2 de janeiro de 2017

17

Kenji leva-me até uma porta que nunca vi antes. Uma porta pertencente a um quarto que nunca vi antes.
Ouço vozes lá dentro.
Kenji bate na porta duas vezes antes de virar a maçaneta e, de repente, a cacofonia me deixa desnorteada. Estamos entrando em uma sala lotada de pessoas, rostos que vi apenas de longe até agora, pessoas compartilhando sorrisos e risadas. Há mesas individuais com cadeiras individuais arrumadas no amplo espaço que lembra uma sala de aula. Há um quadro branco instalado em uma parede perto de um monitor que pisca com informações. Vejo Castle. Parado no canto, olhando para uma prancheta com tanta atenção que nem repara em nossa entrada até Kenji gritar para cumprimentá-lo.
O rosto todo de Castle se acende.
Eu já tinha reparado nisso antes, na ligação entre eles, mas, agora, está ficando cada vez mais aparente para mim que Castle tem um tipo especial de afeição por Kenji. Um tipo doce e orgulhoso de afeição que costuma ser guardado apenas para os pais. Faz com que eu pense sobre a natureza do relacionamento deles. Onde começou, como começou, o que deve ter acontecido para uni-los. Faz com que eu pense em como sei pouco a respeito das pessoas do Ponto Ômega.
Olho ao redor, para os rostos ansiosos deles, homens e mulheres, jovens e de meia-idade, todas as etnias, os formatos e os tamanhos diferentes. Estão interagindo uns com os outros como se fizessem parte de uma família e sinto uma dor estranha esfaqueando-me na lateral do corpo, fazendo furos até eu desinflar.
É como se meu rosto estivesse pressionado contra o vidro, observando a cena de muito, muito longe, desejando e querendo fazer parte de alguma coisa da qual sei que nunca farei parte de verdade. Eu esqueço, às vezes, que há pessoas por aí que ainda conseguem sorrir todo dia, apesar de tudo.
Elas ainda não perderam a esperança.
De repente, sinto-me encabulada, constrangida, envergonhada até. A luz do dia faz meus pensamentos parecerem escuros e tristes, e quero fingir que ainda estou otimista, quero acreditar que vou encontrar uma maneira de viver. Que, talvez, de alguma forma, ainda exista uma chance para mim em algum lugar.
Alguém assobia.
— Certo, pessoal — Kenji diz em voz alta, as mãos juntas ao redor da boca. — Sentem-se, OK? Vamos orientar aqueles que nunca fizeram isso antes e preciso que fiquem em silêncio por um tempo.
Ele observa a multidão.
— Certo. Sim. Sentem-se todos. Em qualquer lugar. Lily... Você não precisa... Certo, tudo bem, tudo bem. Apenas sentem-se. Vamos começar em cinco minutos, certo?
Ele ergue a mão aberta, dedos levantados.
— Cinco minutos.
Eu deslizo para o assento vazio mais próximo sem olhar ao redor. Mantenho a cabeça baixa, os olhos focados nos grãos de madeira da mesa enquanto todo mundo se joga em cadeiras à minha volta. Por fim, eu ouso olhar rapidamente para a direita. Cabelos bem brancos e pele branca como a neve e olhos azul-claros piscam de volta para mim.
Brendan. O garoto da eletricidade.
Ele sorri. Acena para mim com dois dedos.
Eu baixo a cabeça.
— Ah... olá — eu ouço alguém dizer. — O que você está fazendo aqui?
Eu me viro para a esquerda e encontro cabelos loiros como a areia e óculos de plástico pretos em um nariz de gancho. Um sorriso irônico torcido em um rosto pálido. Winston. Eu me lembro dele. Ele me entrevistou quando cheguei ao Ponto Ômega. Disse que era uma espécie de psicólogo. Porém, ele também foi um dos que desenvolveram o traje que estou usando. As luvas que destruí. Acho que ele é um tipo de gênio. Não tenho certeza.
Neste momento, ele está mastigando a tampa da caneta, encarando-me. Ele usa o dedo indicador para empurrar os óculos para cima no nariz. Lembro-me de que ele me fez uma pergunta e faço um esforço para responder.
— Não tenho certeza — digo. — Kenji me trouxe para cá, mas não disse por quê.
Winston não parece surpreso. Ele revira os olhos.
— Ele com os malditos mistérios o tempo todo. Não sei por que ele acha uma ideia tão boa deixar as pessoas em suspense. É como se esse cara pensasse que a vida é um livro ou algo parecido. Sempre tão dramático com tudo. É irritante pra caramba.
Não faço ideia do que devo dizer. Não posso deixar de pensar que Adam concordaria com ele e, assim, não consigo deixar de pensar em Adam e, então, eu
— Ah, não preste atenção nele — um sotaque inglês invade a conversa.
Viro-me e vejo que Brendan ainda está sorrindo para mim.
— Winston sempre é um pouco desagradável pela manhã.
— Por Deus! Que horas são? — Winston pergunta. — Eu chutaria um soldado nas bolas por uma xícara de café agora.
— É culpa sua, você nunca dorme, colega — Brendan rebate. — Acha que consegue sobreviver dormindo três horas por noite? Você é louco.
Winston larga a caneta mordida na mesa. Passa a mão cansada pelo cabelo. Tira os óculos e esfrega o rosto.
— São as malditas patrulhas. Toda santa noite. Alguma coisa está acontecendo e está ficando intensa lá fora. Tantos soldados simplesmente andando por aí? Que diabos estão fazendo? Não preciso ficar acordado de verdade o tempo todo...
— Do que está falando? — pergunto antes de poder me conter.
Meus ouvidos estão aguçados e meu interesse foi provocado. Notícias do mundo exterior são algo que nunca tive a oportunidade de ouvir antes. Castle estava tão focado em me fazer concentrar toda minha energia no treinamento que nunca ouvi muito além de suas constantes lembranças de que estamos ficando sem tempo e de que eu devia aprender antes de ser tarde demais. Estou começando a me perguntar se a situação está pior do que eu pensava.
— As patrulhas? — Brendan pergunta.
Ele balança a mão como quem sabe das coisas.
— Ah, é apenas... Nós trabalhamos em turnos, certo? Em duplas... Revezamos quem fica de guarda à noite — ele explica. — Na maior parte do tempo, não há problema, apenas rotina, nada muito sério.
— Mas tem sido estranho ultimamente — Winston o interrompe. — É como se estivesse procurando de verdade por nós agora. Como se não fosse mais uma teoria louca. Eles sabem que somos uma ameaça real e é como se realmente tivessem uma ideia de onde estamos.
Ele balança a cabeça.
— Mas é impossível.
— Não é impossível, colega.
— Como eles poderiam nos encontrar? Somos como o maldito Triângulo das Bermudas.
— Parece que não.
— Bem, o que quer que seja, está começando a me assustar — Winston diz. — Há soldados por toda parte, perto demais de onde estamos. Nós os vemos pela câmera — ele me diz, reparando que estou confusa. — E a parte mais estranha — ele acrescenta, inclinando-se, baixando a voz — é que Warner está sempre com eles. Todas as noites. Andando por aí, dando ordens que não consigo escutar. E o braço dele ainda está machucado. Ele o mantém em uma tipoia.
— Warner?
Meus olhos ficam arregalados.
— Está com eles? Isso é... isso é... incomum?
— É bem estranho — Brendan responde. — Ele é o CCR, Comandante Chefe e Regente, do Setor 45. Em circunstâncias normais, ele delegaria essa tarefa a um coronel, um tenente até. Suas prioridades deviam estar na base, supervisionando os soldados.
Brendan balança a cabeça.
— Ele é meio maluco, eu acho, correndo um risco assim. Passando um tempo longe do seu próprio campo. Parece estranho ele poder se afastar por tantas noites.
— Certo — diz Winston, concordando com um aceno de cabeça. — Exatamente.
Ele aponta para nós dois, golpeando o ar.
— E nos faz pensar em quem ele está deixando no comando. O cara não confia em ninguém... Não é conhecido por sua capacidade de delegar para início de conversa... Assim, para ele deixar a base toda noite...
Uma pausa.
— Não faz sentido. Alguma coisa está acontecendo.
— Você acha — pergunto, sentindo-me assustada e sentindo-me corajosa — que, talvez, ele esteja procurando alguém alguma coisa?
— Sim.
Winston suspira. Coça a lateral do nariz.
— É bem o que eu penso. E eu adoraria saber que diabos ele está procurando.
— Nós, é claro — Brendan diz. — Ele está procurando por nós.
Winston não parece convencido.
— Não sei — ele diz. — É diferente. Estão nos procurando há anos, mas nunca fizeram algo assim. Nunca usaram tantos homens nesse tipo de missão. E nunca chegaram tão perto.
— Uau — eu sussurro, sem confiar em mim mesma para supor nenhuma de minhas próprias teorias.
Sem pensar demais sobre quem o que Warner está procurando exatamente. E, o tempo todo, imaginando por que esses dois rapazes estão conversando comigo com tanta liberdade, como se eu fosse confiável, como se eu fosse um deles.
Não ouso mencionar isso.
— É — Winston diz, pegando a caneta mordida de novo. — Loucura. De qualquer maneira, se não tivermos café fresco hoje, com certeza vou perder a cabeça.
Eu olho para a sala ao redor. Não vejo café em nenhum lugar. Nem comida. Pergunto-me o que isso significa para Winston.
— Vamos tomar café da manhã antes de começar?
— Não — ele responde. — Hoje, vamos comer em horários diferentes. Além disso, teremos muitas opções quando voltarmos. Seremos os primeiros a escolher. É a única vantagem.
— Voltarmos de onde?
— Lá de fora — Brendan diz, inclinando-se para trás na cadeira.
Ele aponta para o teto.
— Vamos subir e sair.
— O quê?
Eu reprimo um grito, sentindo-me animada de verdade pela primeira vez.
— Mesmo?
— Sim.
Winston está recolocando os óculos.
— E parece que você vai ganhar sua introdução sobre o que fazemos aqui.
Ele acena com a cabeça para a frente da sala e eu vejo Kenji colocando uma mala enorme sobre a mesa.
— O que você quer dizer? — pergunto. — O que vamos fazer?
— Ah, você sabe — Winston encolhe os ombros; une as mãos atrás da cabeça. — Grandes roubos. Assalto à mão armada. Esse tipo de coisa.
Eu começo a rir quando Brendan me interrompe. Ele chega a pôr a mão sobre meu ombro e, por um momento, fico um pouco assustada. Imagino se ele está perdendo a cabeça.
— Ele não está brincando — Brendan me diz. — E espero que você saiba usar uma arma.

5 comentários:

  1. Vixiiiii gostei *-* é assim q as amizades começam em sala d aula kkkkk VC CONSEGUE JUJU *-*

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  2. Saudades Winston e Bredan ♡

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  3. Geralmente quando eu começo uma amizade a pergunta do "você sabe usar uma arma" sempre vem primeiro, já tava demorando

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  4. Agora eu queria ter uma aula dessas e não uma tão chata como a minha. Ju sortuda

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Boa leitura :)