergonhado enquanto ri.
— Estou meio que esperando que eu não seja o único a ter ideias.
— Mas...
Eu hesito, confusa.
— Isso é tudo? Você não está pensando mais em lutar? Você acha que deveríamos simplesmente achar uma maneira de viver... assim?
Faço um gesto para a porta, para o que está além dela.
Adam olha para mim, surpreso com a minha reação.
— Não é como se eu quisesse isso — afirma. — Mas não vejo como poderíamos lutar sem acabarmos mortos. Estou tentando ser prático.
Ele passa uma mão agitada pelo cabelo.
— Eu tentei — ele diz, baixando a voz. — Tentei lutar e isso nos fez ser massacrados. Eu nem devia estar vivo agora. Mas, por algum motivo louco, estou, e James também e, por Deus, Juliette, você também. E eu não sei — ele fala, fazendo que não com a cabeça, desviando o olhar. — Sinto que recebi uma chance de viver minha vida. Terei que pensar em outras maneiras de encontrar comida e colocar um teto sobre a minha cabeça. Não tenho dinheiro entrando, nunca serei capaz de entrar no exército neste setor de novo, e não sou um cidadão registrado, então, nunca poderei trabalhar. Neste momento, tudo em que estou concentrado é em como conseguirei alimentar minha família e meus amigos em algumas semanas.
Seu maxilar fica tenso.
— Talvez, um dia, outro grupo seja mais esperto... Mais forte... Mas não acho mais que sejamos nós. Acho que não temos nenhuma chance.
Estou piscando para ele, pasma.
— Não acredito nisso.
— Não acredita no quê?
— Você está desistindo. — Ouço a acusação em minha voz e não faço nada para esconder. — Você está simplesmente desistindo.
— Que escolha eu tenho? — ele pergunta, os olhos feridos, bravos. — Não estou tentando ser um mártir. Fizemos uma tentativa. Tentamos lutar e deu merda. Todo mundo que conhecemos está morto, e aquele grupo abatido de pessoas que você viu lá fora é tudo o que sobrou da nossa resistência. Como nós nove vamos lutar contra o mundo? — ele pergunta. — Não é uma luta justa, Juliette.
Estou assentindo com a cabeça. Olhando para minhas mãos. Tentando e não conseguindo esconder meu choque.
— Não sou covarde — ele me diz, esforçando-se para controlar a voz. — Eu só quero proteger minha família. Não quero que James tenha que se preocupar todos os dias se vou aparecer morto. Ele precisa que eu seja racional.
— E viver assim? — digo a ele. — Como fugitivos? Roubando para sobreviver e nos escondendo do mundo? Como isso é melhor? Você vai ficar preocupado todo santo dia, sempre olhando para trás, morrendo de medo de deixar o James sozinho. Você vai ser infeliz.
— Mas vou estar vivo.
— Isso não é estar vivo — afirmo. — Isso não é viver...
— Como você pode saber? — ele dispara.
Seu humor muda tão de repente e eu fico tão admirada que me calo.
— O que você sabe sobre estar viva? — ele questiona. — Você não falava uma palavra quando eu a conheci. Você tinha medo da sua própria sombra. Você estava tão consumida pela dor e pela culpa que tinha enlouquecido quase completamente... Vivia tão fundo dentro da sua própria cabeça que não fazia ideia do que aconteceu com o mundo quando você sumiu.
Eu me retraio, ferida pelo veneno na voz dele. Nunca vi Adam tão amargo ou cruel. Este não é o Adam que conheço. Quero que ele pare. Volte para o começo. Peça desculpas. Apague o que acabou de dizer.
Mas ele não faz isso.
— Você acha que teve uma vida difícil — ele está me dizendo. — Vivendo em alas psiquiátricas e sendo jogada na prisão... Você acha que isso foi difícil. Mas o que você não percebe é que sempre teve um teto sobre a sua cabeça e comida entregue a você regularmente.
Suas mãos estão se abrindo e se fechando.
— E isso é mais do que a maioria das pessoas terá. Você não faz ideia de como é viver aqui fora de verdade... Não faz ideia do que é passar fome e ver sua família morrer na sua frente. Você não tem ideia do que significa sofrer de verdade. Às vezes, eu acho que você vive em algum tipo de terra da fantasia onde todos sobrevivem do otimismo... Mas não funciona assim aqui fora. Neste mundo, ou você está vivo, prestes a morrer, ou morto. Não há romance nisso. Nenhuma ilusão. Então não tente fingir que você tem alguma ideia do que significa estar vivo hoje. Neste instante. Porque não sabe.
Palavras, eu penso, são criaturas muito imprevisíveis.
Nenhuma arma, nenhuma espada, nenhum exército nem rei um dia será mais poderoso que uma frase. As espadas podem cortar e matar, mas as palavras vão golpear e ficar, enterrando-se em nossos ossos para virarem corpos mortos que carregamos para o futuro, sempre cavando e sem conseguir arrancar seus esqueletos de nossa carne.
Eu engulo a seco, com dificuldade
um
dois
três
e me recomponho para responder em voz baixa. Com cuidado.
Ele só está chateado, estou dizendo a mim mesma. Ele só está assustado e preocupado e estressado e ele não falou sério, não de verdade, eu fico me dizendo.
Ele só está chateado.
Ele não falou sério.
— Talvez — eu digo. — Talvez você esteja certo. Talvez eu não saiba o que é viver. Talvez eu ainda não seja humana o bastante para saber mais do que aquilo que está bem na minha frente.
Eu olho direto nos olhos dele.
— Mas sei como é me esconder do mundo. Sei como é viver como se eu não existisse, trancada e isolada da sociedade. E não quero isso de novo. Não posso. Finalmente cheguei a um ponto na minha vida em que não tenho medo de falar. Em que minha sombra não me assusta mais. E não quero perder essa liberdade... De novo, não. Não posso andar para trás. Eu prefiro levar um tiro e ser morta gritando por justiça a morrer sozinha em uma prisão feita por mim mesma.
Adam olha na direção da parede, ri, olha de volta para mim.
— Você está sequer se ouvindo agora? — ele pergunta. — Está me dizendo que quer pular na frente de um monte de soldados e dizer a eles o quanto você odeia O Restabelecimento, só para provar um argumento? Só para eles poderem matá-la antes do seu aniversário de 18 anos? Isso não faz nenhum sentido — ele fala. — Não adianta nada. E não parece coisa sua — diz, fazendo que não com a cabeça. — Pensei que você quisesse viver sozinha. Você nunca quis ficar no meio de uma guerra... Você só queria ficar livre do Warner e do hospício e dos seus pais malucos. Pensei que você ficaria feliz em ter acabado toda a luta.
— Do que você está falando? — pergunto. — Eu sempre disse que queria lutar. Eu disse isso desde o começo... Desde o momento em que falei para você que eu queria escapar quando estávamos na base. Esta sou eu — insisto. — É assim que me sinto. É a mesma forma como sempre me senti.
— Não — ele responde. — Não, nós não saímos da base para começar uma guerra. Saímos para ficar bem longe d’O Restabelecimento, para resistir do nosso jeito, mas, acima de tudo, para encontrar uma vida juntos. Então, o Kenji apareceu e nos levou para o Ponto Ômega e tudo mudou, e nós decidimos lutar. Porque parecia que poderia mesmo dar certo... Porque parecia que poderíamos mesmo ter uma chance. Mas, agora... — Ele olha ao redor pelo quarto, para a porta fechada. — O que nos resta? Estamos todos meio mortos — ele afirma. — Somos oito homens e mulheres mal armados e um menino de dez anos tentando lutar contra exércitos inteiros. Simplesmente não é possível — diz. — E, se vou morrer, não quero que seja por um motivo idiota. Se eu for para a guerra, se eu arriscar minha vida, será porque as chances estão a meu favor. Não o contrário.
— Não acho idiota lutar pela humanidade...
— Você não tem ideia do que está dizendo — ele dispara, o maxilar ficando tenso. — Não há nada que a gente possa fazer agora.
— Sempre há alguma coisa, Adam. Tem que haver. Porque eu não vou viver mais assim. Nunca mais.
— Juliette, por favor — ele fala, suas palavras desesperadas de repente, angustiadas. — Não quero que você seja morta... Não quero perdê-la de novo...
— Não se trata de você, Adam.
Sinto-me horrível por falar isso, mas ele precisa entender.
— Você é muito importante para mim. Você me amou e ficou a meu lado quando ninguém mais estava. Nunca quero que pense que não me importo com você, porque me importo — digo a ele. — Mas esta decisão não tem nada a ver com você. Tem a ver comigo — explico a ele. — E esta vida — aponto para a porta —, a vida do outro lado desta parede? Não é isso que eu quero.
Minhas palavras parecem chateá-lo mais.
— Então você prefere estar morta? — ele pergunta, bravo de novo. — É isso que está dizendo? Prefere estar morta a tentar construir uma vida comigo aqui?
— Eu prefiro estar morta — respondo, afastando-me devagar de sua mão estendida — a voltar a estar em silêncio e sufocada.
E Adam está prestes a responder — ele está separando os lábios para falar — quando o som de caos chega até nós do outro lado da parede. Compartilhamos um olhar de pânico antes de abrirmos a porta do quarto com violência e corrermos para a sala.
Meu coração para. Volta a bater. Para de novo.

Warner está aqui.

8 comentários:

  1. O que posso dizer alem de
    Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah
    Que cara chato esse Adam !!

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  2. Quando o Adam se tornou tão idiota? Mano a Juju sofreu a vida toda krl -_-' O MOZÃO CHEGOU *0*

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  3. Warner sem dúvidas dá de 10 a 0 no Adammmmmm <3 ele é tão infinitamente melhor.. *-*

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  4. Qnt + eu leio as cenas do Addie c/a Juju, mas eu quero que ela fique c/o Aaron!

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  5. Todos deveríamos aprender com trono de vidro não shippar logo de cara ... só digo isso!!!
    WARNER QUERIDO, VÁ PEGAR TUA GAROTA

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  6. Odeio quando as autoras fazem isso... Deixam aquele personagem super fofo um imbecil... Mas dessa vez ok :P Estava torcendo pro Warner desde o começo *-*

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  7. O Adam continua com seu show de babaquice.
    LICENÇA QUE O MOZAO CHEGOU! Acho que as 4 horas passaram kkkkk

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  8. Desculpe Adam mas eu prefiro os caras maus ksksksk e com essa demonstração agr ficou parecendo um bobão ksksk

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Boa leitura :)