2 de janeiro de 2017

13

Um beliche de um lado da parede.
Uma cama de solteiro do outro.
Isso é tudo que o quarto tem.
Isso e Adam, que está sentado em minha cama de solteiro, os cotovelos apoiados nos joelhos, o rosto, nas mãos. Castle fecha a porta atrás de nós e Adam leva um susto. Dá um pulo.
— Juliette — ele diz, mas não está olhando para mim; está olhando para todo meu corpo.
Seus olhos estão examinando meu corpo como para garantir que ainda estou intacta, braços e pernas e tudo o mais. É apenas quando ele acha meu rosto que seus olhos se encontram com os meus; entro no mar do azul dos olhos dele, mergulho direto nele e me afogo. Sinto como se alguém tivesse me dado um soco nos pulmões e roubado todo o meu oxigênio.
— Por favor, sente-se, senhorita Ferrars.
Castle faz um gesto na direção da cama de Sonya, a inferior do beliche, bem em frente de onde Adam está sentado. Caminho devagar, tentando não ceder à tontura, à náusea que estou sentindo. Meu peito sobe e desce rápido demais.
Largo as mãos sobre meu colo.
Sinto a presença de Adam neste quarto como um peso real contra meu peito, mas decido examinar meu novo curativo cuidadosamente enrolado — a gaze esticada bem justa sobre os nós dos dedos da minha mão direita — porque sou covarde demais para levantar o olhar. Não há nada que eu queira mais do que ir até ele, e ele me abraçar, levar-me de volta aos poucos momentos de felicidade que já experimentei na vida, mas há algo me corroendo por dentro, esmagando meus órgãos, dizendo-me que algo está errado e, provavelmente, é melhor eu ficar bem onde estou.
Castle está em pé no espaço entre as camas, entre Adam e eu. Ele está encarando a parede, as mãos juntas atrás das costas. Sua voz está baixa quando diz:
— Estou muito, muito decepcionado com seu comportamento, senhorita Ferrars.
Uma vergonha terrível e quente sobe meu pescoço e força minha cabeça a baixar de novo.
— Desculpe — eu sussurro.
Castle respira fundo. Expira bem devagar.
— Tenho de ser sincero com você — ele diz — e admitir que ainda não estou pronto para discutir o que aconteceu. Ainda estou muito chateado para conseguir falar sobre o assunto com calma. Suas atitudes — ele continua — foram infantis. Egoístas. Imprudentes! O dano que causou... Os anos de trabalho gasto na construção e planejamento daquela sala, nem consigo começar a dizer...
Ele se segura, engole em seco com dificuldade.
— Esse será um assunto — ele diz, firme — para outro momento. Talvez apenas entre nós dois. Mas estou aqui hoje porque o senhor Kent me pediu para estar.
Eu levanto o olhar. Olho para Castle. Olho para Adam.
Adam parece querer fugir.
Decido que não posso esperar mais.
— Você descobriu alguma coisa sobre ele — digo, e é menos uma pergunta do que um fato.
É tão óbvio. Não há outro motivo para Adam trazer Castle para falar comigo. Algo terrível já aconteceu. Algo terrível está prestes a acontecer.
Posso sentir.
Adam está me encarando agora, sem piscar, as mãos em punhos pressionadas contra as coxas. Ele parece nervoso; assustado. Não sei o que fazer além de olhar de volta para ele. Não sei como reconfortá-lo. Não sei nem como sorrir agora. Sinto que estou presa na história de outra pessoa. O “viveram infelizes para sempre” de outra pessoa.
Castle balança a cabeça para cima e para baixo uma vez, lentamente. Diz:
— Sim. Sim, descobrimos a natureza muito intrigante da habilidade do senhor Kent.
Ele anda até a parede e se encosta nela, dando-me uma visão mais clara de Adam.
— Acreditamos agora saber por que ele pode tocá-la, senhorita Ferrars.
Adam vira-se para o outro lado, aperta um dos punhos contra a boca. A mão dele parece estar tremendo, mas ele, pelo menos, parece estar melhor do que eu.
Porque estou gritando por dentro e minha cabeça está pegando fogo e o pânico está pisando em minha garganta, sufocando-me até a morte. As más notícias não aceitam devolução depois de serem entregues.
— O que é?
Fixo o olhar no chão e conto as pedras e os sons e as rachaduras e nada.
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2, 3, 4
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— Ele... pode incapacitar as coisas — Castle me diz.
5, 6, 7, 8 milhões de vezes eu pisco, confusa. Todos os meus números despencam no chão, somando e subtraindo e multiplicando e dividindo.
— O quê? — pergunto a ele.
Essa notícia está errada. Essa notícia não parece nada horrível.
— A descoberta foi bem acidental, na verdade — Castle explica. — Não estávamos tendo sorte com nenhum dos testes que fazíamos. Mas, um dia, eu estava no meio de um exercício de treinamento, e o senhor Kent estava tentando chamar minha atenção. Ele tocou no meu ombro.
Espere para ver.
— E... de repente — Castle diz, inspirando —, eu não conseguia aplicar minha habilidade. Foi como se... Como se um fio dentro do meu corpo tivesse sido cortado. Senti na hora. Ele queria a minha atenção e, sem querer, desligou-me na tentativa de redirecionar meu foco. Foi diferente de tudo que eu já tinha visto.
Ele balança a cabeça.
— Agora temos trabalhado com ele para ver se ele consegue controlar essa habilidade quando quer. E — Castle acrescenta, animado — queremos ver se ele consegue projetar. Veja bem, o senhor Kent não precisa fazer contato com a pele... Eu estava usando meu terno quando ele tocou no meu braço. Assim, isso significa que ele já está projetando, mesmo que apenas um pouco. E acredito que, com um pouco de trabalho, ele conseguirá estender seu dom para uma área de superfície maior.
Não faço ideia do que isso significa.
Tento encontrar os olhos de Adam; quero que ele mesmo me diga essas coisas, mas ele não levanta o olhar. Ele não quer falar e eu não entendo. Não parece uma notícia ruim. Na verdade, parece muito boa, o que não pode estar certo. Viro-me para Castle.
— Então Adam pode simplesmente fazer o poder de alguém... seu dom... o que quer que seja... ele pode simplesmente interromper? Ele pode desligá-lo?
— Parece ser assim.
— Já testaram em outra pessoa?
Castle parece ofendido.
— É claro que sim. Testamos em todos os membros do Ponto Ômega que têm um dom.
Mas algo não faz sentido.
— E quando ele chegou? — pergunto. — E estava ferido? E as garotas conseguiram curá-lo? Por que ele não cancelou as habilidades delas?
— Ah.
Castle balança a cabeça para cima e para baixo. Limpa a garganta.
— Sim. Muito perspicaz, senhorita Ferrars.
Ele caminha pelo comprimento do quarto.
— É aí... que a explicação fica complicada. Depois de muito estudo, conseguimos concluir que a habilidade dele é um tipo de... mecanismo de defesa. Que ele ainda não sabe controlar. É algo que tem trabalhado no piloto automático durante toda a vida dele, embora funcione apenas para cancelar outras habilidades sobrenaturais. Se houvesse um risco, se o senhor Kent estivesse em perigo, em qualquer situação em que seu corpo estivesse superalerta, sentindo-se ameaçado ou correndo risco de se machucar, sua habilidade funcionaria automaticamente.
Ele para. Olha para mim. Olha de verdade para mim.
— Quando vocês se conheceram, por exemplo, o senhor Kent estava trabalhando como soldado, de guarda, sempre alerta para os riscos ao redor. Ele estava em um estado constante de electricum, um termo que usamos para definir quando nossa Energia está “ligada”, por assim dizer; porque estava sempre em uma situação de perigo.
Castle coloca as mãos nos bolsos do terno.
— Uma série de testes mostrou também que a temperatura do corpo dele sobe quando ele está em um estado de electricum... Apenas alguns graus acima do normal. A temperatura elevada indica que ele está usando mais energia do que o normal para sustentar isso. E, resumindo — diz Castle —, esse uso constante tem deixado-o exausto. Tem enfraquecido suas defesas, seu sistema imunológico, seu autocontrole.
A temperatura elevada de seu corpo.
É por isso que a pele de Adam sempre fica tão quente quando estamos juntos. Por isso que eram sempre tão intensos nossos momentos juntos. A habilidade dele estava trabalhando para enfrentar a minha. A energia dele estava trabalhando para dissipar a minha.
Isso o estava deixando exausto. Enfraquecendo suas defesas.
Ah.
Deus.
— Seu relacionamento físico com o senhor Kent — Castle continua — não é assunto meu, na verdade. Porém, por causa da natureza única dos seus dons, tem sido muito interessante para mim de uma maneira puramente científica. Mas você deve saber, senhorita Ferrars, que, embora essas novas descobertas sem dúvida me deixem fascinado, não sinto nenhum prazer com elas. Você deixou claro que não confia muito no meu caráter, mas precisa acreditar que nunca me divertiria com os seus problemas.
Meus problemas.
Meus problemas chegaram elegantemente atrasados a essa conversa, bestas desatenciosas que são.
— Por favor — eu sussurro. — Por favor, apenas me diga qual é o problema. Há um problema, não há? Algo está errado.
Olho para Adam, mas ele ainda está olhando para o outro lado, para a parede, para tudo exceto meu rosto, e sinto que estou ficando em pé, tentando chamar a atenção dele.
— Adam? Você sabe? Você sabe do que ele está falando? Por favor...
— Senhorita Ferrars — Castle diz rapidamente —, sente-se, por favor. Sei que deve ser difícil para a senhorita, mas precisa me deixar terminar. Pedi ao senhor Kent que não falasse até eu acabar de explicar tudo. Alguém precisa dar essas informações de maneira clara e racional, e temo que ele não esteja em uma boa posição para isso.
Eu caio de volta na cama.
Castle solta um suspiro.
— Você tocou em um ótimo assunto, sobre como o senhor Kent pôde interagir com nossas curandeiras gêmeas ao chegar aqui. Mas foi diferente com elas — Castle conta. — Ele estava fraco, ele sabia que precisava de ajuda. Seu corpo não podia – e, o que é mais importante, não iria – recusar aquele tipo de cuidado médico. Ele estava vulnerável e, assim, incapaz de se defender mesmo se quisesse. Toda sua energia estava exaurida quando ele chegou. Ele se sentiu seguro e estava buscando ajuda; seu corpo estava livre de um perigo imediato e, assim, sem medo, não estava preparado para uma estratégia defensiva.
Castle levanta o olhar. Olha nos meus olhos.
— O senhor Kent começou a ter um problema parecido com a senhorita.
— O quê? — eu ofego.
— Temo que ele ainda não saiba controlar suas habilidades. É algo com que esperamos trabalhar, mas será necessário bastante tempo... e muita energia e foco...
— O que quer dizer — eu me ouço perguntar, minhas palavras cheias de pânico — com ele já ter começado a ter um problema parecido comigo?
Castle respira levemente.
— Parece... Parece que ele fica mais fraco quando está com você. Quanto mais tempo passa na sua companhia, menos ameaçado ele se sente. E quanto mais... íntimos vocês ficam — Castle diz, claramente desconfortável —, menos controle ele tem sobre o próprio corpo.
Uma pausa.
— Ele está aberto demais, vulnerável demais a você. E, nos poucos momentos em que as defesas dele baixaram tanto assim, ele já sentiu uma dor bem particular associada ao seu toque.
Aí está.
Aí está minha cabeça caída no chão, rachada e aberta, meu cérebro escorrendo em todas as direções e eu não consigo eu não faço eu não consigo nem estou sentada aqui, chocada, adormecida, um pouco tonta.
Horrorizada.
Adam não é imune a mim.
Adam tem de se esforçar para se defender de mim e estou esgotando suas forças. Eu o estou deixando doente e estou enfraquecendo seu corpo e, se um dia ele escorregar de novo. Se um dia ele esquecer. Se um dia ele cometer um erro ou perder o foco ou ficar muito consciente de que está usando seu dom para controlar o que eu posso fazer...
Eu poderei machucá-lo.
Eu poderei matá-lo.

17 comentários:

  1. Então o Warner também tem esse poder

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  2. Será q só eu fiquei feliz com fato d q Adam não é imune ao toque dela? *0* aish tô feliz demais *-* tenho a sensação d q o poder do Warner não é exatamente igual '-'
    #TeamJuliner

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    1. Tomara q n assim ele ficam juntos♡♡♡
      #teamJuliner

      Ass•analu

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  3. Omg! O que ta acontecendo? 😬😲😟

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  4. Omg😲😲😲...estou em choque😲😲😲

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  5. Acho q o poder do Warner não é exatamente igual ao do Adam. Essa é aqla parte da trama q o casalzinho se separa? Tô c/dó de vc Juju, mas não posso negar q gostei disso... Nda contra, mas vcs juntos são como um pote gigante de doce de leite c/mel e caramelo... Enjoado...

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  6. Cadê o warnerrrrr???

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  7. Yesubai, a filha do vilão11 de abril de 2017 22:20

    Se o Adam não é imune a ela tlvz o Warner não seja tb, afinal não dá pra saber pq eles nunca passaram tanto tempo juntos igual o Adam passa com ela

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  8. Eles juntos estava muito bom para ser verdade... Era só o que faltava pra virar um desastre completo.

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  9. O povo sera que vcs não intendem que isso pode ser temporario? Entendão ele não sabe controlar isso e usa como um mecanismo de defesa se ele aprender a controlar e ela usar as luvas na maior parte do tempo eles poderiam ter um relaciobamento normal so basta ele aprender a se controlar e ela ainda manter todo o corpo coberto

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  10. NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO! T -T pq isso?Eles sao tao legais juntos pq essa noticia horrivel...T-T

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  11. Isso vai passar, mas acho que veio em um momento bom, está na hora dela desgrudar dele...ela precisa saber agir sem ele o tempo todo por perto.

    Eu curto ela como o Warner, mas também gosto com o Adam...mas já tá enjoativo e chato.

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Boa leitura :)