6 de janeiro de 2017

17

A antiga casa de Adam está exatamente como eu me lembro.
Kenji e eu entramos escondidos pelo estacionamento no subsolo e subimos alguns lances de escada até os andares superiores. De repente, estou tão nervosa que mal consigo falar. Eu tive de sofrer pela morte dos meus amigos duas vezes já e parte de mim sente que isso não pode estar acontecendo de verdade. Mas deve estar. Tem de estar.
Eu vou ver Adam.
Eu vou ver o rosto de Adam.
Ele vai ser real.
— Eles estouraram a porta quando estavam procurando por nós naquela primeira vez — Kenji está dizendo — e, por isso, ela está bem emperrada... Temos empilhado um monte de móveis contra ela para mantê-la fechada, mas, depois, ela ficou emperrada do outro lado, entããão... É, pode levar um tempo para eles a abrirem. Tirando isso, esse lugarzinho tem sido bom para nós. O Kent ainda tem um monte de comida estocada e todo o encanamento ainda funciona, porque ele tinha pagado por quase tudo até o final do ano. No final das contas, demos muita sorte — ele diz.
Estou fazendo que sim com a cabeça, com medo demais para abrir a boca. O café daquela manhã de repente não faz muito bem a meu estômago e estou tremendo dos pés à cabeça.
Adam.
Estou prestes a ver Adam.
Kenji bate na porta.
— Abram — ele grita. — Sou eu.
Por um minuto, tudo o que escuto é o som de movimentos pesados. Madeira rangendo, metal raspando e uma série de baques secos. Observo a moldura da porta conforme ela treme; alguém do outro lado está puxando a porta, tentando desemperrá-la.
E, então, ela se abre. Tão devagar. Estou apertando as mãos para me manter equilibrada.
Winston está parado na porta.
Olhando-me pasmo.
— Puta que pariu — ele diz.
Ele tira os óculos — percebo que eles foram colados com fita — e pisca para mim. Seu rosto está machucado e machucado, seu lábio inferior, inchado e rachado. Sua mão esquerda está com bandagem, a gaze enrolada várias vezes em volta da palma.
Dou para ele um sorriso tímido.
Winston agarra a camisa de Kenji e o puxa para a frente, os olhos ainda focados em meu rosto.
— Estou tendo alucinações de novo? — ele pergunta. — Porque vou ficar muito bravo se estiver tendo alucinações de novo. Droga — ele diz, sem esperar Kenji responder. — Se eu tivesse ideia do que seria ter uma concussão, eu teria atirado no meu rosto quando tive a chance...
— Você não está tendo alucinações — Kenji o interrompe com uma risada. — Agora deixe a gente entrar.
Winston ainda está piscando para mim, os olhos arregalados enquanto recua, dando-nos espaço para entrar. Porém, no minuto em que eu passo pela soleira, sou jogada em outro mundo, um conjunto completamente diferente de memórias. Esta é a casa de Adam. O primeiro lugar que foi um santuário para mim na vida. O primeiro lugar em que já me senti segura.
E, agora, está cheio de pessoas, o espaço pequeno demais para abrigar tantos corpos grandes.
Castle e Brendan e Lily e Ian e Alia e James; todos congelados no meio dos movimentos, no meio das frases. Todos estão me encarando sem acreditar. E estou prestes a falar alguma coisa, prestes a achar algo aceitável para dizer ao meu único grupo de amigos destruídos e quebrados, quando Adam sai do pequeno quarto que eu sei que costumava ser de James. Ele está segurando alguma coisa, distraído, sem reparar na mudança abrupta na atmosfera.
Porém, ele então levanta o olhar.
Seus lábios estão abertos como se ele fosse falar e o que quer que ele estivesse segurando atinge o chão, estilhaçando-se em tantos sons que assusta todos e os traz de volta à realidade.
Adam está me encarando, os olhos presos em meu rosto, o peito arfando, o rosto lutando com muitas emoções diferentes. Ele parece meio aterrorizado, meio esperançoso. Ou, talvez, aterrorizado por estar esperançoso.
E, embora eu perceba que provavelmente deveria ser a primeira a falar, de repente não tenho ideia do que dizer.
Kenji para a meu lado, seu rosto dividindo-se com um grande sorriso. Ele desliza o braço em volta do meu ombro. Aperta. Diz:
— Olha só o que eu encontrei.
Adam começa a atravessar a sala, mas isso é estranho... Como se tudo tivesse começado a desacelerar, como se este momento não parecesse real, de alguma forma. Há muita dor em seus olhos.
Eu sinto como se tivesse levado um soco no estômago.
No entanto, lá está ele, bem em frente a mim, suas mãos vasculhando meu corpo como se para garantir que sou real, que ainda estou intacta. Ele está examinando meu rosto, meus traços, seus dedos entrelaçando-se em meus cabelos. E, então, de uma vez, ele parece aceitar que não sou um fantasma, não sou um pesadelo, e ele me puxa contra seu corpo tão rápido que não posso deixar de arfar como resposta.
— Juliette — ele suspira.
Seu coração está batendo forte contra meu ouvido, seus braços bem apertados em volta de mim, e eu me derreto no abraço dele, aproveitando o conforto quente, a familiaridade de seu corpo, seu aroma, sua pele. Minhas mãos o envolvem, sobem pelas suas costas e o apertam com força, e eu nem percebo que lágrimas silenciosas caíram pelo meu rosto até ele se afastar para me olhar nos olhos.
Ele me diz para não chorar, diz que está tudo bem, que tudo vai ficar bem, e eu sei que é tudo mentira, mas, ainda assim, é tão bom ouvir.
Ele está estudando meu rosto de novo, suas mãos cuidadosamente aninhando a parte de trás da minha cabeça, com muita cautela para não tocar na minha pele. Essa lembrança manda uma dor cortante pelo meu coração.
— Não acredito que você está mesmo aqui — ele diz, a voz falhando. — Não acredito que isso está acontecendo mesmo...
Kenji limpa a garganta.
— Ei... pessoal? Sua paixão carnal está deixando os pequenos com nojo.
— Eu não sou um pequeno — James diz, claramente ofendido. — E não acho nojento.
Kenji se vira.
— Você não está nem um pouco incomodado com toda a respiração pesada que está rolando aqui?
Ele faz um gesto descuidado em nossa direção.
Eu pulo para longe de Adam por reflexo.
— Não — James responde cruzando os braços. — Você está?
— Aversão é minha reação geral, sim.
— Aposto que não acharia nojento se fosse você.
Uma longa pausa.
— Você tem um bom argumento — Kenji diz finalmente. — Talvez eu devesse achar uma mocinha para mim neste setor horrível. Pode ser qualquer pessoa entre os 18 e os 35 anos.
Ele aponta para James.
— Então que tal trabalhar nisso, obrigado.
James parece levar o desafio um pouco a sério demais. Ele faz que sim com a cabeça várias vezes.
— Certo — diz. — Que tal a Alia? Ou a Lily? — pergunta, apontando imediatamente para as únicas mulheres do lugar.
A boca de Kenji se abre e se fecha algumas vezes antes de ele dizer:
— É, não, obrigado, menino. Essas duas são como irmãs para mim.
— Que sutil — Lily diz para Kenji, e eu percebo que é a primeira vez em que eu realmente a ouço falar. — Aposto que você ganha todas as mulheres viáveis dizendo a elas que elas são como irmãs para você. Aposto que as mulheres estão simplesmente fazendo fila para pular na cama com você, seu babaca.
— Que grosseria.
Kenji cruza os braços.
James está rindo.
— Viu o que eu tenho que aguentar? — Kenji diz para ele. — Não há amor para o Kenji. Eu dou e dou e dou e não recebo nada em troca. Preciso de uma mulher que saiba dar valor para tudo isto — ele fala, fazendo um gesto ao longo do corpo.
É claro que ele está exagerando muito, esperando distrair James com suas bobagens, e seus esforços são bem-vindos. Kenji provavelmente é a única chance de se ter um pouco de comédia para aliviar aquele espaço lotado, e eu me pergunto se é por isso que ele sai sozinho todo dia. Talvez ele precise de tempo para sofrer em silêncio. Em um lugar onde ninguém espere que ele seja o engraçado.
Meu coração acelera e para conforme eu hesito, pensando em como deve ser difícil, para Kenji, manter a compostura mesmo quando ele quer desmoronar. Eu tive um gostinho desse lado dele pela primeira vez hoje, e isso me surpreendeu mais do que deveria.
Adam aperta meu ombro e eu me viro para olhá-lo. Ele abre um sorriso doce e torturado, os olhos pesados com dor e alegria.
E, de todas as coisas que eu poderia estar sentindo neste momento, a culpa me atinge com mais força.
Todos nesta sala parecem estar carregando fardos muito pesados. Breves momentos de leveza pontuam a tristeza geral que cobre o espaço, e, assim que as piadas somem, a dor desliza de volta.
Embora eu saiba que deveria sofrer pelas vidas perdidas, não sei como fazê-lo. Elas eram todas estranhas para mim. Eu estava apenas começando a criar um relacionamento com Sonya e Sara.
Porém, quando olho ao redor, vejo que sou a única a se sentir assim. Vejo rugas de perda vincando os rostos de meus amigos. Vejo a tristeza enterrada em suas roupas, empoleirada em suas testas franzidas. E alguma coisa no fundo de minha mente está me incomodando, decepcionada comigo, dizendo para mim que eu deveria ser um deles, que eu deveria estar tão derrotada quanto eles.
Mas não estou.
Não posso mais ser essa menina.
Por muitos anos, vivi em constante terror comigo mesma. A dúvida tinha se casado com meu medo e se mudado para minha mente, onde construiu castelos e governou reinos e mandou em mim, subjugando minha vontade a seus sussurros até eu ser pouco mais do que um peão obediente, muito aterrorizada para desobedecer, muito aterrorizada para discordar.
Eu tinha sido algemada, uma prisioneira em minha própria mente.
Mas, enfim, enfim eu havia aprendido a me libertar.
Estou chateada por nossas perdas. Estou horrorizada. E também estou ansiosa e inquieta. Sonya e Sara ainda estão vivas, vivendo da misericórdia de Anderson. Elas ainda precisam de nossa ajuda.
Assim, não sei como ficar triste quando tudo o que sinto é uma determinação incansável de fazer algo.
Não tenho mais medo do medo, e não vou deixá-lo mandar em mim.
O medo vai aprender a me temer.

6 comentários:

  1. Sera juliette! Parece promessas d fim de ano

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  2. O Kenji realmente é perfeito, tentando fazer piada enquanto sofre, tentando fazer os outros rirem quando tudo oq ele quer é chorar :'(
    "O medo vai aprender a me
    temer.
    " mano essa frase é épica, amei, e da pra perceber o quão madura a Juju está, agora ela é forte e determinada, juntos eles vão conseguir U.u

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  3. Muito incrível como, conforme o desenrolar dos livros, a escrita da autora mudou. Ela escrevia de modo que fazia a gente pensar em como a Ju estava louca!!!!! Agora a escrita dela mudou pra gente ver como Ju ficou mais controlada e sã. Muito bom.

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  4. Kkkkkkk... Kenji melhor pessoa♥
    Avante Juju!

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  5. "— Viu o que eu tenho que aguentar? — Kenji diz para ele. — Não há amor para o Kenji. Eu dou e dou e dou e não recebo nada em troca. Preciso de uma mulher que saiba dar valor para tudo isto — ele fala, fazendo um gesto ao longo do corpo."

    ahuahuahuahuahuahuahuahua

    E vai lá Juju! Bota ordem nessa bagaça. Tu é mais forte e agora esta consciente do que poďe :3

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Boa leitura :)