6 de janeiro de 2017

18

Adam começa a me levar para o sofá, mas Kenji nos intercepta.
— Vocês podem ter seu momento, prometo — ele diz —, só que, agora, todos nós precisamos entrar no mesmo ritmo, dizer oi e como vai e sei lá sei lá e precisamos fazer isso rápido; Juliette tem informações que todos precisam ouvir.
Adam olha de Kenji para mim.
— O que está acontecendo?
Eu me viro para Kenji.
— Do que você está falando?
Ele revira os olhos para mim e diz:
— Sente-se, Kent.
Adam recua — apenas alguns centímetros —, sua curiosidade derrotando-o neste momento, e Kenji me puxa para a frente para eu ficar de pé no meio desta sala pequenina. Todos estão olhando para mim como se eu pudesse tirar nabos da minha calça.
— Kenji, o quê...
— Alia, você se lembra da Juliette — Kenji diz, fazendo que sim com a cabeça para uma menina loira magra sentada em um canto nos fundos da sala.
Ela me dá um sorriso rápido antes de desviar o olhar, corando sem motivo aparente. Eu me lembro dela; foi ela que criou os socos ingleses personalizados para os nós dos meus dedos: as peças intrincadas que eu usara por cima das minhas luvas nas duas vezes em que saímos para a batalha. Eu nunca prestara muita atenção nela antes e, agora, percebo que é porque ela tenta ser invisível. Ela é uma menina suave e de aparência doce com olhos castanhos gentis; acontece que ela também é uma designer fenomenal. Pergunto-me como ela desenvolveu sua habilidade.
— Lily... você com certeza se lembra de Juliette — Kenji está dizendo para ela. — Nós todos invadimos os aglomerados de armazenamento juntos.
Ele olha para mim.
— Você se lembra, certo?
Faço que sim. Dou um sorriso para Lily. Eu não a conheço de verdade, mas gosto de sua energia. Ela me faz uma saudação de brincadeira, com um sorriso largo enquanto seus cachos parecendo molas caem no rosto.
— É bom vê-la de novo — ela diz. — E obrigada por não estar morta. É uma droga ser a única menina por aqui.
A cabeça loira de Alia aparece por apenas um segundo antes de ela recuar ainda mais para o canto.
— Desculpe — Lily diz, parecendo apenas um pouco arrependida. — Eu quis dizer a única menina que fala por aqui. Por favor, diga que você fala — ela diz para mim.
— Ah, ela fala — Kenji afirma, lançando-me um olhar feio. — Fala palavrões feito uma marinheira também.
— Eu não falo palavrões feito uma...
— Brendan, Winston — Kenji me interrompe, apontando para os dois caras sentados no sofá. — Esses dois definitivamente não precisam de apresentações, mas, como você pode ver — ele diz — eles estão diferentes agora. Repare nos poderes transformadores de ser mantido refém por um monte de imbecis sádicos!
Ele faz um floreio com a mão na direção deles, seu sarcasmo acompanhado de um sorriso falso.
— Agora eles parecem um par de gnus. Mas, sabe, em comparação, eu pareço um maldito rei. Então, são só boas notícias.
Winston aponta para o meu rosto. Seus olhos estão um pouco sem foco e ele tem de piscar várias vezes antes de dizer:
— Gosto de você. É muito bom você não estar morta.
— Concordo com isso, amigo.
Brendan dá um tapinha no ombro de Winston, mas está sorrindo para mim. Seus olhos ainda são muito azul-claros e seu cabelo, muito loiro-branco. Mas ele tem um corte profundo que vai da têmpora direita até o maxilar e parece que está só começando a cicatrizar. Não posso imaginar onde mais ele está machucado. O que mais Anderson deve ter feito tanto com ele quanto com Winston.
Uma sensação enjoativa e escorregadia se mexe dentro de mim. Tenho de fechar e apertar os olhos para afastá-la.
— É muito bom vê-la de novo — Brendan está dizendo, seu sotaque britânico sempre me surpreendendo. — Desculpe por a gente não poder estar um pouco mais apresentável.
Sorrio para os dois.
— Estou muito feliz por ver que vocês estão bem.
— Ian — Kenji diz, fazendo um gesto para o cara alto e magrelo empoleirado no braço do sofá.
Ian Sanchez. Lembro-me dele como um cara no meu grupo da linha de montagem quando invadimos o aglomerado de armazenamento, e, mais importante que isso, sei que ele é um dos quatro caras que foram raptados pelos homens de Anderson. Ele, Winston, Brendan e outro cara chamado Emory.
Havíamos conseguido trazer Ian e Emory de volta, mas não Brendan e Winston. Lembro-me de Kenji dizendo que Ian e Emory estavam tão detonados quando os trouxemos de volta que, mesmo com as garotas ajudando a curá-los, eles tinham levado um tempo para ficar bem. Ian parece bem para mim, mas ele, também, deve ter passado por umas coisas horríveis.
E Emory claramente não está aqui.
Eu engulo a seco, com dificuldade, dando a Ian o que espero ser um sorriso forte.
Ele não sorri de volta.
— Como você ainda está viva? — ele pergunta, sem preâmbulos. — Não parece que alguém deu uma surra em você, então, sem querer ofender, mas eu não confio em você.
— Vamos chegar a essa parte — Kenji diz, interrompendo Adam assim que ele começa a protestar para me defender. — Ela tem uma ótima explicação, prometo. Já sei de todos os detalhes.
Ele lança um olhar cortante para Ian, mas Ian não parece notar. Ele ainda está me encarando, uma sobrancelha levantada como em desafio.
Eu tombo a cabeça para ele, observando-o com atenção.
Kenji estala os dedos em frente a meu rosto.
— Concentre-se, princesa, eu já estou ficando entediado.
Ele olha ao redor da sala, procurando qualquer um que ele pudesse ter esquecido nas reapresentações.
— James — ele diz, os olhos parando no rosto de meu único amigo de 10 anos. — Quer dizer alguma coisa para a Juliette antes de começarmos?
James olha para mim, seus olhos azuis brilhando abaixo de seu cabelo loiro cor de areia. Ele encolhe os ombros.
— Eu nunca achei que você estivesse morta — ele diz, simplesmente.
— É mesmo? — Kenji diz com uma risada.
James faz que sim.
— Eu tinha uma sensação — ele fala, batendo na cabeça.
Kenji sorri.
— Certo, tudo bem, é isso. Vamos começar.
— E quanto ao Ca... — eu começo a dizer, mas paro de repente com a centelha de alerta que aparece e some do rosto de Kenji.
Meu olhar para em Castle, estudando seu rosto de uma maneira que não fiz quando cheguei.
Os olhos de Castle estão sem foco, suas sobrancelhas franzidas como se ele estivesse preso em uma conversa frustrante e interminável consigo mesmo; suas mãos enlaçadas no colo; seu cabelo está liberto do rabo de cavalo sempre perfeito na nuca e seus dreads se espalharam em volta do rosto, caindo em seus olhos. Ele não fez a barba e parece ter sido arrastado pela lama; como se tivesse se sentado naquela cadeira assim que entrara e nunca tivesse saído dali.
E eu percebo que, do nosso grupo, Castle foi o mais atingido.
O Ponto Ômega era sua vida. Seus sonhos estavam em cada tijolo, em cada eco daquele espaço. E, em uma noite, ele perdeu tudo. Suas esperanças, sua visão para o futuro, toda a comunidade que ele lutara para construir. Sua única família.
Acabada.
— Foi muito difícil para ele — Adam sussurra para mim e fico assustada com sua presença, sem perceber que ele está parado a meu lado de novo. — O Castle está assim há algum tempo.
Meu coração se despedaça.
Tento cruzar meu olhar com o de Kenji, tento me desculpar sem palavras, dizer que entendo. Mas Kenji não olha para mim. Ele leva alguns minutos para se recompor e, só então, percebo quão difícil tudo isso deve ser para ele agora. Não é apenas o Ponto Ômega. Não são apenas todos que ele perdeu, não apenas todo o trabalho que fora destruído.
É Castle.
Castle, que fora como um pai para Kenji, seu confidente mais íntimo, seu amigo mais querido.
Ele se transformou em uma casca do que fora.
Meu coração parece pesado com a profundidade da dor de Kenji; desejo tanto poder fazer algo para ajudar. Consertar a situação. E, neste momento, prometo a mim mesma que o farei.
Farei tudo o que puder.
— Certo.
Kenji bate as mãos; faz que sim com a cabeça algumas vezes antes de tomar um fôlego tenso.
— Todos quentinhos e confortáveis? Tudo bem? Tudo bem.
Ele faz que sim de novo.
— Agora deixem-me contar a vocês a história de como nossa amiga Juliette levou um tiro no peito.

3 comentários:

  1. Kenji e suas dramatizações...

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  2. Que dó do Castle, ele perdeu tudo :'( e Kenji sendo Kenji <3

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Boa leitura :)