26 de janeiro de 2017

Capítulo 1

O lobo era um dos grandes.
Era um macho adulto no auge de sua vida e provavelmente era o dominante de sua matilha. Mas alguns meses atrás, foi capturado pela perna dianteira em uma armadilha preparada por caçadores. A mandíbula de aço o prendeu firmemente, de modo que não importava o quanto ele lutasse e torcesse, não podia se libertar. E uma vez que a sua liberdade era questão de vida, ele tomou o único caminho disponível a ele. Roeu o membro quebrado até que cortou a carne e tendões restantes, deixando a pata e metade da perna na armadilha. Então, com um rastro de sangue, ele mancava desajeitadamente para a parte mais escura da floresta, encontrando um lugar seguro embaixo de um grande afloramento de rocha, coberta de arbustos, onde ele poderia esperar se recuperar.
Ou morrer.
Atormentado pela dor e tremendo pelo choque, ele não fazia nenhum barulho. Seu instinto dizia que o barulho de gemido ou de choro seria o som de um animal que estava ferido e vulnerável. Da mesma forma, ele não fez nenhuma tentativa de se juntar a matilha a que tinha pertencido – matilha na qual ele teria se tornado líder nos próximos meses. Ele sabia que a ferida iria fazer com que ele fosse expulso pelos outros.
Lobos normalmente são sociáveis e carinhosos com os membros do bando, mas as leis da sobrevivência do mais apto são duras, e um membro ferido seria um atraso – incapaz de participar na caça, colocando todo o bando em perigo. Ele sabia que seria expulso, ou até mesmo morto pelos outros, se se aproximasse deles.
Então ele estava deitado silenciosamente em seu esconderijo, lambendo constantemente a ferida até o sangramento parar e ele se recuperar. A dor da perna decepada nunca iria deixá-lo, sua antiga velocidade e agilidade o tinham abandonado, e ele encontraria outro perigo em potencial – a fome.
Ele não podia mais caçar como estava acostumado. Havia tentado perseguir um pequeno cervo quando a perna parou de sangrar. Neste momento, seus flancos estavam magros e as costelas visíveis debaixo de sua pelugem grossa. Mas o veado fugiu dele com desprezo aparente, saltando de lado para evitar sua corrida desajeitada, de modo que ele foi se alastrando quando tentou segui-lo. Então a distância foi aumentando. As manchas brancas na cauda ficaram visíveis entre as árvores por alguns minutos antes que fossem perdidos de vista.
Coelhos, que ele costumava caçar com facilidade, estavam além de suas habilidades agora. Sua maneira de caçar não servia mais. Ele ficou esperando para emboscá-los nos lugares que os animais iam para beber. Deitado imóvel por horas, enquanto esperava que eles chegassem perto do alcance do seu bote desajeitado. Às vezes ele era bem sucedido. Mas na maioria das vezes não. E uma vez que ele tinha atacado desse jeito, era forçado a abandonar seu esconderijo e procurar outro.
Virou um andarilho, se movendo de território para território e, na maioria das vezes, forçado a satisfazer sua fome com pequenos animais lentos. Nunca tinha o suficiente para satisfazê-lo e a fome aumentava, então ele quebrou a regra fundamental pela qual sempre viveu e foi até a terra habitada pelo homem.
Agora ele descobriu um novo tipo de presa. Os animais domésticos e os pássaros criados pelos fazendeiros não tinham nenhuma das habilidades de sobrevivência dos animais selvagens. Ele pegava patos, galinhas e carneiros com uma relativa facilidade.
Enquanto recuperava sua força, o lobo se adaptou um pouco à falta da pata dianteira. Ainda era desajeitado e lento se comparado a quando ainda tinha a perna, mas estava mais do que capacitado para capturar as presas fáceis que tinha encontrado.
Ele estava mais encorpado. Seu pelo cresceu grosso e pesado mais uma vez. Mas sem saber, teria um preço a ser pago por essa nova forma de caça.
Eventualmente, ele arriscou sobre o que era certamente a presa mais fácil de todas.
Pequena e desajeitada em seus movimentos, a criança havia achado a porta da fazenda aberta e fugiu para o perigoso mundo do lado de fora. Ela estava sentada, olhando com incerteza ao seu redor, quando o lobo a viu. Devagar, o grande predador se aproximava do pátio da fazenda, dentes à mostra. O bebê o viu e reconheceu o perigo.
Quando um animal, mesmo um tão estúpido como uma galinha, deveria tentar escapar, o pequeno humano simplesmente começou a chorar.
O som era conhecido pelo lobo. Era o som de desespero e vulnerabilidade. Ele rastejou para perto, com a barriga no chão, um rosnado profundo e estrondoso saiu de sua garganta.
Mas outros ouvidos estavam atentos ao choro da criança. A mãe ouviu seu filho e foi procurá-lo. E achou o lobo, enorme, preto e ameaçador, movendo-se em direção a sua vítima.
Ela gritou. O som penetrou nas orelhas do lobo, assustando-o. Ele nunca tinha ouvido esse som antes. Ele misturava raiva, medo e desafio em uma nota complexa. Ele olhou para sua presa e viu uma figura correndo até ela – uma figura que corria sobre duas pernas e parecia muito mais alta e maior do que a outra. Na cabeça do lobo, criaturas dominantes corriam em confronto. Vítimas corriam para fugir. Agora um novo e desconhecido animal estava correndo em sua direção, pronto para atacar e ele hesitou.
A mulher não tinha nenhuma arma. Mas quando viu a porta aberta e ouviu o bebê chorando, estava colocando uma frigideira grande de ferro sobre a grelha de seu forno. Enquanto ela saía correndo para o quintal da fazenda, ainda carregava a frigideira em sua mão. Sem estar consciente disso, ela a jogou no vulto preto que estava perseguindo seu filho.
A panela rodou pelo ar, acertou o lobo no lado esquerdo do seu quadril e caiu com um ruído surdo no chão duro. O lobo uivou brevemente de dor, virou e correu, mancando, de volta para a floresta que contornava a fazenda.
A mulher pegou sua criança chorando enquanto seu marido veio correndo do campo que arava. Ele tinha ouvido seu grito e temeu o pior. Alívio o preencheu ao saber que seu filho e sua esposa estavam bem.
Ela olhou enquanto o marido saltou do muro para o quintal e correu para ela, reunindo os dois sob seus braços.
— Um lobo. Um enorme. Quase pegou o Tom.
Ela foi atormentada com os pensamentos sobre o que poderia ter acontecido e colocou o rosto contra o peito do marido. Ele balançou a cabeça, pensativo, segurando-a, passando para ela todo conforto possível.
Alguma coisa estava pegando seus animais nos últimos dias. Agora ele sabia o que deveria ser. Uma raposa ou uma doninha ele poderia controlar. Até mesmo um lince. Mas um lobo era outra história. E se esse estava atacando humanos, deveria ser um renegado.
— Vou chamar um arqueiro — ele disse.


Will gostava de lobos de um modo geral. Eles eram corajosos e leais à matilha e normalmente não causavam problemas para humanos. Mas se, como o fazendeiro presumiu, esse fosse um renegado, deveria ser tratado como um.
Por acaso, Will, em uma de suas patrulhas regulares, estava a menos de uma hora de distância da fazenda dos Complepes. O fazendeiro o achou próximo a um vilarejo e o levou para estudar a cena do ataque.
Will examinou as marcas na fazenda.
Elas estavam relativamente frescas e fáceis de seguir. Ele franziu a testa enquanto percebia uma irregularidade nelas.
— Você disse que ele correu desajeitadamente? — ele perguntou a mulher.
Ela deu de ombros.
— Eu estava mais concentrada em olhar o Tom, mas sim, ele parecia um pouco torto.
Will coçou o queixo quando olhou para as pegadas mais uma vez, desenhando ociosamente com uma vara que tinha pego.
— Nunca vi lobos aqui em vinte anos ou mais — o fazendeiro disse — normalmente eles mantém distância.
— Bem, essa pode ser a razão pela qual ele veio pra cá — Will respondeu, tocando a vara em uma das marcas mais fracas. — Ele parece estar aleijado. Ele perdeu uma perna — ele olhou para a mulher novamente — o que ele estava fazendo quando você o viu pela primeira vez?
— Ele estava rastejando e rosnando — a mulher respondeu, seus olhos se arregalando ao lembrar o horror do momento — ele jogou a cabeça pra trás e uivou. Seus dentes eram brancos e espumava pela boca. Ele veio até o Tom como um relâmpago...
Will a interrompeu com uma mão levantada.
— Mas você não disse que ele estava mancando?
Ela hesitou, parecia confusa.
— Bem, talvez ele estivesse... mas ele estava mancando rápido. Muito rápido. E rosnando, uivando e rasgando o chão com suas garras.
— Hmm.
Will a considerou atenciosamente. Ele não acreditava que a mulher estivesse conscientemente mentindo para ele, mas não estava convencido de que sua história fosse precisa. Ele sabia que o instinto protetor de mãe teria sido despertado no momento em que viu a ameaça para seu filho. E seu instinto teria aumentado a ameaça umas dez vezes. O lobo poderia estar deitado no chão, abanando o rabo e pedindo carinho na barriga que ela o teria visto rosnando e babando.
A mulher percebeu sua dúvida.
— Estou te contando a verdade, arqueiro.
Seu marido ficou ao seu lado.
— Minha Agnes não mente. Ela é uma mulher honesta — ele disse robustamente.
Will acenou com a cabeça educadamente.
— Eu tenho certeza disso. Me desculpe se eu a ofendi, senhora Complepe — ele respondeu. — Eu certamente não quis fazer nenhum insulto.
Ela acenou com a cabeça, parecendo amolecida por seu pedido de desculpas. Simples fazendeiros nunca esperariam pedidos de desculpa de figuras importantes como arqueiros.
— Nenhuma ofensa foi feita, eu tenho certeza — ela falou, ensaiando uma reverência em sua direção.
Ele olhou para onde o sol estava se pondo ao redor da fazenda.
— Bem, não tem muita coisa que posso fazer essa noite. Vou achar um lugar para acampar e começo a rastreá-lo amanhã de manhã.
Ele se moveu em direção a Puxão.
Agnes Complepe colocou as mãos no rosto com preocupação.
— Você não vai se arriscar ao acampar aí fora com esse lobo à solta?
Will sorriu para ela.
— Tenho certeza de que estarei suficientemente seguro. Meu feroz cavalo irá cuidar de mim — ele disse.
Se a história da mulher fosse mesmo exata, havia uma grande diferença entre o lobo atacar um bebê indefeso e um arqueiro armado.
— Você é bem vindo para passar a noite conosco, arqueiro — o marido disse.
Ele indicou a pequena fazenda. Will hesitou. Com três adultos e um bebê, poderia ficar lotado lá. E ele suspeitou que os Complepes provavelmente iriam preparar um dos mais caros animais que tinham como refeição. Ficaria apertado e abafado e ele preferia passar uma noite no aberto, com Puxão de companhia.
Agnes sentiu sua relutância.
— Pelo menos nós podemos te dar uma refeição. Eu tenho um ensopado de cordeiro fervendo no fogo. E pão fresco.
— Minha Agnes é a melhor cozinheira da região — o fazendeiro gabou-se.
Will sorriu e a expressão mudou seu rosto.
— Bem, essa é uma oferta que eu estou tentado a aceitar. Eu não posso recusar um ensopado de cordeiro da melhor cozinheira da região.
Puxão sacudiu a cabeça.
Você nunca recusa um ensopado de cordeiro de ninguém.

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