26 de janeiro de 2017

Capítulo 2

Will acordou com a primeira luz da manhã. Ele fez um rápido café da manhã com café e torradas, com mel caseiro em ambos. A noite estava clara, então não se preocupou em montar uma barraca. Ele dormiu no saco de dormir com lona oleada que fazia parte do novo equipamento dos arqueiros. Impermeável do lado de fora e dentro tinha um colchão de lã fino mas confortável e um cobertor.
Era muito superior ao antigo sistema de estender cobertores no chão e no caso de chover, tinha um capuz a prova de água que podia ser erguido para manter o ocupante seco.
Puxão o olhou com curiosidade enquanto desmontava o acampamento.
Então, vamos caçar o lobo essa manhã?
— Não imediatamente — Will respondeu enquanto amarrava o saco de dormir atrás da sela de Puxão.
— Eu quero fazer umas perguntas em outras fazendas primeiro.
Sempre existia a chance de que o ataque à fazenda dos Complepes tenha sido uma anormalidade, ele pensou.
Mas pelo tempo em que ele visitou as outras fazendas na mesma área, sabia que não era o caso.
Dois dos fazendeiros reportaram perda de estoque nas semanas anteriores. Um pensou ter visto um cachorro grande na área. O terceiro fazendeiro não notou nenhuma perda de estoque. Mas sua fazenda era mais afastada para leste.
— Talvez o lobo não tenha alcançado essa distância ainda — Will disse a Puxão.
O cavalo balançou sua crina. Isso deve ter sido um encolher de ombros na linguagem corporal dos cavalos, pensou Will.
No inicio da tarde, ele refez os seus passos a fazenda dos Complepes e estava notando os rastros do lobo.
Eles eram bastante óbvios nos primeiros cem metros. Mas então, o pânico havia terminado e o lobo recuperou a sua astúcia e voltou para suas maneiras naturais.
Sem perna ou não, ele era um oponente inteligente e cheio de recursos. Ele recuou varias vezes e seguiu por caminhos difíceis, onde pequenos rastros de sua passagem ficavam. Mas Will era um rastreador habilidoso, assim como todos os arqueiros e ele rapidamente descobriu uma direção básica nos movimentos do lobo. Quando ele perdia a trilha, ele podia seguir em uma direção geral enquanto procurava por rastros da passagem do lobo.
— Eu gostaria de não ter que fazer isso — ele disse enquanto descia da sela pela décima vez para estudar o solo adiante.
Pouco tempo atrás, o lobo desviou por uma formação rochosa para a direita. Will continuou seguindo na direção original, com um pequeno desvio para a direita. Halt iria levantar a sobrancelha por ele pegar um atalho e confiar na sorte de cruzar com o lobo na trilha de novo. O normal seria seguir em frente devagar, avançando em um arco crescente enquanto o rastreador avistava sinais da pista do lobo de novo. Mas agora Will tinha certeza da direção que o lobo estava seguindo e ele pensou que poderia ter uma chance.
— Provavelmente ele tem uma toca em algum lugar por aqui — ele comentou.
O cavalo não disse nada. Puxão sabia que ele estava pegando um atalho e queria que Will soubesse que ele pensava.
— Você é tão ruim quanto Halt — disse Will, então emitiu um som baixo de triunfo quando reencontrou os sinais de pegadas na areia a frente deles. Então outro.
— Eu te disse.
Puxão continuou em silêncio. Alguns metros adiante, viram um tufo de pelo preto preso numa videira espinhosa e Will sabia que estava no caminho certo mais uma vez.
De fato, o lobo tinha uma toca na área. Ficava numa pequena colina rochosa que comandava a visão da paisagem em volta. Uma plataforma de pedra se projetava a partir de seus vizinhos e fornecia uma proteção para o buraco que o lobo tomou como sua base. Ele havia retornado no dia anterior e passado a noite. Então, no inicio da manhã, seu estômago roncou com fome, e ele saiu para vasculhar a área procurando por comida.
Não demorou muito antes de ele ficar consciente da presença de dois desconhecidos, na verdade. Ele sentiu um perigo e o instinto dizia a ele para não deixar descobrirem sua casa.
Se movendo com cuidado apesar de manco, ele se balançou num arco que o levou para o lado e atrás das duas criaturas. Ele notou a direção deles e confirmou que eles estavam indo em direção a sua casa. Ele refez seus passos.
Havia um bosque profundo adiante que poderia prover cobertura para ele. Ele poderia armar uma emboscada lá.
O lobo se moveu pelo bosque, a barriga encolhida próxima ao chão e se contorceu para frente enquanto podia ver a trilha por onde as duas criaturas viriam. O vento estava contra eles e logo o animal pegou seus cheiros. Era um que ele só havia experimentado recentemente, o cheiro de humanos.
Satisfeito que eles não o sentiriam, ele ficou imóvel, seus olhos âmbares não piscavam. Por um momento, seus olhos se estreitaram. Ele podia sentir dois cheiros diferentes, mas só podia ver um intruso. Era grande e andava sobre quatro patas. Ele tinha visto uma pequena criatura junto dele mais cedo, quando pegou sinais deles à distância. Ele podia farejar a segunda presença, mas não podia vê-lo.
A criatura de quatro pernas parou e o lobo emitiu um quase imperceptível grunhido de surpresa quando percebeu que a pequena criatura estava cavalgando em cima da maior.
Conforme ele observava, o homem se soltou e desceu, avançou alguns passos e inclinou-se estudando o chão. O animal maior o seguiu, ficando alguns passos atrás.
O animal maior representava mais perigo, o lobo decidiu. Ele se abaixou ainda mais perto do chão, escondido pelos arbustos e as sombras abaixo deles, conforme as duas criaturas se aproximavam de seu esconderijo.
O menor estava fazendo barulhos agora. Uma coisa estranha para fazer quando se está seguindo um inimigo perigoso, o lobo pensou. E definitivamente eles eram seus inimigos e decididamente perigosos.
— Aqui vamos nós de novo, Puxão — Will disse, traçando a impressão de uma pata canina na sujeira. — Continua seguindo para noroeste.
Puxão emitiu um ronco baixo. Ele levantou a cabeça e cheirou o ar, tentando discernir alguns dos cheiros que poderiam explicar o esmagador senso de perigo que estava sentindo. Ele não gostava da situação. Ele não gostava quando Will seguia na frente a pé quando talvez houvesse perigo presente. Ele nunca gostou disso. Puxão queria Will seguro na sua sela, onde a velocidade e agilidade de Puxão poderiam protegê-lo de um ataque surpresa.
— Largue esse ar de preocupação — Will disse para ele.
Ele ouviu os sons de Puxão e sabia exatamente o que seu cavalo estava pensando.
— Apenas se acalme. Eu estou seguro o suficiente. Essa trilha é de meio dia atrás. O lobo está longe de nós.
A trilha era antiga. Mas Will não tinha como saber que o lobo tinha saído de sua toca de novo, havia descoberto a dupla se aproximando e agora tinha a intenção de proteger seu território.
Os músculos tensos do lobo tremiam de expectativa, então ele se acalmou e ficou imóvel novamente. Seus olhos não piscavam, presos nas duas figuras. O animal menor estava quase ao lado dele agora. Ele sabia que se o atacasse, o maior poderia correr para defendê-lo. Melhor tomar conta do grande primeiro.
A figura abaixada se moveu passando pelo esconderijo e seu grande companheiro de pernas longas avançou junto, até que ele estava quase em frente ao local em que o lobo estava escondido.
Apesar de tentar controlar, outro tremor de expectativa percorreu o corpo do lobo.
Puxão olhou pra cima de repente. Ele ouviu alguma coisa. Ou sentiu alguma coisa. Ele não tinha certeza. Mas tinha alguma coisa perto. Algo ruim. Ele roncou um aviso de novo.
Will olhou para ele e sorriu.
— O que é agora? — ele perguntou. — Não pode ser o nosso amigo lobo. Ele definitivamente está adiante daqui.
Ele apontou na direção em que o lobo tinha seguido e seguiu em frente.
Orelhas em pé e sentidos gritando um aviso, Puxão o seguiu, pisando nervosamente.
Uma gralha azul disparou de um arbusto baixo próximo com um bater de asas. Will e Puxão se mexeram nervosamente. Então Will riu de seu velho companheiro.
— Feliz agora? Não era nada além de uma grande gralha azul do mal — ele disse.
Puxão balançou sua crina nervosamente. Ele tinha certeza de que havia algo...
O lobo atacou. Puxão estava ciente de repente, de um violento movimento atrás de uma moita de onde ele estava. Ele girou em seus cascos traseiros para enfrentar o perigo.
Mas o lobo, agora livre dos arbustos, estava prontamente saltando em sua garganta, com os dentes arreganhados.
Percebendo o perigo, Puxão reverteu seu giro desajeitadamente, afastando-se dos dentes cortantes. O lobo acertou seu lado direito, surpreendendo-o por um segundo e Puxão sentiu os dentes rasgando abaixo do ombro, entrando profundamente em seus músculos e mandando uma cascata de sangue quente descendo por sua pata dianteira. O lobo pendurou-se, seus dentes rasgando e dilacerando mais e mais profundamente os músculos conforme ele sacudia sua cabeça selvagemente.
Puxão relinchou. Quando seus cascos dianteiros voltaram para a terra, ele tentou levantar seus cascos traseiros para chutar o atacante. Mas sua pata dianteira direita estava muito ferida, músculos e tendões torcidos e dilacerados e ele falhou.
Ele cambaleou para longe, tropeçando como se recusasse o seu peso. Finalmente o lobo soltou a pressão terrível de suas presas. Ele atingiu o chão, rolou e então se abaixou diante de Puxão, dentes a mostra para outro ataque.
A flecha de Will acertou em sua lateral, com toda a força de seu arco de trinta quilos de tração, de uma distância menor que 4 metros. A flecha rasgou o corpo do lobo, dilacerando órgãos, rompendo rios de sangue e destruindo seu coração no caminho, matando a besta instantaneamente. Ele caiu no chão, olhos vidrados e sem vida, com nove centímetros da flecha saindo de seu lado mais distante.
— Puxão! — o choro de Will foi quase um grito.
Primeiro, ele pensou que Puxão tinha escapado do ataque do lobo. Agora ele podia ver a carne rasgada no ombro de seu cavalo, o reluzente branco dos ossos e tendões expostos, o sangue brilhante fluindo da pata dianteira direita de Puxão.
Will jogou o arco de lado e correu para seu cavalo, lágrimas se formando em seus olhos e correndo pelas suas bochechas. Ele jogou seu braço direito sobre o pescoço de Puxão e com a mão esquerda tocou a terrível ferida. Puxão equilibrava-se em três patas, não colocando nenhum peso no membro ferido.
Ele relinchou de surpresa quando o choque foi passando e ele sentiu o primeiro latejar de dor na ferida.
— Oh Deus, Puxão! Oh Deus!
Will ficou momentaneamente impotente diante da visão de seu cavalo ferido. Em todos seus anos juntos, ele nunca tinha visto Puxão tão ferido.
Agora, frente a esse terrível talho pulsando em vermelho, sua mente congelou, recusando-se a pensar no que fazer em seguida. Então o seu treinamento se reafirmou. Ele tinha um estojo médico em seu alforje. Abandonou seu abraço do pescoço de Puxão, batendo gentilmente várias vezes, e então alcançou o alforje.
— Firme garoto. Firme. Fique calmo. Você vai ficar bem.
Will abriu o estojo médico e o estudou por alguns segundos.
Ele precisava de bandagem para estancar o fluxo de sangue e de uma bandagem de maior pressão para segurar no lugar. Ele achou ambos os itens e os deixou prontos. Mas antes de colocar a bandagem, ele tinha que limpar o ferimento. Pegou um pedaço de pano e um pequeno jarro de unguento que ia limpar a ferida e entorpecer a dor.
Ele nunca gostou de lidar com medicamentos, e esse era derivado da erva do calor. O cheiro o lembrava de um episódio desagradável de muitos anos atrás. Mas ele sabia que esse era um tratamento altamente efetivo para qualquer ferida.
Ele também pegou o cantil pendurado na sela e o destampou, derramando uma grande quantidade de água na ferida. O sangue continuou a fluir conforme a água o levava, a cor diluiu para rosa primeiro, então se tornou vermelho vivo de novo. Ele secou a ferida com um pedaço de linho, tentando ser o mais gentil que conseguia, mas também sabia que tinha que usar certa firmeza. Puxão recuou uma vez, então continuou parado.
— Bom garoto. É isso. Você vai ficar bem — Will murmurou.
Seus olhos se estreitaram.
Quando ele limpou o sangue e, momentaneamente, pôde ver quão fundo os dentes do lobo dilaceraram na carne de Puxão. Não era uma ferida superficial, percebeu. Ele talvez pudesse fazer os primeiros socorros, mas Puxão iria precisar de uma ajuda que estava além de suas habilidades.
Ele empurrou os pensamentos negativos de lado, então colocou uma dose do creme analgésico na ferida. De novo, Puxão tremeu um pouco, mas não fez nenhuma reclamação.
Em breve, as propriedades analgésicas do creme iriam ter efeito. Agora ele preparou a bandagem maior em cima da ferida e segurou o fim de do rolo contra a ferida. Ele lançou o rolo sobre o peito de Puxão e inclinou-se para pegar do outro lado, prendendo-o sobre seu corpo. Então repetiu o processo de novo e de novo, enquanto o invólucro de linho segurava a gaze firmemente no lugar. Conforme ele olhava a bandagem, lentamente ela ia ficando vermelho com o sangue que escorria. Mas então a mistura coagulante na pomada teve efeito e o fluxo de sangue diminuiu.
Ele deu alguns passos para trás e analisou seu trabalho. Então seus olhos borraram com lágrimas de novo e ele voltou, abraçando o cavalo – cuidadosamente para evitar a área da ferida –, descansando sua cabeça contra o pelo desgrenhado e áspero.
— Oh Deus, Puxão, fique bom, por favor.
Puxão se deslocou desajeitadamente. A dor em seu ombro direito diminuiu drasticamente com a aplicação da pomada. Mas quando ele tentava colocar peso na pata dianteira direita, ela voltava.
— Eu tenho que te levar até fazenda mais próxima — Will disse, pensando desesperadamente.
Seria uma longa caminhada, com Puxão mancando em três patas, mas Will já havia percebido que precisaria da ajuda de um especialista e ele não podia deixar Puxão sozinho na floresta nessas condições. Ele pegou as rédeas de Puxão e começou a liderar o caminho de volta para a segunda fazenda que ele visitou mais cedo naquele dia. Era o local mais próximo que eles poderiam encontrar e ele lembrou que havia um grande celeiro no qual Puxão poderia descansar enquanto Will ia buscar ajuda.
Com alguma sorte, o fazendeiro talvez tivesse um cavalo que ele poderia pegar emprestado. O pensamento o entristeceu. Muitas vezes durante os anos, ele tinha ido buscar ajuda. Mas sempre fazia isso com Puxão. Agora ele teria que deixar o pequeno cavalo para trás enquanto montava um cavalo estranho para trazer a ajuda especializada que Puxão precisava.
A compreensão só serviu para aumentar seus medos com Puxão mancando atrás dele.

2 comentários:

  1. Chorei mais nesse capítulo do que em muitos oibros de romance.
    Ass: Lua

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)