6 de janeiro de 2017

12

Warner estava certo.
Ser levada de carrinho pelo Setor 45 foi muito mais fácil do que eu esperava. Ninguém reparou em nada e o nicho embaixo do carrinho era, na verdade, espaçoso o suficiente para eu me sentar com conforto.
É apenas quando Delalieu abre um dos painéis de tecido que percebo onde estamos. Olho ao redor depressa, meus olhos fazendo um inventário de todos os tanques militares estacionados neste vasto local.
— Rápido — Delalieu sussurra.
Ele faz um gesto para o tanque parado mais perto de nós. Eu observo a porta ser aberta por dentro.
— Depressa, senhorita. Você não pode ser vista.
Eu me apresso.
Pulo para fora da parte de baixo do carrinho e corro para a porta aberta do tanque, subindo com dificuldade e indo para o assento. A porta se fecha atrás de mim, e eu me viro e vejo Delalieu olhando com atenção, seus olhos úmidos apertados de preocupação. O tanque começa a se mexer.
Eu quase caio para a frente.
— Fique abaixada e aperte o cinto, amor. Estes tanques não foram construídos para serem confortáveis.
Warner está sorrindo enquanto olha direto para a frente, as mãos protegidas por luvas de couro pretas, o corpo envolvido por um sobretudo cinza como o aço. Eu me abaixo em meu assento e procuro o cinto, prendendo-me o melhor que consigo.
— Então você sabe chegar lá? — pergunto.
— É claro.
— Mas seu pai disse que você não conseguia se lembrar de nada do Ponto Ômega.
Warner vira para mim, seus olhos rindo.
— Que conveniente para todos nós eu ter recuperado a memória.
— Ei... Como foi que você escapou de lá, afinal? — questiono. — Como passou pelos guardas?
Ele encolhe os ombros.
— Eu disse a eles que tinha permissão para sair do quarto.
Olho para ele admirada.
— Você não está falando sério.
— Muito sério.
— Mas como você encontrou a saída? — pergunto. — Você passou pelos guardas, tudo bem. Mas aquele lugar era como um labirinto... Eu não sabia andar por ali mesmo depois de viver lá por um mês.
Warner verifica um mostrador no painel. Aperta alguns botões para funções que não entendo.
— Eu não estava totalmente inconsciente quando fui levado para dentro — diz. — Forcei-me a prestar atenção na entrada — ele conta. — Fiz o melhor que pude para memorizar qualquer marco óbvio. Também observei quanto tempo foi necessário para me levarem da entrada para a ala médica e, depois, da ala médica para o meu quarto. E, sempre que Castle me levava nas minhas rondas até o banheiro — fala —, eu observava os arredores, tentando avaliar quão longe eu estava da saída.
— Então...
Eu franzo as sobrancelhas.
— Você poderia ter se defendido dos guardas e tentado escapar muito antes. Por que não fez isso?
— Eu já disse para você. Era estranhamente luxuoso estar confinado daquele jeito. Eu pude recuperar semanas de sono. Eu não precisava trabalhar ou lidar com qualquer assunto militar. Mas a resposta mais óbvia — ele diz, soltando o ar — é que fiquei porque eu podia vê-la todo dia.
— Ah.
Warner ri, os olhos fechados e apertados por um segundo.
— Você nunca quis ficar lá de verdade, não é?
— O que você quer dizer?
Ele faz que não com a cabeça.
— Se é para você sobreviver — ele diz para mim —, nunca pode ser indiferente aos seus arredores. Não pode contar com outras pessoas para cuidarem de você. Não pode presumir que mais alguém vai fazer as coisas do jeito certo.
— Do que você está falando?
— Você não se importava — ele fala. — Você estava ali, no subterrâneo, havia mais de um mês, agrupada com rebeldes de inclinação sobrenatural, cuspindo ideais grandes e nobres sobre salvar o mundo, e diz que nem sabia andar pelo lugar. É porque você não se importava — ele afirma. — Você não queria participar. Se quisesse, teria tomado a iniciativa de aprender o máximo possível sobre sua nova casa. Teria ficado fora de si de animação. Em vez disso, estava apática. Indiferente.
Eu abro a boca para protestar, mas não tenho chance.
— Eu não a culpo — ele garante. — Os ideais deles eram fora da realidade. Não me importa quão flexíveis seus braços e pernas sejam ou quantos objetos você consiga mover com a mente. Se você não entende seu oponente, ou, pior, se você subestima seu oponente, vai perder.
Seu maxilar fica duro.
— Eu ficava tentando avisá-la — ele diz — de que Castle iria levar seu grupo para um massacre. Ele era otimista demais para ser um líder adequado, esperançoso demais para pensar de maneira lógica nas probabilidades que se empilhavam contra ele, e muito ignorante sobre O Restabelecimento para entender de verdade como ele lida com as vozes da oposição. O Restabelecimento — Warner continua — não está interessado em manter uma fachada de gentileza. Os civis não são nada além de peões para eles. Eles querem poder — ele me diz — e querem entretenimento. Não estão interessados em consertar nossos problemas. Só querem garantir que estão o mais confortáveis possível enquanto cavamos nosso próprio túmulo.
— Não.
— Sim — ele diz. — É exatamente simples assim. Todo o resto é só uma piada para eles. Os textos, os artefatos, as linguagens. Eles só querem assustar as pessoas, mantê-las submissas e arrancar sua individualidade; pastoreá-las para uma única mentalidade que atende apenas ao objetivo deles. Por isso eles podem e vão destruir todos os movimentos rebeldes. E esse é um fato que seus amigos não entendiam por completo. E, agora — ele fala —, eles sofreram por sua ignorância.
Ele para o tanque.
Desliga o motor.
Destrava minha porta.
E eu ainda não estou pronta para encarar isso.

3 comentários:

  1. O Warnner tá muito certo, acho q ele é que pode ser um excelente líder de uma rebelião, pela forma dele pensar e pelo fato de ele tá de dentro. Um ataque nas duas frentes(por dentro e por fora) é o que seria necessário pra derrubar O Restabelecimento

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  2. O Warner, apesar da "crueldade", poderia ser um ótimo líder, ele vai ser d muita ajuda pra derrotar o sogrão desgraçado ;-;

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Boa leitura :)