18 de dezembro de 2016

Capítulo 8

— Traído? — Rei Duncan disse. — Por que seu próprio povo o traiu? Na última vez que ouvi, Erak foi uma escolha popular como oberjarl.
Era a manhã seguinte e mesmo o espaçoso escritório de Barão Arald estava parecendo um pouco lotado com os membros presentes. Além do rei e sua filha, sir Anthony, Crowley, Halt e Pauline, Barão Arald e Sir Rodney, Horace, Gilan, Will e Alyss estavam todos sentados à volta da mesa central, onde Arald tinha dado deferência para com o rei. Svengal, esgotado por sua cavalgada para Araluen, ainda estava dormindo pelos efeitos da viagem. Embora, Will pensou com humor sombrio, os efeitos podem ser mais duradouros do que ele esperava. Um líder novato, Svengal estaria duro e dolorido em cada músculo e articulação, quando ele acordasse.
Na noite anterior, depois de Will relataram os fatos básicos da chegada de Svengal, tinha sido decidido abandonar uma discussão detalhada até a manhã. A celebração do casamento continuou como se não tivesse havido interrupção. Isso tinha sido decisão lady Pauline. Como ela tinha dito a Halt algumas semanas antes, esta era uma grande ocasião para muitos dos convidados – talvez uma oportunidade única para ficar lado a lado com a realeza.
— Deixe eles se divertirem — ela havia dito. — Nós podemos lidar com isso de manhã.
Halt sorriu para ela. Foi a confirmação do bom senso do barão ao nomeá-la para a alta posição diplomática que ocupava.
Pauline também tinha um motivo oculto. Ela sabia muito bem que esta seria uma das poucas ocasiões em sua vida que iria convencer Halt a dançar com ela e ela não tinha nenhuma intenção de deixá-la passar pelo simples fato de o oberjarl Erak tinha sido descuidado e foi capturado pelos arridi. Era, pensava ela, uma questão de manter um sentido de perspectiva.
Assim, a dança e a festa continuaram. Então pouco antes da meia-noite, uma carruagem aberta, puxada por duas éguas brancas, tinha chegado à entrada da sala de jantar. Os recém-casados conduziram uma procissão pelo corredor central e foram aplaudidos a bordo por uma multidão de simpatizantes. Além disso, centenas de outros tinham chegado a partir da própria aldeia, onde o barão tinha contribuído com dois bois para serem assados e vários barris de cerveja para uma festa gigante ao ar livre.
Estes recém-chegados se enfileiraram para o caminho da portaria, onde a enorme ponte levadiça estava aberta. Outros esperavam fora, de cada lado da estrada que descia a colina em direção ao bosque. Conforme o carro passava, eles atiraram-lhe flores e aplausos em quantidades iguais.
Halt, que passou sua vida em atividades secretas, movendo-se invisível e despercebido pelo país, achou uma estranha experiência desconfortável ser o centro das atenções. Sentia-se estranhamente exposto sem a ocultação reconfortante do seu manto de camuflagem e caiu baixo em seu lugar, tentando desaparecer nas almofadas de pelúcia. Lady Pauline, por outro lado, sentou rigidamente e acenou para as pessoas aplaudindo. E já que a grande maioria das pessoas que chegaram ficava de boca aberta em qualquer casamento para ir ver a noiva, em qualquer caso, a sua reticência passou praticamente despercebida.
— Para onde eles estão indo? — A esposa de um ferreiro perguntou para ninguém em particular, conforme o transporte descia o morro.
Uma dona de casa ao lado dela – uma daquelas pessoas que sempre sabem a resposta para cada questão, respondeu com segurança presunçosa.
— Ouvi dizer que, no fundo da floresta, há um ninho de amor especial que foi construído para eles. Um pavilhão de flores e materiais preciosos, onde vão passar a noite.
Sua imaginação foi auxiliada por sua própria declaração, ela adicionou então autoritariamente:
— Além do mais, tem pássaros especialmente treinados nas árvores e puro tapete de veado será posto na clareira para o deleite da minha senhora.
A realidade era mais mundana. A carruagem pararia na pequena cabana apenas na orla da floresta, onde Halt e Pauline iriam esperar até a multidão se dispersar. Então eles iriam entrar em outra carruagem, menos ornamentada, puxada por dois cavalos baios e voltariam ao castelo, onde Arald tinha reservado uma suíte de quartos de sua residência permanente.
Então, aqui estavam todos eles, discutindo a incrível virada de eventos que Svengal tinha trazido a sua porta.
— Erak era popular com a maioria — Will disse o rei, em resposta à sua pergunta. — Mas há uma pequena facção em Hallasholm que gostaria de vê-lo perder a sua posição. Pequena, mas atuante e persistente.
— Eu suponho que nosso tratado tem algo a ver com isso? — Crowley perguntou.
Quando Halt tinha levado os escandinavos à vitória sobre uma força invasora temujai, ele aproveitou a situação para criar um tratado onde grandes invasões de larga escala em Araluen fossem desencorajadas pelo oberjarl. No caso de Erak, “desencorajada” era traduzido muito bem como “proibida”.
— Isso não ajuda, é claro — disse Will. — E a facção anti-Erak está usando-o como uma alavanca para criar discórdia entre os outros. Mas vai mais fundo do que isso.
— Se há uma facção anti-Erak — lady Pauline disse — supõe-se que eles também devam ter seu próprio líder em mente. Quem pode ser esse? Nós sabemos?
— Sabemos — Will disse à sala.
Embora ele e Horace ambos tivessem recebido a notícia de Svengal, eles tinham decidido que Will ia conduzir a conversa com os outros. Fazia parte da formação de arqueiro de saber como montar e relatar fatos tão coesos quanto possível.
— É um homem chamado Toshak, um amigo íntimo de Slagor.
Seus olhos se encontraram com os de Cassandra conforme ele disse o nome e ele viu a compreensão aparecendo lá. Slagor tentou fazer Cassandra ser executada quando ela e Will tinham estado entre os escandinavos. Mais tarde, ela havia descoberto sua parte em uma conspiração para trair as forças escandinavas com os temujai.
Alyss viu o olhar entre Will e a princesa loira. Seus lábios apertaram um pouco, mas, diplomata como foi treinada, rapidamente recompôs seus traços antes que alguém notasse.
— Slagor? — disse o rei. — Mas com certeza ele está morto? Erak o executou por traição, no final da guerra, não foi?
— Eu tentei convencê-lo a não fazer — Cassandra acrescentou — pensei que era uma má ideia e eu me sinto... responsável, eu suponho.
O rei balançou a cabeça.
— Não. É desagradável, minha querida, mas tinha que ser feito. Slagor traiu seu país em tempo de guerra. Você não pode deixar essas pessoas impunes. Ele merecia o que recebeu e você não tem nada a responsabilizar-se.
— A princesa tem um ponto, no entanto — Halt disse.
E quando os outros olharam para ele, ele passou a explicar.
— A execução de um criminoso muitas vezes faz dele um mártir. Depois que ele está morto e enterrado, as pessoas muitas vezes esquecem os crimes que ele cometeu e começam a ver uma versão mais limpa. Uma pessoa assim começa a ser vista como uma vítima, então, como um modelo para qualquer um que tem uma machadinha pra usar. Sem trocadilhos — ele acrescentou, lembrando que Slagor havia sido decapitado.
Will assentiu com a cabeça.
— Isso é basicamente a forma que Erak entendeu, de acordo com Svengal. Toshak, o líder de um bando de rebeldes, não dá a mínima sobre o destino de Slagor. Ele está usando-o como um símbolo para promover seus próprios fins. Que é assumir como oberjarl.
O rei assentiu lentamente. Fazia sentido.
— Isso explica por que Erak não quer que Svengal volte a Escandinávia com a notícia de que ele foi capturado – e que vai custar aos escandinavos oitenta mil moedas para resgatá-lo. Poderia ser mais rápido e mais barato apenas para eleger um novo oberjarl.
Sir Rodney tinha escutado a conversa até agora sem falar. Agora, ele franziu a testa, pensativo e fez uma pergunta.
— Dado que possa haver pessoas que querem Erak fora do caminho. Ainda não há prova de que eles estavam envolvidos na sua captura, não é? — ele perguntou. — Afinal, só poderia ter sido boa sorte por parte do arridi.
Will assentiu.
— Isso poderia estar certo, Sir Rodney. Mas há mais nisso. A frota de invasão escandinava se encontra antes de qualquer temporada de invasão e atribui territórios por sorteio. Então, os outros capitães – e Toshak era um deles – sabiam que o navio de Erak estaria invadindo a parte da costa.
— Ainda assim — Crowley disse — Rodney tem um bom ponto. Poderia ter sido sorte simples por parte dos arridi que lhes permitiu fazer uma emboscada a Erak. Eles poderiam ter ouvido que um navio escandinavo estava na área e estabeleceram a armadilha, organizando para lhe vender o calendário falso. Não há nenhuma evidência concreta de que Toshak estava envolvido.
— Exceto por uma coisa — Horace acrescentou.
Ele sentiu que Will estava sendo cercado por todos os lados e poderia precisar de uma ajudinha.
— Eles não estavam apenas esperando por qualquer navio. Eles sabiam que era Erak que estava chegando e sabiam que ele era o oberjarl. Apenas um escandinavo poderia ter dito isso a eles.
Rodney e Crowley ambos assentiram pensativos, vendo a lógica no argumento. Cassandra estava assistindo ansiosa ao pai. Ela sentiu que eles estavam ficando fora do ponto real.
— Vamos emprestar o dinheiro a Erak, não é mesmo, papai? — disse ela.
O pai olhou para ela. Ele estava inclinado a fazê-lo, mas não estava totalmente feito a sua mente. Oitenta mil era muito dinheiro. Não era uma soma que os deixariam em má situação, mas também não era uma quantia que se pudesse jogar fora.
— Eu tenho certeza Erak vale a pena, Vossa Majestade — Halt disse.
Ele já havia decidido que, no caso improvável de Duncan não concordar com o empréstimo, ele iria liberar Erak das garras da tribo arridi.
— Sim, sim — disse Duncan, considerando ainda. — E a quantidade real certamente será menor. Os arridi seriam insultados se não pechinchássemos um pouco.
— Eu devo minha vida a Erak, pai — Cassandra disse calmamente, mas com firmeza.
A utilização da palavra pai alertou Duncan para o fato de que ela estava começando a pensar que ele poderia estar relutante em ajudar Erak. Antes que ele dissesse alguma coisa, ela prosseguiu.
— Não é apenas quando ele me ajudou e Will a fugirmos. Mas depois, quando Slagor expôs minha verdadeira identidade e tentou me matar, Erak estava pronto para me levar embora dali.
Duncan levantou a mão para acalmá-la. Ele podia ouvir sua voz levantando-se em campo e ele não queria um confronto com tantas pessoas presentes.
— Cassie, concordo plenamente a intenção de pagar o resgate. É a mecânica da coisa toda que é um pouco difícil. — Ele podia ver que essa declaração satisfez sua filha, mas ela parecia confusa, então ele continuou. — Para começar, eu não estarei colocando oitenta mil moedas – ou o que o montante final pode ser – em um navio dando adeus enquanto ele navega para Arrida. Há também uma grande chance de que poderia ser perdido... tempestades, naufrágios, piratas. É muito arriscado.
Lorde Anthony tossiu se desculpando.
— Há sempre o Conselho Silasiano, Vossa Majestade — disse ele, e Duncan virou a cabeça em sua direção.
— Isso é o que eu estava pensando, Anthony.
O Conselho Silasiano era um cartel que negociava mais em moedas que em mercadorias. Eles forneciam um meio pelo qual os países poderiam trocar fundos sem o risco de envio de dinheiro ou ouro em longas viagens arriscadas. Países depositavam o dinheiro com os silasianos, que pagava juros ao depositante. Eles também se comprometeriam a entregar quaisquer montantes que poderiam requerer a transferência – de fato ou como depósitos em conta de um país para outro. O Conselho cobrava um percentual de cada transação e garantia a passagem segura dos fundos, como parte de seu serviço. O risco de perda durante a transmissão era mais do que coberto pelo seu pagamento.
— Os arridi são signatários aos Conselho Silasiano, Anthony? — Duncan perguntou a seu tesoureiro.
O rosto de lorde Anthony se contorceu em pensamento.
— Eu duvido, sua majestade. Na última lista, eles não estavam lá.
— Nesse caso, vamos ter de arranjar para o Conselho fazer uma entrega de dinheiro real. Isso significa que alguém vai ter que negociar os termos e o valor final com os arridi e levá-los a concordar com o arranjo, e a taxa a ser paga aos silasianos.
As taxas eram normalmente pagas pelo emissor e pelo receptor.
— Eu posso fazer isso, Vossa Majestade — disse Halt rapidamente.
Mas o rei balançou a cabeça.
— Não. Acredito que você não possa, Halt. Há um protocolo envolvido. Estamos lidando com o resgate do governante de um país. E sobre o lado prático, há negociações para serem realizadas. Isso precisa de alguém do alto escalão... um portador do selo nacional. É uma questão de fundos nacionais então precisa de alguém de posição real. Idealmente, eu deveria ir.
Halt encolheu os ombros, concordando com a solução.
Então Duncan acrescentou, em tom frustrado:
— Mas eu não posso no momento. Tenho que conduzir as conversações de paz entre quatro dos seis reis hibernianos. Eles vão se separar se eu não servir de árbitro entre eles.
— Então me dê o seu selo e eu vou em seu lugar. Vamos dizer que sou seu primo distante — Halt disse.
Ele tinha muito pouco tempo para a forma correta de fazer as coisas. Duncan suspirou e olhou para Crowley.
— Você nunca explicou a esse selvagem como o sistema de selos reais e timbres funcionam no mundo civilizado, Crowley?
Crowley ergueu as sobrancelhas. Ele suspeitava que Halt tivesse se comprometido em numerosas atividades fraudulentas que tinham relação com os selos reais ao longo dos últimos vinte anos. Mas desta vez, eles não poderiam correr o risco.
— O selo real só pode ser usado por um membro da família real, como você sabe, Halt — disse lorde Anthony. — Se você tivesse que usá-lo, todas as negociações que realizar, e quaisquer acordos que você alcançasse, seria fraudulento e, portanto, nulo. Se isso fosse exposto, levaria anos para Araluen reconquistar a confiança dos outros países. Nós não podemos correr tal risco.
Halt bufou, sua reação habitual de formalidades e protocolos. Lady Pauline colocou a mão sobre sua própria acalmando-o e ele olhou para ela e deu de ombros se desculpando. Então, tentando manter sua voz razoável, ele perguntou:
— Você não poderia me dar um mandato para agir em seu nome, assinado por seu selo?
— Se fosse outro país... Teutônia ou Gálica, por exemplo, é exatamente o que eu faria — respondeu Duncan. — Mas, infelizmente, apesar de os arridi falarem a língua comum, eles têm seu próprio alfabeto e língua escrita, que não tem qualquer semelhança com a nossa. Não temos ninguém que possa escrever ou lê-lo e, presumivelmente, eles não têm ninguém que possa ler o nosso. Assim, um mandado de autorização a agir em meu nome poderia muito bem ser uma lista de compras dada sob o meu selo.
Duncan fez uma pausa, mastigando o lábio inferior em frustração.
— Não. Vou ter que ir eu mesmo — disse ele. — Mas teremos que esperar até que eu lide com esses hibernianos condenados. Sem ofensa, Halt — ele acrescentou, lembrando que o Halt tinha originalmente vindo daquele país irracional.
Halt balançou a cabeça.
— Nenhuma ofensa recebida, majestade. Mas deve haver alguma outra maneira — insistiu.
— A resposta está bem aqui na frente de todos — Cassandra disse. — Eu vou.

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