2 de janeiro de 2017

10

Elas nunca tiveram de lidar com um problema como eu antes.
Os ferimentos sempre são tratados pelas curandeiras. Podem consertar ossos quebrados e curar feridas de bala e recuperar pulmões destroçados e fechar até os piores tipos de cortes; sei disso porque Adam teve de ser levado ao Ponto Ômega em uma maca quando chegamos. Ele havia sofrido nas mãos de Warner e seus homens depois de escaparmos da base militar e pensei que seu corpo carregaria cicatrizes para sempre. Mas ele está perfeito. Novinho. Foi necessário um dia todo para consertá-lo; foi como mágica.
No entanto, não há remédios mágicos para mim.
Nenhum milagre.
Sonya e Sara explicam que eu devo ter sofrido algum tipo de choque enorme.
Dizem que meu corpo ficou sobrecarregado com as próprias habilidades e é um milagre eu ter conseguido sobreviver. Elas também acham que meu corpo levou tempo suficiente para ter reparado a maior parte dos danos psicológicos, embora eu não tenha certeza se isso é verdade. Estou psicologicamente danificada há muito tempo. Porém, pelo menos a dor física diminuiu. Parece mais uma palpitação constante que eu posso ignorar por curtos períodos.
Lembro-me de uma coisa.
— Antes — eu conto a elas —, nas salas de tortura de Warner, e depois com Adam e a porta de aço... Eu nunca... Isso nunca aconteceu... Eu nunca me machuquei...
— Castle nos disse isso — Sonya afirma. — Mas quebrar uma porta ou uma parede é muito diferente de tentar dividir a terra em dois pedaços.
Ela tenta abrir um sorriso.
— Temos quase certeza de que isso nem se compara com o que você fez antes. Foi muito mais forte... Todos nós sentimos quando aconteceu. Na verdade, pensamos que explosivos tinham sido detonados. Os túneis — ela disse —, eles quase ruíram.
— Não.
Meu estômago parece uma pedra.
— Tudo bem — Sara tenta me tranquilizar. — Você recuou bem a tempo.
Não consigo recuperar o fôlego.
— Você não tinha como saber... — Sonya começa a falar.
— Eu quase matei... Eu quase os matei, todos vocês...
Sonya balança a cabeça.
— Você tem uma quantidade incrível de poder. Não é culpa sua. Você não sabia do que era capaz.
— Eu podia tê-las matado. Eu podia ter matado Adam... Eu podia...
Minha cabeça chicoteia de um lado ao outro.
— Ele está aqui? Adam está aqui?
As garotas me olham. Olham uma para a outra.
Ouço alguém pigarrear e lanço-me na direção do som.
Kenji sai do canto da sala. Faz um meio aceno, oferece-me um sorriso torto que não chega aos seus olhos.
— Desculpe — ele me diz —, mas tivemos de mantê-lo fora daqui.
— Por quê? — pergunto, mas tenho medo de saber a resposta.
Kenji tira o cabelo dos olhos. Pensa em minha pergunta.
— Bem, por onde devo começar?
Ele conta nos dedos.
— Depois que ele descobriu o que aconteceu, tentou me matar, estourou com o Castle, recusou-se a deixar a ala médica, nem para comer ou dormir, e então ele...
— Por favor — eu o interrompo.
Fecho e aperto os olhos.
— Deixe para lá. Não. Eu não consigo.
— Você perguntou.
— Onde ele está?
Eu abro os olhos.
— Ele está bem?
Kenji esfrega a nuca. Desvia o olhar.
— Ele vai ficar bem.
— Posso vê-lo?
Kenji suspira. Vira-se para as garotas. Diz “ei, podem nos deixar sozinhos um pouco?” e as duas, de repente, têm pressa para sair.
— É claro — responde Sara.
— Sem problemas — diz Sonya.
— Vamos lhes dar privacidade — as duas falam juntas.
E saem.
Kenji pega uma das cadeiras empurradas contra a parede e leva-a até perto de minha cama. Senta-se. Apoia o calcanhar de um pé no joelho da outra perna e inclina-se para trás. Une as mãos atrás da cabeça. Olha para mim.
Eu me mexo no colchão para sentar-me e vê-lo melhor.
— O que foi?
— Você e Kent precisam conversar.
— Ah — eu engulo em seco —, sim. Eu sei.
— Sabe?
— É claro.
— Ótimo.
Ele faz um aceno com a cabeça. Desvia o olhar. Bate o pé rápido demais contra o chão.
— O que foi? — pergunto depois de um instante. — O que você não está me contando?
O pé dele para de bater, mas ele não olha nos meus olhos. Cobre a boca com a mão esquerda. Deixa-a cair.
— Você fez uma loucura e tanto lá.
De repente, sinto-me humilhada.
— Sinto muito, Kenji. Sinto muito mesmo... Eu não pensei... Eu não sabia...
Ele se vira para me encarar e seu olhar me congela. Ele está tentando me ler. Tentando me entender. Tentando, percebo, decidir se pode ou não confiar em mim. Se os rumores sobre eu ser um monstro são verdadeiros ou não.
— Eu nunca fiz aquilo antes — eu me ouço sussurrar. — Eu juro... Não queria que aquilo acontecesse...
— Tem certeza?
— O quê?
— É uma pergunta, Juliette. É uma pergunta legítima.
Nunca o vi tão sério.
— Eu a trouxe até aqui porque Castle a queria aqui. Porque ele achava que poderíamos ajudá-la... Ele achava que poderíamos oferecer a você um lugar seguro para viver. Tirá-la de perto dos idiotas que tentavam usá-la em benefício próprio. Mas você vem para cá e nem parece querer fazer parte de nada. Não conversa com as pessoas. Não faz nenhum progresso no seu treinamento. Não faz nada, basicamente.
— Sinto muito, de verdade...
— E, assim, eu acredito em Castle quando ele diz que está preocupado com você. Ele me diz que você não está se adaptando, que está com dificuldades para se adaptar. Essas pessoas ouviram coisas negativas a seu respeito e não estão sendo tão receptivas quanto deveriam. E eu deveria bater em mim mesmo por isso, mas sinto pena de você. Por isso, digo a ele que vou ajudar. Reorganizo toda a minha maldita programação apenas para ajudá-la com seus problemas. Porque eu acho que você é uma garota legal, que só é um pouco incompreendida. Porque Castle é o cara mais decente que já conheci e quero ajudá-lo.
Meu coração está batendo tão rápido que estou surpresa por não estar sangrando.
— Por isso, eu me pergunto — ele me diz.
Ele baixa o pé que estava descansando no joelho. Inclina-se para frente, apoia os cotovelos nas coxas.
— Eu me pergunto se é possível que tudo isso seja apenas coincidência. Quero dizer, foi apenas uma louca coincidência eu acabar trabalhando com você? Eu? Uma das poucas pessoas daqui com acesso àquela sala? Ou foi coincidência você conseguir me ameaçar para levá-la aos laboratórios de pesquisa? E você, então, de alguma forma, por acidente, por coincidência, sem saber, lançou um soco contra o chão que balançou este lugar com tanta força que pensamos que as paredes estavam desabando?
Ele me encara fixamente.
— Foi coincidência — ele continua — o fato de que, se você tivesse demorado somente mais alguns segundos, este lugar inteiro desmoronaria?
Meus olhos estão arregalados, horrorizados, fixos.
Ele se inclina para trás. Olha para baixo. Pressiona dois dedos contra os lábios.
— Você quer mesmo ficar aqui? — pergunta. — Ou está apenas tentando nos destruir pelo lado de dentro?
— O quê? — eu ofego. — Não...
— Porque ou você sabe exatamente o que está fazendo... E é muito mais dissimulada do que finge ser... Ou realmente não faz ideia do que está fazendo e apenas tem uma sorte dos infernos. Não decidi ainda.
— Kenji, eu juro, eu nunca... Eu n-nunca...
Tenho de me morder para segurar as palavras e poder piscar para conter as lágrimas que ameaçam me dominar. É debilitante este sentimento, este não saber como provar minha inocência. É a minha vida inteira sendo repassada uma vez e outra, tentando convencer as pessoas de que não sou perigosa, de que nunca quis machucar ninguém, de que não tive a intenção de que as coisas ficassem assim. De que não sou uma pessoa ruim.
Mas nunca parece funcionar.
— Sinto muito mesmo.
Eu engasgo, as lágrimas escorrem rápido agora, sem prestar atenção às minhas exigências de que ficassem presas lá dentro. Estou com muita aversão a mim mesma. Esforcei-me tanto para ser diferente, para ser melhor, para ser boa e simplesmente fui e estraguei tudo e perdi tudo de novo e nem sei como dizer a ele que está errado.
Porque ele pode estar certo.
Eu sabia que estava irritada. Eu sabia que quis machucar Castle e não me importei. Naquele momento, tive a intenção. Na fúria daquele momento, tive a intenção verdadeira e real. Não sei o que teria feito se Kenji não estivesse lá para me segurar. Não faço ideia. Nem sei do que sou capaz.
Quantas vezes, ouço uma voz sussurrar na minha mente, quantas vezes você vai pedir desculpas por quem você é?
Ouço Kenji suspirar. Mexer-se na cadeira. Não ouso levantar os olhos, mas esfrego as bochechas vigorosamente, implorando aos meus olhos que parem de chorar.
— Eu tinha de perguntar, Juliette.
Kenji parece desconfortável.
— Sinto muito por você estar chorando, mas não sinto muito por ter perguntado. É meu trabalho pensar o tempo todo na nossa segurança... E isso significa que preciso olhar de todos os ângulos possíveis. Ninguém sabe ainda o que você pode fazer. Nem você. Mas você continua agindo como se suas habilidades não fossem nada de importante, e isso não está ajudando. Precisa parar de fingir que não é perigosa.
Eu levanto o olhar rápido demais.
— Mas eu não sou... Não estou tentando machucar ninguém...
— Isso não importa — ele diz, levantando-se. — Boas intenções são ótimas, mas elas não mudam os fatos. Você é perigosa. Caramba, você é assustadoramente perigosa. Mais perigosa do que eu e todas as pessoas daqui. Por isso, não me peça para agir como se esse conhecimento, por si só, não fosse uma ameaça para nós. Se você vai ficar aqui — ele me diz —, tem de aprender a controlar o que faz... Como conter isso. Tem de lidar com quem você é e tem de descobrir como viver com isso. Assim como o restante de nós.
Três batidas na porta.
Kenji ainda está me encarando. Esperando.
— Certo — eu sussurro.
— E você e Kent têm de resolver o drama de vocês o mais rápido possível — ele acrescenta, assim que Sonya e Sara voltam para a sala. — Não tenho o tempo, a energia nem o interesse de lidar com seus problemas. Gosto de provocá-la de vez em quando porque, bem, sejamos sinceros...
Ele encolhe os ombros.
— O mundo está indo para o inferno lá fora e suponho que eu vá morrer com uma bala antes dos meus 25 anos. Pelo menos quero lembrar como é rir antes de isso acontecer. Porém, isso não faz de mim seu palhaço ou sua babá. No final das contas, eu não ligo a mínima se você e Kent estão namorando firme ou não. Temos um milhão de coisas para cuidar aqui embaixo, e nenhuminha delas envolve sua vida amorosa.
Uma pausa.
— Está claro?
Faço que sim com a cabeça, sem confiar em mim mesma para falar.
— Então, você está conosco? — ele pergunta.
Balanço de novo a cabeça.
— Quero ouvi-la dizer. Se está conosco, está 100%. Sem essa de sentir pena de si mesma. Sem essa de ficar sentada na sala de treinamento o dia todo, chorando porque não consegue quebrar um cano de metal...
— Como você sa...
— Está conosco?
— Estou com vocês — digo. — Estou com vocês. Prometo.
Ele respira fundo. Passa a mão pelo cabelo.
— Ótimo. Encontre-me do lado de fora da sala de jantar amanhã de manhã, às seis.
— Mas a minha mão...
Ele balança a mão, afastando minhas palavras.
— Sua mão, nada. Você vai ficar bem. Nem quebrou nada. Machucou os nós dos dedos e seu cérebro pirou um pouco e, basicamente, você apenas caiu no sono por três dias. Não chamo isso de um ferimento — ele comenta. — Chamo isso de férias.
Ele para e pensa em alguma coisa.
— Você tem alguma ideia de quanto tempo faz desde que entrou de férias...
— Mas não vamos treinar? — eu o interrompo. — Não posso fazer nada se minha mão estiver enfaixada, posso?
— Confie em mim.
Ele tomba a cabeça.
— Você ficará bem. Isso... será um pouco diferente.
Eu o encaro. Espero.
— Você pode considerar isso como suas boas-vindas oficiais ao Ponto Ômega.
— Mas...
— Amanhã. Às seis da manhã.
Abro a boca para fazer outra pergunta, mas ele aperta um dedo contra os lábios, oferece-me uma saudação com dois dedos e sai andando de costas na direção da porta ao mesmo tempo que Sonya e Sara aproximam-se de minha cama.
Vejo-o fazer um aceno com a cabeça para se despedir das duas, girar sobre um pé e dar passos largos porta afora.

14 comentários:

  1. Eita, to aqui de pé batendo palmas pro Kenjin 👋👋👋👋
    japa botando moral na bagaça kkkkk

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    1. Hahahahahahahahah mais ou menos isso

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  2. Ate q enfim alguem deu um sacode nessa menina! Tava aflita ja q todo mundo passava a mao na cabeca dela, mto drama. Palmas para o kenji

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  3. Até que enfim alguém disse umas verdades pra ela

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  4. Primeiro esse idiota do Kenji a levou para um lugar sem ela ter idéia do que a esperava.
    Ela não pediu para estar lá.
    As pessoas se afastam dela e ele acha que ela não está se adaptando?
    Ninguém diz nada pra ela e é óbvio que ela iria se irritar ao descobrir o que estão fazendo. Se ela tirou conclusões precipitadas antes foi por que ninguém lhe disse nada.
    Essa menina está sendo destruída a 17 anos
    E as pessoas encaram isso como sentir pena de si.
    O Kenji não para de a atormentar e depois diz que tem coisas a fazer?
    Se eu fosse ela ia embora desse lugar que não é tão diferente de onde ela estava

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    1. Concordo plenamente ... até Pq ela é peça chave nessa bagaça... sem ela aí aposto que esse povo vai se ferrar

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    2. Nossa Anônimo concordo plenamente u.u Povo chato.

      Ok, o Kenji tinha que ver se ela não é uma traidora... Mas o restante foi desnecessário. Só o Warner mesmo para entende-la u.u

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  5. Kenji seu lindo, bato palmas e os pés pra vc, até q enfim, essa garota tava precisando ouvir umas verdades e VC É MUITO PERIGOSA JULIETTE, VC QUASE MATOU A TODOS POR CAUSA DA SUA RAIVINHA Ò.Ó

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  6. Arraso Kenji, ela tava precisando desse choque de realidade 😁

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  7. Nossa esse livro tá ficando chato.
    Quero logo ler o outro.

    #teamWarner

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  8. Nossa!!! Aqui aplaudindo o Kenji de pé. Não pensei que ele pudesse ser mais maravilhoso. Juju eu sei que você não quer machucar ngm, que vc é boa, mas o Warner tem razão vc não é uma coitadinha. Uma hora vc tem pena de si mesma, depois se acha um monstro, pior pessoa, aí se culpa por tudo e está se vitimando novamente é um ciclo sem fim. Eu sei que as coisas foram horríveis pra ti, mas vc minha cara não está se ajudando e não está deixando que te ajudem. Assim fica dificil miga

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Boa leitura :)