2 de janeiro de 2017

11

Eu dou uma olhada no relógio da parede e percebo que são apenas duas da tarde.
O que significa que ainda faltam 16 horas para as seis da manhã.
O que significa que tenho muitas horas a preencher.
O que significa que preciso me vestir.
Porque tenho que dar o fora daqui.
E preciso muito falar com Adam.
— Juliette?
Salto de minha própria mente e volto ao presente para ver que Sonya e Sara estão me olhando.
— Podemos trazer alguma coisa para você? — elas perguntam. — Está se sentindo bem o bastante para sair da cama?
Porém, olho de um par de olhos para outro e volto e, em vez de responder às perguntas, uma sensação debilitante de vergonha escava minha alma e, sem poder evitar, volto para outra versão de mim mesma. Uma menininha assustada que quer permanecer encolhida até não poder ser encontrada mais.
Fico dizendo:
— Desculpem, sinto muito, sinto muito por tudo, por tudo isso, por todo o trabalho, por todos os danos, de verdade, eu sinto tanto, tanto...
Ouço minha própria voz continuar e continuar e continuar e não consigo parar.
É como se um botão em meu cérebro estivesse quebrado, como se eu tivesse desenvolvido uma doença que me força a pedir desculpas por tudo, por existir, por querer mais do que já tenho, e não posso parar.
É o que eu faço.
Sempre estou me desculpando. Sempre me desculpando. Por quem eu sou e o que nunca quis ser e por este corpo no qual nasci, este DNA que nunca pedi, esta pessoa que não posso deixar de ser. Dezessete anos eu passei tentando ser diferente. Todo santo dia. Tentando ser outra pessoa para outra pessoa.
E nunca parece importar.
Mas, então, percebo que elas estão falando comigo.
— Não precisa se desculpar por nada...
— Por favor, está tudo bem.
As duas estão tentando falar comigo, mas Sara está mais perto.
Eu ouso olhar em seus olhos e fico surpresa ao ver como são afáveis. Gentis e verdes e um pouco fechados por causa do sorriso. Ela se senta no lado direito de minha cama. Acaricia meu braço nu com sua luva de látex, sem medo. Sem se encolher. Sonya está em pé ao lado dela, olhando para mim como se estivesse preocupada, como se estivesse triste por mim, e não tenho muito tempo para lidar com isso porque surge uma distração; sinto o cheiro de jasmim encher a sala, da mesma forma que aconteceu quando entrei aqui pela primeira vez.
Quando cheguei ao Ponto Ômega. Quando Adam estava ferido. Morrendo.
Ele estava morrendo e elas salvaram a vida dele. Essas duas garotas à minha frente. Elas salvaram a vida dele e eu estou vivendo com elas há duas semanas e percebo, nesse instante, exatamente o quão egoísta tenho sido.
Assim, decido experimentar um novo conjunto de palavras.
— Muito obrigada — eu sussurro.
Sinto que estou começando a corar e penso sobre minha incapacidade de ser livre com palavras e sentimentos. Penso sobre minha incapacidade para brincadeiras, conversas tranquilas, palavras vazias para preencher momentos constrangedores. Não tenho um armário cheio de “hums” e elipses prontas para inserir no começo e no final de frases. Não sei como ser um verbo, um advérbio, nenhum tipo de adjetivo ou advérbio. Sou um substantivo do começo ao fim.
Tão lotada de pessoas lugares coisas e ideias que não sei como escapar de meu próprio cérebro. Como iniciar uma conversa.
Quero confiar, mas isso me apavora por completo.
Porém, nesse instante, lembro-me de minha promessa a Castle e minha promessa a Kenji e minhas preocupações com Adam e penso que, talvez, eu deva assumir o risco. Talvez eu deva tentar encontrar uma nova amiga ou duas.
E penso em como seria maravilhoso ter uma amiga menina. Uma menina, assim como eu.
Nunca tive uma antes.
Assim, quando Sonya e Sara sorriem e dizem para mim “estamos felizes em ajudar” e que estão aqui “quando precisar” e que estão sempre por perto se eu “precisar de alguém para conversar”, digo a elas que adoraria isso.
Digo a elas que realmente gostaria disso.
Digo a elas que adoraria ter uma amiga com quem conversar.
Talvez um dia.

3 comentários:

  1. Isso mesmo garota, para d draminha e amadureça, toma uma atitude

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  2. Isso Juju! Isso! É assim que a gnt gosta, é assim que a gnt quer

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  3. Juliette virando uma doente mental,Andam esteja se tornando um psicopata!?!Afs esse livro ta mechendo cmg em ksksk

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Boa leitura :)