26 de janeiro de 2017

Capítulo 1

Pelo o que deve ter sido a décima vez em poucos minutos, Jenny olhou ao redor, no interior de seu restaurante. Tudo parecia estar em ordem. As mesas estavam cuidadosamente posicionadas, as cadeiras dispostas em torno delas em perfeita simetria. Cada mesa estava posta com um pano xadrez vermelho e branco e os utensílios de cozinha brilhavam em seus lugares. Ela caminhou rapidamente entre as mesas, verificando se as facas e garfos estavam do lado correto.
Seu chefe dos garçons, Rafe, pairava ansiosamente atrás dela.
Rafe era um bom trabalhador e um funcionário leal. Ele era bem intencionado, alegre e honesto. Na verdade, era tudo o que Jenny poderia esperar em um chefe de garçom.
Exceto por uma falha. Rafe tinha uma infeliz tendência a confundir a sua mão esquerda com a direita. Isto significava que, ao longo do tempo, a disposição de seus talheres ficava invertida e, para uma perfeccionista como Jenny, isso era uma fonte de irritação extrema.
Algum tempo atrás, Will tinha meio que resolvido o problema. Ele tinha apontado para Rafe que uma faca era como uma espada pequena e por isso devia ser usada com a mão direita, a mão da espada. Esta simples relação tinha sido notavelmente eficaz. Nas semanas seguintes, Rafe podia ser visto pondo as mesas, de tempos em tempos fazendo um golpe de espada simulado para estabelecer qual lado era qual e descobrir de que lado ficavam as facas.
Mas, ocasionalmente, Jenny percebeu, ele tornou-se confiante e começou a dispor as facas e garfos onde o instinto lhe dizia que eles deviam ficar. Quando isso acontecia, ele misteriosamente inverteu suas posições sobre as mesas e o temperamento de Jenny, sempre próximo ao ponto da ebulição, explodia.
Sua amiga Alyss, com a visão de uma diplomata, tinha sugerido que ela poderia resolver o problema simplesmente enrolando o garfo e a faca juntos no guardanapo e colocando o pacote dobrado no centro da mesa. Mas Jenny era teimosa.
— A direita é a direita e a esquerda é a que resta — respondeu. — Por que ele não pode saber disso?
Ela sentiu Rafe atrás dela enquanto verificava o restaurante. Com o canto do olho, podia ver que sua mão direita estava descrevendo pequenos movimentos de estocadas como golpes de espada que ele fazia para testar o posicionamento de cada talher. Quando ela verificou a última mesa, ela se virou para ele e balançou a cabeça.
— Está tudo bem, Rafe. Bom trabalho.
Ela viu seus ombros descerem de alívio e um sorriso radiante sair em seu rosto, aberto e honesto.
— Obrigad’, senhora Jenny. Eu faço o meu melhor para vo... vo...
— Eu sei, Rafe — disse ela.
Ela bateu as mãos e, por um momento lamentou o número de vezes que tinha acertado-o na cabeça com uma colher de pau quando ele falhou em viver de acordo com seus padrões elevados.
Mas só por um momento.
Ele a seguiu para a cozinha, onde sua chefe assistente trabalhava duro em cortar e fatiar a para a preparação refeição da noite. Assistentes de cozinha corriam para lá e para cá, trazendo mais comida da despensa para o cozinheiro e polindo travessas e panelas até brilharem.
Com a aparição de Jenny, o ritmo na cozinha aumentou visivelmente.
Rafe podia se dar ao luxo de ser mais otimista sobre esta parte da inspeção. Se havia algo de errado na cozinha, ele não poderia ser responsabilizado por isso. Jenny lançou um olhar profissional ao redor do cômodo. Para a decepção de Rafe, não parecia haver nada de errado. Ele teria gostado de ver alguma outra pessoa sofrer o impacto das cacetadas da colher de pau de Jenny na parte de trás de sua cabeça. Ela apontou para uma fileira de patos espetados em uma haste de metal comprida, suas peles brilhando com o óleo aromático e sabor que tinha sido esfregado sobre eles.
— Os patos não podem ficar no fogo mais do que quatro horas — disse para a chefe assistente.
A mulher olhou para cima, soprou um fio de cabelo fora de seus olhos e acenou com a cabeça.
— Sim, senhora Jenny.
— E certifique-se de que Norman os vire regularmente. Devem cozinhar uniformemente.
— Sim, senhora. Norman? Você ouviu a senhora? — ela chamou um dos assistentes jovens de cozinha, que na hora estava carregando uma cesta de batatas do armário de vegetais.
— Sim, senhorita Ailsa. Sim, senhora Jenny. Vou virá-los regularmente. Não tenham medo.
Jenny assentiu. Os patos seriam colocados com seus espetos sobre a grande lareira na sala de jantar. Eles seriam virados regularmente, de modo que a pele assasse uniformemente e encrespasse para um marrom dourado. A gordura gotejando sobre as brasas iria chiar e encher a sala com seu odor delicioso, criando uma verdadeira atmosfera de dar água na boca.
Jenny tinha aprendido com Mestre Chubb, seu mentor, que havia certa quantidade de espetáculo necessário num bom restaurante.
Havia apenas seis patos, mas o seu efeito sobre o ambiente superaria em muito o seu número relativamente pequeno.
— Muito bem — Jenny lançou mais uma olhada ao redor, tentando encontrar algo fora do lugar, algo que precisava de correção e não conseguiu.
Sua equipe a olhou ansiosamente.
Esta seria a primeira vez em muitos meses em que Jenny não supervisionaria as operações na cozinha do restaurante. Ela era como uma mãe que deixaria o seu bebê sob os cuidados de outras pessoas pela primeira vez.
Seria necessária uma circunstância muito especial para que Jenny confiasse seu restaurante a eles dessa forma. Rafe e Ailsa, sabiam disso. E esta era uma ocasião especial. Esta noite, ela estava cozinhando um jantar romântico para dois em sua casa de campo para um convidado especial.
Um convidado muito especial.
Esta noite, o belo e jovem arqueiro Gilan estava vindo para jantar.
Resolutamente, Jenny virou as costas para o restaurante e se dirigiu até a rua principal de Wensley. Parecia não-natural para ela não estar na cozinha nesta hora do dia, preparando-se para o serviço de jantar à noite. Mas ela tinha deixado Ailsa e Rafe responsáveis e tinha que confiar que os havia treinado bem.
— Depois de tudo, eu tenho que ter um tempo de folga ocasionalmente — ela murmurou, resistindo à tentação quase irresistível de correr para trás e ver quais desastres haviam ocorrido nos dois minutos e meio desde que ela tinha saído.
Ela na loja de carnes, no centro da rua. Edward, o açougueiro, olhou para cima e sorriu ao vê-la. Jenny era uma excelente cliente, é claro, comprava grandes quantidades de produto para o seu restaurante. E acima disso, ela era extremamente bonita. Apenas o tipo de jovem que açougueiros em todo o mundo gostariam de flertar.
— Ah, senhora Jenny. Parecendo mais bela do que nunca! Você trouxe uma luz de rara beleza à minha loja.
Jenny revirou os olhos para ele.
— Eu vejo que você tem um excelente estoque de tripas disponível aqui hoje, Edward.
Ele riu, imperturbável.
— Ah, tenha paciência comigo, Jenny. Há poucas tão bonita quanto você que vem aqui e você deve saber. Você é um deleite raro para estes pobres olhos velhos.
Edward tinha apenas trinta e cinco anos. Mas é uma característica infalível de açougueiros se comportar como se cada cliente fosse muito, muito mais jovem que eles. Com as donas de casa mais maduras, provavelmente era uma boa tática, pensou Jenny.
— Meu pedido está pronto? — ela perguntou.
Ela gostava da calorosa atmosfera bem-humorada do açougue, mas hoje estava com pressa. Edward virou-se para seu aprendiz, que estava observando sua conversa com um sorriso no rosto.
— Dilbert, busque o pedido da senhorita Jenny — Edward disse, e acrescentou — ossi moc esserpa es e.
Jenny sorriu para si mesma. Era outra peculiaridade do comércio com o açougueiro que ela aprendeu a falar na linguagem dos açougueiros, em que as palavras eram pronunciadas de trás para frente. Isso permitia aos açougueiros terem conversas privadas mesmo quando a loja estava cheia de clientes. Muitas vezes, as observações feitas eram sobre os próprios clientes, embora eles nunca tivessem a menor ideia do que estava sendo dito. Edward estava, obviamente, tentando fazer Dilbert obter alguma prática nesta língua estranha, dizendo: “E se apresse com isso”.
Jenny tinha descoberto esse estranho fenômeno há algum tempo e tinha praticado secretamente falar de trás para frente sozinha. Agora, ela sorriu enquanto Dilbert partiu para outra sala.
— Oriedroc ed anrep aob amu ajes euq orepse — disse ela docemente, e tanto o açougueiro e quanto seu aprendiz deixaram seus queixos caírem quando ela lhes disse que esperava que fosse uma boa perna de cordeiro.
Edward apressadamente procurou em sua memória, tentando lembrar se já tinha dito algo depreciativo sobre Jenny na linguagem dos açougueiros. Ele pensava que não, mas não podia ter certeza. Sentindo a sua preocupação, ela sorriu para ele.
— Você nunca vai saber — ela falou.
Ele rapidamente desviou o olhar e voltou a cortar um pedaço de alcatra em bifes grossos.
Dilbert retornou carregando um pernil e colocou-o sobre o balcão para inspeção de Jenny. Era a parte principal da carne, fresca pela confirmação da gordura branca brilhando nas bordas. Jenny olhou-a criticamente, uma leve carranca no rosto. Nunca iria deixar Edward saber que ela estava muito satisfeita com o seu produto. Ela cutucou o pernil, sentindo a resistência leve na carne, em seguida, bateu com a palma da mão, criando uma retumbante palmada. Ela assentiu com a cabeça, satisfeita com o som. Se perguntassem, ela não encontraria palavras para explicar por que invariavelmente testava um pedaço de carne golpeando-o. Era apenas parte de um ritual que ela tinha desenvolvido ao longo dos anos.
— Está boa, Edward. Enrole-a para mim, por favor.
Edward acenou para Dilbert e o menino trouxe um comprimento de musselina limpa e passou a envolvê-la em torno da perna de cordeiro. Enquanto ele fazia isso, Edward olhou maliciosamente para Jenny.
— Não é muito para apenas duas pessoas? — perguntou.
Jenny balançou a cabeça. Ela tinha pensado que seu jantar com Gilan era um assunto privado, embora devesse saber que era impossível manter um segredo na vila. Mas Edward estava certo. O pernil era um pouco grande para apenas ela e Gilan.
Ela estimou que tivesse cerca de três quilogramas. Mas o que sobrasse teria um bom uso.
— Tudo o que não comermos, eu vou dar para os órfãos da Ala.
Edward levantou as sobrancelhas.
— Órfãos sortudos — respondeu-lhe.
Ele conhecia a reputação de Jenny como cozinheira.
Jenny colocou a peça de carne embrulhada em sua cesta.
— Obrigado, Edward. É um bom pedaço de carne. Vou tentar fazer justiça.
Ela sorriu, incluindo Dilbert em seus agradecimentos e deixou a loja.

2 comentários:

  1. Um pequeno erro.
    "Jenny colocou a peça de carna(carne) embrulhada em sua cesta."

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  2. Amo a jenny eo gilan, se não fosse pela jenny eu entrava no livro e casava com ele.kkkkk
    Ass mila

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Boa leitura :)