6 de janeiro de 2017

10

Acordo deitada de bruços.
Meu rosto está enterrado nos travesseiros, meus braços abraçando seus contornos macios. Pisco várias vezes, meus olhos vermelhos absorvendo o lugar à minha volta, tentando me lembrar de quem eu sou. Aperto os olhos com a claridade do dia. Meu cabelo cai no rosto quando levanto a cabeça para olhar em volta.
— Bom dia.
Fico assustada sem razão, sentando-me muito depressa e apertando um travesseiro contra o peito por um motivo igualmente inexplicável. Warner está parado ao pé da cama, totalmente vestido. Ele está usando calça preta e uma malha verde-ardósia que se agarra à forma de seu corpo, as mangas puxadas para trás nos antebraços. Seu cabelo está perfeito. Seus olhos estão alertas, acordados, impossivelmente mais brilhantes com o verde da malha. E ele está segurando uma caneca que solta vapor. Sorrindo para mim.
Dou para ele um aceno fraco.
— Café? — ele pergunta, oferecendo-me a caneca.
Fico olhando para ela, em dúvida.
— Nunca tomei café.
— Não é horrível — ele diz, encolhendo os ombros. — Delalieu é obcecado por ele. Não é, Delalieu?
Faço um movimento brusco para trás na cama, a cabeça quase batendo na parede atrás de mim.
Um cavalheiro mais velho e de aparência gentil sorri para mim do canto do quarto. Seu cabelo castanho fino e seu bigode com as pontas viradas parecem vagamente familiares para mim, como se eu já o tivesse visto na base antes. Percebo que ele está parado ao lado de um carrinho de café da manhã.
— É um prazer conhecê-la oficialmente, senhorita Ferrars — ele diz.
Sua voz é um pouco trêmula, mas nada intimidadora. Seus olhos são sinceros de uma forma inesperada.
— O café é mesmo muito bom — ele diz. — Eu tomo todo dia. Embora sempre tome o m-meu com...
— Creme e açúcar — Warner diz com um sorriso sarcástico, seus olhos rindo como se fosse uma piada secreta. — Sim. Embora eu tema que açúcar seja um pouco demais para mim. Descobri que prefiro a amargura
Ele olha para mim.
— A escolha é sua.
— O que está acontecendo? — pergunto.
— Café da manhã — Warner diz, seus olhos não revelam nada. — Pensei que você poderia estar com fome.
— Tudo bem ele estar aqui? — sussurro, sabendo muito bem que Delalieu pode me ouvir. — Ele saber que estou aqui?
Warner faz que sim com a cabeça. Não me oferece nenhuma explicação.
— Certo — digo a ele. — Vou experimentar o café.
Eu rastejo pela cama para pegar a caneca e os olhos de Warner seguem meus movimentos, passando de meu rosto para a forma de meu corpo e para os travesseiros e lençóis amassados sob minhas mãos e meus joelhos. Quando ele enfim me olha nos olhos, desvia depressa demais, entregando-me a caneca e, depois, ficando a um quarto inteiro de distância de mim.
— Então, quanto o Delalieu sabe? — pergunto, olhando para o velho cavalheiro.
— O que você quer dizer?
Warner levanta uma sobrancelha.
— Bem, ele sabe que vou embora?
Eu levanto uma sobrancelha também. Warner fica olhando.
— Você prometeu me tirar da base — digo a ele — e espero que Delalieu esteja aqui para ajudá-lo com isso. Mas, se for dar muito trabalho, eu sempre estou disposta a usar a janela.
Eu tombo a cabeça.
— Funcionou bem para mim da última vez.
Warner aperta os olhos na minha direção, seus lábios uma linha fina. Ele ainda está me olhando fixamente quando faz um movimento com a cabeça em direção ao carrinho de café da manhã a seu lado.
— É assim que vamos tirá-la daqui hoje.
Eu engasgo no meu primeiro gole no café.
— O quê?
— É a solução mais fácil e eficiente — Warner diz. — Você é pequena e leve e consegue se dobrar com facilidade em um lugar apertado, e os painéis de tecido vão mantê-la escondida. Eu trabalho com frequência no meu quarto — ele continua. — Delalieu traz bandejas de café da manhã para mim de tempos em tempos. Ninguém vai suspeitar de nada fora do comum.
Eu olho para Delalieu esperando algum tipo de confirmação.
Ele faz que sim com a cabeça, animado.
— Como você me trouxe para cá, para início de conversa? — pergunto. — Por que não podemos simplesmente fazer o mesmo?
Warner examina um dos pratos de café da manhã.
— Temo que essa opção não esteja mais disponível para nós.
— O que quer dizer?
Meu corpo é tomado por uma ansiedade repentina.
— Como você me trouxe para cá?
— Você não estava exatamente consciente — ele conta. — Tivemos de ser um pouco mais... criativos.
— Delalieu.
O velho levanta o olhar ao som da minha voz, é clara sua surpresa por eu tê-lo chamado tão diretamente.
— Sim, senhorita?
— Como vocês me trouxeram para o prédio?
Delalieu olha para Warner, cujo olhar agora está fixado na parede. Delalieu olha para mim, dá um sorriso de desculpas.
— Nós... Bem, nós a transportamos para dentro — diz.
— Como?
— Senhor — Delalieu diz de repente, seus olhos implorando pela orientação de Warner.
— Nós a trouxemos para dentro — Warner explica — em um saco para cadáver.
Meus braços e pernas endurecem de medo.
— Vocês o quê?
— Você estava inconsciente, amor. Não tínhamos muitas opções. Eu não podia carregá-la para dentro da base em meus braços.
Ele me lança um olhar.
— Houve muitas baixas na batalha — afirma. — Dos dois lados. Um saco de cadáver era fácil de ignorar.
Estou contendo gritos e olhando para ele.
— Não se preocupe.
Ele sorri.
— Cortei alguns buracos nele para você.
— Você foi muito atencioso — disparo.
— Foi atencioso — ouço Delalieu falar.
Olho para ele e vejo ele está me observando em choque, é óbvio que está abismado com meu comportamento.
— Nosso comandante estava salvando sua vida.
Eu me retraio.
Fico olhando para dentro da caneca de café, o calor colorindo minhas bochechas. Minhas conversas com Warner nunca tiveram plateia antes. Pergunto-me o quê nossas interações devem parecer para um observador de fora.
— Está tudo bem, tenente — Warner diz. — Ela costuma ficar brava quando tem medo. Não passa muito de um mecanismo de defesa. A ideia de ficar dobrada em um espaço tão pequeno pode disparar as tendências claustrofóbicas dela.
Olho para cima de repente.
Warner está olhando direto para mim, os olhos profundos com um entendimento não dito.
Sempre me esqueço de que Warner consegue sentir minhas emoções, que ele sempre sabe o que estou sentindo de verdade. E ele me conhece bem o bastante para poder colocar tudo no contexto certo.
Para ele, sou completamente transparente.
E, de alguma forma, neste exato instante, pelo menos, fico grata por isso.
— É claro, senhor — Delalieu diz. — Peço desculpas.
— Fique à vontade para tomar um banho e se trocar — Warner diz para mim. — Deixei algumas roupas para você no banheiro... Nenhum vestido — ele fala, segurando um sorriso. — Vamos esperar aqui. Delalieu e eu temos algumas coisas a discutir.
Faço que sim com a cabeça, libertando-me da roupa de cama e ficando em pé desajeitada. Agarro a bainha de minha camiseta, envergonhada de repente, sentindo-me amassada e desgrenhada em frente a estes dois militares.
Fico olhando os dois por um momento.
Warner faz um gesto para a porta do banheiro.
Levo o café comigo quando saio, perguntando-me enquanto isso quem é Delalieu e por que Warner parece confiar nele. Pensei que ele tivesse dito que todos os seus soldados o queriam morto.
Eu queria poder ouvir a conversa deles, mas os dois são cuidadosos em não dizer nada até a porta do banheiro se fechar atrás de mim.

6 comentários:

  1. ele já conhecia ela do livro 1 não quando ele mata o cara com o tiro na testa
    essa autora contradiz bastante até ou eu sou louco

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    1. Acho que o que ele quis dizer é que ele a tinha visto de longe antes. Mas nunca falado diretamente com ela. Tanto que ela diz ter reconhecido o rosto dele. "Seu cabelo castanho fino e seu bigode com as pontas viradas parecem vagamente familiares para mim, como se eu já o tivesse visto na base antes." e ele afirma que é um prazer conhecê-la oficialmente.

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  2. "Embora eu tema que açúcar seja um pouco demais para mim. Descobri que prefiro a amargura" KKKKKKKKKK não sei por que ri disso

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    1. Se vc tiver lido Destrua-me vai entender a piada interna dos dois nesse trecho kkk

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  3. "— Nós... Bem, nós a transportamos para dentro — diz.
    — Como?
    — Senhor — Delalieu diz de repente, seus olhos implorando pela orientação de Warner.
    — Nós a trouxemos para dentro — Warner explica — em um saco para cadáver.
    Meus braços e pernas endurecem de medo.
    — Vocês o quê?"
    FUI SÓ EU QUE RI COM ISSO? KKKK
    #TeamWarnerEAdam

    ~polly~

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  4. Prestando mais atenção na interação deles agora... Que fofos :3

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Boa leitura :)