2 de janeiro de 2017

19

Estamos subindo.
Castle deve se unir a nós a qualquer momento, para liderar o grupo até o exterior desta cidade subterrânea e ao mundo real. Será minha primeira oportunidade de ver o que aconteceu com nossa sociedade em quase três anos.
Eu tinha 14 anos quando fui arrastada de casa por matar uma criança inocente. Passei dois anos pulando de hospital para escritório de advogados para centro de detenção para ala psiquiátrica até finalmente decidirem me isolar para sempre.
Enfiarem-me em um manicômio foi pior do que me mandarem para a prisão; mais inteligente, de acordo com meus pais. Se tivesse sido mandada para a prisão, os guardas teriam me tratado como um ser humano; em vez disso, passei o último ano de minha vida tratada como um animal raivoso, presa em um buraco escuro sem nenhuma ligação com o mundo exterior. A maioria das coisas que testemunhei em nosso planeta até agora foi através de uma janela ou correndo para salvar minha vida. E não sei bem o que esperar.
Mas quero ver.
Preciso ver.
Estou cansada de ser cega e estou cansada de confiar em minhas memórias do passado e pedaços do que consegui reunir sobre nosso presente.
Tudo o que sei de verdade é que O Restabelecimento é bastante conhecido há dez anos.
Sei disso porque eles começaram a campanha quando eu tinha sete anos. Nunca esquecerei o começo da nossa queda. Lembro-me dos dias em que a vida era ainda bastante normal, quando as pessoas estavam apenas meio que morrendo o tempo todo, quando havia comida suficiente para aqueles com dinheiro suficiente para comprá-la. Isso foi antes de o câncer se tornar uma doença comum e o clima virar uma criatura turbulenta, nervosa. Lembro-me de como todos ficaram animados com O Restabelecimento. Lembro-me da esperança nos rostos dos meus professores e dos anúncios a que éramos forçados a assistir na metade do dia de aula. Lembro-me dessas coisas.
E, apenas quatro meses antes do meu eu de 14 anos cometer um crime imperdoável, O Restabelecimento foi eleito pelo povo do nosso mundo para nos guiar a um futuro melhor.
Esperança. Eles tinham tanta esperança. Meus pais, meus vizinhos, meus professores e colegas. Todos esperavam pelo melhor quando aplaudiram O Restabelecimento e prometeram apoio incansável.
A esperança pode levar as pessoas a fazerem coisas terríveis.
Lembro-me de ver protestos logo antes de eu ser levada. Lembro-me de ver as ruas lotadas de mobilizações nervosas que queriam “seu dinheiro de volta”. Lembro-me de como O Restabelecimento deixou os protestantes vermelhos de raiva da cabeça aos pés e disse a eles que deviam ter lido as letras miúdas antes de saírem de casa naquela manhã.
Não há devoluções.
Castle e Kenji estão permitindo minha presença nesta expedição porque estão tentando me dar as boas-vindas ao coração do Ponto Ômega. Querem que eu me junte a eles, aceite-os de verdade, entenda por que sua missão é tão importante.
Castle quer que eu lute contra O Restabelecimento e o que ele planejou para o mundo. Os livros, os artefatos, o idioma e a história que ele planeja destruir; a vida simples, vazia, monocromática que quer forçar às próximas gerações. Castle quer que eu veja que a nossa Terra ainda não está tão estragada a ponto de ser irreparável; quer provar que nosso futuro pode ser salvo, que a situação pode melhorar desde que o poder seja colocado nas mãos certas.
Ele quer que eu confie.
Eu quero confiar.
Porém, fico assustada às vezes. Na minha experiência muito limitada, já encontrei pessoas em busca de poder que não mereciam confiança. Pessoas com objetivos admiráveis e discursos elaborados e sorrisos fáceis não fizeram nada para acalmar meu coração. Homens com armas nunca me deixaram tranquila, não importa quantas vezes tenham jurado que matavam por uma boa razão.
Não deixei de perceber que as pessoas do Ponto Ômega estão muito bem armadas.
Porém, sou curiosa. Sou intensamente curiosa.
Assim, estou camuflada com roupas velhas e esfarrapadas e um grosso chapéu de lã que quase cobre meus olhos. Estou usando um casaco pesado que deve ter pertencido a um homem e minhas botas de couro estão quase escondidas pelas calças grandes demais, acumulando-se em torno dos meus tornozelos. Pareço uma civil. Uma civil pobre, torturada, lutando para encontrar comida para a família.
Uma porta faz barulho ao ser fechada e todos nos viramos. Castle sorri. Olha ao redor, para o nosso grupo.
Eu. Winston. Kenji. Brendan. A garota chamada Lily. Dez outras pessoas que ainda não conheço de verdade. Somos 16 no total, incluindo Castle. Um número par perfeito.
— Certo, pessoal — Castle diz, juntando as mãos.
Percebo que ele está usando luvas também. Todos estão. Hoje, sou apenas uma garota em um grupo usando roupas normais e luvas normais. Hoje, sou apenas um número. Ninguém importante. Apenas uma pessoa comum. Apenas por hoje.
É tão absurdo que sinto vontade de sorrir.
E, nesse momento, lembro-me de como quase matei Adam ontem e, de repente, não tenho certeza de como mexer meus lábios.
— Estamos prontos?
Castle olha ao redor.
— Não se esqueçam do que discutimos — ele diz.
Uma pausa. Um olhar cuidadoso. Contato visual com cada um de nós. Olhos em mim por um instante a mais.
— Certo, então. Sigam-me.
Ninguém fala enquanto seguimos Castle por estes corredores, e resta-me imaginar por um momento como seria fácil simplesmente desaparecer com estas roupas tão banais. Eu poderia fugir, misturar-me à paisagem e nunca mais ser encontrada.
Como uma covarde.
Estou buscando algo para dizer e quebrar o silêncio.
— Então, como chegaremos lá? — pergunto a qualquer um.
— Andando — Winston diz.
Nossos pés batem no chão como resposta.
— A maioria dos civis não tem carro — Kenji explica. — E com certeza não podemos ser pegos em um tanque. Se quisermos nos misturar, temos que fazer o que as pessoas fazem. E caminhar.
Não consigo acompanhar quais túneis dividem-se para quais direções conforme Castle nos guia para a saída. Estou cada vez mais consciente de quão pouco entendo este lugar, quão pouco vi dele. Embora, se eu for totalmente sincera, admita que não fiz muitos esforços para explorar nada.
Preciso fazer algo a respeito.
É apenas quando o terreno sob meus pés muda que eu percebo quão perto estamos chegando do exterior. Estamos andando para cima, por uma série de degraus de pedra empilhados no chão. Posso ver o que parece ser uma pequena porta quadrada de metal daqui. Ela tem um trinco.
Percebo que estou um pouco nervosa.
Ansiosa.
Ávida e com medo.
Hoje, verei o mundo como uma civil, verei tudo de perto pela primeira vez. Verei o que as pessoas dessa nova sociedade precisam suportar agora.
Verei o que meus pais devem estar vivendo, onde quer que estejam.
Castle para na porta, que parece pequena o bastante para ser uma janela. Vira-se para nos encarar.
— Quem são vocês? — ele pergunta.
Ninguém responde.
Castle endireita-se até assumir sua altura total. Cruza os braços.
— Lily — ele diz. — Nome. Identidade. Idade. Setor e ocupação. Agora.
Lily puxa o cachecol da boca. Ela parece um pouco robótica quando diz:
— Meu nome é Erica Fontaine, 1117-52QZ. Tenho 26 anos. Moro no Setor 45.
— Ocupação — Castle repete, um toque de impaciência invadindo sua voz.
— Tecidos. Fábrica 19A-XC2.
— Winston — Castle ordena.
— Meu nome é Keith Hunter, 4556-65DS — Winston diz. — Trinta e quatro anos, Setor 45. Trabalho com metais. Fábrica 15B-XC2.
Kenji não espera uma ordem ao dizer:
— Hiro Yamasaki, 8891-11DX. Vinte anos. Setor 45. Artilharia. 13A-XC2.
Castle balança a cabeça para cima e para baixo conforme todos se revezam para cuspir as informações gravadas nos seus cartões RR falsos. Ele sorri, satisfeito. Depois, foca os olhos em mim até todos me encararem, observarem, esperarem para ver se vou pisar na bola.
— Delia Dupont — digo, as palavras rolando dos meus lábios com mais facilidade do que esperava.
Não estamos planejando sermos parados, mas essa é uma precaução extra no caso de pedirem que nos identifiquemos; temos de saber as informações dos nossos cartões RR como se fossem as nossas. Kenji também disse que, embora os soldados que supervisionam os aglomerados sejam do Setor 45, sempre são diferentes dos guardas que ficam na base. Ele não acha que encontraremos alguém que nos reconheça.
Mas.
Só por garantia.
Limpo a garganta.
— Número de identidade 1223-99SX. Dezessete anos. Setor 45. Trabalho com metais. Fábrica 15A-XC2.
Castle me encara por apenas um segundo além do necessário.
Por fim, balança a cabeça. Olha para todos nós.
— E quais — ele diz, a voz grossa e clara e alta — são as três perguntas que devem fazer a si mesmos antes de falar?
Mais uma vez, nenhuma resposta. Embora não seja porque não sabemos a resposta.
Castle conta nos dedos.
— Primeira! Isso precisa ser dito? Segunda! Isso precisa ser dito por mim? E terceira! Isso precisa ser dito por mim agora?
Ainda assim, ninguém diz nada.
— Não falamos a menos que seja completamente necessário — Castle avisa. — Não rimos, não sorrimos. Não fazemos contato visual uns com os outros se pudermos evitar. Não agiremos como se nos conhecêssemos. Não devemos fazer nada para incentivar olhares extras na nossa direção. Não chamamos atenção para nós.
Uma pausa.
— Vocês entendem isso, certo? Está claro?
Fazemos que sim com a cabeça.
— E se algo der errado?
— Nós nos dispersamos — Kenji limpa a garganta. — Fugimos. Encontramos esconderijo. Pensamos apenas em nós mesmos. E nunca, nunca entregamos a localização do Ponto Ômega.
Parece que todos respiram fundo ao mesmo tempo.
Castle empurra a pequena porta para abri-la. Espia o lado de fora antes de fazer um gesto para que os sigamos, e nós vamos. Arrastamo-nos pela passagem, um a um, tão silenciosos quanto as palavras que não dizemos.
Não saio do subsolo há quase três semanas. Parecem três meses.
No momento em que meu rosto toca o ar, sinto o vento bater contra a pele de maneira familiar, reprovadora. É como se o vento estivesse me dando uma bronca por ficar longe tempo demais.
Estamos no meio de um campo devastado e congelado. O ar está gelado e cortante, folhas mortas dançam ao nosso redor. As poucas árvores ainda em pé balançam ao vento, seus galhos quebrados e solitários implorando por companhia. Olho para a esquerda. Olho para a direita. Olho bem para frente.
Não há nada.
Castle contou que esta área costumava ser coberta de uma vegetação densa e viçosa. Ele disse que quando começou a procurar o esconderijo para o Ponto Ômega esse terreno em particular era ideal. Mas isso foi há tanto tempo — há décadas — que, agora, tudo mudou. A própria natureza mudou. E é tarde demais para deslocar o esconderijo.
Assim, fazemos o que podemos.
Esta parte, ele disse, é a mais difícil. Aqui fora, somos vulneráveis. Fáceis de ver mesmo como civis porque estamos fora do lugar. Os civis não podem ficar fora dos aglomerados; eles não saem dos terrenos regulamentados e considerados seguros de acordo com O Restabelecimento. Ser pego em qualquer lugar de uma área sem regulamento é considerado violação das leis estabelecidas pelo nosso novo pseudogoverno, e as consequências são severas.
Assim, temos de chegar aos aglomerados o mais rápido possível.
O plano é Kenji — cujo dom permite-lhe camuflar-se em qualquer cenário — andar na frente do grupo, ficando invisível enquanto verifica se os caminhos estão livres. O restante de nós fica para trás, com cuidado, quietos, em completo silêncio. Mantemos alguns metros de distância uns dos outros, prontos para correr, para nos salvar se necessário. É estranho, considerando a natureza unida da comunidade do Ponto Ômega, que Castle não nos incentive a permanecermos juntos. Porém, ele explicou, este é o melhor para a maioria. É um sacrifício.
Um de nós tem de estar disposto a ser pego para que os outros escapem. Sacrificar-se pelo grupo.
Nosso caminho está livre.

Estamos andando há pelo menos meia hora e ninguém parece estar vigiando este pedaço deserto de terra. Logo, os aglomerados ficam à vista. Blocos e blocos e blocos de caixas de metal, montes de cubos em pilhas pelo chão antigo, ofegante. Eu aperto o casaco mais perto do corpo enquanto o vento muda de lado apenas para cortar um filé de nossa carne humana.
Está frio demais para estar vivo hoje.
Estou usando o meu traje — que regula minha temperatura corporal — sob esta roupa e, ainda assim, estou congelando. Não consigo imaginar pelo que os outros devem estar passando agora. Arrisco olhar para Brendan e vejo que ele está fazendo o mesmo. Nossos olhos se encontram por menos de um segundo, mas eu poderia jurar que ele sorriu para mim, suas bochechas golpeadas até ficarem rosadas e vermelhas por um vento ciumento de seus olhos inquietos.
Azuis. Tão azuis.
Um tom tão diferente, mais claro, quase transparente de azul, mas, ainda assim, muito, muito azul. Olhos azuis sempre me lembrarão de Adam, eu acho.
E sinto um golpe de novo. Tão forte, bem no centro de todo o meu ser.
A dor.
— Rápido!
A voz de Kenji chega até nós pelo vento, mas seu corpo não está à vista. Não estamos nem a um metro e meio de colocar os pés no primeiro conjunto de aglomerados, mas, de alguma forma, fico congelada no lugar, sangue e gelo e garfos quebrados descendo pelas minhas costas.
— MEXAM-SE — a voz de Kenji grita de novo. — Aproximem-se dos aglomerados e mantenham os rostos cobertos. Soldados na posição de três horas.
Todos nós pulamos ao mesmo tempo, correndo para frente enquanto tentamos não chamar a atenção e, em pouco tempo, estamos escondidos atrás de uma unidade de moradia de metal; todos se abaixam, fingindo ser das muitas pessoas que pegam pedaços de aço e ferro das pilhas de lixo em todo o chão.
Os aglomerados ficam em um grande campo de resíduos. Lixo e plástico e pedaços de metal destroçado espalham-se como confete no chão de uma criança.
Há uma fina camada de neve polvilhando tudo, como se a Terra estivesse fazendo uma fraca tentativa de cobrir suas partes feias um pouco antes de chegarmos. Mas este mundo é uma grande bagunça.
Olho para cima.
Olho por cima do ombro.
Olho ao redor de maneira que não deveria, mas não consigo evitar. Devo manter os olhos no chão como se morasse aqui, como se não houvesse nada de novo para ver, como se não suportasse levantar o rosto para ele ser golpeado pelo frio. Eu devia me enrolar em mim mesma, de ombros curvados como todos os outros estranhos tentando se aquecer. Porém, há muito para ver. Muito para observar. Muito a que nunca fui exposta antes.
Assim, ouso levantar a cabeça.
E o vento me agarra pela garganta.

8 comentários:

  1. oooi K! Obrigada pelos livros, seu trabalho é incrível ♡ Será que poderia disponibilizar o livro O Jogador n.1 , do Ernest Cline? Ficaria muuuuito grata ♡

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  2. Até eu respirei agora. Esse negócio de viver no subsolo não me agrada não

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  3. Toda vez que o Brenda aparece eu lembro dp Maven de Rainha vermelha kkkkkkk

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    1. Neh não?! Esse livro é muuuito parecido com a Rainha Vermelha. Quando falaram do "dom" do Adam, lembrei da Cameron, a menininha q conseguia "desligar" geral. Lembra??

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    2. E tem como esquecer-se da Cameron?Não né.

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  4. oi ka! sou apaixonada pelo blog, me tira uma duvida pfvr!
    vc sabe quando vai postar a continuação de artifícios das trevas

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Boa leitura :)