2 de janeiro de 2017

15

Eu conto tudo.
Números pares, números ímpares, múltiplos de dez. Conto os tics do relógio conto os tacs do relógio conto as linhas entre as linhas de uma folha de papel. Conto as batidas desreguladas de meu coração conto minha pulsação e minhas piscadas e o número de tentativas necessárias para inspirar oxigênio suficiente para meus pulmões. Fico assim fico em pé assim conto assim até a sensação sumir. Até as lágrimas pararem de jorrar, até meus punhos pararem de tremer, até meu coração parar de doer.
Nunca há números suficientes.

Adam está na ala médica e pediram-me para não o visitar. Pediram-me para lhe dar espaço, para lhe dar tempo para melhorar, para deixá-lo em paz, droga.
Ele vai ficar bem, foi o que Sonya e Sara me disseram. Disseram-me para não me preocupar, que tudo ficaria bem, mas seus sorrisos eram um pouco menos exuberantes do que o habitual e estou começando a imaginar se elas também estão, enfim, começando a me ver pelo que sou de verdade.
Um monstro horrível, egoísta, patético.
Eu peguei o que queria. Sabia que estava errado e peguei mesmo assim.
Adam não podia ter sabido, ele nunca podia ter sabido como seria realmente sofrer nas minhas mãos. Ele era inocente quanto ao tamanho disso, quanto à cruel realidade da situação. Ele tinha apenas sentido faíscas de meu poder, de acordo com Castle. Ele tinha apenas sentido pequenas facadas dele e era capaz e estava consciente o bastante para se entregar sem sentir todos os efeitos.
Mas eu sabia mais que ele.
Eu sabia do que eu era capaz. Eu sabia quais eram os riscos e fui em frente mesmo assim. Permiti-me esquecer, ser descuidada, ser gananciosa e idiota porque queria o que não podia ter. Eu queria acreditar em contos de fadas e finais felizes e oportunidades puras. Eu queria fingir que era uma pessoa melhor do que sou de verdade, mas, em vez disso, consegui me mostrar como o terror que sempre fui acusada de ser.
Meus pais estavam certos em se livrar de mim.
Castle não está nem falando comigo.
Kenji, no entanto, ainda espera que eu apareça às seis da manhã para o que quer que tenhamos de fazer amanhã, e descubro que, na verdade, estou grata pela distração. Queria apenas que chegasse mais rápido. A vida será solitária para mim daqui para frente, assim como sempre foi, e é melhor eu achar uma maneira de preencher meu tempo.
Esquecer.
Ela continua me atingindo, de novo e de novo e de novo, essa solidão completa e total. Essa falta dele em minha vida, essa compreensão de que nunca mais experimentarei o calor do corpo dele, a ternura de seu toque. A lembrança de quem eu sou e do que fiz e de onde é meu lugar.
Porém, aceitei os termos e as condições de minha nova realidade.
Não posso ficar com ele. Não vou ficar com ele. Não vou arriscar machucá-lo de novo, não vou arriscar me tornar a criatura da qual ele sempre tenha medo, assustado demais para tocar, beijar, abraçar. Não quero impedi-lo de ter uma vida normal com alguém que não vai matá-lo por acidente o tempo todo.
Assim, tenho de sair do mundo dele. Tirá-lo do meu.
É muito mais difícil agora. Muito mais difícil resignar-me a uma existência de gelo e vazio agora que já conheci o calor, a urgência, a ternura e a paixão; o extraordinário conforto de poder tocar outro ser.
É humilhante.
Eu ter pensado que poderia assumir o papel de uma garota normal com um namorado normal; eu ter pensado que poderia viver as histórias que li em tantos livros quando criança.
Eu.
Juliette com um sonho.
A simples ideia é suficiente para me deixar mortificada por completo. Que constrangedor para mim ter pensado que poderia mudar o que me foi concedido.
Ter olhado no espelho e gostado de verdade do rosto pálido que me encarava.
Que triste.
Eu sempre ousei me identificar com a princesa, a que foge e encontra uma fada-madrinha para transformá-la em uma linda garota com um belo futuro. Eu me agarro a algo como uma esperança, uma série de “talvez” e “possivelmente” e “quem sabe”. No entanto, devia ter escutado meus pais quando disseram que coisas como eu não têm permissão para sonhar. É melhor destruir coisas como eu, foi o que minha mãe disse para mim.
E estou começando a pensar que estavam certos. Estou começando a me perguntar se devia simplesmente me enterrar no chão antes de lembrar que, tecnicamente, já estou enterrada. Nem precisei de uma pá.
É estranho.
O quanto me sinto oca.
Como se pudesse haver ecos dentro de mim. Como se eu fosse um daqueles coelhos de chocolate que costumavam ser vendidos na Páscoa, aqueles que não eram nada mais do que uma casca doce envolvendo um mundo de nada. Eu sou assim.
Eu envolvo um mundo de nada.
Todos me odeiam. Os tênues laços de amizade que eu tinha começado a formar foram destruídos agora. Kenji está cansado de mim. Castle está com aversão a mim, decepcionado, nervoso até. Não causei nada além de problemas desde que cheguei e a única pessoa que já tentou ver o bem em mim agora está pagando por isso com a vida.
A única pessoa que já ousou tocar em mim.
Bem. Uma das duas pessoas.
Pego-me pensando muito em Warner.
Lembro-me dos olhos dele e de sua gentileza estranha e de seu comportamento cruel e calculista. Lembro-me da maneira como ele olhou para mim quando pulei da janela para escapar e lembro-me do horror no rosto dele quando apontei sua própria arma para o seu coração e, depois, espanto-me com minha preocupação com essa pessoa que não se parece em nada comigo e, ainda assim, é tão semelhante.
Pergunto-me se terei de vê-lo de novo em breve e imagino como ele vai me cumprimentar. Não faço ideia se ele ainda quer me manter viva, em especial depois de eu ter tentado matá-lo, e não faço ideia do que poderia levar um homem um garoto uma pessoa de 19 anos a um estilo de vida tão infeliz e assassino e, nesse momento, percebo que estou mentindo para mim mesma.
Porque eu sei. Porque posso ser a única pessoa capaz de entendê-lo.
E foi isto que descobri:
Eu sei que ele é uma alma torturada que, como eu, não cresceu com o calor da amizade ou do amor ou de uma coexistência pacífica. Sei que seu pai é o líder de O Restabelecimento e aprova os assassinatos cometidos pelo filho, em vez de condená-los, e sei que Warner não faz ideia do que é ser normal.
Eu também não.
Ele passou a vida esforçando-se para atender às expectativas do pai de domínio global sem questionar o porquê, sem pensar nas repercussões, sem parar por tempo suficiente para mensurar o valor de uma vida humana. Ele tem um poder, uma força, uma posição na sociedade que lhe permitem causar muito estrago e ele tem orgulho disso. Mata sem remorso ou arrependimento e quer que eu me junte a ele. Ele me vê pelo que sou e espera que eu use todo esse potencial.
Garota assustadora e monstruosa com um toque letal. Garota triste e patética com mais nada a oferecer a este mundo. Sem qualquer utilidade além de ser uma arma, uma ferramenta para torturar e assumir o controle. É isso que ele quer de mim.
E, nesses últimos tempos, não tenho tido certeza de que ele está enganado.
Nesses últimos tempos, não tenho tido certeza de nada. Nos últimos tempos, não tenho sabido nada sobre nada em que já acreditei, não mais, e não sei nada sobre quem eu sou. Os sussurros de Warner passeiam pela minha mente, dizendo-me que eu poderia ser mais, poderia ser mais forte, poderia ser tudo; eu poderia ser muito mais do que uma menininha assustada.
Ele diz que posso ser poderosa.
Porém, ainda assim, eu hesito.
Ainda assim, não vejo graça na vida que ele me ofereceu. Não sinto prazer com ela. Ainda assim, digo a mim mesma, apesar de tudo, sei que não quero machucar as pessoas. Não é algo que eu almeje. E, mesmo que o mundo me odeie, mesmo que nunca deixe de me odiar, nunca me vingarei em uma pessoa inocente. Se eu morrer, se eu for morta, se eu for assassinada enquanto durmo, pelo menos morrerei com um fragmento de dignidade. Um pedaço de humanidade que ainda é inteiramente meu, está inteiramente sob meu controle.
E não permitirei que ninguém tire isso de mim.
Assim, tenho de ficar me lembrando de que Warner e eu somos dois mundos diferentes.
Somos sinônimos, mas não somos iguais.
Sinônimos se conhecem como velhos colegas, como um grupo de amigos que viu o mundo juntos. Eles trocam histórias, lembranças sobre suas origens e esquecem que, embora sejam parecidos, são completamente diferentes e, embora compartilhem certas características, um nunca poderá ser o outro. Porque uma noite tranquila não é igual a uma noite calma, um homem firme não é igual a um homem estável e uma luz brilhante não é igual à luz reluzente, porque a maneira como são usados em uma frase muda tudo.
Eles não são iguais.
Passei a vida toda me esforçando para ser melhor. Esforçando-me para ser mais forte. Porque, diferentemente de Warner, não quero ser um terror nesta Terra. Não quero machucar as pessoas.
Não quero usar meu poder para destroçar ninguém.
Porém, então olho para minhas mãos e lembro-me com exatidão do que sou capaz de fazer. Lembro-me com exatidão do que fiz e estou muito consciente do que poderia fazer. Porque é muito difícil lutar contra o que você não pode controlar e, neste instante, não consigo nem controlar minha imaginação conforme ela agarra meus cabelos e me arrasta para o escuro.

14 comentários:

  1. E voltamos ao melodrama de sempre... 😪

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  2. Warner tem de aparecer e dar um sacode nela para ela parar com esse drama. É cansativo pra todo mundo.

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  3. Ela está uma mala sem alça

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  4. Ela sempre foi assim.
    Não entendo essa reclamação

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  5. Dramaaaaaaaa, Juju para d sentir pena d si mesma, para d se chamar d monstro e principalmente para d drama e treine, treine para controlar seu dom, vc consrgue, vc é forte mulher

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  6. Senta que lá vem drama... Juju meu bem aceita que o Warner é o seu par perfeito. Aceita que dói menos #Warnette

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  7. Yesubai, a filha do vilão11 de abril de 2017 22:38

    voltou o drama...aff

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  8. Cara, eu não entendo o que essas pessoas tão achando quando comentam que é um "drama". Sim, pode ter um pouco de drama nessas palavras mas está claramente óbvio que Juliett sofre algum tipo de depressão e vocês só julgam...

    Quem acompanhou a saga desde o começo sabe o que ela sentiu, viu/leu algumas lembranças da infância, dela, da família, dos medos...

    Agora imagine, você não é abraçada pela sua própria mãe, seu pai lhe despreza, te mandam para um manicômio afim de se livrar de você, seus pais dizem que foi um erro você existir, como foi citado no capitulo seus pais dizem que "coisas como você não devem sonhar".

    Passa a infância, pré-adolescência e o começo da adolescência sofrendo bullying e sendo tratado como monstro, se forçando para ser melhor e ajudando as pessoas sem elas te dizerem um "obrigada".

    Saber que está destinada a não tocar ninguém. Droga, Ela MATOU UMA CRIANÇA sem querer e está sendo assombrado por isso, tenham sensibilidade

    Aí quando finalmente encontra o seu amor (que eu acho muito chato que seja Adam pois eu tenho doenças mental e shippo ela com o meu malvado favorito, Warner ), que ela descobre que finalmente alguém pode toca-la, dar amor que nunca recebeu da família ou de um amigo, que nunca recebeu quando ficou TRÊS ANOS em uma cela isolada. Ele simplesmente... Não pode mais toca-la sem correr riscos

    TENHAM UM POUCO DE REFLEXÃO! se fosse eu, eu estaria.... nem sei como estaria nesta situação, como vcs querem que ela aja como uma mulher forte, sem melodramas se a única coisa que ela tem experiência em 17 anos de vida é só drama?

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    1. Aaaah Anônimo você tem toda razão (de novo?)

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    2. Concordo com o Anônimo.Muita insensibilidade dizer que a Juliette está fazendo drama.

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  9. Concordo....e estou triste pelos tres.😣😣😣

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  10. Fico muito triste pela Juliette, ninguém deveria viver assim. O Adam coitado, está se esforçando mas claramente não vai dar certo. Ainda mais para o que eles querem fazer, é óbvio que ele vai se sentir relaxado e o corpo dele vai baixar a guarda. É realmente uma pena.
    É muito conveniente ela pensar tanto no Warner agora que não pode nada com o Kent. Estamos de olho dona Juliette...

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Boa leitura :)