2 de janeiro de 2017

12

— Vamos colocar seu traje de volta — Sara me diz.
O ar aqui embaixo é fresco e frio e, geralmente, úmido, no inverno venta sem parar enquanto eles açoitam o mundo acima de nossas cabeças até a submissão.
Mesmo com meu traje, sinto o frio, em especial de manhã cedo, em especial agora. Sonya e Sara estão me ajudando a tirar esta roupa de hospital e voltar ao meu uniforme e estou tremendo dentro de minha pele. Apenas quando elas fecham meu zíper é que o material começa a reagir com a temperatura do meu corpo, mas ainda estou fraca por ter ficado na cama por tanto tempo e, assim, tenho dificuldade para ficar em pé.
— Não preciso mesmo de uma cadeira de rodas — digo a Sara pela terceira vez. — Obrigada... de verdade... eu agradeço — gaguejo —, mas preciso que o sangue flua pelas minhas pernas, preciso ficar forte sobre meus pés.
Preciso ficar forte, ponto final.
Castle e Adam estão esperando por mim em meu quarto.
Sonya contou-me que, enquanto eu estava falando com Kenji, ela e Sara tinham ido avisar Castle de que eu estava acordada. Então. Agora, eles estão lá. Esperando por mim. No quarto que divido com Sonya e Sara. E estou com tanto medo do que está prestes a acontecer que tenho receio de esquecer, convenientemente, como chegar ao meu próprio quarto. Porque tenho quase certeza de que o que quer que eu esteja prestes a ouvir não vai ser bom.
— Você não pode voltar para o quarto sozinha — Sara diz. — Mal consegue ficar em pé sozinha...
— Estou bem — eu insisto.
Tento sorrir.
— De verdade, vou conseguir, desde que possa ficar perto da parede. Tenho certeza de que voltarei ao normal assim que começar a me mexer.
Sonya e Sara trocam um olhar antes de examinarem meu rosto.
— Como está a sua mão? — elas perguntam ao mesmo tempo.
— Está bem — digo, dessa vez com mais determinação. — Sinto-me muito melhor. É sério. Muito obrigada.
Os cortes estão quase curados e posso mexer os dedos agora. Examino a faixa nova e mais fina que enrolaram ao redor dos nós dos meus dedos. As garotas explicaram que a maior parte do dano foi interna; parece que feri qualquer que seja o osso invisível de meu corpo responsável por minha maldição meu “dom”.
— Certo. Vamos — Sara diz, balançando a cabeça. — Vamos levá-la de volta ao quarto.
— Não... Por favor... Está tudo bem... — eu tento protestar, mas elas já estão segurando meus braços e estou muito fraca para resistir. — Não é necessário...
— Não seja boba — elas falam em coro.
— Não quero que vocês tenham esse trabalho...
— Não seja boba — elas falam em coro de novo.
— Eu, eu realmente não estou...
Mas elas já estão me levando para fora da sala e corredor abaixo e estou mancando entre as duas.
— Juro que estou bem — eu afirmo. — De verdade.
Sonya e Sara trocam um olhar cheio de significado antes de sorrirem para mim, não sem carinho, mas há um silêncio estranho entre nós enquanto atravessamos os corredores. Vejo pessoas passarem por nós e baixo a cabeça imediatamente. Não quero fazer contato visual com ninguém agora. Nem posso imaginar o que devem ter ouvido sobre o dano que causei. Sei que consegui confirmar todos os piores medos delas a meu respeito.
— Só estão com medo de você porque não a conhecem — Sara diz em voz baixa.
— É verdade — Sonya acrescenta. — Mal a conhecemos e achamos que você é demais.
Estou corando feito louca, imaginando por que o constrangimento sempre parece uma água gelada correndo em minhas veias. É como se todos os meus órgãos estivessem congelando, embora minha pele esteja quente muito quente.
Eu odeio isso.
Eu odeio essa sensação.
Sonya e Sara param de repente.
— Aqui estamos — elas declaram juntas.
Levanto o olhar para ver que estamos em frente à porta de nosso quarto. Tento me soltar dos braços delas, mas elas me impedem. Insistem em ficar comigo até eu estar lá dentro.
Assim, fico com elas.
E bato em minha própria porta, porque não sei mais o que fazer.
Uma vez.
Duas vezes.
Estou esperando apenas alguns segundos, apenas alguns instantes até o destino responder quando percebo o impacto total da presença de Sonya e Sara ao meu lado. Elas estão me oferecendo sorrisos com a intenção de me encorajar, apoiar, dar reforço. Estão tentando me emprestar sua força porque sabem que estou prestes a encarar algo que não vai me deixar feliz.
E esse pensamento me deixa feliz.
Nem que por apenas um instante fugaz.
Porque eu penso uau, acho que isso é que é ter amigas.
— Senhorita Ferrars.
Castle abre a porta apenas o suficiente para que eu veja seu rosto. Ele acena para mim com um movimento de cabeça. Baixa o olhar para minha mão machucada. Volta para o meu rosto.
— Muito bem — ele diz, principalmente para si mesmo. — Bom, bom.
Estou feliz por ver que está melhor.
— Sim — eu consigo dizer. — Eu... O-obrigada, eu...
— Meninas — ele diz a Sonya e Sara.
Oferece um sorriso largo e sincero.
— Obrigado por tudo o que fizeram. Eu assumo a partir daqui.
Elas concordam balançando a cabeça. Apertam meus braços uma vez antes de me soltarem e eu balanço por apenas um segundo antes de encontrar apoio para os pés.
— Estou bem — digo a elas quando elas tentam me pegar. — Ficarei bem.
Elas balançam a cabeça de novo. Acenam enquanto saem.
— Entre — Castle diz para mim.
Assim, eu o sigo.

4 comentários:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)