26 de janeiro de 2017

Capítulo 5

Os próximos cinco dias passaram em um borrão. Se tivessem perguntado a Will o que aconteceu ou o que ele tinha feito, ele não saberia responder.
Halt e Lady Pauline estavam fora de Redmont, atendendo a um problema diplomático em um dos castelos subordinados ao feudo. O prefeito de uma das maiores cidades de Céltica tinha fugido com o tesouro da cidade e estava reivindicando imunidade diplomática no feudo Redmont. O rei celta tinha enviado soldados atrás dele para trazê-lo de volta. Isso era compreensível e enquanto Barão Arald não tinha a intenção de proteger o ladrão, a ação do rei celta era tecnicamente uma violação do tratado entre Araluen e Céltica. Nenhum país tinha o direito de enviar tropas armadas ao longo da fronteira. Barão Arald tinha enviado Halt para escoltar o meliante de volta para Céltica e Lady Pauline para garantir que as tropas celtas não colocassem as mãos no criminoso até que ele estivesse de volta em sua jurisdição.
Halt poderia tê-los convencido, é claro, mas seus métodos eram um pouco mais diretos do que Pauline e Arald esperavam para evitar um incidente diplomático.
Com Lady Pauline tão ocupada, coube a Alyss participar da reunião bianual Serviço Diplomático no Castelo Araluen. Will encontrou uma nota em relação a isso sobre a mesa da pequena cabana na floresta.
Mas se Will pensou que passaria uma semana solitária na cabana, preocupado com Puxão, ele foi rapidamente desiludiu dessa noção. Um relatório chegou sobre um bando que atacava os viajantes solitários na parte norte do feudo. Assim, Will partiu em um carroça emprestada, disfarçado de vendedor ambulante de artigos domésticos. Ele percorreu a região em que os bandidos eram conhecidos por operar, vendendo seus produtos em fazendas distantes e faturando uma quantia considerável de dinheiro no processo. Os bandidos o estavam observando, como ele sabia que estariam, e uma vez que ficaram satisfeitos com o que Will tinha arrecadado, o pararam em um trecho solitário da estrada que tinha uma charneca de cada lado.
Havia quatro deles, então Will estava seriamente superado numericamente.
Ele deu-lhes um aviso, identificando-se como Arqueiro do Rei, mas eles escolheram ataca-lo. Em poucos segundos, três deles estavam no chão, cuidando das feridas de flecha em braços e pernas. O quarto, seus olhos arregalados de terror, jogou sua espada e caiu de joelhos, implorando por misericórdia.
Will lhes permitiu colocar bandagens em suas feridas, em seguida, amarrou suas mãos. Colocou-os em uma fila atrás da carroça para caminharem de volta ao Castelo Redmont para julgamento. Um deles pediu gentileza no tratamento.
— Por favor, arqueiro, estamos feridos. Não podemos andar na carroça?
Will olhou para ele friamente. Em seu atual estado de espírito, ele dispunha pouca simpatia pelos bandidos, que tinham deixado várias de suas ex-vítimas feridas e sangrando à beira da estrada.
— Eu estou fazendo um favor — disse ele e quando o homem franziu a testa, pronto para fazer mais uma pergunta, ele acrescentou — eu estou deixando você desfrutar do ar fresco e espaços abertos. Você vai ver pouco de ambos durante os próximos dez anos.
Assim o tempo passou e no quinto dia ele encontrava-se a galope em Cormac de volta para a fazenda onde Bob treinava cavalos para o Corpo de Arqueiros.
O cavalo sacudiu a cabeça, aproveitando a liberdade da estrada e a oportunidade de esticar as pernas. Cavalos de arqueiros adoravam correr.
Eu gostei de voltar ao trabalho. Eu ficaria feliz em continuar servindo a você.
Will sorriu.
— Você tem sido um bom companheiro e eu sou grato — disse ele, acariciando o pescoço castanho carinhosamente. — Mas eu espero que Puxão esteja se curando.
Cormac sacudiu a cabeça. Eu posso entender isso. Mas se você precisar de mim...
— Eu vou procurá-lo — Will concordou.
Quando eles galoparam para fora das árvores e seguiram a longa trilha que levava para a cabana de Bob, Will ansiosamente examinou o celeiro em ambos os lados. No começo, ele não viu nada, então seu coração saltou quando viu um vulto cinza familiar a distância, correndo, para sua alegria, sob o sol fresco do outono.
— Puxão! — Will gritou com entusiasmo e tocou seus calcanhares na barriga de de Cormac.
O cavalo castanho respondeu imediatamente e partiu em um galope. O cavalo cinza ouviu os cascos repercutindo e girou para correr na direção deles, cortando em diagonal o grande celeiro.
Will freou, esperando por ele.
A marcha, o movimento, a forma como o pequeno cavalo sacudiu a cabeça. Era tudo tão familiar. Will realmente riu alto com a visão de seu cavalo enquanto o cavalo cinza desgrenhado veio até a cerca que delimitava o celeiro.
E então ele franziu a testa. Era tão parecido com Puxão. No entanto, não era ele. Este cavalo era consideravelmente mais jovem. Não havia nenhum sinal dos pelos brancos que tinham começado a aparecer no focinho de Puxão ao longo dos últimos anos. E agora que eles estavam mais perto, Will podia ver uma mancha pequena em forma de diamante na penugem mais escura na pequena perna dianteira esquerda do cavalo, perto do casco.
Não era Puxão. No entanto, em muitos aspectos, era.
O cavalo relinchou uma saudação, em seguida, sacudiu-se, sacudindo sua crina exatamente como fazia Puxão. Cormac voltou a saudação. O cavalo cinza olhou com expectativa para Will, mas Will estava confuso demais para falar. Finalmente, jogando sua cabeça, o cavalo cinza virou-se e galopou, voltando da mesma forma que tinha vindo.
Você feriu seus sentimentos.
Will não respondeu. Ele bateu seus calcanhares contra os lados de Cormac e galopou pela trilha até a cabana de Bob.
Aqui, outra surpresa aguardava. Outro cavalo castanho estava parado do lado de fora da cabana, quase idêntico a Cormac. Mas ele era mais jovem, Will percebeu, muito mais jovem. Os dois cavalos cumprimentaram-se como velhos amigos e Will percebeu aonde ele tinha visto Cormac antes.
— Você era o cavalo de Crowley — ele disse para Cormac. — Mas seu nome era
Cropper.
Quando ele disse o nome, o cavalo do lado de fora da cabana levantou a cabeça em reconhecimento.
— Este é o Cropper agora — Crowley disse enquanto saía da cabana e caminhava em direção a eles. — Essa é a forma como nós fazemos. Quando se aposenta um cavalo, mudamos o seu nome e damos o nome antigo para o novo cavalo.
Cormac trotou ansiosamente em direção ao Comandante dos Arqueiros e ele acariciou o focinho do cavalo carinhosamente.
— Olá, velho amigo — ele cumprimentou suavemente. Então ele olhou para Will. — Desmonte, Will. Nós precisamos conversar.
Will desceu da sela, um vago sentimento de inquietação crescente dentro dele.
— Crowley — ele disse. — O que você está fazendo aqui? Como está o Puxão?
Crowley colocou uma mão reconfortante no ombro do jovem arqueiro.
— Puxão está indo bem. Ele está muito melhor do que quando o vi pela última vez. Na verdade, aqui vem ele agora.
Ele apontou e Will virou-se para ver o Velho Bob conduzindo o cavalo para fora do estábulo e em direção à cabana. À primeira vista, ele parecia totalmente recuperado.
— Puxão! — ele chamou, e o cavalo olhou para cima e relinchou ansiosamente.
Bob soltou a rédea e fez um gesto na direção de Will. Sem precisar pedir mais, Puxão trotou em direção a seu mestre e o coração de Will de repente afundou.
— Ele está mancando — percebeu.
O tremor tornou-se evidente quando Puxão aumentou o ritmo.
Crowley concordou.
— Ele está. Bob fez tudo o que pôde, mas a lesão muscular era grande demais para cicatrizar completamente. Temo que ele mancará para sempre, Will.
Puxão bateu a cabeça contra o peito de Will em sua forma familiar, então começou a checar seus bolsos, procurando a maçã que ele sabia que estaria lá. Will o ajudou a encontrá-la e o pequeno cavalo a mastigou alegremente. Mas a cabeça de Will ainda estava girando enquanto absorvia a última declaração de Crowley.
— Ele vai mancar para sempre? Mas como eu poderei...? — Ele não conseguiu terminar a pergunta.
De repente, ele percebeu o que estava por vir. O discurso sobre os cavalos de arqueiros aposentados; os dois cavalos castanhos praticamente idênticos e o jovem cavalo cinza que tinha visto no celeiro – todos esses fatos se uniram para formar uma óbvia e terrível conclusão.
— Nós vamos ter que aposentá-lo — Will falou estupidamente.
Não foi uma pergunta e ele viu Bob e Crowley balançando a cabeça em confirmação.
— É a nossa forma de fazer as coisas, Will — disse Crowley. — Nossos cavalos só podem servir-nos por quinze ou dezesseis anos. Em seguida, eles começam a perder a velocidade, agilidade e resistência das quais dependemos tanto. Portanto, isso aconteceria em um futuro próximo de qualquer maneira. A lesão só trouxe o inevitável um pouco mais rápido.
—Mas... este é o Puxão! — Will exclamou, com os olhos cegos pelas lágrimas. — Este não é um cavalo comum! Ele é Puxão!
Will tomou uma decisão repentina e ergueu a cabeça desafiadoramente, enxugando as lágrimas com as costas da mão com raiva.
— Eu não me importo se ele manca. Eu não me importo se ele não é tão rápido ou tão ágil como ele costumava ser! Ele é meu cavalo e eu vou ficar com ele!
Ele foi até a rédea do Puxão, mas Crowley pegou sua mão suavemente e o parou.
— Isso não é possível — disse ele. — Não é o costume dos arqueiros.
— Então vou me aposentar também. Se eu não posso ter Puxão, eu já não quero ser um arqueiro!
Todos olharam com surpresa quando Puxão recuou, suas orelhas achatadas contra a cabeça.
Não se atreva a dizer isso! Não depois de tudo que fiz por você!
— Puxão? — Will disse, perplexo com a raiva do cavalo.
Mas Puxão balançou a cabeça agora, sacudindo sua crina.
Se aposente se quiser! Mas não me faça a razão disto!
— Mas... eu preciso de você, Puxão. Eu não consigo imaginar prosseguir sem você.
O Velho Bob e Crowley trocaram um olhar. Eles estavam familiarizados com o vínculo misterioso que se formava entre um arqueiro e seu cavalo. Ambos sabiam que uma estranha forma de comunicação cresceu ao longo dos anos. Crowley a experimentou com Cropper. Eles se retiraram para permitir que Will falasse com o cavalo sem constrangimento ou embaraço. Puxão falou suavemente, mais uma vez, sem raiva agora.
Você não entende? Eu não posso servi-lo adequadamente deste jeito. Eu não posso mantê-lo seguro. Isso é um trabalho para o novo Puxão. Mas você tem que dar a ele uma chance.
— O novo Puxão? — Will perguntou.
Crowley, sentindo que era a hora certa, acenou para Bob. O velho criador de cavalos virou-se e caminhou de volta para o estábulo. Quando ele saiu, Crowley respondeu a pergunta.
— Bob é apenas um dos criadores dos nossos cavalos, Will. Temos muitos deles e eles fazem um trabalho incrível. Eles acompanham suas linhagens e os registros de criação de nossos rebanhos. Puxão vai entrar em processo de criação agora, assim como seus antecessores. Ele vai ser bem tratado e vai estar seguro. E vai garantir que, no futuro, haverá outros cavalos, como ele próprio, disponíveis para arqueiros. Você viu o pequeno cavalo cinza no celeiro da frente quando chegava?
Will assentiu.
— Eu pensei que fosse Puxão por alguns minutos.
— Assim como deveria. O pai dele era o avô de Puxão. E a mãe era uma égua cujas características eram quase idênticas com a da mãe de Puxão. Quando Bob viu este porto, separou-o especialmente para você. Claro, não tínhamos ideia de que você precisaria dele tão cedo. Normalmente, teríamos preparado para o próximo ano ou o seguinte. Mas isso veio do nada. É por isso que Bob me buscou para eu explicar. Mais cedo ou mais tarde, todos nós temos que atravessar essa fase.
Ele olhou com simpatia para o jovem arqueiro e seu cavalo. Will aproximou-se de Puxão. Seu braço esquerdo estava em volta do pescoço do cavalo e sua mão direita estava acariciando o seu focinho macio.
— Eu não poderia deixá-lo em Redmont de alguma forma? — Will perguntou.
Crowley sorriu.
— Nós todos perguntamos isso. Mas pense nisso. Ele não é um animal de estimação. E é necessário aqui no programa de melhoramento. Ele é um dos nossos melhores cavalos. Acima de tudo, não seria justo com o seu novo cavalo. Você não faria a ligação corretamente. E não seria justo para Puxão também. Ele teria que ver você sair em missões sem ele.
E você sabe que eu tenho um ar de preocupação.
Apesar de tudo, Will não poderia deixar de sorrir com isso.
— Então, como vai ser o seu novo nome? — perguntou.
Puxão hesitou, com a cabeça de lado.
Eu sempre me fantasiei sendo Belerofonte.
— Belerofonte? — Will repetiu, surpreso.
Era uma escolha inesperada.
Crowley sorriu.
— Não é ruim. Devemos mencionar isso a Bob. E lá vem ele agora.
Will se virou e viu que Bob se aproximava, trazendo o cavalo cinza que ele tinha visto antes. Agora, porém, o cavalo estava selado e com os arreios. Cada centímetro do cavalo era familiar, mesmo sua postura ou o modo de andar. Com exceção do pequeno pedaço de pelos pretos na perna e a falta de pelos brancos ao redor de seu focinho, ele era idêntico ao Puxão que serviu Will durante os últimos quinze anos.
Bem, este é decididamente um cavalo bonito.
— É claro que você pensaria assim — Will respondeu.
Então, quando Bob entregou-lhe as rédeas, ele avançou e acariciou o focinho do jovem cavalo. O cavalo moveu sua cabeça em apreciação, em seguida, esfregou sua cabeça contra bolsos de Will, em busca de uma maçã. Era uma ação tão familiar, uma ação tão Puxão, que Will foi surpreendido por um segundo ou dois.
— Sinto muito. Eu dei a minha maçã última para... — ele hesitou, então disse, com um sorriso — Belerofonte.
Bob buscou em seu próprio bolso e jogou uma maçã para ele.
— Pensei que você poderia precisar.
Will estendeu a maçã na palma da mão para o cavalo, que a pegou suavemente, os lábios fazendo cócegas na palma da mão de Will, depois a mastigou feliz.
— Por que vocês dois não se conhecem melhor? — Bob perguntou, apontando para a sela.
Will assentiu. De repente, ele estava ansioso para saber o quão parecido com Puxão este novo cavalo realmente era.
— Boa ideia.
Ele colocou o pé esquerdo no estribo e virou-se facilmente nas costas do cavalo. Crowley e Bob trocaram sorrisos perversos.
— Agora — Will disse — vamos ver...
Ele não foi mais longe. O cavalo debaixo dele de repente explodiu em movimentos, saltou, fazendo que as quatro patas deixassem o chão ao mesmo tempo, torcendo e girando no ar, levantando suas pernas traseiras enquanto seus membros dianteiros voltaram ao solo. Will foi atirado para o ar sobre o seu pescoço, virando uma cambalhota, sentindo alguns segundos de gravidade zero, então caiu no chão empoeirado, expulsando todo o ar de seus pulmões. Ele ficou gemendo, tentando desesperadamente encher seus pulmões novamente. O cavalo ficou parado ao seu lado, a sua cabeça inclinada com curiosidade.
Bob e Crowley se aproximaram, rindo descontroladamente, enquanto Will permanecia no chão, apoiado em seus cotovelos, gradualmente enchendo seus pulmões de ar.
— Este não é aposentado, Will Tratado! — Bob lembrou-lhe alegremente. — Você precisa pedir permissão para ele, o mesmo que dizia para o velho Puxão aqui.
Will olhou para cima, sua mente piscando de volta a um incidente idêntico há muitos anos. Ele percebeu que o antigo Puxão, agora Belerofonte, estava olhando para ele, sacudindo cabeça.
— Ele dá coices assim como você — Will comentou sem fôlego.
Você nunca vai aprender, não é?
Quando eles galoparam para casa mais tarde naquela manhã, Will continuou a se surpreender com a semelhança entre os dois cavalos. Era como se, de repente e inexplicavelmente, Puxão tivesse rejuvenescido, e ele percebeu agora que Crowley e Bob estavam certos. Nos últimos anos, Puxão tornou-se gradativamente mais lento, um pouco menos seguro de pé. Este novo Puxão era um lembrete de como o cavalo tinha sido em seus primeiros dias juntos.
Ele pensou sobre esses tempos agora. Sobre como Puxão avançou para protegê-lo quando o javali tinha investido contra ele. Sobre a desesperada corrida com o garanhão Bedullin, Tempestade de Areia, quando Puxão mostrou-lhe uma velocidade flamejante que ele nunca tinha visto igual. Enquanto pensava sobre esse dia, o novo Puxão balançou a cabeça, sacudindo sua crina.
Eu teria ganhado de Tempestade de Areia.
Will olhou para ele com surpresa.
— Como você sabe sobre Tempestade de Areia? — questionou.
Mais uma vez, o cavalo sacudiu a crina.
Se você estiver pensando sobre algo, eu saberei. Agora, você quer manter este ritmo ou devemos esperar mais um pouco?
— Você fala como Puxão — Will disse.
Eu sou Puxão.
— Sim — respondeu Will, pensativo — acredito que você é.




Nota do autor: A história anterior surgiu depois de eu ter recebido uma consulta de e-mail de Laurie, uma leitora da Nova Zelândia. Ela apontou que a vida de trabalho prático para cavalos de arqueiros não poderia ser muito maior que 16 ou 17 anos e queria saber o que aconteceu depois período. Eu não podia suportar a ideia de Will sem Puxão, por isso criei o engenhoso programa de melhoramento mencionado aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)