29 de dezembro de 2016

Capítulo 8

Eles cavalgaram para o interior seguindo uma trilha grosseira e irregular, serpenteando através de moitas baixas e matagais que cobriam o terreno. O vento era uma força constante sobre eles, vindo do mar, dobrando o capim atrás deles.
Will olhou ao redor. Nenhuma árvore à vista. Por um momento, o som do vento sussurrante pela grama, o levou de volta à noite terrível que ele passara na solitária planície, em seu primeiro ano como aprendiz, quando ele, Gilan e Halt estavam caçando o kalkara.
Ele deu de ombros mentalmente e se corrigiu. Quando o kalkara estava os caçando, seria mais exato dizer.
― Seria legal ver uma árvore — disse Horace, ecoando o pensamento anterior de Will.
Halt olhou para ele.
― Elas não vão crescer aqui. O vento traz o sal do mar e as mata. Nós precisamos chegar mais para o interior para ver as árvores.
O que levantou um ponto que vinha incomodando Will.
― Halt, para onde estamos indo? Você tem alguma ideia?
Halt encolheu os ombros.
— Nós sabemos que Tennyson desembarcou no Rio Craiskill. E este é o único caminho a partir do local de desembarque. Assim, a razão diz que ele deve ter seguido por esse caminho.
— O que acontece quando encontrarmos outro caminho? — Will perguntou.
Halt deu-lhe um leve sorriso.
— Então nós vamos ter que pensar em outra coisa.
― Não é possível vocês encontrarem suas trilhas ou algo assim? — Horace perguntou. — Eu achei que vocês arqueiros deveriam ser bons nisso.
— Nós somos bons — disse-lhe Halt confortavelmente. — Mas não somos infalíveis.
No minuto que as palavras deixaram sua boca, ele as lamentou. Ele viu o olhar de falsa surpresa no rosto de Horace.
― Bem — disse o jovem guerreiro — é a primeira vez que eu ouço você admitir isso.
Sorriu facilmente para Halt, que fez cara feia para ele.
— Eu preferia quando você era jovem e tinha um pouco de respeito pelos mais velhos — disse Halt.
Na verdade, havia sinais de que pessoas passaram ao longo desta trilha, mas Halt e Will não tinham nenhuma maneira de saber se haviam sido deixados pelo grupo de Tennyson ou por outras pessoas. Esse era afinal, um caminho muito popular para os contrabandistas. Por essa razão que os scottis a utilizavam constantemente, trazendo mercadorias para a terra e negociando com os contrabandistas, principalmente uísque e fardos de lã. Lã era valiosa nesta parte de Picta, onde o clima era muito frio e úmido para a criação bem sucedida de ovelhas. O gado era mais resistente e mais adequado para o clima e os scottis negociavam couros e chifres pela lã macia.
Por enquanto, ficaram satisfeitos em cavalgaram por aquela trilha. Na verdade, não havia nenhuma alternativa melhor para escolher outra direção.
Eles haviam começado sua jornada no final da tarde, e a noite já estava chegando quando encontraram uma bifurcação na trilha. Um caminho continuava na direção leste que tinham seguido até agora. A outra forçava para o sul. Ambas pareciam ser igualmente utilizadas.
— Nós decidiremos o caminho amanhã — disse Halt.
Levou-os para fora da trilha, pelo meio do capim alto e do matagal. Encontraram um local mais ou menos adequado, atrás de uma grande moita e alguns pés de amoras-pretas que se elevavam um pouco mais alto que suas cabeças. Conduziram os três cavalos em uma série de círculos por alguns minutos, para pisotear a grama alta, em seguida, tiraram suas selas, deram água e os estabeleceram, deixando os animais para pastar ao redor deles.
Kicker estava acostumado a viajar com os dois cavalos. Tanto os arqueiros como Horace não tinham a necessidade de amarrá-los. Ele ia ficar por perto dos seus dois companheiros.
Horace ouvia o som dos três cavalos mastigando enquanto comiam, e olhou ao redor com uma carranca no rosto.
— Não sei onde vou encontrar lenha.
Halt o encarou com um leve sorriso.
— Em nenhum lugar que você olhar — disse. — Não há nada a nossa volta e de qualquer maneira não podemos fazer uma fogueira. Uma vez que estiver escuro mesmo um pequeno braseiro seria visível por milhas e nunca saberemos quem poderá estar nos olhando.
Horace suspirou. Comida fria novamente. E nada além de água fria para beber. Ele era quase tão viciado em café como os dois arqueiros.
— Deixe-me saber quando começaremos a nos divertir — disse ele.
Houve uma chuva fina durante a noite e eles acordaram debaixo de cobertores úmidos. Halt levantou, esticou-se e gemeu, conforme seus músculos doloridos o incomodavam.
— Eu realmente estou ficando velho demais para isso — disse.
Ele olhou ao redor para o horizonte baixo, delimitado por arbustos e capim alto e não viu nenhum sinal de qualquer pessoa que poderia estar os observando. Ele gesticulou em direção ao mato e aos pés de amora-preta e falou a Will:
— Acho que podemos correr o risco de fazer uma fogueira esta manhã. Veja se você pode cortar alguns galhos secos do meio do mato.
Will assentiu com a cabeça. Ele ficaria grato por uma bebida quente para começar o dia. Ele se arrastou para dentro do mato e de repente xingou baixinho quando um espinho do pé de amora o prendeu.
— Cuidado com os espinhos — disse Halt.
— Obrigado por me dizer o óbvio — Will disse.
Mas ele começou a trabalhar com a faca de caça e cortou um feixe de caules finos e secos. Halt estava certo. O emaranhado espesso mantinha a chuva fora e Will saiu do túnel que ele tinha cortado com um punhado substancial de galhos. Nenhuma delas iria queimar por muito tempo e vão fazer pouca fumaça.
— Deve ser o suficiente para ferver um pote de café — disse ele.
Halt assentiu. Eles comeram o café da manhã frio novamente – pão duro, frutas secas e carne. Mas seria mais gostoso com uma caneca de café quente e doce.
Um pouco depois, sentaram-se e saborearam o segundo copo.
— Halt — Will disse — posso te perguntar uma coisa?
Ele viu a boca do seu velho mentor começar a formar a mesma resposta de sempre e se apressou antes que Halt pudesse falar.
— Sim, eu sei, eu sei. Mas eu quero lhe perguntar algo mais, tudo bem?
Um pouco irritado porque Will tinha antecipado sua resposta padrão, Halt apontou para ele ir em frente.
— Para onde acha que Tennyson está indo?
— Eu diria que — o arqueiro respondeu, após alguns segundos de deliberação — que estará indo para o sul, agora que ele tem a chance. De volta para Araluen.
— Como você sabe disso? — Horace perguntou.
Ele estava interessado em ouvir a resposta. Ficava sempre impressionado com a capacidade dos dois arqueiros de entender uma situação e chegar a uma resposta correta para um problema. Às vezes, pensava ele, quase pareciam ter uma orientação divina.
— Eu estou supondo — Halt disse.
Horace ficou um pouco decepcionado. Ele esperava uma análise detalhada da situação.
O fantasma de um sorriso apareceu no rosto de Halt. Ele estava bem ciente de que, ocasionalmente, Horace ficava entretido com ideias exageradas das competências e habilidades dos arqueiros.
— Às vezes, isso é tudo que podemos fazer — disse Halt, com uma nota de desculpa em sua voz.
Então decidiu que poderia ser uma boa ideia explicar a sua linha de pensamento. Deu a volta por trás deles, pegou seu alforje e tirou um mapa de couro. Ele abriu um mapa da metade do norte do país, mostrando a fronteira entre Araluen e Picta. Os dois jovens se posicionaram um de cada lado dele.
— Acredito que estamos por aqui — disse, batendo com o dedo indicador em um local a vários centímetros a partir da costa.
Will e Horace podiam ver a marca do Paredão de Linkeith e o rio Craiskill, que serpenteava voltando para nordeste e no outro sentido para o lado oriental que era o caminho por onde tinham vindo.
Horace se inclinou para frente, olhando mais de perto.
— Onde está a trilha que estamos agora? — ele perguntou.
Halt o considerava pacientemente.
— Sabe, nós não marcamos as pequenas trilhas nesses mapas — disse ele.
Horace estendeu o lábio inferior e encolheu os ombros. A ação dizia que ele achava que essas coisas deviam ser marcadas. Halt decidiu ignorá-lo.
— Tennyson provavelmente está indo para o sul — disse. — E esta bifurcação na trilha foi a primeira oportunidade que tiveram para seguir esse caminho.
Will coçou a cabeça, pensativo.
— Por que sul? Você disse isso na noite passada. O que te faz ter tanta certeza?
— Eu não tenho certeza — disse Halt. — Mas é um pressuposto razoável.
Horace bufou com desprezo.
― Palavra chique para uma suposição.
Halt olhou para ele, mas Horace assegurou de não manter contato visual com o arqueiro. Halt sacudiu a cabeça e continuou.
— Nós sabemos que Tennyson não queria vir particularmente para Picta — disse ele. — O’Malley disse-nos isso, lembra?
Um entendimento estava começando a despontar no rosto de Horace. Sua fé na infalibilidade do arqueiro estava lentamente sendo restaurada.
— Isso mesmo — disse. — Você perguntou e ele disse que Tennyson só queria sair de Hibernia.
— Exatamente. E Picta era o lugar para onde O’Malley estava indo. Então ele deixou Tennyson no Rio Craiskill. Eu posso apostar que os forasteiros não têm nenhuma influência em Picta.
— O que te faz dizer isso? — Will quis saber.
— O scottis não são particularmente tolerantes com novas religiões — disse-lhe Halt. — A intolerância é uma marca aqui e também são um povo mais violento que os araluenses. Tente começar uma nova religião neste país e eles os pendurarão pelos polegares – especialmente se você lhes pedir ouro como o preço de conversão.
— Realmente não é uma má política — Horace disse.
Halt o considerou calmamente.
— Exatamente. No entanto, é razoável supor que há bolsões de influência espalhadas nas partes remotas de Araluen. Eu ficaria surpreso se Selsey fosse o único lugar que eles se infiltraram.
Selsey era uma isolada aldeia de pescadores na costa oeste, onde Halt tinha descoberto pela primeira vez a atividade dos forasteiros.
— Se esse for mesmo o caso, então ele realmente não tem outra escolha, não é? — Will disse. — Ele não pode ficar em Hibernia, porque sabe que estávamos atrás dele. Ele não pode ficar em Picta...
— ...ou eles os pendurarão pelos polegares — Horace acrescentou, sorrindo.
Ele gostou da imagem mental do gordo Tennyson pendurado pelos polegares.
— Então Araluen é a escolha lógica — Halt finalizou.
Ele bateu novamente no mapa, indicando uma localização mais ao sul, da posição que tinha inicialmente apontado.
— E este é o caminho mais próximo, que passa através das montanhas de volta para Araluen. A Passagem do Corvo.
A fronteira entre Araluen e Picta era delineada por uma série de montanhas. Elas não eram particularmente altas, mas eram íngremes, e os caminhos mais fáceis através delas, eram uma série de passagens por entre as montanhas.
— A Passagem do Corvo? — Horace repetiu. — Porque um corvo?
— Um corvo simboliza desgraça — Will disse distraidamente, repetindo o velho provérbio.
Halt assentiu.
— Isso está certo. A passagem é o local de uma antiga batalha ocorrida há muitos anos. Um exército scotti foi emboscado na passagem e foi dizimado a um só homem. Diz a lenda, que desde então nenhum pássaro vive lá. Exceto por um corvo solitário, que aparece todos os anos no aniversário da batalha e cujos gritos soam como viúvas scottis chorando por seus homens.
— Há quantos anos que isso aconteceu? — Horace perguntou.
Halt encolheu os ombros, enquanto ele enrolava o mapa e o recolocava no seu alforje.
― Ah, trezentos ou quatrocentos anos atrás, eu acho — disse ele despreocupadamente.
— E quantos anos um corvo vive? — Horace perguntou franzindo o cenho.
Halt revirou os olhos para o céu, vendo o que estava por vir.
Will tentou entrar em cena.
— Horace...
Horace levantou a mão para evitá-lo.
— Quero dizer, não é como se ele fosse reproduzir-se ali, esse seu corvo seria o bis-bisbis-bis-bis-neto, certo? — disse ele. — Afinal de contas, é um corvo, e um corvo dificilmente pode ter tatara-tatara-tatara-netos por conta própria, pode?
— É uma lenda, Horace — Halt disse deliberadamente. — Não é para ser tomado literalmente.
— Ainda assim — disse Horace obstinadamente ― por que não chamá-lo de algo sensato? Como Passagem da Batalha? Ou Passagem da Emboscada?
Halt o considerou. Ele amava Horace como a um irmão mais novo. Mesmo um segundo filho, depois de Will. Ele admirava sua habilidade com a espada e sua coragem em batalha. Mas às vezes, só às vezes, sentia um desejo irresistível de bater a cabeça do jovem guerreiro contra uma árvore.
— Você não tem senso de drama ou de simbolismo, não é? — ele perguntou.
— Hã? — respondeu Horace, sem entender.
Halt olhou ao redor procurando uma árvore. Felizmente para Horace, não havia nenhuma à vista.

5 comentários:

  1. Mensageiras, corvos... Ô ingenuidade

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  2. Sabe de nada inocente!
    Ass: Bina.

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  3. Horace seu lindo...
    Natalia

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  4. Ninguém lendo em 2017 poxa...

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Boa leitura :)