9 de dezembro de 2016

Capítulo 9

— O interior é decorado por mais de mil e oitocentos apsaras – ninfas celestes — anunciou o guia de turismo. — Segundo o mito, elas nasceram a partir da Agitação do Oceano de Leite.
A maioria dos londrinos acreditava que sua cidade era a maior capital cultural do mundo. Mas mesmo Ian teve que admitir que não havia nada em Londres do tamanho e da escala de Angkor Wat. Quem construiu uma sala grande o suficiente para mil e oitocentas estátuas em baixo-relevo? É verdade que as obras originais de Rodin no jardim de esculturas da mansão Kabra eram quase tão boas – se não tão numerosas. Eram, é claro, falhas de Rodin, não de Vikram Kabra. Se Rodin tivesse criado mil e oitocentos estátuas, Ian tinha certeza de que seu pai não teria poupado nenhuma despesa em coletá-las.
Pensar em Vikram Kabra trouxe uma pontada de saudade. Pai, vivendo em algum lugar afastado na América do Sul; mãe e Natalie se foram. Quando Ian conheceu Amy e Dan, ele os chamou de órfãos patéticos. A memória da piada cruel tornou seu rosto quente de vergonha.
Ele voltou sua atenção para a magnificência em torno dele. O Rei Suryavarman II, que construiu este lugar no início do século XII, deve ter sido um tipo de indivíduo “quanto maior melhor”. E se seu objetivo tinha sido impressionar as pessoas, ele conseguiu além de seus sonhos mais selvagens. Tanto faz, Ian pensou, aborrecido. Era quase impossível obter um sinal de Wi-Fi estável neste complexo de pedra maciça. O guia já odiava Ian por manter um olho no laptop de Pony. Ele até tinha dito, “Sua atenção, por favor!” uma par de vezes.
Como se eu estivesse jogando videogame, e não tentando salvar o mundo, Ian pensou ressentido.
E agora que a Internet deixava de funcionar a cada poucos minutos, ele tinha que dedicar ainda mais da sua concentração para o computador.
O guia foi esquecendo seu discurso, e os outros turistas culparam Ian.
Uma cena feia em Angkor Wat, certamente, não ajudaria os esforços dos Cahill em manterem-se escondidos das vistas.
Mas como ele poderia ignorar o que estava vendo na tela? De acordo com o programa de monitoramento, o ponto vermelho pulsante estava muito perto. Em cima dele, praticamente – dentro do fosso de Angkor Wat!
Eu tenho que ir mais para cima, ele decidiu. E saiu.
Para imenso alívio do guia, Ian deslizou para longe do grupo em busca de uma escada. Nos tempos antigos, somente o rei e o sumo sacerdote tinham permissão para acessar o nível superior, mas Wi-Fi não tinha sido uma preocupação naqueles dias. Esta era uma necessidade.
A subida não foi fácil – quarenta degraus construídos em um ângulos agudos. No ápice, ele encontrou-se sem fôlego, e um pouco tonto. As cinco torres de lótus imensas assomavam ao longo de toda a estrutura a partir desse nível, bloqueando o sol. Mas a recepção era perfeita.
O sinal luminoso pulsava clara e verdadeiramente, direto abaixo dele. Ele correu para a galeria exterior e olhou para o lado. A vista era espetacular – a calçada oeste cruzando o fosso, a paisagem circundante, pontilhado com reluzentes reservatórios e templos menores. Ian mal olhou para isso. Na base da estrutura muito abaixo estava sentada uma menina loira, seus dedos dançando no teclado de um laptop que estava sobre em um parapeito de pedra em frente a ela. Ela olhou para cima por um momento, e mesmo a esta distância, Ian foi tomado pela sensação de que deveria reconhecê-la...
Na tranquilidade calma do andar mais alto de Angkor Wat, o sinal sonoro do computador de Pony poderia muito bem ter sido uma bomba explodindo. Assustado, Ian olhou para a tela. Um zangado pop-up declarava: ACESSO EXTERNO NEGADO. Outro sinal sonoro: ACESSO EXTERNO NEGADO. O que estava acontecendo? Ian moveu sua dedo sobre o mousepad, mas o computador estava bloqueado, preso em um loop infinito de sons e mensagens de aviso. Isso continuou até que a máquina emitiu um som mais suave, mais de boas-vindas, e uma nova mensagem apareceu: ACESSO CONCEDIDO.
O monitor congelado voltou à vida.
Ian assistiu com horror enquanto colunas de documentos começarem a desaparecer. Alguém estava limpando o disco rígido de Pony!
O maior hacker do mundo tinha sido hackeado!
A menina loura familiar digitava em seu teclado. Não poderia ser uma coincidência – ela estava fazendo aquilo!
De acordo com Pony, havia apenas uma pessoa cujas habilidades rivalizavam com sua própria – a hacker de Pierce, April May.
Ian olhou para ela. Poderia ser aquela menina a cruel e misteriosa April May? Uma adolescente? Um hacker poderia ser qualquer um, em qualquer lugar – uma bisavó de noventa anos de idade em Vladivostok, um descontente encrenqueiro em uma plataforma de petróleo no Mar do Norte, até mesmo um astronauta a bordo do Internacional Estação Espacial.
No entanto, quanto mais Ian refletia sobre isso, mais fazia sentido April May ser uma criança. O próprio Pony não era muito mais velho do que esta menina. Afinal, hackear era uma atividade dos jovens. A maioria dos adultos tinha problemas demais com a tecnologia.
Ele se lembrou do alerta inicial que o programa de rastreamento do computador captara: Código A. Tinha que ser! Pony estivera rastreando o seu maior rival, que trabalhava para Pierce! E isso também explicava por que April May tinha abandonado seu local remoto seguro para viajar para o Camboja. Ela tinha descoberto que suas defesas foram penetradas e fora em busca do computador que tinha feito o trabalho.
Nada disso ajudará a salvar o computador de Pony, Ian pensou em pânico, observando os arquivos preciosos sumirem da existência como brasas brilhantes ao vento.
Ele colocou o laptop debaixo do braço e correu para as escadas, evitando os degraus suspeitos para evitar cair e chegando com um mergulho de cisne no chão de pedra abaixo. No segundo andar, tornou a ficar rodeado pelo seu antigo grupo de turismo, e teve que acompanhá-los até o próximo conjunto de degraus.
— Vocês americanos e seus brinquedos eletrônicos! — o guia murmurou, baixinho.
Tal era a pressa de Ian para alcançar o hacker que ele não se atreveu a gastar os segundos extras necessários para apontar que ele era, na verdade, britânico. Ele desceu a escadaria até o nível do solo, temendo que ela tivesse ido embora. Mas lá estava ela, ainda em seu teclado, parecendo relaxada e confortável, como se não tivesse acabado de fazer picadinho do único hacker que alguma vez foi capaz de enfrentá-la.
Ian parou, espantado. Não era de admirar que ela parecesse familiar. Ele a conhecia. Eles se conheceram há apenas duas semanas na Irlanda. Ela era ruiva então, mas não havia dúvida quanto a seu rosto em forma de coração e olhos luminosos. Ela o havia enganado daquela vez – enganado totalmente teria sido a melhor maneira de descrever. Ele apertou sua mandíbula. Isso não aconteceria novamente.
— April May! — ele chamou em tom de acusação.
— Ian Kabra — ela reconheceu. Não havia nenhum sinal de seu sotaque irlandês. O sotaque era americano. — Nós nos encontramos, novamente. Você é meio que bonito quando está com raiva.
— Então eu devo ser um desses gatinhos no YouTube que vocês, americanos, gostam tanto de viralizar! O que está fazendo com o meu computador? E por quê? 
— Eu não gosto de pessoas me rastreando.
— Se você é April May, sabe perfeitamente bem que não fui eu. Foi Pony. E ele não vai rastreá-la mais porque está morto. Caiu de um helicóptero. Por causa das pessoas para quem você trabalha. Você deve estar orgulhosa.
Ian esperava que ela risse na cara dele. Ou pelo menos revirasse os olhos. Assim, ele ficou surpreso quando ela se encolheu e desviou o olhar.
— Eu não trabalho para eles. Eu sou eles.
— Se você acha que pode me enganar de novo...
Ela pareceu genuinamente incrédula.
— Você Não me reconhece?
Sua reação inicial – como seria a qualquer Lucian – foi suspeita. Mas uma inspeção mais próxima provocou uma revelação surpreendente. O cabelo loiro, as feições, a vitalidade palpável. Ela era uma Pierce!
Como ele poderia não ter percebido? J. Rutherford Pierce era mais famoso do que Jonah Wizard atualmente. 
— Cara Pierce? — ele soltou.
Ela assentiu com a cabeça.
A cabeça de Ian girava.
— Mas por que a identidade secreta? Nós todos sabemos dos trabalhos de April May para Pierce. Por que manter um mistério se você é a própria filha dele?
— Você não entende — ela balançou a cabeça. — Eu não estou escondendo a verdade de vocês; estou escondendo dele. Ele não tem ideia do que sou April May!
Ian ficou boquiaberto.
— Por que você esconde isso do seu próprio pai?
Ela olhou para ele por um longo momento. Quando falou, finalmente, houve uma ponta afiada em sua voz.
— Você não faz ideia do que é não poder confiar em seu próprio pai.
Ele estava tão assustado que recuou meio passo. A verdade era que Ian sabia exatamente como era. Ele quase disse, mas este não era o momento e o lugar. Aquelas eram memórias que ele empurrava bem fundo na mente, mas que ainda o mantinham acordado durante a noite. O pai de Ian tinha literalmente fugido da prisão em uma tentativa de escapar da desgraça do legado de sua esposa. A irmã de Ian, Natalie, não tivera tanta sorte. Ela tinha morrido tentando parar a sua mãe.
— Ainda assim — Ian falou em voz alta — há uma grande diferença entre não confiar em seu pai e enganá-lo ativamente. — Crescendo como herdeiro da liderança Lucian, Ian fora ensinado que a mentira era inútil na ausência de uma estratégia subjacente. — Qual a sua justificativa?
— Bem, em primeiro lugar, o dinheiro é bom — ela respondeu. — Um cowboy alta qualidade não tem preço.
— Cowboy — Ian ecoou palidamente.
Pony usava essa palavra para se referir a si mesmo.
— Mas, para ser totalmente honesta — ela olhou furtivamente ao redor — eu tenho medo dele. Ele tem planos... planos terríveis...
— Que planos?
Ela piscou, fechando os olhos um instante mais do que o necessário.
— Tudo o que posso dizer é que a presidência é apenas o começo. Como sua filha, eu nunca seria capaz de detê-lo. Como sua hacker, por outro lado...
— Isso ainda não lhe daria o poder para pará-lo — Ian insistiu.
— Não — ela concordou com tristeza. — Mas pelo menos agora eu posso manter um olho em suas atividades.
Ian estava cético.
— E você espera que eu acredite em tudo isso.
— Eu posso ajudá-los a encontrar o antídoto — ela aventurou-se de repente.
— Por que você nos ajudaria?
— Por mais que odeie o que meu pai está tentando fazer, eu ainda o amo. O soro o está matando. Está, provavelmente, me matando também. Ele tenta esconder seus tremores, mas nós todos sabemos que eles estão cada vez piores.
Ian conhecia os efeitos debilitantes do soro assim como ninguém. Ele não tinha que olhar muito longe, não muito além da morte horrível de sua própria mãe e a condição degradável de Amy para ver a criação de Gideon em ação. Ainda assim, ele não tinha uma reação que pudesse revelar a Cara que ela estava começando a fazer sentido para ele. Não era o jeito dos Lucian.
Aparentemente, ela interpretou seu silêncio como ceticismo.
— Você acha que é fácil encontrar as pessoas que meu pai considera como inimigas? Eu não quero dizer apunhalá-lo pelas costas, mas estou desesperada!
— Você está apunhalando-o pelas costas — Ian apontou. — Pelo menos, ele verá dessa maneira.
— Eu não me importo — ela devolveu bravamente. — Não se for a única maneira de salvar a vida dele – e talvez de um monte de outras vidas também. Eu preciso de vocês! Podemos acabar com isso, mas temos que trabalhar juntos.
A mente de Ian estava a mil, pesando os prós e contras. Atraente como ela era, esta menina era uma Pierce e, portanto, não merecia tanto crédito.
Ela era uma hacker notória que já os tinha enganado na Irlanda e a menos de cinco minutos havia atacado seu computador.
Por outro lado, Dan estava absolutamente convencido de que Cara o tinha ajudado a escapar do avião de Pierce no Atol de Midway. Isso pareceu reforçar uma observação que Pony fizera – que as ações da April May não foram sempre cem por cento a favor dos objetivos do chefe.
Então, novamente, estas coisas poderiam ser um motivo para confiarmos nela...
Era um grande risco. Se eles se unissem a Cara, estariam revelando todo o progresso que fizeram para o antídoto. No entanto, agora que o inimigo tinha o livro de Olivia, a maior parte da sua vantagem inicial fora embora de qualquer maneira.
Com a vantagem de Pierce quanto a mão de obra e recursos, os Cahill não tinham chance. A menos que tivessem uma arma secreta – como um agente duplo dentro do círculo mais íntimo de Pierce.
Agora aqui estava Cara, oferecendo-se para ser esta arma secreta.
Como se sentisse que ele estava entendendo o seu raciocínio, ela adoçou o que oferecia.
— Aqui — ela começou a trabalhar no teclado de seu próprio computador. — Vou restaurar o laptop de Pony. Foi incrível a forma como ele hackeou minhas defesas. Ele devia ter uma lista de habilidades incríveis.
— Devia ter — Ian repetiu entorpecido, observando o verbo no passado.
Ele abriu o laptop para ver os arquivos desaparecidos reaparecendo na velocidade da luz, uma triagem em longas colunas na tela. Cara também tinha “uma lista de habilidades incríveis”. E ela as estava oferecendo à causa dos Cahill...
Talvez...
Ian queria tanto acreditar nela. O olhar em seus olhos era dolorosamente familiar.
Ela está mudando de lado. Não na próxima semana ou em algum dia, mas agora, na minha frente.
Ian também se lembrou de quando foi forçado a fazer a mesma agonizante escolha – quando percebeu que sua mãe era irremediavelmente má, e ele não teve opção além de se aliar a Amy e Dan. Ele podia ver a lealdade abalada em Cara, sentia sua culpa e dor. Dessa forma, a filha de J. Rutherford Pierce era praticamente sua alma gêmea.
Ainda assim, não era um pedido para Ian fazer. Os Lucian já não tinham grande influência na família Cahill, e para sua surpresa, ele não tinha certeza de que era uma coisa ruim. Não, a decisão tinha que vir de Amy e Dan. Eles estavam no comando. Ele se voltou para Cara.
— Nós entraremos em contato.
Ela assentiu com a cabeça.
— Vou mandar para você o meu contato seguro. Eu tenho o seu número.
Isso era algo que Ian sabia bem. De volta à Irlanda, ela colocou um rastreador em seu telefone. Tinha quase chegado a matar todos eles. Ele sorriu.
Tinha de ser uma garota especial para fazer Ian Kabra temer por sua vida.

4 comentários:

  1. Minha cabeça explodiu com essa informação, eu amo a cara mais eu gostava tanto do Ian com a Amy que vê ele com a Cara da uma dorzinha no coração. ~Tephi

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  2. Kkk pseh, eu tbm me surpreendi! Mas ja suspeitava que a Cara era a maura!

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  3. Fiquei surpresa q a Cara é a April! Eu quero muito que o Ian fique bem e feliz, se ele gostar msm dessa Cara eu apoio, fazer o q né prefiro Amyan mas...

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  4. "impossível obter um sinal de Wi- estável"
    Não seria "Wi-fi"?
    "ela adoçado o que oferecia."
    Essa frase está estranha, está correta karina?

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Boa leitura :)