29 de dezembro de 2016

Capítulo 9

Tennyson, o autoproclamado profeta do deus Alseiass, fez uma carranca para o prato que foi colocado em sua frente. O conteúdo era escasso – um pequeno pedaço de carne salgada e fibrosa, algumas cenouras e nabos murchos, que não ajudavam em nada para melhorar o seu humor.
Tennyson era um homem que gostava de conforto. Mas agora estava desconfortável e com frio. E o pior de tudo, com fome. Ele pensou amargamente no contrabandista hiberniano que tinha deixado ele e o seu grupo em terra, na selvagem costa oeste de Picta. Ele cobrou uma taxa exorbitante dos estranhos, e depois de uma feroz barganha, concordou de má vontade em fornecer provisões para a viagem ao sul por terra. Quando chegou o momento de eles desembarcarem, foram praticamente enxotados para fora do navio como um lastro indesejado, e depois jogaram à praia meia dúzia de sacos.
Quando Tennyson descobriu que pelo menos um terço da comida dos sacos estava estragada, o navio de contrabando já estava longe da costa, balançando sobre as ondas como uma gaivota. Ele se enfurecera impotente na praia, imaginando o contrabandista rindo enquanto contava as moedas de ouro que tinha extorquido deles.
No começo, Tennyson ficou tentado a reivindicar a maior parte dos alimentos para si, mas a cautela prevaleceu. Seu domínio sobre seus seguidores era tênue. Nenhum deles era crente em Alseiass. Formavam o núcleo sólido de seu grupo, seus colegas criminosos que sabiam que o culto dos forasteiros não era nada mais do que uma oportunidade para extorquir dinheiro do povo simples. Eles viam Tennyson como seu líder só porque ele era hábil em convencer os ingênuos agricultores e moradores a partilhar seu dinheiro. Mas no momento, não havia fazendeiros ou moradores nas proximidades e eles não sentiam nenhuma deferência para o homem de cabelos brancos volumosos vestido com manto branco esvoaçante. Ele poderia ser seu líder, mas agora não estava dando nenhum lucro para eles para que deixassem ficar com a melhor parte dos alimentos.
A verdade era que Tennyson precisava deles tanto quanto eles precisavam de Tennyson. As coisas eram diferentes quando estavam cercados por centenas de convertidos, ansiosos para agradar todos os caprichos de Tennyson. Quando isso acontecia, todos viviam muito bem e ele melhor ainda. Mas agora? Agora ele teria de compartilhar.
Ele ouviu passos se aproximando e olhou para cima ainda com uma expressão azeda em seu rosto. Bacari, o mais velho dos dois assassinos genoveses, parou a poucos passos de distância. Ele sorriu sarcasticamente ao olhar para a bandeja de comida sobre o joelho de Tennyson.
— Não é exatamente um banquete, Vossaa Santidade.
A testa Tennyson escureceu de raiva. Ele precisava dos genoveses, mas não gostava deles. Eram arrogantes e autoconfiantes. Quando ele lhes ordenava uma tarefa, faziam com um ar de relutância, como se estivessem fazendo um favor. Ele lhes pagava bem para protegê-lo e esperava que pudessem lhe mostrar uma pequena deferência. Mas isso era um conceito que eles pareciam desconhecer.
— Você encontrou alguma coisa? — ele perguntou.
O assassino deu de ombros.
— Há uma pequena fazenda a cerca de três quilômetros de distância. Há animais lá, pelo menos vamos ter carne.
Tennyson tinha enviado os dois genoveses para explorar a área circundante. A pouca comida que restava era quase intragável e eles estavam indo para encontrar mais. Agora, com a menção de carne fresca, seu ânimo melhorou.
— Legumes? Farinha? Grãos? — ele perguntou.
Bacari encolheu os ombros novamente. Foi um movimento desdenhoso, Tennyson pensou. Transmitia o desprezo pela pessoa que o estava abordando.
— Possivelmente — disse Bacari. — Parece um pequeno lugar próspero.
Os olhos de Tennyson se estreitaram. Próspero podia significar também que era bem povoado.
— Quantas pessoas?
Bacari fez um gesto de desprezo.
— O tanto que pude ver, apenas duas — disse. — Podemos lidar com eles facilmente.
— Excelente!
Tennyson levantou-se com entusiasmo renovado. Ele olhou para o conteúdo de mau gosto do prato e atirou-os para junto de um arbusto.
— Rolf! — ele gritou para seu capanga-chefe. — Prepare todos para continuar! Os genoveses encontraram comida.
O bando começou a se preparar para sair. A menção de comida tinha animado todos eles. Os olhares mal-humorados e resmungos irritados haviam se tornado rotina nos últimos dias. “Incrível o que a perspectiva de uma barriga cheia faz pelo espírito das pessoas”, Tennyson pensou.
Era uma casa de palha bem cuidada, com um celeiro ao lado. A fumaça subia numa onda preguiçosa pela chaminé. Um campo cultivado se apresentava com pontas verdes das hortaliças – couve ou repolho, Tennyson supôs. Quando eles se aproximaram, um homem estava saindo do celeiro, puxando uma vaca preta atrás dele em uma corda.
Estava vestido com o traje típico da região – uma manta longa cobrindo a parte superior do seu corpo e um saiote pesado enrolado em volta de sua cintura. Ele não os notou no início, mas quando o fez, parou de caminhar. A vaca deixou cair a cabeça para pastar o capim alto.
Tennyson levantou a mão em sinal de paz e continuou em direção ao agricultor scotti. Rolf e seus outros seguidores se espalharam em uma linha de cada lado dele. Bacari e Marisi, que era o segundo genovês, ficaram perto também, um passo atrás dele. Ambos tinham suas bestas armadas, segurando-as discretamente ao lado de seus corpos.
O agricultor virou-se e gritou de volta para a casa. Poucos segundos depois, uma mulher apareceu na porta e moveu-se para se juntar ao marido, mostrando estar pronta para defender sua casa contra esses estranhos.
— Nós viemos em paz — Tennyson gritou. — Não queremos nenhum mal.
O fazendeiro respondeu em sua língua nativa. Tennyson não tinha ideia do que as palavras queriam dizer, mas o significado era claro – fique longe. O homem se inclinou e tirou algo da calça, de dentro de uma capa de couro, presa à sua perna direita. Ele endireitou-se e puderam ver uma longa adaga de lâmina negra em sua mão. Tennyson sorriu tranquilamente e continuou a avançando.
— Nós precisamos de comida — disse ele. — Pagaremos bem.
Ele não tinha intenção de pagar e, não tinha ideia se o agricultor poderia compreender a língua comum que ele falava. Provavelmente não, estavam longe da civilização. O importante era manter o tom calmo e apaziguador.
Mas o agricultor não estava convencido. Ele virou-se e empurrou a vaca violentamente, tentando enviá-la de volta para o celeiro. O animal negro levantou a cabeça em alarme e começou a se virar pesadamente.
— Mate-o — Tennyson disse calmamente.
Quase imediatamente, ele ouviu o whizzz das duas bestas e duas setas riscaram o campo, enterrando-se nas costas do homem. Ele ergueu as mãos, deu um grito sufocado e caiu de bruços na grama. Sua esposa deu um grito e caiu de joelhos ao lado dele, chamando-o e tentando acordá-lo. Mas Tennyson sabia que do modo como o homem tinha caído, estava morto quando bateu no chão. Demorou um minuto ou mais para a mulher chegar à mesma conclusão. Quando fez, ela levantou, gritou o que era obviamente uma maldição para eles e virou-se para correr. Ela tinha dado três passos quando Bacari, que já havia recarregado, disparou novamente e ela se esparramou no chão com o rosto para baixo, a poucos metros de seu marido.
A vaca, nervosa com os gritos e o cheiro metálico de sangue, ficou indecisa, balançando a cabeça, oferecendo uma ameaça indiferente à aproximação dos estranhos.
Nolan, um homem corpulento do círculo íntimo de Tennyson, moveu-se para frente e agarrou a cabeça da vaca, trazendo-a sob controle. A vaca olhou com curiosidade. Depois Nolan cortou sua garganta com uma faca. O sangue jorrou para fora e a vaca cambaleou alguns passos antes de suas pernas cederam e ela cair na grama.
Os forasteiros formaram um circulo ao redor do animal que se debatia, considerando tudo com satisfação. Haveria bastante carne para mantê-los alimentados por algum tempo.
— Limpe e empacote — Tennyson disse a Nolan.
Antes de ingressar no bando de Tennyson, o grande homem tinha trabalhado como açougueiro. Ele balançou a cabeça satisfeito.
— Dê-me uma mão — ele ordenou a três dos homens ao seu redor. Ele precisaria deles para manter a carcaça estável enquanto esfolava e cortava.
Tennyson o deixou com a tarefa e entrou na fazenda. A porta era baixa e ele teve que se abaixar para entrar. Uma rápida pesquisa pelo local revelou algumas batatas, nabos e cebolas. Seus homens reuniam-se e ele enviou dois deles para pegar alguns dos repolhos que estavam crescendo na área cultivada. Olhou ao redor da casa bem cuidada. Estava tentado a passar a noite aqui, sob um telhado para variar. Mas não tinha ideia se o agricultor poderia ter amigos que morassem nas proximidades. Seria mais seguro recolher os alimentos e seguir em frente.
Outro de seus seguidores o encontrou quando saia da casa.
— Há mais dois animais no celeiro — disse ele. ―Vamos precisar?
Tennyson hesitou. Eles tinham muita carne agora, assim como as batatas e as cebolas da casa. Se fossem levar mais alguma coisa, iria apenas atrasá-los. Ele olhou mais longe, para Nolan, que estava trabalhando na carcaça. Ele havia retirado a longa pele e colocado sobre a grama. Eviscerou e limpou o corpo, estava cortando a carne em pedaços, empilhando sobre a pele sangrenta.
― Não — disse ele. ― Queime o celeiro quando formos sair. E a casa também.
Não havia nenhuma razão para queimá-la, pensou ele. Mas tampouco não havia razão para que não o fizesse. E o ato de destruição gratuita iria restaurar seu humor depois dessa longa caminhada.
O forasteiro assentiu. Em seguida, hesitou, não sabendo se havia entendido muito bem as ordens de Tennyson.
— E as vacas? — ele perguntou.
Tennyson encolheu os ombros. Se ele não pudesse utilizá-las, não via qualquer sentido em deixá-las para mais ninguém.
― Queime-as também.

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