2 de janeiro de 2017

18

Parecemos mendigos.
O que significa que parecemos civis.
Saímos da sala de aula para o corredor e estamos usando roupas parecidas, esfarrapadas e cinzentas e rasgadas. Todos estão arrumando as roupas enquanto saímos; Winston tira os óculos de plástico e enfia-os no seu casaco antes de fechar o zíper. O colarinho chega até seu queixo e ele se aconchega no tecido.
Lily, uma das garotas do grupo, envolve a boca com um cachecol grosso e puxa o capuz do casaco para a cabeça. Vejo Kenji colocar um par de luvas e ajeitar as calças cargo para esconder melhor a arma que está dentro delas.
Brendan se mexe atrás de mim.
Ele tira um gorro do bolso e coloca na cabeça, fechando o zíper do casaco até o pescoço. É surpreendente a maneira como a cor escura do gorro destaca o azul dos olhos dele e deixa-os ainda mais brilhantes, mais acentuados do que pareciam antes. Ele me lança um sorriso quando vê que o estou observando.
Depois, joga para mim um par de luvas velhas, dois tamanhos acima do meu, antes de se curvar para apertar os cadarços das botas.
Tomo um fôlego curto.
Tento concentrar toda minha energia em onde estou, no que estou fazendo e no que estou prestes a fazer. Digo a mim mesma para não pensar em Adam, não pensar no que ele está fazendo ou em como está se recuperando ou o que deve estar sentindo neste momento. Imploro a mim mesma para não ficar pensando em meus últimos momentos com ele, na maneira como me tocou, como me abraçou, seus lábios e suas mãos e sua respiração rápida demais...
Não consigo.
Não posso deixar de pensar em como ele sempre tentou me proteger, como quase perdeu a vida no processo. Ele estava sempre me defendendo, sempre cuidando de mim, sem nunca perceber que era eu, era sempre eu, a maior ameaça. A mais perigosa. Ele tem uma opinião boa demais a meu respeito, coloca-me em um pedestal que nunca mereci. Ele provavelmente nunca pensaria que estou muito consciente de minhas habilidades agora. Que sei que poderia machucar qualquer pessoa se quisesse.
Eu sei disso agora.
Sei que poderia quebrar Castle no meio. Poderia esmagar a cabeça de Kenji em uma parede. Sei que poderia destruir a fundação desta Terra. Sei que poderia obrigar as pessoas a fazerem coisas. Coisas ruins. Coisas dolorosas. E isso não faz com que eu me sinta melhor. Não faz com que eu me sinta confiante e poderosa.
Faz com que eu sinta enjoo.
Porém, eu não preciso mesmo de proteção. Não preciso que ninguém se preocupe comigo ou tenha curiosidade a meu respeito ou arrisque-se a se apaixonar por mim. Sou instável. Preciso ser evitada. Está certo as pessoas terem medo de mim.
Elas devem ter.
— Ei.
Kenji para atrás de mim e segura meu cotovelo.
— Está pronta?
Eu concordo com um aceno de cabeça. Ofereço a ele um pequeno sorriso.
As roupas que estou usando são emprestadas. O cartão pendurado em meu pescoço, escondido sob minha roupa, é novo em folha. Hoje, ganhei um cartão RR falso, um cartão de Registro do Restabelecimento. É uma prova de que trabalho e moro nos aglomerados; prova de que estou registrada como cidadã em território regulado. Todo cidadão legal tem um. Eu nunca tive porque fui jogada em um manicômio; nunca foi necessário para alguém como eu. Na verdade, estou quase certa de que simplesmente esperavam que eu morresse lá. A identificação não era necessária.
Mas este cartão RR é especial.
Nem todo mundo do Ponto Ômega recebe um cartão falsificado. Parece que são extremamente difíceis de replicar. São retângulos finos feitos de um tipo raro de titânio, com gravação a laser de um código de barras e dos dados biográficos do portador contendo um dispositivo de rastreamento que monitora a localização do cidadão.
— Os cartões RR rastreiam tudo — Castle explicou. — São necessários para entrar nos aglomerados e sair deles, para entrar no local de trabalho da pessoa e sair dele. Os cidadãos são pagos em dólares REST, salários com base em um algoritmo complicado que calcula a dificuldade da profissão e o número de horas gastas no trabalho, para determinar quanto valem os esforços das pessoas. Essa moeda eletrônica é concedida em parcelas semanais e carregada automaticamente em um chip inserido nos cartões RR. Dólares REST podem ser trocados, em Centros de Suprimentos, por comida e necessidades básicas. Perder um cartão RR — ele disse — significa perder seu sustento, seus ganhos, seu status legal de cidadão registrado.
— Se você for parada por um soldado e ele pedir provas de identificação — Castle continuou —, você tem de apresentar o cartão RR. Se não o apresentar — ele acrescentou —, teremos... consequências muito desagradáveis. Cidadãos que andam por aí sem seus cartões são considerados uma ameaça para O Restabelecimento. São vistos como pessoas que desafiam a lei intencionalmente, figuras dignas de suspeita. Negar-se a cooperar de qualquer maneira, mesmo que isso signifique que você não quer ter todos os seus movimentos monitorados e rastreados, faz com que pareça solidário aos partidos rebeldes. E isso a torna uma ameaça. Uma ameaça — ele disse — que O Restabelecimento não tem receio de eliminar.
— Assim — ele falou, respirando fundo —, você não pode, não vai, perder seu cartão RR. Nossos cartões falsificados não têm o dispositivo de rastreamento nem o chip necessário para monitorar dólares REST, pois não temos tecnologia nem necessidade deles. Mas! Isso não significa que eles não sejam valiosos como disfarce — ele avisou. — E, embora os cartões RR sejam parte de uma prisão perpétua para os cidadãos de território regulado, no Ponto Ômega são considerados um privilégio. E você vai tratá-lo como tal.
Um privilégio.
Entre as muitas coisas que fiquei sabendo na nossa reunião desta manhã, descobri que esses cartões são concedidos apenas para aqueles que participam de missões fora do Ponto Ômega. Todas as pessoas que estavam naquela sala hoje foram escolhidas a dedo como as melhores, mais fortes, mais confiáveis.
Convidar-me para estar naquela sala foi uma ousadia da parte de Kenji. Percebo agora que foi sua maneira de dizer que confia em mim. Apesar de tudo, ele está dizendo a mim — e a todos — que sou bem-vinda aqui. O que explica por que Winston e Brendan ficaram tão à vontade para se abrirem comigo. Porque confiam no sistema do Ponto Ômega. E confiam em Kenji se ele diz que confia em mim.
Então, agora, sou um deles.
E no que se refere à minha primeira atividade oficial como membro?
Devo ser uma ladra.

5 comentários:

  1. O Kenji é demais, ele é perfeito, deve ser.ótimo ter esse lindão como amigo ou algo mais kkkkk e eu gostei do Brendan *-*

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  2. Esse homem falou d+ desse cartãozinho se pá a Juju vai perde-lo e vai dar merda

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    1. É óbvio que isso vai acontecer, tudo que não deve ser feito, em livro sempre da ruim! 😂😂

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  3. Yesubai, a filha do vilão11 de abril de 2017 22:57

    Eu curti o brendan <3 tô cheia de crush nessa série

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  4. Só que que acho que vai acontecer alguma merda com o cartão?

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Boa leitura :)