9 de dezembro de 2016

Capítulo 8

A Fazenda de Crocodilos Rith Map estava localizada a meio caminho entre Siem Reap e o Lago Tonle Sap. Ficava a dez minutos de tuk-tuk, o táxi motorizado de três rodas popular na cidade. A viagem incluía uma curta viagem para deixar uma mulher de 106 anos de idade, cujo frango vivo se mantinha bicando o braço musculoso de Hamilton.
Por fim chegaram a Rith Map, que era tradução para “forte e gordo”, qualidades aparentemente desejáveis em um crocodilo. Os turistas certamente pareciam pensar assim – o lugar estava lotado, e Hamilton e Jonah tiveram que ficar por quase uma hora na fila ao lado da cabana em ruínas que servia como escritório do Rith Map.
— Tente não chamar atenção — Hamilton murmurou para seu primo, que estava escondido atrás de óculos de sol e sob a aba do seu boné do Dodgers. — Este lugar está cheio de turistas ocidentais. Se você for reconhecido, eles vão te rasgar em pedaços mais rápido do que os crocodilos jamais poderiam.
— Prometo — Jonah reconheceu, puxando o boné mais para baixo sobre seus traços famosos.
Finalmente, eles compraram seus bilhetes e foram para a propriedade. A “Fazenda” era uma série de poços lamacentos e lagoas pantanosas cheios de crocodilos de todos os tamanhos, que iam desde animais de pouco mais de um metro de comprimento a vários monstros que deviam medir quase sete, incluindo suas caudas musculosas.
— É difícil acreditar que eu joguei um desses monstros em Dan e Amy no Egito — comentou Jonah, que examinava a extensão das poderosas mandíbulas e os dentes afiados. — Sabe, quando estávamos pulando na garganta um do outro, procurando pelas pistas. Que diferença em alguns anos.
— Os Tomas costumavam oferecer lutas de jacaré no acampamento de verão — revelou Hamilton a ele. — Nunca me inscrevi, no entanto. Queimada era o meu jogo. Tricampeão.
Um terraço tinha vista para a propriedade lotada, mas os visitantes mais intrépidos podiam descer uma escada bamba para uma trilha que serpenteava entre os hábitats através de uma série de passarelas. Enquanto Jonah e Hamilton começavam a descer, atendentes em calças cáqui apareceram nas pontes. Um anúncio foi feito em khmer, seguido pela tradução em inglês:
— Hora da alimentação!
Os atendentes começaram a atirar peixe e carne crua nas grades. A resposta dos crocodilos foi colossal. Normalmente lentos e pesados, eles dispararam atrás da comida, agitando e espirrando água, lutando entre si por cada pedaço de carne. A cacofonia de mandíbulas estalando, corpos colidindo e água voando era como o ritmo de uma banda do jardim de infância, uma edição de esporte sanguinolento. Um metro a frente de Hamilton e Jonah havia uma perna de porco desossada, que desapareceu em uma garganta como se fosse um bombom.
Tudo terminou tão de repente quanto havia começado.
Como se tivessem uma só mente, os crocodilos pareceram decidir que não havia mais almoço chegando, então para quê se preocupar em gastar energia tentando matar uns aos outros para consegui-la? Eles se acomodaram em suas poses lânguidas em torno da água, e foi como se o frenesi nunca tivesse ocorrido. De todas as centenas de toneladas de alimentos que tinham sido atirados nas grades, nem uma migalha permaneceu.
Com esforço, Jonah mudou sua atenção do espetáculo que acabara de testemunhar para o propósito de sua visita a Rith Map.
— Essa foi uma espécie de buffet de carnes frias — ele comentou com respeito. — Mas tenho que dizer que vi um monte de comida descer a escotilha – peixe, carne, pequenos animais e pássaros. A única coisa que não vi foi...
— Cobra — Hamilton terminou em um tom sombrio. — E elas supostamente são a comida numero um dos crocodilos. — Ele se aproximou do atendente mais próximo. — Belo show, camarada. Hamilton Holt dos Estados Unidos. Você fala inglês?
O homem acenou com a cabeça.
— Também falo francês, alemão, japonês e um pouco de italiano. As pessoas vêm do mundo todo para Angkor.
— Pode crê — reconheceu Jonah. — Trutas dando rolê, yo.
O atendente ficou sem entender.
— Que língua é essa que eu não conheço?
— Ouvi dizer que o melhor alimento para esses bichos são as serpentes d’água de Tonle Sap — Hamilton interrompeu. — Como é que vocês não os alimentam com elas?
— Não tem cobras mais o suficiente — respondeu o homem, sério. — Crocodilos precisam de muita comida. Você viu.
— Vamos lá, as cobras não podem ser tão raras — Hamilton persuadiu. — Estamos preparados para pagar um bom dinheiro por uma. Dólares norte-americanos. Dê o seu preço.
O homem ficou indignado.
— Não é permitido. A serpente é protegida pelo governo!
Os olhos afiados de Jonah examinavam a lagoa em busca do menor movimento. Algo nadava ali embaixo, seu corpo longo e fino movendo-se em uma trajetória ondulante como se mantivesse distância dos crocodilos.
— Yo, tem uma cobra ali. Não é da espécie certa?
— Vocês não podem tocá-la. Espécie ameaçada!
— Nós não vamos matá-la — Jonah persuadiu. — Só precisamos de um pouco de veneno! Vamos deixá-la ir!
— Vocês devem pedir permissão! — insistiu o atendente.
— Não temos tempo! — exclamou Hamilton. Em um instante, ele saltou sobre o parapeito e caiu com uma explosão titânica na lagoa.
A visão dele no hábitat aquático de répteis carnívoros foi o suficiente para quebrar até mesmo a lendária frieza de Jonah.
— Yo! — gritou. — O que há com você, cara?
Mas Hamilton nadava pela água lamacenta em um estilo livre. Alheia a seu perseguidor, a pequena cobra continuou a oscilar ao redor. Havia apenas alguns crocodilos na lagoa, e eles mal reagiram. Assistiram sem vida, expressões quase entediadas, como se a presença de algo levantando borrifadas de água como uma lancha fosse uma ocorrência diária.
Os braços de Hamilton trabalhavam como pás de um moinho de vento, levando-o cada vez mais perto da fonte do ingrediente final. Então, com a mão chegando a apenas alguns centímetros de sua presa, uma grande boca rompeu a superfície, abocanhando a serpente, e fechou-se.
Destemido, Hamilton agarrou o longo e perigoso focinho e tentou abrir a bocarra.
— Nem sequer pense em engolir, sua mala com pernas!
A luta acontecia. Hamilton puxou com toda a força de seus antepassados, mas não conseguia fazer aquelas enormes mandíbulas cederem.
— Vamos, cuspa!
Ele não prestou atenção aos gritos vindos dos espectadores, o mais alto de seu próprio primo:
— Saia daí, Tomas idiota, antes que tenha sua cabeça arrancada fora!
Hamilton não viu o que Jonah e os outros visitantes viram – que três crocodilos estavam convergindo para o lugar da perturbação, deslizando silenciosamente através da água. Sem outro pensamento – porque se tivesse pensado, ele nunca teria feito isso – Jonah pulou para dentro do habitat. Assim que ele quebrou a superfície, seus óculos caíram e seu boné saiu voando, apenas para ser pego por um enorme conjunto de mandíbulas.
Os gritos ficaram mais altos.
— É Jonah Wizard!
— Ele está tentando salvar aquele cara grande!
— Salvem Jonah Wizard!
Naquele momento, a equipe treinada da fazenda correu para a lagoa, empunhando longas varas de madeira para manter os crocodilos afastados.
— Saiam da água! — comandou o atendente que falava inglês.
— Não sem a minha cobra! — Hamilton respondeu com a voz tensa.
— Não é a sua cobra! — Jonah indicou o crocodilo lutando no aperto de Hamilton. — É a cobra dele agora! Desista e vamos sair daqui!
— Tudo bem — Hamilton concordou de mau humor. — Então o que você sugere?
— Como eu deveria saber? — Jonah estava perto da histeria. —Você é aquele de nós que foi para o acampamento Tomas!
— Eu disse a você – eu escolhi queimada!
Outro assistente chegou e prendeu uma corda em torno do focinho longo do crocodilo.
— Saiam da água — repetiu o homem falando em inglês. — Deixem Rith Map. Nunca mais voltem.
Jonah foi assediado por fãs quando os dois subiram na passarela. Câmeras e telefones pipocaram.
— Obrigado — Jonah cumprimentou seu público. — Aprecio o carinho.
Ele fez uma pequena volta, balançando uma vez, e desmaiou nos braços de Hamilton.

3 comentários:

  1. Eu nao sei se me acabo de rir ou de chorar achando que eles iam morrer

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  2. Sentir saudade desses dois juntos.
    $Heyna

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  3. Desmaiou nos braços de Hamilton kkkk Mas gente q louco, morri de medo

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Boa leitura :)