6 de janeiro de 2017

15

Kenji avança em passos barulhentos na minha direção, seus olhos flamejando.
— Aonde ele foi? Você viu para onde ele foi?
Faço que não com a cabeça enquanto estendo as mãos, agarrando os braços dele em uma tentativa de focar seus olhos.
— Fale comigo, Kenji. Conte o que aconteceu... Onde está todo mundo...?
— Não tem todo mundo! — ele dispara, libertando-se. — O Ponto Ômega se foi... Todos se foram... Tudo...
Ele se ajoelha, ofegando enquanto cai para a frente, sua testa enterrando-se na neve.
— Eu pensei que você estivesse morta também... Eu pensei...
— Não — eu ofego. — Não, Kenji... Eles não podem todos ter morrido... Não todos...
Não Adam.
Não Adam.
Por favor por favor por favor não Adam
E eu estou falando, tenho certeza de que estou falando, mas o mundo todo parece estar sangrando nos cantos.
Eu tinha sido muito otimista quanto a este dia.
Eu tinha mentido para mim mesma.
Eu não acreditei de verdade em Warner. Eu não acreditei que podia ser tão ruim assim. Mas, agora, ver a verdade e ouvir a agonia de Kenji... A realidade de tudo o que aconteceu está me atingindo com tanta força que eu sinto que estou caindo para trás dentro de meu próprio túmulo.
Meus joelhos bateram no chão.
— Por favor — estou dizendo —, por favor, me diga que há outros... Adam tem que estar vivo...
— Eu cresci aqui — Kenji está dizendo.
Ele não está me escutando e eu não reconheço sua voz áspera e dolorida. Eu quero o velho Kenji, o que sabia assumir o comando, assumir o controle. E este não é ele.
Este Kenji está me aterrorizando.
— Esta foi minha vida toda — ele diz, olhando na direção da cratera que costumava ser o Ponto Ômega. — O único lugar... Todas aquelas pessoas...
Ele engasga.
— Elas eram minha família. Minha única família...
— Kenji, por favor...
Tento sacudi-lo. Tento arrancá-lo de seu sofrimento antes de eu sucumbir a ele também. Temos que sair de um lugar tão visível e só agora estou começando a perceber que Kenji não se importa.
Ele quer se colocar em perigo. Ele quer lutar. Ele quer morrer.
Não posso deixar isso acontecer.
Alguém precisa assumir o controle desta situação bem agora, e bem agora eu posso ser a única capaz.
— Levante — eu brigo com ele, minha voz mais dura do que eu queria. — Você precisa se levantar e precisa parar de agir sem cuidado. Sabe que não estamos seguros aqui fora e temos que nos mexer. Onde você está ficando?
Eu agarro o braço dele e puxo, mas ele não se mexe.
— Levante! — grito de novo. — Levan...
E, então, simples assim, eu me lembro de que sou muitíssimo mais forte do que Kenji jamais será.
Isso quase me faz sorrir.
Fecho os olhos e me concentro, tentando me lembrar de tudo que ele me ensinou, tudo que aprendi sobre como controlar minha força, como aproveitá-la quando preciso. Passei tantos anos reprimindo tudo e guardando tudo longe, o que os olhos não veem o coração não sente, que ainda levo algum tempo para me lembrar de que ela está aqui, esperando que eu a aproveite. Mas, no momento em que eu a recebo, sinto-a entrar depressa em mim. É um poder puro tão potente que faz com que eu me sinta invencível.
E, então, simples assim, eu puxo Kenji do chão e jogo-o por cima do meu ombro.
Eu.
Eu faço isso.
Kenji, é claro, libera uma fila dos palavrões mais sujos que já ouvi. Ele está me chutando, e eu mal sinto; meus braços o estão envolvendo sem apertar muito, minha força cuidadosamente controlada para não esmagá-lo. Ele está bravo, mas pelo menos está falando palavrões de novo. Isso é algo que eu reconheço.
Eu o interrompo em meio aos xingamentos.
— Diga onde você está ficando — falo para ele — e se recomponha. Você não pode desmoronar agora.
Kenji fica em silêncio por um instante.
— Ei, hum, me desculpe por incomodá-la, mas estou procurando uma amiga minha — ele diz. — Você a viu? Ela é uma coisinha pequena, chora muito, passa muito tempo com os seus sentimentos...
— Cale a boca, Kenji.
— Ah, espere! — ele fala. — É você.
— Aonde vamos?
— Quando você vai me deixar descer? — ele rebate, não está mais alegre. — Digo, tenho uma vista excelente da sua bunda daqui, mas, se você não se importar de eu ficar olhando...
Eu o derrubo sem pensar.
Droga, Juliette... Que diabos...
— Como é a vista daí?
Fico parada acima do corpo esparramado dele, os braços cruzados em frente ao peito.
— Eu te odeio.
— Levante, por favor.
— Quando você aprendeu a fazer isso? — ele resmunga, cambaleando para levantar e esfregando as costas.
Eu reviro os olhos. Olho para longe. Nada nem ninguém à vista até então.
— Não aprendi.
— Ah, certo — ele diz. — Porque isso faz sentido. Porque jogar um homem adulto sobre o ombro é tão ridiculamente fácil. Esse tipo de merda é natural para você.
Eu encolho os ombros.
Kenji solta um assobio baixo.
— Metida feito o diabo também.
— É.
Faço sombra sobre os olhos contra a luz fria do sol.
— Acho que passar todo aquele tempo com você me estragou de verdade.
— Ó-ó — ele fala, batendo as mãos, nada contente. — Levante-se, princesa. Você é uma comediante.
— Já estou de pé.
— Isso se chama piada, espertinha.
— Aonde vamos? — pergunto de novo.
Começo a andar para nenhuma direção em especial.
— Preciso mesmo saber para onde estamos indo.
— Área não regulamentada.
Ele acompanha meu passo, pegando minha mão para mostrar o caminho. Ficamos invisíveis imediatamente.
— Foi o único lugar em que nós conseguimos pensar.
— Nós?
— É. É a antiga casa do Adam, lembra? É onde eu, pela primeira vez...
Eu paro de andar, o peito arfando. Estou esmagando a mão de Kenji na minha e ele a puxa para se soltar, disparando palavrões enquanto faz isso, deixando-nos visíveis de novo.
— Adam ainda está vivo? — pergunto, procurando nos olhos dele.
— É claro que ele está vivo.
Kenji me vira uma cara feia enquanto esfrega a mão.
— Você não ouviu nada do que eu estou falando para você?
— Mas você disse que todos tinham morrido — ofeguei. — Você disse...
— Todos estão mortos — Kenji diz, seu rosto se fechando de novo. — Havia mais de cem de nós no Ponto Ômega. Só sobraram oito.

7 comentários:

  1. "— Ei, hum, me desculpe por incomodá-la, mas estou procurando uma amiga minha — ele diz. — Você a viu? Ela é uma coisinha pequena, chora muito, passa muito tempo com os seus sentimentos..."

    Só eu q chorei de rir nece capítulo?

    Letícia.

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  2. "— Ei, hum, me desculpe
    por incomodá-la, mas estou
    procurando uma amiga minha —
    ele diz. — Você a viu? Ela é uma
    coisinha pequena, chora muito,
    passa muito tempo com os seus
    sentimentos...
    " engasguei de tanto rir com esse capítulo kkkkk mesmo na bad esse cara me faz rir, estava com tantas saudades do Kenji *^*

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  3. "— Quando você vai me deixar descer? — ele rebate, não está mais alegre. — Digo, tenho uma vista excelente da sua bunda daqui, mas, se você não se importar de eu ficar olhando..."

    KKKKKKKKKKK EU AMO O KENJI, MANO!

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  4. MOMENTOS EM QUE QUASE MORRI...
    " Kenji fica em silêncio por um instante.
    — Ei, hum, me desculpe por incomodá-la, mas estou procurando uma amiga minha — ele diz. — Você a viu? Ela é uma coisinha pequena, chora muito, passa muito tempo com os seus sentimentos...
    — Cale a boca, Kenji.
    — Ah, espere! — ele fala. — É você." ...DE RIR! KKKK

    ~POLLY~

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  5. "— Quando você vai me deixar descer? — ele rebate, não está mais alegre. — Digo, tenho uma vista excelente da sua bunda daqui, mas, se você não se importar de eu ficar olhando..."

    SE EU NÃO TIVESSE UM CASO COM O WARNER, KENJI, COM CERTEZA EU FICARIA COM VOCÊ! KKKK VC É D+

    ~POLLY~

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  6. O capítulo mais lindo e perfeito do livro.Foi emocionante o reencontro desses dois.

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Boa leitura :)